JORGE AMADO


SEARA VERMELHA



Digitalizao: Argonauta, o co-chupando-manga

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Para Z


Para Lus Carlos Prestes, amigo dos camponeses


Para Tourinho e Gildete, Ivan e Elisabeth 
e para Joo Amazonas




Cai, orvalho de sangue do escravo
Cai, orvalho na face do algoz
       Cresce, cresce, seara vermelha
       Cresce, cresce, vingana feroz...

(Castro Alves)



... est no latifndio, na m distribuio da propriedade territorial, no monoplio da terra, a causa fundamental do atraso, da misria e da ignorncia do nosso povo.

(Lus Carlos Prestes)



A liberdade  o conhecimento da necessidade.

(Engels)


Prlogo

**

A Seara




A Festa

1

     O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o cu novamente limpo crianas comearam a brincar. As aves de criao saram dos seus refgios e voltaram a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de gua brilhavam sobre as folhas verdes das rvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqilidade se estendeu sobre a fazenda  as rvores, os animais e os homens. Apenas as vozes lacres das crianas, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:
                 
                 "Chove, chuva chuverando 
                 Lava a rua do meu bem..."
     
     Vestidas de trapos sujos, algumas nuas, barrigudas e magras,, as crianas brincavam de roda. Farrapos de nuvens perdiam-se no cu de um azul claro onde primeiras e leves sombras anunciavam o crepsculo. Depois da chuva tudo parecia ter uma fisionomia mais alegre. Artur olhou as rvores que se estendiam por detrs da casa-grande, os galhos docemente agitados pela brisa, e sorriu imaginando que as rvores estavam satisfeitas aps a chuva to esperada.  Tive medo esse ano...  resmungou para si mesmo.
     Mas a chuva viera bastante em tempo e as colheitas seriam fartas. Artur calculou a alegria que deveria reinar nas casas dos colonos e dos meeiros e foi ento que decidiu ir  festa. Esperaria a chegada do rapaz que fora ao arraial, buscar a correspondncia e levar umas encomendas e ento daria um pulo na casa do Ataliba, beberia um trago de cachaa em honra da noiva, danaria uma polca. Andou para a frente da casa-grande onde sua mulher, Felcia, cuidava de uns canteiros de flores.
       Vamos na festa de Ataliba...
       Tu se decidiu?
     Fz que sim com a cabea, saiu devagar para os lados do armazm. Iria  festa, sim. Os homens estariam satisfeitos, o receio da seca, temor que se renovava a cada ano, estava agora afastado, talvez ainda voltasse a chover naquela mesma noite, apesar de que no cu to limpo nem mais uma nica nuvem restasse. Artur aspirou o cheiro que subia da terra, sorriu novamente. Talvez agora os homens o olhassem com melhores olhos. Quando recebera o convite para a festa na casa de Ataliba disse que ia. Casamento e festa no eram coisas muito comuns pela fazenda e quando se anunciava uma brincadeira em qualquer das casas no se falava noutro assunto nas roas, durante dias, nas conversas do fim da tarde em casa dos trabalhadores, e para Artur sempre havia o problema de que todos queriam algum dinheiro, tinham sempre compras a fazer. le recebia os convites, prometia ir. Raramente ia, parecia-lhe que bastava com sua chegada para as festas perderem muito da alegria reinante, os homens no simpatizavam com le. A esse pensamento Artur suspendeu os ombros num gesto caracterstico. No era culpa sua. Cumpria com sua obrigao, apertava os homens no trabalho, apertava os meeiros na hora das contas, pagava os preos estipulados, puxava pela fazenda  bem verdade, mas afinal no era para isso que le era o capataz? Qualquer outro que estivesse em seu lugar, como agiria? Gozava da confiana do dr. Aureliano, que se deixava ficar no Rio de Janeiro, vindo  fazenda uma vez na vida, e procurara provar ao patro ser digno dessa confiana. Nunca a fazenda dera tanto lucro, nem mesmo no tempo do coronel Incio que morava l, tomando conta de tudo, decidindo as mnimas coisas. Os meeiros reclamavam, os trabalhadores olhavam-no com olhos cheios de ameaas, mas Artur no se preocupava, costumava dizer que "no tinha medo de caretas".                                                                                    
     No entanto certas coisas doam-lhe e sabia que na fazenda moravam alguns que, com muito prazer, lhe fariam uma desfeita. No era segredo para le que, s escondidas, diziam a seu respeito cobras e lagartos e que muitos homens bebiam em sua teno. Aquilo no o alegrava tampouco. Gostaria de se dar bem com trabalhadores e colonos, fora trabalhador le mesmo no tempo do coronel Incio, se sentiria satisfeito se os homens fossem seus camaradas, viessem, sem ser chamados, tirar um dedo de prosa na varanda da casa-grande, no fechassem a cara quando le entrasse nas festas. Por isso no ia quase nunca a nenhuma daquelas raras festas, apesar de Felcia gostar de uma dana e le mesmo, Artur, ser doido por uma conversa, amigo de virar um trago de cachaa.
     Chegou ao armazm de grandes portas fechadas, onde estavam os mantimentos para vender a trabalhadores e meeiros. Num quarto aos fundos guardavam os arreios da tropa. Tirou uma chave do bolso, abriu a porta. Os homens no tardariam a chegar do trabalho e como era dia de festa naturalmente haveriam de querer comprar alguma coisa. Pulou o balco, o livro de assentamento estava em cima da mesa. Tomou maquinalmente dele e comeou a virar-lhe as folhas. A conta de Mrio Gomes estava grande, nem com muito tempo de trabalho le poderia pagar. Tinha que limitar o fornecimento. Mais um que lhe iria amarrar a cara, olh-lo de banda, cuspir depois dele passar. Que poderia fazer? Virou a folha do livro. Jernimo comprava pouco, quase s o que vestir, tinha sua mandioca, seu milho, sua batata-doce. Homem de juzo. Tambm lavrava o melhor pedao de terra da fazenda. Se Artur fosse o dono daquela terra, ela no estaria em mos de colono. Mas vinha com Jernimo desde o tempo do coronel Incio e o dr. Aureliano, mais preocupado com o Rio que com a fazenda, deixara tudo como encontrara quando da morte do velho. Enfim, isso era com o doutor que era o dono, a Artur bastava a raiva que j lhe dedicavam s por le cumprir as ordens.
     Espiou o cu que escurecia:
      Esto largando o trabalho...
     Pulou novamente o balco, atravessou a porta, sentou-se numa pedra que havia prximo ao armazm. Via de longe os meninos, seus filhos, brincando de roda em frente  casa-grande. Ali estavam trs, os dois maiores encontravam-se na cidade, no colgio. Seus filhos no seriam ignorantes como os homens que ali viviam, como ele mesmo, Artur que apenas sabia ler e fazer as quatro operaes. Que lhe importava o dio dos trabalhadores e dos colonos se podia educar seus filhos, mand-los para o colgio, fazer de um deles doutor, quem sabe?
     Mrio Gomes vinha andando, o machado na mo. Estava derrubando, junto com outros, um resto de mata da fazenda. Os meninos cantavam e suas vozes infantis chegavam at Artur, penetravam-lhe no corao.
     Mrio acocorou-se perto da pedra:
       Boas tardes, seu Artur.
       Boas tardes, Mrio.   Afinal choveu...
       Deus seja louvado...
     Mrio Gomes queria comprar alguma coisa mas estava sem, jeito, bem se via.   As vozes das crianas:
     
                 "Chove, chuva chuverando".
     
       A festa vai ser boa, Mrio?
       Festo...  riu.
       Tou com vontade de ir...
       Vosmec?   Ataliba vai ficar contente...    o casamento da menina dele e, se vosmec fr ir, le vai engravidar de contente...
     Podia no ser verdade mas Artur ouvia as vozes dos filhos cantando, recordava os dois que estavam no colgio interno. Mrio Gomes devia muito, mas no era homem para fugir da fazenda e deixar a dvida por pagar:
       Tu quer comprar alguma coisa? 
     Mrio olhou espantado:
       Era s um feijo e um litro de cachaa...
     Artur levantou-se, andou para o armazm. Mrio o seguiu; ainda desconfiado:
       Vai ser uma festa falada... Comeavam a cair as sombras do crepsculo.
     
2
     
     Zefa resmungou  as  costumeiras  palavras ininteligveis e  se dirigiu para os fundos da casa.   O crepsculo caa, demorado e triste, sobre os campos.   O vulto do velho Jernimo, tangendo a criao para o pequeno curral, desenhava-se contra o horizonte e uma sombra longa ondulava sobre o capim rasteiro.   A vaca parou seu tardo caminhar para arrancar umas folhas da plantao de mandioca que j comeava a crescer.  Jernimo soltou ento seu grito de boiadeiro  recordao de um tempo distante quando conduzira grandes rebanhos para as feiras de gado  intil grito porque os jumentos, as cabras e os porcos, sete cabeas ao todo, iam pacificamente para o seu destino noturno. E, quanto  vaca, era to velha e mansa que mais parecia uma pessoa da famlia, de tal maneira se encontrava ligada quelas existncias.   Mas Zefa estremeceu com o grito, era como se lhe recordasse uma obrigao indeclinvel.   Murmurou  novas  palavras, agitou-se,   animaram-se seus olhos parados.  A velha Jucundina, sem largar o menino, voltou toda a sua ateno para os movimentos de Zefa. Aquilo durava h muitos anos, mas a velha no se acostumara ainda de todo, esperava sempre uma surpresa, qualquer coisa como um estranho milagre, um fato assombroso.   Nascera naquelas bandas, ali crescera, casara, tivera filhos e netos, conhecia cada palmo de terra, tinha as mos calosas do plantio e da colheita, vira as secas e os jagunos, o assassinato na casa-grande que provocara tanto rebulio, mas nada se comparava com aquilo.   Estava certa de que um esprito  encostara  no  corpo  de  Zefa  para  cumprir  ali  sua sentena de sofrimento, pagando os malfeitos do tempo de vivo, e essa era uma opinio generalizada pela gente da fazenda, agregados e colonos.   Quando chegava a hora das rezas, marcada pelo grito saudoso de Jernimo tangendo a criao, a velha Jucundina ficava sempre na expectativa, pois poderia acontecer de repente.  O qu, ela mesma no sabia.   Talvez o esprito se fosse, seu tempo de sentena tivesse terminado, e pudesse le enfim retomar o caminho das regies celestes onde no havia nem fome, nem doenas, nem lagrimas.   E Zefa, que, algum dia, num passado esquecido, fora uma bonita moa, cobiada pelos trabalhadores, de pernas grossas e cpidos olhos, talvez retornasse  razo e reconhecesse os seus parentes,  seu   irmo   Jernimo,   sua   cunhada   Jucundina,   seus sobrinhos e primos. Como iria acontecer,  Jucundina no sabia. Apenas esperava que o fato se desse, e a cada crepsculo, quando Zefa se agitava para o incio das suas oraes, a velha ficava  espreita, porque com certeza seria naquela hora solene do fim do dia, quando as sombras comeavam a cair criando um clima de mistrio, quando as velas se acendiam, os rudos se modificavam, e a cr do mundo era outra, que o milagre sucederia. Esperava j sem susto e quase sem emoo. Mas esperava. Tanto podia ser hoje, como amanh ou no fim da semana, porm alguma vez seria e, quando acontecesse, a velha Jucundina ver-se-ia livre de um peso que estava de h muito sobre o seu corao.
     Era um momento importante no dia trabalhoso da velha Jucundina, porque sempre sucedia que juntavam-se na sua memria, ao grito do velho Jernimo, os fatos referentes a Zefa, a expectativa dos acontecimentos milagrosos que poderiam suceder, e a recordao dos trs meninos que haviam partido. Eram j rapazes quando se foram, cada um por seu caminho, cada um para uma vida diversa. Menos Nenn, cujo nome era Juvncio, quase uma criana ainda quando fora assentar praa. Os outros dois j eram homens feitos, mas para Jucundina continuavam sendo os "meninos" e neles pensava todos os dias naquela mesma hora do fim da tarde, talvez porque tivesse sido ao cair do crepsculo que deram por falta de Nenn (s tempos depois viriam a saber que le assentara praa na polcia militar) e at hoje a voz desencantada do velho Jernimo ressoa aos ouvidos de Jucundina no amargo e nico comentrio do acontecido:
      Num fica ninhum cum nis,  veia...    S nis  que vai morrer nessa terra, cumo os bichos e os p de pau...
     Apontava Agostinho, crianola ainda:
       Um dia vai esse tambm...
     Os anos tinham passado e nenhum dos trs rapazes voltara. Essa era outra secreta esperana da velha Jucundina. V-los regressar para que ajudassem Jernimo no trabalho da terra. E, apesar de que haviam partido em datas diversas, cada um por sua vez, cada um por um caminho, cada um para um destino, imaginava  eram poucos e pequenos quadros, formados no correr do tempo, que se sucediam inalterveis na sua imaginao  que regressariam juntos, juntos atravessariam a cancela e juntos lhe diriam a bno. Onde se encontrariam nessa viagem de regresso, a velha no sabia e j refletira mesmo sobre o assunto algumas, vezes. Mas no conseguira marcar um lugar que aos trs servisse e desistira pois lhe dava um cansao na cabea, e aumentava a tristeza, j que assim tinha que pensar sobre o que poderia ser a vida atual de cada um dos meninos. Como marcar o umbuzeiro para o encontro se Jos no tinha pouso nem caminho certo, podia vir por qualquer estrada, sempre como um fugitivo amedrontado? E Jo por onde chegaria, se a velha Jucundina no sabia direito a cidade onde le estava destacado? Ao demais ela no queria pensar no presente dos rapazes, no que lhes estaria sucedendo naquele dia e naquela hora. Bom era v-los chegando, no rastro de Jernimo e dos animais, juntos os trs, os sacos de viagem cheios de coisas de outras terras, de coisas at da cidade, e a voz, spera mas clida, pedindo a bno. A voz que ela ouvia, mistura das trs vozes, era a de Nenn, o menor dos trs, o mais querido tambm.
     E como tudo podia acontecer  "Deus  grande"  num mesmo dia, quem sabe se, quando os meninos chegassem de regresso, no partisse para sempre o esprito que perturbava Zefa, que enchia sua boca de palavras diferentes e escabrosas, que tornava fixos e amedrontados os seus olhos, que derramava aquela tristeza pelo corpo antes alegre e robusto? Foi aos poucos, devagarinho, que a velha Jucundina juntou numa nica data os dois acontecimentos. Antes pensava num ou noutro separadamente. "Pode que hoje o esprito v embora, tenha cumprido sua pena." "Pode que hoje cheguem os meninos de volta, tenham cumprido seu destino." E os dias se passavam e os crepsculos sucediam-se, repetia-se montono o grito melanclico de Jernimo, Zefa rezava suas oraes sem nexo e a porteira no se abria ao passo dos fugitivos. E uma e outra esperana foram-se fundindo, se misturando no passar do tempo, e agora tudo ia suceder num s dia, numa nica tarde, e ento  pensava a velha Jucundina  ela poderia morrer descansada. Porque tudo que desejava nesse mundo, onde se est para sofrer, teria sucedido, e no lhe restaria mais nada em que pensar, pois de h muito aprendera que desejar a posse da terra que trabalhavam era um sonho impossvel e irrealizvel.
     



3
     
     Tonho estava com treze anos e mal ouvira o grito de Jernimo abandonara a companhia de Noca, a irmzinha de sete anos. Correra para o curral, ia ajudar o av a tirar leite. Ficava segurando o bezerrinho pela corda para que le no se aproximasse demasiado das tetas da vaca. Depois chegaria a vez da cabra, Noca e Ernesto  o menorzinho  tomavam desse leite, Jucundina afirmava que nada melhor que leite de cabra para criar menino. Tonho gostava daquele trabalho, a vaca era a prpria mansido e por vezes le a cavalgava, apesar dos ralhos do av. Brincava tambm com o bezerrinho, imitava seus mugidos, bulia com o jumento, nica das criaes que tinha nome, pois se chamava Jeremias e, ao ouvir chamar-se assim, logo vinha no seu passo demorado. Com a chuva, poas de gua suja enchiam a estrada e Tonho pisava em cada uma delas, diverso melhor no podia haver. Espiava para trs, Noca era uma tola que ficava na porta da casa em companhia da gata amarela, a Marisca. No sabia o bom que era o trabalho no curral, tirar leite, bulir com Jeremias.
     Noca estava com medo. Segurava a gata contra o peito magro e sujo. Tonho lhe dissera que naquela noite, que era a da festa de Ataliba, eles iam ficar sozinhos em casa, os dois e mais o pequenininho, e que o bicho viria com certeza e comeria Noca.
       Come tu tambm...
       Miscondo...
     E saiu rindo pros lados do curral. Noca se aperta contra Marisca, sua gata, sua amiga, sua boneca, sua nica ternura na casa pobre. Seus olhos amedrontados fitam com amor a gatinha amarela e remelenta. Marisca mia ao aperto da menina e Noca conversa com ela:
       Tu fica comigo...   Se o bicho vier nis bota le pra fora... 
     Junto de Marisca ela no tem medo.   Marisca  valente, d nas galinhas, rosna para o cachorro de tio Joo Pedro quando ele vem de visita, pula na cerca, at j caou umas pres pelo campo. E um dia Marisca matou uma cobra bem na frente da casa, cobra pequena mas venenosa e naquela noite Jucundina deu-lhe um pires de leite. Marisca  valente, junto dela Noca no tem medo, no se importa de ficar sozinha. Malvadeza dos outros, irem para a festa, deixarem ela e os irmos, os trs sozinhos, quando existe o bicho que pega meninos, que os leva ningum sabe para onde. Noca se encolhe ante a recordao, aperta mais a gata contra o peito. Marisca, incomodada com a presso das mos da criana, estira-se, solta-se, pula para o cho. Mia longamente para as sombras do crepsculo e fica logo atenta  voz de Zefa que chega da cozinha nas suas imprecaes. O dorso da gata se alteia como se ela visse um inimigo. Mas a pequena e suja mo de Noca a acaricia e ela se agacha para melhor receber o carinho, anda sob a mo da menina e rosna baixinho, docemente. Volta a saltar para o colo de Noca.
     A noite vem chegando trazida pelas sombras e Noca descobre subitamente no alto dos cus a figura do bicho. Seu corpinho raqutico treme sob o vestido de burgariana. E s em Marisca encontra consolo e coragem, alegria e ternura.
     Nunca tivera uma boneca, nem mesmo uma dessas bruxas de pano que vendem na feira. Nunca tivera um brinquedo, nem mesmo um desses de madeira que os amadores fabricam. Nunca ouvira msica nem assistira aos teatros de tteres, nada tivera alm de Marisca. Resume para ela a boneca que viu na mo da filha de Artur, o automvel de flandres que tanto encantara a ela e a Tonho ha casa-grande, resume o mundo inteiro, as personagens das histrias que por vezes Jucundina contava, nada mais ela tem alm da sua gata.
     Vai ficar sozinha essa noite com os irmos pequenos, e Tonho disse que o bicho vir. Se Agostinho estivesse ali, Noca lhe perguntaria se era verdade. Agostinho tem uma garrucha, podia dar um tiro no bicho. le vem numa nuvem, bufando de raiva, le come menino. A gata salta do colo de Noca atrs de um besouro que apareceu com o crepsculo. A pata se agita no ar mas o besouro  mais rpido, engana Marisca. E mia zangada, o besouro est pousado na parede, fora do alcance do pulo da gata.  Noca vai de mansinho, tapa o besouro com a mo, derruba-o no terreiro, Marisca salta, Noca bate palmas com as mos, mos magras e sujas, boca suja tambm mas que riso mais doce!
     
4
     
     A vida era difcil e ruim, metade da farinha, do milho e da batata era para a fazenda, alm do dia de trabalho gratuito, obrigatrio pelo contrato do meeiro. Mas, nem mesmo as crianas que morriam, as doenas que se sucediam, a falta eterna de dinheiro, nada disso era capaz de entristecer Ataliba. Nascera alegre, amigo de festas e brincadeiras, e assim estava envelhecendo. Mesmo nos anos mais difceis, mesmo naquele ano da seca quando tudo esturricou e le ficou endividado at os cabelos, mesmo ento Ataliba festejara o So Joo, que era o dia do santo de sua mulher, Joana.
     Nenhuma festa porm se poderia comparar a esta de agora, do casamento de sua filha Teresa com Cosme, um trabalhador que era cego de um olho, motivo por que o conheciam como Cosme Doca. Pela cozinha as mulheres trabalham. Joana, a prpria Teresa que tirou os sapatos, despiu o vestido novo com que foi ao arraial se casar, e veio ajudar no preparo do porco, das galinhas, do doce de mamo verde. Vieram moas e mulheres de outras casas, Marta e Feliciana, Mundinha e Caula, Dinah e Gertrudes. Vai um movimento pela cozinha, e quando as mulheres, passada a chuva e limpo o cu, deram conta que a noite estava chegando, se alarmaram e redobraram o trabalho.
     Ataliba corta lenha para o fogo. As mulheres conversam enquanto trabalham e at ao colono chegam sua vozes. Ataliba est feliz. Pouco importa que haja gasto nessa festa todas as economias do ano passado e que ficasse encravado no armazm. Trabalho no lhe metia medo e no ia deixar sua filha casar-se sem festejar o acontecimento e com uma festa que ficasse falada como a melhor da fazenda. Bastio viria tocar e em todas aquelas propriedades em redor, nessa noite, nenhum homem, nenhuma mulher deixaria de vir arrastar os ps e comer seu pedao de porco, beber seu copo de cachaa  sade da noiva.   Ataliba assovia enquanto corta a lenha.  Apesar das clusulas drsticas do contrato de meeiro, ele tira sempre no fim do ano algum saldo.  Comem do que a terra produz, planta seu feijo, seu aipim, sua batata-doce. Se o armazm da fazenda, onde compram o que vestir, no roubasse tanto, le at poderia juntar algum dinheirinho para atender a uma doena ou a um ano ruim...
     Mrio Gomes vem vindo pelo caminho.  cedo para a festa, pensa Ataliba. As mulheres ainda esto na cozinha trabalhando. Mas repara logo que Mrio no mudou sequer a roupa. Traz na mo uma garrafa e um saco, deve vir do armazm. Ataliba descansa o machado, fica esperando.
      Bas tardes...
      Nosso Senhor Jesus Cristo lhe d boa tarde...
     Mrio Gomes arria o saco onde conduz o feijo. Estende a garrafa de cachaa:
       Trouxe pra festa de vosmec... 
     Ataliba agradece:
      Leve sua cachaa, seu Mrio.   Obrigado a vanc mas festa minha, eu fao  cum meu dinheiro...
      No  pra vosmec se ofender...
      Num tou ofendido, tou agradecendo a vanc.   Mas  que tenho essa quizlia, festa minha no aceito ajuda...   Sei que a teno de vanc  boa, mas leve sua cachaa e depois venha se adivirtir...
     Mrio Gomes silencia um minuto, no est ofendido com a recusa, le conhece bem Ataliba.   Antes de partir para mudar a roupa, avisa:
       Seu Artur vai vir...
     Ataliba abre a boca numa admirao:
       Vai vir?  Na festa?
       Inh, sim.   le mesmo me disse faz minutinho.   s vez a gente se engana, faz mau juzo de um vivente...   Eu no ia com esse seu Artur...   Tinha le atravessado aqui...  botava a mo na altura da garganta.    Mas le no  homem ruim...   Botou conversa comigo agora l no armazm...   No  homem ruim...
     Ataliba ainda no acreditava:
      Vai vim?
       Me disse...   No  homem de orgulho... 
     Levantou o saco onde levava o feijo, completou:
       Cada qual sabe de seus pedaos...   s vez o sujeito parece uma coisa e  outra...   Cada um padece suas tristezas, s vez  isso que engana a gente...   Num  homem ruim, num ...
     Mesmo antes do vulto de Mrio Gomes desaparecer no crepsculo Ataliba gritava para as mulheres na cozinha:
       Sabe da novidade?   Seu Artur vai vim... 
     Agora eram elas que se admiravam:
       Na festa?
       Pois ...
     E a voz de Joana, cansada e lenta:
       Vamos trabaiar minha gente, t tudo ainda atrasado... 
     Ataliba foi espiar a meia dzia de foguetes que comprara no arraial para soltar nessa noite.  Que importa o dinheiro, comparado com a satisfao que um homem pode ter? 
     
5
     
     Talvez em toda a fazenda fossem Zefa e a velha Jucundina as nicas pessoas que naquele crepsculo no pensavam na festa da noite, em casa de Ataliba. O prprio Gregrio, que vinha curvado sob o peso do saco de milho, no podia deixar de se recordar que era o dia da festa, pois tinha visto quando os noivos voltavam, junto com Ataliba, Joana e mais alguns, do povoado onde haviam ido se casar. Gregrio no desejava ser visto e se escondeu na capoeira para deix-los passar. Cosme, que era o noivo, cego de um olho, levava os sapatos na mo, naturalmente arrancara-os na estrada. Dava o brao a Teresa e riam os dois, felizes, enquanto atrs ia um converseiro animado sobre a festa:
      Bastio  home de palavra. Diz que vinha, vem mesmo...  era Ataliba que afirmava para um dos que iam com le. Gregrio conhecia Bastio, o tocador de harmnica mais afamado daquelas cinco lguas. No era a toda festa que le vinha. Fazia-se de rogado, dava desculpas  doena, trabalho, cansao  mas festa  sem le perdia metade da animao.   Enquanto o grupo passava, Gregrio desejou que Bastio estivesse presente. Alis em festa em casa de Ataliba le ia sempre e tocava a noite toda. Gregrio desejava que Bastio estivesse presente no porque pretendesse ir  festa, no iria. Mas gostava de Ataliba e sabia que o velho festeiro sofreria muito com a ausncia do tocador. Afinal era rara uma festa por aquelas bandas e quando havia uma no se comentava outra coisa muitos dias antes e muitos dias depois.
     O bando ia longe, Gregrio voltou a fazer o seu caminho, o saco s costas, furtando-se aos olhares, evitando passar pela estrada real. E ia pensando na festa, em Ataliba, em Cosme, em Teresa. Bonita cabrocha. le mesmo, Gregrio, andara de olho nela quando chegar por ali e ela era ainda meninazinha, apenas botando os peitos mas j de sorriso fcil e interesseiro. Porm Gregrio tinha outros projetos, no era tempo ainda de trazer mulher para casa. Era um caboclo forte e decidido, de rosto sombrio onde as grandes sobrancelhas fechavam-se sobre olhos pequenos. Casar s quando tivesse terra sua, com escritura passada no cartrio, e era para consegui-la que trabalhava dia e noite, sem descanso. Enquanto Milito, que era seu scio no plantio da roa, gastava o saldo com as mulheres do arraial ou comprando presentes para a noiva, em cachaa ou em festas, Gregrio guardava seu dinheiro e naqueles cinco anos j havia juntado algum. Comprar um pedao de terra era tudo o que desejava.
     Gregrio deu um jeito nas costas, soltou o saco de milho no terreiro em frente  casa de barro batido. Frangas se agitaram inquietas na goiabeira onde se haviam empoleirado. Gregrio espiou pela porta aberta da casa, Milito no chegara ainda. Voltou-se ento para a estrada e assoviou. A resposta veio entre o mandiocal e le distinguiu o vulto de Milito que vinha andando com a foice ao ombro. Sentou-se em cima do saco de milho e esperou. Havia no seu rosto fechado um quase sorriso como algum que houvesse regressado triunfante de uma luta difcil.
     Milito era um mulato alto e sorridente, andava descansado. Colocou a foice em p, arrimada contra a parede da casa, acocorou-se ao lado de Gregrio e seu primeiro comentrio foi sobre a festa:
      T u'a animao que nunca vi igual...
     Gregrio no respondeu e s ento Milito reparou no saco de milho.   Admirou-se:
       Arranjou, hein?
     O sorriso abriu-se de todo no rosto de Gregrio.   Ainda assim era um sorriso pequeno que logo desapareceu:
      No disse...   Oito mil-ris mais barato...   Valeu a pena...
      Ningum viu?
      Me enfiei pela capoeira, at cortei os ps nos espinhos.  No encontrei alma vivente...   E Leocdio no vai piar que le no  besta...
     Milito riu, boca sem dentes, escancarada:
       Oito mil-ris...   Valeu a pena...   S que se Artur desconfiar  capaz at...
       Capaz de qu?
       De botar a gente pra fora...
     As sombras do crepsculo caam sobre os dois homens, Gregrio levantou-se de cima do saco de milho, aproximou-se de Milito. Frangas pularam da goiabeira, vieram beliscar o saco, Milito tangeu-as com um p:
       Sai, dianho...
     Gregrio olhou o mandiocal que se estendia alm do terreiro, em derredor da casa:
       Vou te dizer uma coisa, Milito  agora nem um resto de sorriso em seu rosto novamente fechado e sombrio.    Nem a polcia me bota pra fora daqui...
     Milito suspendeu os olhos, fitou o companheiro, viu a deciso estampada no seu rosto. Estendeu os braos como se aquela deciso pouco importasse ante o fato indiscutvel:
       s le querer...   A terra  mesmo do doutor Aureliano... 
     Gregrio olhava o mandiocal vicejante, sobre o qual boiavam as sombras crepusculares:
       Mas a mandioca  de ns dois...   Quem derrubou a mata e roou a capoeira?   Isso aqui tava mesmo abandonado.
     Tangeu as galinhas que teimavam junto ao saco de milho.
       E em junho vai t um milharal de d gosto...
     Bateu com a mo sobre o saco de milho novamente, um sorriso cortou seu rosto fechado:
      Se Artur desconfiasse ficava se mordendo de raiva...
     Eram obrigados a comprar no armazm da fazenda. Fora Milito nas suas andanas em busca de festa quem descobrira que poderiam comprar milho para o plantio bem mais barato se o fizessem em mos de Leocdio. E quando contara a Gregrio logo este se decidiu:
      Vou comprar na mo dele.   Artur que se dane...
     Gregrio no era de muitas palavras mas poucos como le para o trabalho. Chegara ali fazia cinco anos, antes fora tropeiro numa outra fazenda. Como aparecera sem parentes nem aderentes corriam diversas histrias sobre seu passado, falavam em mortes, em homens assassinados a faca num barulho, mas era tudo vago e inconsistente. Milito tambm andava buscando trabalho, a seca o atirara para aquelas bandas, e os dois haviam conseguido o arrendamento daquela capoeira onde existia ainda um resto de mata, terreno considerado ruim pela maioria. Estava num dos extremos da fazenda, e o coronel Incio, quando ainda era vivo, nunca plantara por ali. Gregrio entendia de terra e quando Artur lhe props arrendar-lhe aquela capoeira, le silenciou o protesto de Milito e aceitou de imediato. A princpio trabalhavam quatro dias da semana para a fazenda, um de graa conforme mandava o contrato, os outros trs para ter com que comprar a carne-sca, o feijo e a farinha. No resto da semana caam de machado e foice na capoeira e na mata. Venderam lenha, plantaram mandioca, todos os anos renovavam o contrato. Agora no havia em toda a fazenda plantao mais bem cuidada e pela redondeza diziam de Gregrio que "era um boi para o trabalho". Enquanto Milito ria e noivava a filha de Afonso, um trabalhador assalariado, Gregrio se jogava na roa sem descanso. Para le no existia nem festa nem dia de domingo. Nunca comprara um par de botinas, roupa nova no possua, ia ao arraial uma vez na vida, mulher-dama no levava seu dinheiro. E aos que se admiravam de tanto trabalho, Milito explicava que Gregrio queria comprar aquele pedao de terra, aquele ou outro qualquer onde pudesse dizer que estava em terra sua.
      Ainda acaba fazendeiro...  comentavam.
     E novamente aquelas histrias incompletas circulavam e aos poucos iam crescendo em detalhes, a fama de Gregrio aumentando, novas valentias e malvadezas incorporando-se s narraes. O prprio Artur tinha-lhe um certo respeito e raramente discutia com le, tratava-o nas palmas da mo e mais de uma vez lhe oferecera o lugar de ajudante de capataz.
     Quando Milito fizera a descoberta do preo do milho, eles debateram longamente as vantagens e desvantagens da compra. Milito achava que no valia a pena arriscar-se, era demasiado perigoso. Existiam leis na fazenda que no estavam escritas mas que todos respeitavam religiosamente e uma delas era a que obrigava colonos e trabalhadores a comprar ali tudo o que necessitassem. Mas Gregrio estava disposto e aos poucos foi convencendo Milito. Naquela tarde, aps o almoo, partira pelos atalhos, evitando passar ante a casa-grande, esquivando-se dos encontros.
       Vi o pessoal voltando do casamento...
       Cosme?
       le mais Teresa e o veio Ataliba.  Mas eles no me viram...
       Vai ser um festo...   Tu devia de ir... 
     Porm Gregrio j pensava noutra coisa:
       Em junho vai t um milharal vistoso...
     Milito levantou-se, arrastou o saco de milho para dentro de casa.   Gregrio o acompanhou:
       Ns precisa falar com Joo Pedro...    Combinar pra nis fazer a farinha...
     A casa de farinha tinha sido levantada por Joo Pedro e todos os colonos a utilizavam, pagando em farinha ou em dinheiro o uso da prensa e do forno.
     Milito concordou:
       Hoje na festa eu falo com le...   le vai t com a mulher. 
     Trs pedras num canto formavam o fogo.   Numa lata empretecida pelo fogo havia um resto de caf da manh. Gregrio enfiou um pedao de carne-sca num espeto, acendeu o fogo. Pela porta entreaberta entrava a noite que cobria as plantaes. As labaredas cresciam no fogo sobre os gravetos. Iluminavam os rostos dos homens.   Os primeiros grilos saltavam l fora e a brisa que corria trouxe para dentro de casa um cheiro familiar de mato e terra.   Milito falou:
      Faz piro s pra tu.  Vou comer carne de porco na festa... Tu devia vir...
     Acendeu o fif, uma luz vermelha se projetou sobre as paredes da casa:
       Vou lavar os ps pra botar as botinas...
     Andou para os fundos da casa.   A voz de Gregrio o acompanhou:
       Fala com Filinha pra ajudar na farinhada...    Filinha era a noiva de Milito.
       Ela e a irm.   A gente pode falar tambm com Marta, de seu Jernimo.
       Gertrudes pode vir tambm...
     Houve um silncio, depois Milito veio chegando l dos fundos, calado de botinas:
       Hoje vou me acabar de tanto danar...
     Parou diante de Gregrio que virava a carne no espeto:
       Tu no quer vim?          
      Num vou no...
       Tu precisa de vim...   Vai ter cachaa  vontade e Bastio vai tocar...
      Num vou ir...
     Os grilos invadiam o terreiro. A carne chiava nas brasas. Milito murmurava algo sobre a festa, ainda tentando convencer o companheiro a acompanh-lo. Gregrio tomou de uma lata, dirigiu-se para a porta. Ia buscar gua para fazer o piro de farinha. Mas na porta parou, ficou espiando as plantaes mal entrevistas na noite que se completara. Voava um vaga-lume perto da goiabeira onde agora as galinhas estavam quietas. Milito ia dizendo qualquer coisa sobre a beleza que a festa prometia ser mas calou-se porque a voz de Gregrio atravessava o escuro da porta, ressoava dentro da casa, amedrontadora:
      Botar a gente pra fora...   No tem homem que me bota daqui pra fora, eu te digo, Milito...
     A brisa soprou, a luz do fif era vacilante, um cheiro de terra enchia a casa:
      Nem que eu me desgrace e desgrace um comigo. 
     Os grilos multiplicavam-se na noite recm-chegada e na lonjura da caatinga uns sons de harmnica cortaram o silncio.
    
6
     
     Os sons da harmnica silenciavam os grilos pelo atalho. No grupo  vrios homens, algumas mulheres  tambm silenciaram as conversas, os comentrios, as risadas. Bastio comeara a tocar. Era antiga e passada de moda a polca, quele fim de mundo as coisas chegavam com muito atraso, as msicas tambm. Se o dr. Aureliano morasse na casa-grande talvez houvesse por l um rdio de bateria mas o fazendeiro residia no Rio, onde se formara e tinha interesses comerciais. O coronel Incio durante anos fizera projetos de comprar um mas ficara satisfeito com o velho gramofone de segunda mo que um srio mascate lhe empurrara e que no tardou a quebrar a mola. Enquanto esteve funcionando sinh ngela passava horas inteiras, quando no estava mandando as negras na cozinha, dando corda na mquina e tocando os trs nicos discos nos quais Caruso cantava trechos de pera. Terminara pelos cantos da casa, coisa intil, de difcil conserto. "Dinheiro jogado fora", conclua o coronel Incio olhando a mquina agora apenas decorativa na sala de mveis pesados da casa-grande.
     Alm do gramofone toda a msica resumia-se nas harmnicas, nos violes e nos cavaquinhos dos colonos e trabalhadores. Perto da fazenda morava Pedro da Restinga, cego violeiro afamado, cantador de desafios, e nos tempos do coronel Incio le costumava vir  casa-grande nos dias de festa, tirar trovas na viola, para deleite do velho fazendeiro. Mas todas essas coisas eram do passado, depois que Incio e ngela morreram Pedro da Restinga teve suspensa sua conta no armazm  conta que le no pagava nunca, espcie de esmola que o coronel lhe dava. Tinha direito de comprar toda semana feijo e farinha, uma garrafa de cachaa e um pedao de carne-sca. Era anotado no livro mas todos j sabiam que no era para pagar, le pagava era com suas trovas, seus versos na viola, suas rimas em o, suas tiradas que faziam Incio rir. Aureliano nada dissera sobre a conta de Pedro da Restinga e Artur  que passou a habitar na casa-grande  a cortou no primeiro sbado. Aquilo foi a causa inicial da antipatia que lhe votavam os trabalhadores e os colonos. No entanto Artur no se sentia culpado, at lembrava que poderia ter cobrado a dvida que se tornara enorme no correr dos anos. Pedro da Restinga deixara de vir  fazenda e na feira do arraial  onde brilhava com sua viola e sua cuia de esmolas  cantara umas trovas onde dizia o que pensava sobre Aureliano e Artur:
     
                 "Esmola pro pobre cego 
                 que perdeu seu de comer...
                 ...........................................
                 
                 "Seu Incio era homem bom, 
                 Don'Ana melhor no h. 
                 Na viola eu busco um tom 
                 Pra  sua  bondade  louvar.
                 
                 "O filho no lhe puxou 
                 A bondade sem igual. 
                 Em doutor j se formou 
                 Mas aos pobres s faz mal...
                 
                 "Ruim que nem Satans 
                 Homem de mau corao, 
                  Artur, seu capataz 
                 Incapaz de u'a boa ao
                 
                 ................................
                 "Esmola pra um pobre cego 
                 que perdeu seu de comer..."
     
     
     J Bastio no perdera seu pedao de terra, aquele com que Incio o presenteara em certa festa, contente de ter em sua fazenda um tocador de harmnica como le. Quando do inventrio, Aureliano demorara-se na fazenda e ao partir dera suas ordens. Artur lhe perguntara:
      E Bastio?
       O que  que h com Bastio?
     O negro estava perto, se aproximou:
       Seu   coronel   me   deu   o   pedao   de   terra   onde  t  minha rocinha...  e comeou a contar a histria.
     Mas Aureliano que ainda estava sob a emoo da morte quase simultnea dos pais, o interrompeu:
       Fica com tua terra, negro.
     Bastio teve vontade de pedir que le botasse a coisa no papel. Ao velho Incio no sentira necessidade de fazer tal pedido. A palavra do coronel era uma s, no voltava atrs. No pediu, no entanto. Teve receio de ofender o doutor, deixou para outra vez. Vez que nunca chegou pois Aureliano deixara-se , ficar pelo Rio, era Artur quem fazia e desfazia na propriedade.
     Velha polca suficiente para alegrar os que iam no grupo, cercando Bastio, j no gozo da festa. Os ps do negro que levava o cavaquinho moviam-se na estrada como se le bailasse no ritmo daquela polca antiga. O sarar conduzia um violo, mas no tocavam, nem um nem outro, porque era mestre Bastio quem estava com a harmnica e seu nome era respeitado, tocador que se lhe comparasse no havia por ali.
     Sua carapinha comeava a embranquecer, seus dedos j no eram to geis no teclado como antigamente, mas continuava igual a sua resistncia, tocando noites inteiras, quanto mais bebia melhor.
     Os sons da polca rolavam sobre os matos e sobre os grilos, as estrelas enchiam o cu de lua cheia. Havia uma beleza densa pelos campos mas os homens nem reparavam nela, seus pensamentos estavam na festa e andavam depressa. Mais depressa que todos ia o negro do cavaquinho, vontade de apertar, nas voltas da dana, o corpo de Marta batendo os ps no cho de barro. Ia mais rpido que todos no seu passo de baile que tornava leve e elegante seu corpo enorme, seus disformes ps. Voltearia Marta ao som da msica de Bastio, seria uma noite gloriosa, cabrocha bonita como aquela Deus no pusera outra no mundo. E os sons rolavam e, levados pela brisa vespertina, eram ouvidos, como um insistente e alegre convite, nas casas todas da fazenda. No silncio em torno vibrava a harmnica nas mos sbias de Bastio, anunciando a festa do casamento de Cosme e Teresa.
     Era noite de alegria na fazenda. No havia homem ou mulher, solteiro, casado ou amigado, que no estivesse contente, que no se reparasse para palmilhar os caminhos da casa de Ataliba. S Gregrio mastigava em silncio sua carne-sca com piro de gua fria, pensando no milharal que ia plantar, enquanto Milito, de botinas rangedeiras, partia para a festa, o cabelo alisado  fora de brilhantina de 500 ris a lata. Tambm Zefa, soturna em frente aos seus santos que uma lamparina iluminava, tinha o pensamento distante da festa do casamento. No eram festas que ela enxergava com seus olhos de medo, no eram acontecimentos felizes, no eram boas notcias as que ela tinha para dar. Via coisas terrveis, enxergava desgraas indescritveis.
     Mas eram os nicos, Zefa, Jucundina e Gregrio, que no tinham o pensamento na festa e no se preparavam para ela. Os demais ou j tinham partido ou estavam trocando de roupa, lavando os ps, para ser mais fcil calar as botinas. S os trs no ouviam os sons convidativos da harmnica que chegavam do atalho e enchiam a noite da fazenda. Porque at os grilos silenciavam para escutar a msica daquela polca. Era Bastio quem tocava e nenhum tocador como le, ai nenhum!    
     
7
     
     Ai! nenhum tocador como le em todas aquelas terras, nas fazendas que se sucediam por lguas e lguas no serto do Nordeste! De dentro do quarto onde trocava de roupa, Felcia disse para Artur que, na mesa, esperava o jantar, atrasado com a deciso de ir  festa:
      No h quem toque como le...
     Outro que no gostava dele, o negro Bastio. Longamente conversara Artur com Mrio Gomes. Fora como um desabafo. Que fizera le, por exemplo, ao negro Bastio? No lhe fizera mal nenhum, inclusive puxara com o doutor Aureliano o assunto das terras do tocador, ajudara a feliz soluo. Mas Bastio era de difcil tratamento, cheio de orgulho, e s porque era dono do seu pedao de terra  dono s no nome, refletia Artur  queria vender sua farinha no arraial, vender seu milho a outros fazendeiros, comprar fora do armazm da fazenda.   Mais de uma vez Artur discutira com le, mas que estava fazendo com isso, se no cumprir sua obrigao?
     Quando Artur viera trabalhar na fazenda simples, alugado como os demais, j Bastio era velho por ali, j sua fama de tocador corria de boca em boca. Desde rapazinho era bom na harmnica, fazia as delcias do coronel Incio. Quando o velho tinha visitas em casa, quando pelas frias chegavam os amigos de Aureliano que vinham em sua companhia passar uns dias no campo, Bastio, que por aquele tempo era homem feito, no saa da casa-grande, espalhando com suas msicas a monotonia das noites sem que fazer. Era a diverso das moas e rapazes da cidade que danavam ao som das suas velhas melodias, rindo do antiquado das danas, namorando, as moas muito gentis com Bastio, dando-lhe gorjetas e presentes.
     Fora noutra festa de casamento que, o coronel Incio dera a Bastio o pedao de terra que le cultivava.   Artur ainda no chegara  fazenda quando o fato sucedera mas o conhecia em todos os seus detalhes, pois era narrao sempre repetida quando o nome do coronel vinha  discusso.   Quando queriam provar que le era um homem bom logo narravam o acontecido com Bastio na festa do casamento de Julieta.  Essa Julieta era filha de criao do fazendeiro.   Viera para a sua companhia aos nove anos, filha de um compadre seu que morrera de febre  vista do coronel.   Antes de morrer pediu-lhe que cuidasse da filha.  Foi assim que Incio chegou a casa trazendo a criana amedrontada.   Aureliano j andava no colgio interno, na capital do Estado, e dona ngela, prdiga de carinhos, afeioou-se  rf e em vez de criada fz dela uma pessoa da famlia.   Para Incio, a menina fora a filha que le sempre desejara e nunca possura.   Estavam, le e ngela, em idade de ter netos quando ela chegou e encheu a casa com o eco das suas risadas e travessuras.  Aureliano s vinha pelas frias e, logo depois de acadmico, tendo ido estudar no Rio, rareou as visitas  fazenda, escrevendo espaadas cartas aos pais.   Quando, de dois em dois anos, aparecia, era por quinze dias, numa pressa de voltar que o fazia acumular pretextos quando o verdadeiro motivo era quase sempre um par de olhos feiticeiros e de pernas bem feitas.   Assim foi Julieta quem encheu de juventude, quem espalhou um calor de afeto na velhice dos fazendeiros. A preocupao de Incio quando ela ficou mocinha foi cas-la bem. Temia que, com a sua morte, a moa regressasse  sua condio de filha de trabalhador. No admitia que um colono ou um tropeiro olhasse para ela com olhos cobiosos. Homem que o fizesse podia considerar-se despedido daquelas terras. E foi o prprio coronel quem lhe escolheu o noivo. Enoch possua uma loja na cidade, bem sortida, e uma fraqueza no peito fizera-o hspede da fazenda durante um ms. Incio conhecia o pai de Enoch desde criana, ajudara mesmo o rapaz em certas dificuldades no incio da sua vida comercial. "Bom marido para Julieta", disse le a dona ngela enquanto o rapaz engordava  custa de leite e do ar puro do serto.
     O casamento reuniu os fazendeiros prximos, gente da cidade, comerciantes amigos de Enoch. Veio tambm um deputado, poltico que obtinha os votos com que Incio contava. O dote de Julieta deu que falar pela sua largueza. E o vestido de noiva veio do Rio, presente de Aureliano, era uma beleza de vestido. Bastio ainda se lembra e gosta de contar:
      Ela parecia uma boneca...
     Bastio tocou at quando raiou a manh e foi na satisfao daquele dia, daquela festa inesquecvel, que o coronel Incio, que bebia champanha com o deputado, lhe dera, de palavra, a terra que o negro trabalhava. Bastio plantava aquela roa fazia uns quatro anos, antes trabalhara a soldo na fazenda. Sua me fora escrava do pai do coronel e le nascera na senzala e ali crescera. Conhecera o coronel ainda rapaz, moo bonito que derrubava as negras pelo mato e seduzia mulheres casadas na cidade, e, se bem no houvesse tocado na festa do casamento de Incio (era ainda meninote e mal se iniciava nos segredos da harmnica), tocara j no batizado de Aureliano, outra festa de estrondo, com padre vindo da cidade, polticos na mesa de jantar, doutores e coronis.
     E desde ento, em festa da casa-grande ou em festa de pobre pela fazenda e pelas fazendas vizinhas, Bastio era figura indispensvel. Quando o dono da festa fazia o convite no esquecia de acrescentar:
      Bastio vai tocar...
     No fim da noite, naquela festa do casamento de Julieta, o coronel, talvez um pouco tocado pela champanha, satisfeito com o casamento da moa e triste porque ela se ia embora, vaidoso da presena do deputado, chamara Bastio quando a msica cessou e os pares pararam de valsar:
       Negro, j tou perto de morrer...
       T'esconjuro...   Deus guarde vosmec, meu patro...
       ... j tou perto de morrer e antes de ir prestar contas a Deus quero te dar um presente...
       Vosmec diz, coronel Inacinho...
       Essa terra onde t tua roa fica sendo tua.   No  s de boca, no.  Um dia desses boto no papel...
     Mas nunca botou, que no houve ocasio, o coronel pouco viveu depois da festa. Tambm Bastio jamais julgou necessrio lembrar-lhe. Para le bastava a palavra de Incio. Se le dissera que a terra era sua ento no havia como discutir, o coronel no tinha duas palavras. Somente na ocasio do inventrio  que le pensou em pedir a Aureliano que lavrasse a escritura da terra. Mas no quis ofend-lo e deixou as coisas como estavam. No pagava aforamento nem dava metade da sua produo para a fazenda. Apenas Artur exigia que le vendesse produtos  casa e comprasse no armazm. Da as turras, as zangas de Bastio, os desaforos resmungados pelo negro, principalmente quando se excedia na cachaa.
      Negro besta... dizia Artur.
     Tinha certo orgulho, sem dvida, o negro Bastio, tocador de harmnica. Mas era por ser dono do seu pedao de terra.  s por isso que se faz de rogado quando o convidam para tocar numa festa qualquer. le tem a sua terra,  pessoa importante, no paga aforamento nem trabalha um dia de graa para a fazenda como mandam os contratos dos colonos. No  por ser o melhor tocador de harmnica de toda a zona que le trata os outros um pouco por cima. Que isso de tocar bem  um dom que le possui, nem le mesmo sabe como  que seus dedos so to geis e seu ouvido to fino e sensvel. Tocar  para le como comer e beber, nunca cobrou um real numa festa, porque le, o negro Bastio, tem sua terra que lhe d o que comer. Terra que le trabalha com sua mulher e seus filhos desde que o sol nasce at que chega a noite com grilos e vaga-lumes   A noite, sim,  para a harmnica, para msica,  polcas esquecidas: alegria da fazenda, porque, em dez lguas em redor, nenhum tocador como le, ai nenhum!
     
8
     
     "Desgraados... Desgraados...", Zefa repetia a palavra com dio e espiava em torno, os olhos esbugalhados. Estavam enormes, e,  medida que as sombras caam pesadas sobre a casa de barro, mudavam de expresso como se as emoes fossem ditadas e dirigidas pelas cambiantes do crepsculo. "Desgraados...", disse, mas agora com a voz cheia de pena, pois os sentimentos mais diversos sucediam-se rpido e inesperadamente, desde a incontida alegria at o medo mais pnico, e o espanto, o desejo e o dio. Era o momento da revelao cruel e terrvel, sua nica realidade, a que devia transmitir aos homens incrdulos, a que devia espalhar pelo vasto mundo do serto pois de outros mundos Zefa no tinha notcia.
     Sabia vagamente da cidade, distante e pecadora, irremediavelmente condenada, para a qual nenhuma salvao era possvel. Intil seria estender at a cidade as palavras que trazia dentro do peito e que, na hora do entardecer, tentava levar ao conhecimento dos que a rodeavam para que assim a nova se espalhasse e os  homens  estivessem  preparados  para   o  momento  augusto  e inadivel.
     Ali, ante os quadros dos santos, sozinha na sala, observada apenas pela cunhada, Zefa se prepara mais uma vez para proclamar o segredo que lhe foi transmitido. No  a nica assim nesse serto de imensas fazendas e de fome. Outros homens e mulheres, espalhados pela vastido da caatinga, tiveram a mesma tremenda revelao. E fazem o mesmo idntico esforo de Zefa para convencer os que os rodeiam. Um dia todos se convencero e os instrumentos de trabalho sero abandonados, as mos largaro as foices e os machados, se elevaro para os cus, os joelhos dobrados sobre a terra, as cabeas inclinadas.
     As sombras escorregam sobre as rvores, o pasto, a casa, a caatinga longnqua. E os sentimentos se precipitam no corao angustiado de Zefa. To alegre est ela agora, seus olhos derramados em doura, os lbios quase sorrindo, como os de noivas em dia de bodas, as mos apertadas uma na outra como se apertassem mos bem-amadas, e de sbito fica terrvel, transtornada, olhando com dio, parecendo querer, a boca crispada, cuspir ou amaldioar, agitadas as mos, o corpo tenso, em defensiva. E logo sero os dentes apertados, o terror nas pupilas dilatadas, o corpo jogado para trs, as mos aparando algum invisvel assassino. Para depois regressar, cansada como algum que chega de interminvel caminhada, ao doce olhar de carinho, ao aperto terno de mos, enquanto sob o cu sertanejo as sombras variam arrastando a noite profunda.
     O mugido da vaca anunciou a sua entrada no curral. Despedia-se do campo, da liberdade ao sol. Para Zefa era um sinal. Aqueles rudos que se repetiam quase inalterveis a cada tarde tinham para ela um valor que escapava aos demais, no eram vozes de animais e homens  o mugido da vaca, o grito de Jernimo  eram sinais divinos, avisos daquele mundo ao qual ela estava ligada desde que tivera a revelao.
     Estendeu a cabea  espera de que o mugido se repetisse. Ficou em expectativa, na nsia de acontecimentos que no sucederam. Comeou ento a mastigar palavras, arrancadas com dificuldade do seu ntimo, pronunciada cada uma delas aos pedaos, como se o fizesse a medo. Olhava em torno a si para ver se no havia ningum, pois as pessoas da casa e os demais moradores da fazenda costumavam rir do que ela dizia, no lhe davam importncia, e aquilo a irritava ao extremo. Se bem lhe importasse pouco que estivessem perto ou longe, que ouvissem ou no. As suas palavras terminariam por ser respeitadas quisessem ou no, pois eram palavras de Deus as que ela repetia. Ficavam incrdulos e distantes quando ela falava. Jernimo e Jucundina, Marta e Agostinho, todos os demais tambm. Mas um dia haviam de se convencer e talvez ento j fosse tarde, j no desse tempo para o arrependimento e para a salvao. Como ventos de tempestades esses pensamentos, em confuso, atravessam o corao de Zefa, mudam as expresses dos seus olhos e alteram a sua fisionomia.
     Fora, em certo tempo, moa como as outras, apenas mais calada, mais para seu canto, curvada sobre os bilros da almofada de rendas quando para isso havia vagar, carregando latas de gua, ajudando o irmo no trabalho do roado de mandioca. A mudana comeou depois da Santa Misso, quando o coronel Incio fizera vir um padre capelo para rezar missa, casar e batizar, e pregar para todos os moradores da fazenda. Zefa ouviu os sermes com os olhos abertos, guardando cada palavra  muitas no entendia  compreendendo que os homens estavam em pecado e o castigo de Deus se aproximava. No tardou e veio a morte de Claudionor, assassinado a faca por uma questo de terras, a vinte lguas dali, noutra fazenda. Quando a notcia chegou Zefa soltou um grito e seu corpo estremeceu no primeiro daqueles ataques que, a princpio, tanto impressionavam os parentes.
     E desde ento ficara assim lesa, como diziam na fazenda, andando de um lado para outro, ajudando quase nada nos trabalhos da casa e do campo, se transformando na hora do entardecer, cheia de pressgios e agouros. Por vezes, nos domingos, os vizinhos chegavam para tomar uma pinga e contar uns casos e se demoravam pela cozinha, ouvindo algum tocador de violo ou de harmnica, trocando impresses sobre parentes que haviam emigrado para So Paulo e dos quais tinham vagas e otimistas notcias. "Dizque Maneca Ful enricou de fazer medo, cumpadre." "Dizque em pouco tempo..." "Isso  que  terra, cumpadre, pra um homem de trabaio..." Zefa escutava as conversas, mas era varivel na sua ateno, retinha apenas pedaos soltos de frases e por vezes os repetia, porm eles tomavam na sua boca delirante nova significao, em vez de afirmaes eram quase sarcasmos. E quando chegava a hora de recolher a criao espalhada no pasto ralo, os vizinhos sentiam-se invadidos de um indefinido respeito. Era como se Zefa no fosse aquela mesma figura de moa doente, que estava parada entre eles, ouvindo o que diziam, repetindo pedaos de conversas, rindo das coisas com seu riso demente. Naquela hora em que ela se levantava e marchava, erecta e decidida, para junto dos quadros dos santos (havia um So Jernimo, um Senhor do Bonfim, e So Cosme e So Damio, esses dois numa s estampa), o mdo atravessava por todos os presentes, alguns desejavam partir, a viola silenciava e as conversas morriam mesmo quando estavam falando dos parentes enriquecidos em S. Paulo. Acompanhavam cada olhar, cada gesto, cada palavra, cada terrvel aviso da moa que, subitamente, era para eles o indecifrvel mistrio, era o sobrenatural. Riam depois alguns, buliam com a prpria Zefa, havia quem gostasse de v-la raivosa. Mas quando as murmuraes que duravam o dia inteiro se transformavam nos gritos do fim da tarde, s o respeito e o medo marcavam a fisionomia dos ouvintes casuais. E os que a ouviam pela primeira vez, levavam dias e dias pensando naquela face onde tantos sentimentos se refletiam precipitadamente, e continuavam a ouvir pela noite as palavras pronunciadas por aquela boca que ora sorria com tanto amor, ora se abria em dio para com todos os homens e mulheres, para com todo ser vivente, inclusive as crianas, inclusive os animais de criao, e as aves do cu, os bichos da terra, todos, sem exceo de nenhum.
     "Desgraados... desgraados..." repetia Zefa e sua voz vinha cheia de pena e de ternura. Fitava algum em sua frente. Seus olhos refletiam ento o terror, fugia com o corpo, gritava de medo. E logo era o dio, as mesmas palavras mas agora ditas como uma praga, "desgraados... desgraados..."
     Sabiam de antemo o que ela iria anunciar, pois a sua mensagem no se modificava, era a mesma desde h muitos anos, quotidianamente relembrada, mas como que ia ganhando fora a cada tarde, ia se tornando mais impressionante a cada repetio. E os homens, passado o acesso, quando Zefa serenada se recolhia, aps as preces sem nexo, bebiam mais cachaa e voltavam s conversas com certo nervosismo. E havia sem dvida aqueles que, apesar dos risos e das graolas, acreditavam que era a voz de Deus que falava pela boca de Zefa. Outros homens e mulheres repetiam, pelo serto esfomeado, palavras semelhantes e alguns iam mesmo, arrimados em bordes caminheiros, transmitindo de lugar em lugar aquelas mensagens. E quando algum, chegado de viagem, dizia aos colonos da fazenda que um beato na caatinga anunciava para breve o fim do mundo, ento eles faziam o pelo-sinal e confirmavam que tambm ali havia certa moa, tomada de um esprito,   que   todas   as  tardes,   invariavelmente,   transmitia   essa notcia e mandava que os homens se preparassem para o momento prximo.
     Foi assim que o nome de Zefa comeou a circular alm dos limites da fazenda, que era uma daquelas imensas fazendas do serto, grandes como Estados, separada do resto do mundo como se em torno dela se elevassem muralhas.  Alguns daqueles homens que ali trabalhavam jamais haviam sado dos limites da propriedade.   Porm j o nome de Zefa atravessava as cancelas e as crcas e nas outras fazendas e pelos caminhos e estradas se falava das suas profecias.  O dr. Aureliano, que era o dono daquelas terras, certa vez que viera do Rio de Janeiro  (quando de uma eleio estadual), desejou ver Zefa e assistir a uma das suas manifestaes. E como Zefa tivesse se recusado terminantemente a ir at a casa-grande, le veio no fim da tarde, em companhia de um amigo que estava parando na fazenda, e ouvira os gritos terrveis e as alucinadas palavras. Depois falou em histeria, murmurou palavras cientficas.   O outro riu e comentou:
      Tu de mdico s tens o diploma, Aureliano. Para que esse palavreado?   A mulher  louca e acabou-se...
     O dr. Aureliano riu-se tambm, disse que ainda se lembrava das aulas, deu dez mil-ris a Jernimo e voltou para a casa-grande. Demorou-se pouco na fazenda, sua vida era no Rio, para le aquelas terras herdadas significavam pouco diante dos interesses maiores de dinheiro que o prendiam na capital do pas.
     No entanto foi Zefa com suas palavras ilgicas que salvou a fazenda do saque no dia em que o bando de Lucas Arvoredo aparecera por ali. J se dispunham os cangaceiros a levar o que houvesse nas casas dos colonos e trabalhadores, a saquear a casa-grande, quando Zefa comeou a anunciar o fim do mundo. Para ela o dia era chegado. Aqueles jagunos armados, dando tiros para o ar, modificando to totalmente o seu inaltervel quotidiano, deram-lhe a sensao de que enfim chegara o momento em que os pecadores iam pagar a sua culpa. Atirou-se pela porta da casa, ante o espanto a velha Jucundina, e saudou os cangaceiros como enviados de Deus. Lucas Arvoredo, ao v-la, gritou: 
      Que demnio  isso?
     Mas logo silenciou e ordenou a seu homens que calassem a boca porque Zefa comeara a anunciar o fim do mundo, repetindo as trpegas palavras de cada crepsculo. Lucas Arvoredo fitou a moca mais parecida com um bicho, os cabelos h anos sem pentear, onde andavam soltos os piolhos, as mos de grandes unhas, a boca proftica. Ento dobraram-se os joelhos do cangaceiro, fz o sinal-da-cruz, curvou a cabea e os seus homens o imitaram em silncio. Bico Doce que j apontara a repetio para o peito de Zefa, baixou a arma e tambm le ajoelhou-se. Zefa gritou sua mensagem, esperou qualquer coisa que no aconteceu, voltou para casa, Lucas mandou restituir o dinheiro que j havia arrebanhado, no quis levar nada da fazenda. Tudo que aceitou foi um caf com aipim em casa do velho Jernimo.  E partiu.
     Uma nica coisa le levou. Foi Jos que naquela noite fugiu para se juntar ao bando de jagunos.
     Durante certo tempo Zefa ficou ainda mais atrapalhada, como se houvesse sido roubada, e levou alguns dias a voltar  regularidade de sua vida, a atender s variantes do crepsculo, a iniciar sua revelao ao grito de boiadeiro de Jernimo.
     "Os homens j pecou demais", gritou ela, "o mundo vai se acabar".   Estende as mos e avisa:
       O castigo de Deus t perto, ningum vai se salvar... E repete as palavras como um refro:
       Desgraados...   Desgraados...
     
9
     
     Felcia saiu do quarto j pronta, as faces pintadas de papel vermelho, os cabelos esticados, o melhor vestido. Artur a olhou com carinho. Os meninos j estavam deitados, aps o jantar o capataz e a esposa iriam para a festa. Foi ento que Artur lembrou-se do moleque que mandara ao correio, no arraial, buscar a correspondncia. O telegrama do dr. Aureliano chegara por um portador, avisava que a carta tratava de assunto importante. O telegrafista, que devia o lugar  proteo do doutor, enviara o telegrama com um recado. E na quarta-feira, dia de correio, Artur mandara o moleque ao arraial.   Que notcia seria essa to importante? Aureliano no era homem de escrever muitas cartas. Artur enviava-lhe relatrios, na sua escrita atrapalhada, dizendo das coisas da fazenda. le respondia em bilhetes curtos, ordens sucintas. No ligava muito para a fazenda, fora feliz em outros negcios do Rio, soubera empregar o dinheiro herdado, acumulado nos bancos pelo coronel Incio. O velho no conhecia outro emprego de capital que terras e quando achara que sua fazenda atingira o tamanho desejado, comeara a deixar os lucros nos bancos para render. Aureliano empregara esse dinheiro logo que o encontrou  sua disposio. E hoje bem mais importantes para le eram seus negcios no Rio que a fazenda do serto, distante e quase esquecida.
     Felcia serve a janta pouco melhor que a dos trabalhadores. Aipim cozido, feijo, carne-sca, batata-doce, farinha de mandioca. Senta-se ao lado do marido, no tem quase apetite, seu pensamento est na festa e por isso no compreende a princpio a pergunta de Artur:
       Que ser que le quer?
       Ataliba?    um vivente alegre, nunca vi gostar assim de uma festa...
     Artur esclarece:
       Tou falando  do doutor Aureliano.   A tal de carta muito importante...
     Felcia reflete, com o garfo suspenso no ar:
       Isso   coisa  que le vem por a com uma rencada de-amigos...  suspira  Trabalheira pra gente...
       Ser?
     Artur fica pensando mas Felcia quer falar  sobre a festa:
       A gente devia levar um presente pra noiva...
      Pra Teresa?
      .  A gente no pode ir de mo vazia...
       S vendo uma coisa no armazm...
       Que  que pode ser?
      Um corte de chita?
       Podia ser uma coisa mizinha...
       Qu?   Aqui no tem mesmo nada que preste...
       Podia ser aquele espelho cum pente e escova...
       S se fr...
     Artur se recorda do estjo. O coronel comprara a um rabe Para dar de presente a dona ngela mas ela no chegara a usar. Ficara no armazm, estranha mercadoria entre a carne-sca, a chita, a burgariana, a cachaa e o feijo.
       At que um dia isso houvera de ter serventia...
       Ela vai ficar babosa...
     Artur est alegre. Essa idia de dar o estjo a Teresa vale para le como uma completa reconciliao com os colonos. No sabe mesmo por que durante todo o fim da tarde e nesse comeo de noite aquela idia o inquietou: os colonos no gostavam dele. Ia  festa, daria o estjo a Teresa, beberia com os homens, danaria com as mulheres. E talvez ento as suas relaes no continuassem to tirantes, no lhe voltassem mais o rosto, no falassem mal dele pelas costas. Afinal que  que le lhes fazia? Cumpria a sua obrigao de capataz quando os apertava no trabalho, quando puxava para a fazenda na hora dos preos, quando discutia com os homens seus dbitos e seus saldos. Mas no lhes queria mal e gostaria de viver em boa harmonia com eles, ter amigos entre os colonos e trabalhadores, poder conversar  tarde na hora do armazm, fazer visitas.
     Agora tudo marcharia melhor. le o sentia desde a conversa com Mrio. Sua ida  festa, o presente que Felcia levaria seriam a marca definitiva de nova etapa nas suas relaes com os colonos e trabalhadores. E isso o alegra. Diz para Felcia, como se respondesse  sua frase inicial:
        boa pessoa esse Ataliba.  Festeiro mas trabalhador... 
     Felcia se espanta mais do ar do marido que mesmo das suas palavras:
       Tu dizia que le era um disperdiado...
       Isso  coisa dele...   Cada um  de um jeito...   Ganha seu dinheiro,  dele, gasta l como entender...   A gente no tem nada com isso...
       No tou dizendo nada...   Era tu quem dizia... 
     L fora algum grita:
       Seu Artur!   Seu Artur!
       Quem ?
        Milito...
       Que  que quer?
       No vai  festa?
       Vamos, sim.
      Entonces no demore que to esperando vanc pra soltar os foguetes...    na hora do senhor chegar...
     Artur volta-se risonho para Felcia: 
      T vendo? 
     Grita para fora:
       Vou j, Milito.  Tou s acabando de fazer uma boquinha....
       Entonces at logo...
     Perde-se a voz na noite e Artur sorri.  Vo esper-lo com foguetes, soltaro na hora que le chegue.  Talvez algumas vezes le os tenha tratado mal, brutalmente, aos gritos.   Talvez tenha mesmo feito contas atrapalhadas para pagar menos do valor das safras aos colonos, talvez tenha vendido mais caro do que o valor das mercadorias do armazm.   Mas para isso era o capataz.   Isso no deve importar nas suas relaes com os homens.   Vai trat-los melhor de agora em diante, vai procurar agradar a cada um, fazer amigos...
     Levantam-se da mesa.
       Voc lava os pratos quando a gente vier...  diz Artur para Felcia que j se dirigia para a cozinha.   Est com pressa, os foguetes subiro aos ares quando le chegar a casa de Ataliba. Boa pessoa, esse Ataliba...         
       Vou buscar o presente... 
     O moleque vem chegando, antes mesmo de dar boas noites vai se desculpando:
       O correio chegou atrasado, o caminho que encrencou no caminho...
     Artur recebe a carta volumosa:
      Felcia, traz o candeeiro...
     A luz vermelha ilumina a carta dactilografada. L na ltima pgina est a assinatura do doutor Aureliano, primeira coisa que Artur foi espiar. Comea a ler, a boca pronunciando as palavras em surdina. E seus olhos vo se abrindo, sua face vai se alterando. Felcia se alarma:
       Que foi, Artur?   Alguma desgraa?  Que sucedeu ao doutor? 
     A voz de Artur  pesada:
       Vendeu a fazenda...
       Vendeu?
       E diz que  pra despachar todos os colonos.   Liquidar as contas de todos, at de Bastio e mandar embora antes do novo dono chegar...
     O mesmo pensamento, triste e sombrio, atravessa o corao de Felca:
       E agora, meu Deus, como vai ser? 
     Artur guarda a carta:
       Nem vale a pena levar o presente...
     Os passos no caminho so de Jernimo com a mulher e a irm louca. Zefa vai resmungando suas profecias. Artur ouve o murmrio em frente  casa-grande.   Felcia suspira:
       To indo pra festa...    melhor eu nem ir...
        melhor mesmo...   Deixa que eu vou s, dou a notcia... 
     A voz de Zefa corta o silncio.   Ningum entende direito o que ela vai dizendo mas Felcia sente um peso no corao. Aquelas palavras so pragas e as pragas de Zefa tm um terrvel poder. Artur se levanta:
       Seja o que Deus quiser...
     A voz de Zefa ressoa na estrada:
       Desgraados...  Desgraados...
     
10
     
     A msica da harmnica  agora acompanhada pelo violo e pelo cavaquinho. Bastio est sentado, parece um rei no seu trono, um largo sorriso corta-lhe o rosto negro. Ali esto, na festa de Ataliba, no casamento de Teresa, todos os colonos da fazenda, todos os meeiros e trabalhadores. Esse  um dia de festa, acontecimento raro na triste monotonia daquelas vidas. Falou-se nela durante muito tempo antes, muito tempo depois se falar ainda. So homens e mulheres que trabalham dia e noite, mourejam na enxada, cavoucam a terra, plantam e colhem, so semi-escravizados  fazenda,  qual tm que vender sua colheita e onde tm que comprar seus mantimentos, mas nessa noite no pensam em nada disso, em nenhuma tristeza, em nenhuma desgraa. Nem mesmo Jernimo que vem entrando com Jucundina, trazendo Zefa que  louca, nem mesmo le pensa na loucura da irm nem nos filhos que partiram m rumo ignorado.   Hoje s pensam  na festa, na alegria de danar, de beber, de rir, de conversar, de ouvir o negro Bastio na harmnica.
     Ataliba grita para Jernimo: 
      Cumpadre, teja em sua casa.
     Zefa senta-se no banco, seus olhos alucinados sorriem, sua face est quase tranqila ao som da msica.   Ataliba quer saber:
       Cumpadre, tu que veio das bandas da casa-grande no sabe se seu Artur j saiu?
       Parece  que t vindo.   Quando travessei vi movimento de gente se preparando...
     Danam na sala. Os ps desacostumados das botinas ainda assim no param nos passos do baile. Cosme dana com Teresa, Milito com sua noiva, dana Marta e dana Agostinho, negros, brancos e mulatos. Ataliba serve cachaa, h com fartura, Deus seja louvado.
       Um trago, cumpadre...
        sade da noiva...
     Joana larga o par para ir  cozinha dar uma espiada nas comidas. Est tudo pronto, no meio da noite os quitutes sero distribudos. O melhor prato ser para Artur que  capataz e vem  festa apesar disso. Ser que le vai trazer um presente?  bem capaz, uns metros de fazenda ou um frasco de cheiro. A msica enche a sala pequena, o suor escorre dos rostos dos homens, h um cheiro penetrante que vem das mulheres suadas, dos negros risonhos. Trocam-se ditos, risadas soltas, e mais que tudo alegram os homens os ps nos passos do baile, a harmnica, o violo, o cavaquinho. Ningum pensa em tristezas, a noite  de festa.
     Artur vem pela estrada. Vem devagar, como vai dizer aos colonos, dar-lhes a notcia? Vem armado, quem sabe o que pode acontecer? O que lhe di so os foguetes. Vem de dentes trancados, como anunciar as novidades?
     A festa vai num crescendo de animao.  a dana do peru, ruidosa e divertida. Todos os pares esto completos, menos um ao qual falta a mulher, o cavalheiro sem dama segurando um bordo. Quando a msica pra todos soltam suas damas, o do bordo toma de uma e  a correria em busca do par, ningum quer ficar danando com o bordo. E riem e bebem, cachaa correndo, a catinga aumentando, bodum de mulato, a alegria crescendo. Ataliba sorri: festa assim, de tanta animao, nunca houve por ali. S falta mesmo a chegada de Artur para soltarem os foguetes.
     Algum, de ouvido mais fino, ouve os passos na estrada:
      L vem seu Artur...
     Ataliba se precipita para a porta. Leva o fif, aproxima a chama, os foguetes sobem para o cu. Espoucam no alto, todos vieram para ver, a msica silenciou mas no a alegria.
     Artur olha para o cu, sobem os foguetes,  em sua homenagem. Como transmitir as notcias que traz? A voz de Ataliba gritando por le:
       Se aproxime, seu Artur...
     Artur pra na estrada, meu Deus, que fazer? Espoucam os foguetes, um grito de festa:
       Viva seu Artur! 
     Meu Deus, que fazer?
     

LIVRO PRIMEIRO


***

OS CAMINHOS DA FOME
A caatinga

1

     Agreste e inspita estende-se a caatinga. Os arbustos ralos elevam-se por lguas e lguas no serto seco e bravio, como um deserto de espinhos. Cobras e lagartos arrastam-se por entre as pedras, sob o sol escaldante do meio-dia. So lagartos enormes, parecem sobrados do princpio do mundo, parados, sem expresso nos olhos fixos, como se fossem esculturas primitivas. So as cobras mais venenosas, a cascavel e o jararacuu, a jararaca e a coral. Silvam ao bulir dos galhos, ao saltar dos lagartos, ao calor do sol. Os espinhos se cruzam na caatinga,  o intransponvel deserto, o corao inviolvel do Nordeste, a seca, o espinho e o veneno, a carncia de tudo, do mais rudimentar caminho, de qualquer rvore de boa sombra e de sugosa fruta. Apenas as umburanas se levantam, de quando em quando, quebrando a monotonia dos arbustos com a sua presena amiga e acolhedora. No mais so as palmatrias, as favelas, os mandacarus, os columbis, as quixabas, os cros, os xiquexiques, as coroas-de-padre, em meio a cuja rispidez surge, como uma viso de toda beleza, a flor de uma orqudea. Um emaranhado de espinhos, impossvel de transpor. Por lguas e lguas, atravs de todo o Nordeste, o deserto da caatinga. Impossvel de varar, sem estradas, sem caminho, sem picadas, sem comida e sem gua, sem sombra e sem regatos. A caatinga nordestina.
     E atravs da caatinga, cortando-a de todos os lados, viaja uma inumervel multido de camponeses. So homens jogados fora da terra pelo latifndio e pela seca, expulsos de suas casas, sem trabalho nas fazendas, que descem em busca de So Paulo, Eldorado daquelas imaginaes.   Vm de todas  as partes do Nordeste na viagem de espantos, cortam a caatinga abrindo passo pelos espinhos, vencendo as cobras traioeiras, vencendo a sede e a fome, os ps calados nas alpargatas de couro,  as mos rasgadas, os rostos feridos,  os coraes em desespero.   So milhares e milhares se sucedendo sem parar.    uma viagem que h muito comeou e ningum sabe quando vai terminar porque todos os anos os colonos que perderam a terra, os trabalhadores explorados, as vtimas da seca e dos coronis, juntam seus trapos, seus filhos e suas ltimas foras e iniciam a jornada. E enquanto eles descem em busca de Juazeiro ou de Montes Claros, sobem os que voltam, desiludidos, de So Paulo, e  difcil, se no impossvel, descobrir qual a maior misria, se a dos que partem ou a dos que voltam.   a fome e a doena, os cadveres vo ficando pelo caminho, estrumando a terra da caatinga e mais viosos nascem os mandacarus, maiores os espinhos para rasgar novas carnes dos sertanejos fugidos. Famlias numerosas iniciam a viagem e quando atingem Pirapora a doena e a fome as reduziu a menos de metade.  Ouvem-se, nessas cidades que bordejam a caatinga, as mais incrveis histrias, sabe-se das desgraas mais tremendas, aquelas que nenhum romance poderia conter sem parecer absurdo.  a viagem que jamais termina, recomeada sempre por homens que se assemelham aos que os precederam como a gua de um copo  gua de outro copo.   So os mesmos rostos de indefinida cr, os ps gigantescos, de dedos abertos, sobrando das alpargatas, o cabelo ralo, o corpo magro e resistente.   As mesmas mulheres sem beleza nas faces cansadas. Enchendo o deserto da caatinga com suas vidas desesperadas, com seus ais de dor, seu passo abrindo picadas que logo se fecham em espinhos.
     Aqui, na caatinga, habitam os cangaceiros. Os soldados da vingana, os donos do serto. No tm paz nem descanso, no tm quartel nem bivaques, no tm lar nem transporte. Sua casa e seu quartel, sua cama e sua mesa, so a caatinga para eles bem-amada. Os soldados da polcia que os perseguem no se atrevem a penetrar por entre os arbustos de espinhos, os ps de xiquexiques e cros. Ao lado das serpentes e dos lagartos, vivem os cangaceiros na caatinga e tambm eles, por vezes, liquidam no tiro das suas repeties os sertanejos que descem e que sobem na contnua migrao. E aqui surgem, no corao seco da caatinga, os beatos mais famosos, aqueles que arrastam multido dramtica no seu passo, enchendo o serto de oraes estranhas, de ritos supersticiosos, anunciando pela boca repleta de profecias o fim do mundo e do sofrimento dos camponeses. Na caatinga habitaram Lucas da Feira, Antnio Silvino, Corisco e Lampio, hoje habita Lucas Arvoredo com seus jagunos. Na caatinga surgiram Antnio Conselheiro e o beato Loureno. Do mais distante do deserto surge agora, com as mesmas alucinadas palavras de profecias, o beato Estvo.
     S os imigrantes so os mesmos, os nomes podem mudar, mas so idnticos rostos, a mesma fome, o mesmo fatalismo, a mesma deciso no caminhar. Atravessando a caatinga, sobre as pedras, os espinhos, as cobras, os lagartos, para frente, indo para So Paulo onde dizem que existe terra de graa e dinheiro farto, voltando de So Paulo onde no existe nem terra nem dinheiro.
     L vo eles, so centenas, so milhares, na viagem de espantos. Durante meses atravessam a caatinga. Os cadveres vo ficando pelos caminhos improvisados e nem mesmo eles modificam a paisagem desolada onde, ao sol causticante, dormem indiferentes lagartos. gua, s l embaixo, onde termina a misria da caatinga e comea a misria do rio So Francisco.
     
2
     
     Na madrugada mida de orvalho a voz de Jernimo comandou, rouca e cortada:
       Vam'bora, gentes...
     Estavam le e seu irmo Joo Pedro, as duas famlias tinham se reunido para a viagem. Milito fora o nico que viera se despedir. Chegara de fif na mo, a luz vermelha fazendo fosca a claridade matutina:
      Nosso Sinh Jesus Cristo acompanhe a vosmec e a sua famia...
     E deu notcias:
      Bastio seguiu ontem com a famia dele... Dizque se Gregrio no atirasse quem atirava era le...
      Num tem notcia?
       Nenhuma.   Caiu no mato, quem  que pega le? 
     Jucundina fz uma promessa:
       J prometi duas velas a Nosso Senhor do Bonfim se ningum pegar le...
       Tu no vai memo?  perguntou Jernimo a Milito.
       Num vou no.   Fico de trabaiador.   O dinheirinho da terra vou guardar que  pro casamento...
     Milito fora o nico dos colonos a ficar na fazenda aps a entrega das terras.  Gregrio atirara em Artur mas no matara o capataz. A bala penetrara no ombro esquerdo, Artur j estava de p, e o tiro servira para liquidar o sentimentalismo com que le recebera a notcia.   O novo proprietrio, ao saber da violncia de Gregrio, louvou-se de haver exigido a entrega da fazenda sem colonos.   S veio tomar posse depois que o ltimo tinha partido e que novos trabalhadores lavravam toda a terra. Conservou Artur como capataz e s muitos anos depois veio a permitir novamente colonos e meeiros na fazenda.
     Gregrio sumira no mundo, aps atirar, e havia quem dissesse que se incorporara ao bando de Lucas Arvoredo. O crime se dera quando Artur voltara da festa de Ataliba, onde comunicara aos colonos as novas trazidas pela carta do doutor Aureliano. A festa se acabou em seguida, num rosrio de lamentaes. Bastio afirmava que ia matar Artur enquanto Joo Pedro contemporizava:  Cachorro mandado no tem culpa...
     Ouviram o tiro, ningum sabe como a notcia chegara aos ouvidos de Gregrio se le no havia sado de sua casa, no viera  festa, no estivera com Artur. Conheceram que tinha sido Gregrio porque le desapareceu levando uma repetio da fazenda. Nunca mais ouviram falar nele e dois dias depois eram chamados todos  casa-grande para o acerto de contas. Artur tinha o ombro enfaixado, viera um mdico do arraial, retirara a bala, dissera que aquilo no tinha maior importncia. A polcia deu batidas no rastro do colono desaparecido, o rastro se perdia na caatinga.
     Jernimo vendeu o mandiocal, os ps de milho, a criao. Desta s ficou o jumento que ia servir para a viagem. Pela casa Artur no quis dar nada. Por nenhuma das casas dos colonos. E quando reclamaram le contentou-se em dizer:
       Levem as casas nas costas, se puder...
     S deu mesmo algum dinheiro pela casa de farinha de Joo Pedro. Tambm esse devia muito  fazenda e se no fosse a casa de farinha nem poderia se retirar com a famlia, teria que ficar trabalhando na enxada at pagar. Foi o que sucedeu com Ataliba que estava em dbito. Tomaram-lhe terras, casa, galinhas e porcos e ainda estava le obrigado a trabalhar com mulher, filhos e genro, at que pagasse os seiscentos mil-ris do seu dbito.
     Milito se despede:
       At outra vez, seu Jernimo...
     O jumento j est pronto, carregado com o que eles levam. O menino pequeno vai no colo de Jucundina, os dois outros vo andando. Agostinho leva um saco de mantimentos. Marta est com o mesmo vestido novo com que fora  festa de Ataliba:
       At quando Deus quiser...
     A madrugada irrompe nos cus, Jernimo d voz de partida:
       Vam'bora, minha gente...   
     Milito fica sozinho, olhando, suspenso o fif da mo direita, acenando com a esquerda um adeus que ningum responde. Os vultos somem-se na luz da manh ainda difusa. Milito apaga o candeeiro, a fumaa escura fica boiando no ar.
     
3
     
     Noca aperta a gata contra o peito. Feriu o p num espinho logo no comeo da viagem mas no chorou nem se queixou, deseja que ningum preste ateno  sua pequena pessoa. Basta com o que j sofreu, com as lgrimas que derramou nesta manh por causa de Marisca. Quando j estavam prontos para partir, as trouxas arrumadas, os caus cheios nas cangalhas sobre Jeremias, Milito chegando para as despedidas, surgiu a discusso sobre Marisca. Foi Marta quem alertou os pais. Noca ia saindo silenciosamente, a gatinha sob o brao.   Tapava-lhe a boca para ela no miar. A vaca, a cabra, as galinhas tinham sido vendidas a Artur. A gata sobrara pela casa, em verdade ningum pensara nela at a hora da partida.   Marta perguntou:
       Tu t querendo levar essa gata, Noca?
     Antes mesmo que ela respondesse a velha Jucundina reclamou:
       Solta essa gata, menina.   Que diabo se vai fazer com uma gata nesses caminhos?
     Tonho, agitado com a partida desde a noite da vspera, como se aquilo fosse para le uma festa, comeou a saltar em frente da irm:
       Solta a gata, deixa a gata, solta a gata...
     As lgrimas encheram os olhos de Noca. Chegou a baixar a mo que segurava a gata no gesto de larg-la no cho. Mas revoltou-se e deixou escapar um grito, mais pungente no podia haver:
       Deixa eu levar ela...
       Quer apanhar? Solta a gata, j disse...  Jucundina olhou Noca com olhos que anunciavam chineladas.
     Mas Noca apertou a gata contra o peito e repetiu seu pedida numa voz de choro, misturada com as lgrimas.
       Eu tomo conta dela, deixa eu levar ela... 
     Agostinho se meteu:
       Deixa ela levar...   O que  que tem?...
     Noca engoliu um soluo, correu para junto do tio, sentindo-se protegida ao lado do rapaz. Porm a voz de Jucundina voltou a amedront-la:
       Que  que a gente vai fazer com esse tramblho? 
     Noca, com a mo livre, segurou nas calas do tio:
      No deixe vov soltar ela...
      Deixa a menina levar a gata, me... no tem mal...
      Para que serve?  perguntou Jucundina.
      Quem haver de saber? At pra comer se a fome apertar no caminho e se acabar o mantimento...
     Noca apertou ainda mais Marisca contra o peito. Sentia-se num mundo de ameaas e de perigos. Seus olhos estavam esbugalhados de susto e as lgrimas no paravam de correr. A discusso continuou e em breve todos tomavam parte nela enquanto Noca soluava, sem, no entanto, soltar a gata que rosnava no seu colo, indiferente ao barulho em torno.   Finalmente Jernimo, com sua autoridade de chefe de famlia decidiu a favor de Noca:
      Deixe  ela   levar...    Se   der   trabalho,   a   gente   solta   na estrada...
     Em que estrada?, pensa Noca, nesse fim do primeiro dia da viagem. A estrada verdadeira ficou para trs, agora  um atalho entre os matos que deve conduzi-los  fazenda Primavera onde planejaram dormir nessa noite. O p cortado di, a gata tenta saltar e ir correr pelos matos. Isso  o mais perigoso de tudo. Noca j a soltou uma vez e teve muito trabalho para conseguir peg-la. Foi preciso que Agostinho a ajudasse e ainda assim tiveram que parar todos e Jucundina aproveitou para dizer:
      T   vendo...    Pra   que   trazer   a   gata?...    S   serve   pra atrapalhar...
     Mas como Noca comeasse novamente a chorar no disse mais nada e at largou a trouxa que trazia e tambm ela correu atrs de Marisca cujos instintos caadores despertavam ao contacto com a caatinga.
     No soltou mais a gata. Dava mais trabalho do que ela pensava. Tinha que prend-la contra o peito e Marisca arranhava, procurava fugir. Noca no podia prestar ateno aos tocos e barrancos do caminho estreito, espinhento e difcil. Enquanto Tonho corria, se divertia puxando o cabresto de Jeremias, parando para ver os passarinhos, Noca cerrava a fila ao lado de Zefa que repetia suas incompreensveis palavras e que parecia no ver a criana cujo p ferido a obrigava a capengar levemente.
     Certa hora que Agostinho se aproximou, Noca perguntou-lhe com a voz tremente:
      Ainda est longe, tio?
     Ento Agostinho tomou-a nos braos, a ela e  gata, e Noca sorriu, do alto via os ps dos demais afundando na lama do caminho.
     
   4
     
     Os colonos despedidos da fazenda estavam espalhados pelas estradas de caatinga. Iam todos no rumo do sul, em busca do pais de So Paulo.   Muitos outros haviam ido antes, os contratantes de trabalhadores apareciam pelas fazendas, contavam histrias, diziam coisas de assombrar. No havia gente pobre naquela terra paulista, onde se plantava e colhia caf. Cada trabalhador que chegava era fazendeiro em poucos anos, virava coronel, homem influente na poltica. Assim diziam e sempre havia quem acreditasse apesar dos que voltavam mais pobres ainda do que quando haviam partido. Eram esses mesmos caminhos, essas trilhas abertas na caatinga, que Jernimo e seu irmo Joo Pedro trilhavam agora com suas famlias. Dinah, mulher de Joo Pedro, que era muito supersticiosa, contara as pessoas e os bichos da pobre comitiva:  Tesconjuro...   Treze vivente...
     Ela, o marido e a filha, Gertrudes, de quinze para dezesseis anos, mulata bem escura, de nariz chato. Puxara  me, era um touro no trabalho, apesar da pouca idade. Parecia mais um homem do que mesmo uma criana. E a famlia de Jernimo. le, Jucundina, os dois filhos e os trs netos, os rfos da filha mais velha. Faziam onze mas Dinah contava tambm Jeremias e Marisca.
     Jeremias ia na frente, Jernimo puxava do cabresto, s vezes entregava a Tonho. Ia carregado com dois caus, onde levavam quase tudo o que possuam. O resto estava nas trouxas que mulheres e homens conduziam, a pouca roupa, a quase nenhuma comida. Jeremias marchava no seu passo tardo, sem pressa, arrancando de quando em vez uma folha, parando nas poas maiores de gua para beber.
     Naquele primeiro dia eles fizeram cinco lguas compridas, que eram quantas os separavam da fazenda Primavera. Chegaram com a noite quando Jeremias comeava a empacar pelo caminho. Noca ia atrs de todos, quase no se agentava de cansada, a gata apertada contra o peito.
     Chegaram por detrs do curral. Mal despontaram no terreiro da casa-grande, uma voz forte gritou:
       Quem vem l...
        de boa paz...  respondeu Jernimo.
     Um homem apareceu, trazia uma lanterna na mo. Vestia calas de montar, calava umas botas altas, revlver na cintura. Parou em frente a eles.  Joo Pedro cumprimentou:
      B'as-tarde...
       Donde vm?...
     Jernimo adiantou-se:
       Ns t vindo da fazenda do doutor Aureliano...
       Pra onde vo?...
       No rumo de So Paulo...      
      So imigrantes?
       Inh, sim.
     O homem no alterou a voz para dizer:
      No  podem  pousar   aqui...       proibido...    Toquem   pra frente...
     Noca j estava sentada no cho,  cocando o p machucado enquanto Marisca miava ao lado.
      Por essa noite s, meu senhor...
      No pode...   ordem...
       E pra onde a gente vai?
     O homem encolheu os ombros.  Ficou um instante parado, esperando.  Vendo que os outros no partiam, disse:
       Mais para diante.   Tem um roado,  da fazenda do seu Moura.   Podem dormir l, le no se importa.   Mas cuidado com o fogo pra no queimar o roado...
       Vamos minha gente... 
     Noca levantou-se num gemido:
       Por que nis no fica aquii...
     Jernimo no respondeu.   Puxava Jeremias que no queria andar.   A noite  dos viajantes  cobria os  caminhos  da  caatinga prxima.
     
5
     
     Em meio  clareira elevava-se um oitizeiro e foi para l que Jernimo dirigiu os passos lerdos do jumento:
      Anda, Jeremias... Anda, Jeremias... Vam'bora, bicho desgraado...
     Mas no falava com raiva, ao contrrio, havia certo acento carinhoso na sua voz. Jernimo ouvia os gemidos abafados de Noca, no compreendia por que a criana no gemia em voz alta, no ligava aquela sua atitude ao incidente em torno  gata. Agostinho andara um longo pedao de estrada com a menina s costas, Dinah tambm a carregara durante algum tempo e Jernimo a pusera nas cangalhas sobre o jumento nos trechos mais difceis do caminho.  Agora ouvia os seus gemidos abafados, e sentia raiva do homem que no os deixara pousar na fazenda Primavera, obrigando-os a andar mais meia lgua, meia lgua das grandes, de quatro quilmetros pelo menos. Igual a Artur, aquele outro capataz.  Pensando em Artur, pensou em Gregrio fugido nos matos, talvez no bando de Lucas Arvoredo. Talvez naquela noite conversando com Jos, o segundo dos seus filhos que havia partido e que, segundo todos diziam, era cangaceiro de Lucas Arvoredo.   Fugira de casa no dia em que o bando atacou a fazenda e nunca mais voltaram a ter notcias concretas sobre le.   Um nome novo, porm, surgiu no bando de Lucas, a polcia falava de um jaguno apelidado de Z Trevoada, de pontaria certeira e coragem a toda prova. Conhecidos diziam que Z Trevoada era o mesmo Jos, filho de Jernimo e Jucundina.   Bem que podia  ser,  Jos  sempre fora  esquisito, arredio, gostando de se afundar nos matos para caar, falando em ir embora.
     Bateu com as mos nas ancas do jumento para anim-lo. Jeremias manteve o mesmo passo vagaroso, ainda assim estavam distanciados dos demais, os gemidos de Noca haviam desaparecido. A noite cara completamente e Jernimo pouco enxergava da picada recente. Gravetos e espinhos furavam-lhe os ps mas le nem os sentia. Pensou que a viagem estava apenas comeando e que muita terra teriam que atravessar antes de chegar  cidade de Juazeiro, no Estado da Bahia, onde tomariam o navio para descer o rio. Esse So Paulo era distante, era no fim do mundo. Em Juazeiro venderia o jumento, ia sentir falta de Jeremias, fazia seis anos que o possua e muito le o ajudara.
     Em meio s trevas le via o brilho das brasas. Um cheiro apetitoso de resto de comida encheu-lhe as narinas. Havia gente por perto, com certeza. Parou, esperando que os outros, que vinham muito atrasados, se aproximassem. Ouvia os passos quebrando os gravetos no caminho e a voz de Jucundina ralhando com Noca: 
      Cala a boca, menina...
     Ela no devia brigar com a menina, devia compreender que a pobrezinha estava cansada, a caminhada era de extenuar um homem quanto mais uma criana. Jernimo sentiu vontade de dar um grito na mulher mas se recordou que ela tambm devia estar mais morta que viva, o dia todo com o pequeno no brao, descansara apenas na hora de almoar. Marta e Gertrudes ajudaram a levar a criana mas Jucundina confiava pouco na filha e na sobrinha para deixar com elas, durante muito tempo, o neto mais querido.
     Eram as trs crianas rfs de Ernestina, a filha mais velha de Jernimo e Jucundina. Casara com um trabalhador, Pedro Ribeiro, e morrera de parto. O marido no demorou na fazenda, ganhou o mundo deixando com os avs as trs crianas. A ltima, de cujo parto morrera Ernestina, foi, desde o primeiro dia, criada por Jucundina. Tinha agora seis meses e toda capacidade de carinho da velha parecia se concentrar no pequeno rfo. No ligava muito para Tonho e Noca, em compensao no largava o pequenino no qual haviam posto o nome de Ernesto em lembrana da me morta.
     As vozes e os passos se aproximam. Zefa est agitada. Aquele primeiro dia foi terrvel para ela. Durante as primeiras horas estivera alegre, cantara velhas modas que h mais de quinze anos aprendera, quando moa, em meio s outras moas da fazenda. Catava flores do campo, arrancava-lhes as ptalas, jogava-as na estrada. Mas,  proporo que a tarde foi caindo, quando a hora do crepsculo se aproximou e no se repetiram aqueles movimentos quotidianos aos quais ela estava "habituada e que dirigiam sua loucura, comeou a ficar impaciente, parando no caminho, ouvido  escuta, os lbios tremendo, as mos para o alto. Silenciosa, com um silncio mais terrvel que mesmo suas palavras agoniadas e ameaadoras. Os olhos fixos nos parentes como a acus-los daquela transformao em sua vida. Era preciso trabalho para convenc-la a andar e Agostinho e Joo Pedro desesperavam-se por vezes:
      Vamo' Zefa, vamo' que t ficando tarde...
     E ela parada, silenciosa e brusca, as mos para o cu, os olhos nas primeiras sombras da noite. O ouvido  espera do grito de boiadeiro que Jernimo no soltava naquele crepsculo. Joo Pedro teve de empurr-la certa hora e ela o fitou com tais olhos que o colono estremeceu, um medo sbito da irm.
     Os passos esto mais prximos e Jernimo j distingue a sombra dos caminhantes. Agostinho vem na frente e leva Zefa por um brao. Ela vem se estremecendo, vai ter um dos seus ataques, com certeza. Tonho vem ao lado deles, j perdeu a alegria com que iniciou a jornada, agora s o cansao aparece nos seus pequenos olhos aventureiros. Marta carrega Noca e vem arfando com o peso da menina. No  forte nem resistente essa moa que  a preferida do pai. Moa bonita, na fazenda no havia nenhuma que se comparasse com Marta, de pernas bem feitas, mulata bem clara, de cabelos quase lisos, os peitos empinados. Pouca ajuda dava ela no trabalho na roa, que sempre fora doentinha quando menina. Tem dezoito anos mas aparenta menos que Gertrudes, se bem sinta-se nela a mulher j feita, nos olhos derramados, nos seios pontiagudos.
     Jucundina, Dinah e Joo Pedro fecham a marcha. Param todos juntos a Jernimo.   le aponta para diante:
       Ali teve fogo...   Ainda to as brasas...
     E tange Jeremias naquela direo. O grupo segue atrs dele, h um pesado silncio de cansao e Jernimo volta a recordar-se de Artur. Para Jernimo tudo se resumia numa questo de homens: o coronel Incio era um homem bom, consentia que eles lavrassem as terras da fazenda. O doutor Aureliano era homem ruim, mandara-os expulsar. E pior que todos era Artur, que antes fora trabalhador como eles, e que roubara a todos eles na hora do acerto de contas. A nica coisa que o consola  que Gregrio no tenha sido preso.
     Vo se aproximando do fogo mas de repente param porque um homem se levantou adiante com uma repetio na mo:
       Quem vem l?
       de paz...  a voz de Jernimo est cheia de cansao.
     
6
     
     O homem no baixou a repetio mas abrandou a voz:
      Flagelados?
      Nis vai pra So Paulo...  Na fazenda Primavera dissero que a gente podia pousar aqui essa noite...
     Joo Pedro e Agostinho haviam se juntado a Jernimo e estavam os trs homens em torno ao jumento. O homem da repetio ainda perguntou:
       Vosmecs vm de longe?
       Inh, no.  Ns t vindo de pertim, cuma seis lguas daqui. 
     O homem baixou a repetio murmurando:
      Entonces ainda tem mantimento...
     E completou, como numa explicao, ao abrir caminho:
      Ns quase no tem mais...
     Era uma famlia que estava acampada sob o oitizeiro. Alm do homem que os recebera havia mais dois rapazes e quatro mulheres, sendo que duas delas eram mocinhas e ficaram espiando de longe Marta e Gertrudes. Jernimo foi tocando o jumento at o oitizeiro onde o amarrou. Agostinho baixou os caus, tirou a cangalha. Estavam todos silenciosos. Noca, que Marta soltara no cho, correu, num ltimo esforo para junto das grandes razes onde sentou-se. Ps Marisca ao seu lado. A gata miou longamente. Havia um silncio de parte a parte, as duas famlias estavam separadas pelo tronco da rvore e estudavam-se pelo rabo dos olhos. Desarrumadas as coisas soltaram Jeremias. O jumento, livre do cabresto, zurrou alegremente e saiu pastando nas proximidades. , Havia ainda algum capim, esturricado pelo sol, mas para Jeremias bastava. Joo Pedro que desamarrava um saco de estpa onde traziam a carne-sca, a farinha, o caf e a rapadura, dirigiu-se ao homem que antes sustentava a repetio:
       Vosmec permite que use o fogo?
     Referia-se ao braseiro que ainda ardia no lado onde estava a famlia chegada antes. Ali com certeza haviam preparado o jantar. O homem disse que sim e falou para as moas:
       Que  que vocs faz a que no vo ajudar as donas?
     As duas moas levantaram-se pouco dispostas. Jucundina adiantou-se:
      No faz falta.   Obrigado a vosmec mas a gente mesmo se arranja.
     Joo Pedro avivava o fogo. Agostinho, com uma lata na mo, perguntou onde havia gua.   Um dos rapazes respondeu:
       Descendo a essa ribanceira tem um poo...
     As duas moas estavam paradas ante Jucundina que cortava a carne-sca e separava farinha noutra lata.
       Num precisa vancs se incomoda.   Vo descansar que deve t precisando se  que andaro tanto cuma gente hoje...
     Agostinho voltava com a gua. Jucundina pediu-lhe que preparasse um espeto para a carne. As moas no se moviam e Jucundina levantou os olhos para espi-las.   E notou que os das moas elas os tinham fitos no pedao de carne que a velha lavava para tirar o sal. "Esto com fome", pensou.
     Ps o espeto com a carne sobre as brasas. Isso a levou ao outro lado, para perto da outra famlia. Eles estavam todos prximo ao fogo e quase a rodearam quando ela acocorou-se ao lado do braseiro para tomar conta do espeto. Marta veio tambm com uma lata pequena cheia de gua que ps para ferver. As duas moas acompanharam Jucundina e agora olhavam a carne chiar sobre as brasas, os olhos acendidos de desejo. O menino pequeno comeou a chorar nos braos de Dinah, separada deles pelo tronco da rvore.   Jucundina gritou:
       Tonho, traz a farinha...
     Preparou o mingau de farinha de mandioca para a criana. Era um mingau ralo, sem substncia, escuro e sem gosto. Mas no havia outra coisa, tinha sido impossvel trazer a cabra. A criana parou de chorar, agora era Marta sozinha que via os olhos das moas e de todo o resto da famlia pousados sobre a carne que assava e sobre o saco onde estava a farinha. Aquilo a incomodava, ficava sem jeito, sem palavras para puxar conversa. Jucundina voltou, acabara de dar de comer  criana que acomodara na rede armada por Jernimo nos galhos da rvore. Disse para Marta:
       Vai tomar conta do menino.  Depois tu come...
     Para Marta foi um alvio. Sentia aqueles olhos todos acompanhando seus gestos ao virar a carne no fogo, eram olhos cheios de pedidos, vidos e tristes.
     O jantar no tardou a ficar pronto. Alm da carne-sca, tudo que havia era um piro de farinha. No resto da gua posta a ferver, Jucundina colocou um pedao de rapadura que era para o caf. Vieram todos acocorar-se nas razes da rvore, prximo ao fogo e ficaram lado a lado com a outra famlia. Nem deram por falta de Noca j que Marisca miava em torno a eles, esfomeada.
     Jernimo convidou:
       Vosmecs so servidos?
     Houve um gesto impreciso de uma das moas. Como se quisesse marchar para diante e aceitar. Jucundina teve medo. Tinha ainda muito caminho pela frente e pouco mantimento. O dinheiro era contado para as passagens no navio at Pirapora.   Podiam dispor de pouco e o que levavam mal daria se fizessem a viagem com a rapidez que pretendiam. Ficou olhando a moa que no chegou a sair do lugar, apenas o pescoo estendeu-se para logo se recolher.
     Foi o homem que antes empunhava a repetio quem respondeu: 
      Obrigado. Ns j comeu vai pra mais de meia hora... 
     Jucundina  dividiu  a  carne.   Deu  pedaos  maiores  aos  trs homens.  Zefa silenciara e mastigava num canto, benzendo-se de quando em vez.   Dinah deu um pedao de sua carne a Gertrudes e pediu a Joo Pedro que armasse a rede.   Jucundina comeou a coar o caf.
     As latas eram poucas e s havia dois canecos. Serviu primeiro a Jernimo e Joo Pedro. As moas olhando, os rapazes olhando tambm. O homem da repetio havia baixado a cabea, talvez para no olhar le tambm, talvez para no ver as filhas e os filhos de olhos puxados para o caf. Mas no resistiu at o fim. Quando Jucundina estava servindo a Zefa e a Marta, le falou:
       Se vosmec pode dar, eu aceito um pingo de caf pras duas meninas...
     E antes mesmo que Jucundina respondesse,  le explicou,  as mos balanando, a voz distante:
        que faz muito tempo que a gente t viajando.   Ns vem do Cear e j acabou tudo que a gente trouxe.   Faz trs dias que no tem caf.   S tem mesmo rapadura e farinha...
     Todos tomaram caf. E Jucundina ainda deu um pedao de carne.  Pequeno mas que foi recebido num silncio que valia mais que qualquer ruidosa manifestao de alegria.         
      Deus ajude vosmec...  
     Comearam a lavar as latas.   E, de repente, Marta deu por falta de Noca:
       Cad Noca?   Ela num cumeu?
     Saram procurando, a menina dormia junto  raiz da rvore, no outro lado.
       melhor no acordar...  disse Jernimo.
     Marta sentou-se ao lado da sobrinha que respirava docemente. Tomou da gata que corria ali perto, colocou-a no calor da menina. Noca semi-acordou, puxou Marisca com a mo, apertou-a contra si.  No outro lado conversavam.   O homem da repetio contava.
       Ficaro com tudo que era de nis.   S pro mode nis no pode pagar o arrendamento...   Ninharia de dinheiro, foi uma mesquinhez.   Nis arresolveu vir tambm pra So Paulo.   S que nis vai por Montes Claros que l tem um contratante esperando a gente...   Faz dois ms que nis viaja...
       Nis saiu hoje, tamo comeando...  era a voz de Joo Pedro.
     Algum jogou um resto de gua fora. Marta tinha as pernas cansadas e as mos doam. E aquela noite no mato derramava-lhe uma desconhecida moleza pelo corpo. As brasas morriam aos poucos enquanto o homem contava:
       Nis j passou tanta desgraa que nem merecia...
     Marta ouvia de olhos cerrados. Lembrava-se do doutor Aureliano. Era um moo bonito, alto e bem penteado, com o cabelo cheiroso. Por que le os botara para fora? Quando estivera na fazenda, h dois anos, Marta era quase menina ainda e fora ajudar Felcia na casa-grande. O doutor pegara-lhe nos peitos que nasciam, dera-lhe um dinheiro de presente. Por que os botara para fora? Parecia to bom moo, dizia que ela era mais bonita que as mulheres da cidade. Marta recorda a carcia do doutor. Ficara com medo naquele dia mas nessa noite no mato ela se estremece ao recordar.
     O homem contava no outro lado:
       Dizque  o fim do mundo...   Toda essa desgraceira que t sucedendo...   No sou eu quem dizque,  um homem santo, um beato que apareceu pras bandas do serto.  O nome dele  Estvo e  dizque  faz  milagres,   cura   doente   que   nem   Padre   Ccero... Apareceu num faz muito tempo, vem andando pro lado do mar. Dizque j tem mais de quinhentos homens atrs dele...   le t avisando que o mundo vai se acabar, convidando os homens pra fazer penitncia...
     Marta viu a sombra passar ao seu lado. Era Zefa que se levantava ao ouvir o nome de Estvo e a relao dos seus feitos. Marta pensava no doutor Aureliano. Era risonho e afvel, suas camisas tinham um perfume fino, Marta gostava de cheir-las quando as levava para lavar.  A voz do homem chega no escuro:
       Dizque le t procurando Lucas Arvoredo pra obrigar le fazer penitncia...   Dizque o fim do mundo t chegando.
     E o grito de Zefa cortou a noite, mais uma vez. s palavras do homem ela se reencontrava e comeava a transmitir sua mensagem que no era outra seno a que o beato Estvo proclamava pelo serto de flagelados e imigrantes, de jagunos e crianas morrendo. 
     Noca cordou com o grito, estranhou o lugar onde estava. Marta se levantou, as brasas estavam apagadas e o homem da repetio espiava Zefa, amedrontado. Joo Pedro explicava: 
       lesa, coitada...
     
7
     
     Bem que eles desejaram viajar junto com Jernimo e os seus. Porm Jucundina estava atenta e desde a noite anterior imaginara que eles proporiam que fizessem a viagem num s grupo enquanto o seu caminho fosse o mesmo.  No s imaginara como avisara Jernimo. Eles no tinham mais comida, a carne-sca acabara, o caf tambm, no possuam um caroo de feijo, tudo que levavam era um resto de farinha e rapadura. Que vantagem havia ento em juntarem-se com eles num grupo s?  No  que Jucundina no tivesse pena. Tinha pena e na vspera dera-lhes at um pedao de carne se bem soubesse que ia lhe fazer falta.  O que no podia era tirar, como ela disse a Jernimo, da boca dos filhos e netos para dar a estranhos.
     Pela madrugada, antes mesmo do sol nascer, quando Jernimo botava a cangalha em Jeremias, o homem props.
      Nis vai em rumo diferente...  disse Jernimo. 
     Mas o homem insistiu. Grande trecho de caminho podiam fazer em companhia, e quanto maior o grupo melhor seria, maiores as garantias contra os jagunos, mais gente para rasgar picadas na caatinga cuja aproximao sentiam com pavor. Jernimo estava sem resposta que dar quando Jucundina se interps:
      Nis tem pouca manuteno. Se nis vai s pode que d pra gente se arranjar...   Nis no pode com mais nenhum...
     Sua voz era severa se bem no houvesse nela nem o mais longnquo trao de rispidez. Dizia quase como quem pedisse desculpas de ser to pobre, to incapaz de ajudar, mas, ao mesmo tempo, com absoluta firmeza, era para cortar a conversa.
     Marcharam antes. Da volta do caminho Jucundina no pde deixar de espiar. E viu que o homem falava com a mulher enquanto as moas espiavam os que partiam. Jucundina quase se arrependeu. Mas olhou para a frente e viu os seus que andavam, acompanhando o passo demorado do jumento, e seu corao trancou-se a qualquer piedade. Seu passo foi mais firme e logo ela alcanou Marta e Zefa que iam atrs dos outros.
     
8
     
     Cinco dias depois estavam em plena caatinga, buscando entre o intrincado dos espinhos o rastro das picadas que outros viandantes haviam aberto antes. J estavam acostumados a dormir ao relento, debaixo das rvores, pois s existiam duas redes, numa das quais ficava Jucundina com o neto mais moo e na outra repousava Dinah. Mas naquela primeira noite da caatinga no havia rvores onde prender as redes, a muito custo conseguiram um pequeno descampado onde arriar as trouxas e jogar o corpo. Haviam feito pouco caminho naquele dia. Os homens iam de faco na mo, cortando o mato, alargando a quase invisvel picada. Estavam to cansados que no sentiam fome. Dinah se encarregou do jantar, ajudada por Marta.
     Jucundina fz uma cama com a rede, no cho, para o menorzinho e sentou-se ao seu lado. Estirou as pernas, tambm ela estava terrivelmente cansada. Se bem o menino pesasse cada vez menos, estava emagrecendo a olhos vistos. Na roa Jucundina o alimentava com leite de cabra e le ia se criando sem maiores novidades. Gordo nunca fora mas quem j viu filho de colono que fosse gordo? Agora, porm, emagrecia nesse regime de angu de farinha de mandioca, tomado quase a pulso, chorando, batendo as mozinhas em sinal de protesto. "Devia ter trazido a cabra", pensa Jucundina, "por maior que fosse o sacrifcio". Ficou olhando a face plida da criana. Os ossos estavam  mostra, os olhos saltados, podiam-se contar as costelas nas costas finas. "Devia ter trazido a cabra." Jucundina espiava com medo para o neto. Achava impossvel que le pudesse resistir  viagem. Todos os dias quando a criana defecava, ela examinava os detritos com medo de que le obrasse verde. Ansiava pelo dia em que chegassem a Juazeiro da Bahia, onde conseguiria leite para a criana. No leno de flores vermelhas ela conduzia um dinheirinho amarrado num n, numa das pontas, e ningum sabia daquele dinheiro, estava reservado para comprar leite durante a viagem. S que na caatinga no encontravam nem rastro de gado. Talvez quando chegassem  cidade e descessem o rio... Devia haver fartura por aquelas bandas j que sobrava gua, no era uma terra seca como aquela por onde caminhavam. A criana dorme ao seu lado e Jucundina pensa que  uma injustia que o neto, to inocente ainda, j sofra tanto. Que sofram ela e Jernimo, Joo Pedro e Dinah, ainda se aceita. Esto velhos e acostumados s desgraas da vida. Mas por que sofrer uma criana de poucos meses que ainda no fz mal a ningum?  Que pecados ela est pagando, por que Deus no tem piedade?
     Os seus pensamentos so subitamente cortados pelos gemidos que chegam at ela. A princpio so medrosos, em surdina, um choro aflito e montono. Mas logo se elevam, so gritos de dor. Jucundina reconhece a voz de Noca. H dias que ela vinha capengando, se queixando do p, de onde Marta arrancara um pedao de espinho. Choramingava o caminhol todo, viajava a maior parte do tempo no brao de um ou de outro, ou ento na cangalha do jumento, sem largar a gata amarela. "Diabo de gata, devido a ela  que Noca se ferira." Jucundina est to cansada que se demora a levantar para buscar a neta que solua. "Em vez da gata podiam ter trazido a cabra, o trabalho no seria muito maior." Ouviu a voz de Jernimo ralhando com Noca:
       Cala essa boca, dianho...   No pra de chorar...   Se no calar eu te dou uma coa...
     Mas Noca desobedeceu e Jucundina estranhou o acontecimento. Noca era medrosa, de fcil obedincia, silenciava ante qualquer ralho ou ameaa.   Levantou-se ao mesmo tempo que a chamava:
       Noca, vem c...
     Ela veio, capengando, os olhos em lgrimas, a gata contra o peito, espiando com medo para a av.
       Larga essa gata no cho...
     Soltou a gata que logo correu para os matos. Jucundina tomou a menina nos braos, colocou-a no colo:
       Que  que tu tem?
       Meu p t doendo...
     O fif iluminava mal. Jucundina via  sua luz a face magra de Ernesto que dormia.   Chamou Marta:
      Chega aqui...
      Tou assando a carne...
      Gertrudes! Gertrudes!
     Veio a sobrinha e segurou o fif. Jucundina tomou do p doente com a mo, passou o dedo sobre a ferida. Estava inchado, todo o p, uma cr escura, feia. Buliu na casca que cobria a ferida e o pus se espalhou. Noca segurava-se no pescoo da av com os dois braos, soluando baixinho. Jucundina sentou-se, ajeitou Noca no seu colo, mandou que Gertrudes se acocorasse para iluminar melhor. Comeou a espremer o pus que era muito.
       Vai buscar um pano...   Anda depressa...
     Gertrudes voltou com um trapo, pedao de um velho vestido. Apesar de lavado conservava uma indefinida cr de sujeiras antigas. Dividiu-o em dois pedaos, com um limpou o pus, espremeu mais, a criana gemia.
       Diz a Joo Pedro ou a Agostinho pra procurar um p de mastruz por a...
     Enquanto esperava comeou a alisar de manso a cabea de Noca a quem o tratamento aliviara. Tambm ela sofria, coitadinha, que mal fizera nesse mundo? Jucundina sente um estranho desnimo, de repente no compreende por que est naquele caminho estreito da caatinga, com os ps cortados de espinhos, as mos cansadas, o corpo modo como se houvesse levado uma surra. Por que saram da sua terra, por que deixaram sua casa, o curral, a vaca mansa, os ps de mandioca e milho? Por que botaram eles para fora? Alisa a cabea da criana at que os passos de Agostinho, que volta acompanhado por Gertrudes, se fazem ouvir bem prximos.
     Machuca o mastruo numa pedra. Coloca-o sobre o p da criana, amarra com o pano.   Jernimo vem chegando:
       Que  que tem?
       T uma ferida feia...  Postumou...
     Marta grita que a carne est assada e eles vem o alto vulto de Zefa atravessando o mato para os lados do fogo.   Seus cabelos esto soltos, enormes, e agora, na viagem, ela fala o tempo todo, j no h hora para repetir que o mundo vai acabar e os homens devem fazer penitncia dos seus pecados.
     Jucundina pensa, enquanto deita Noca ao lado do irmozinho, que maior penitncia eles no podiam fazer. Nasce a lua cheia no cu.
     
9
     
     Zefa cada vez dava mais trabalho.   Antes, quando estava na fazenda, ela se habituara a fazer no mato as suas necessidades, e,  exceo da hora do crepsculo quando inevitavelmente se entregava ao seu estranho ritual, passava o dia quase normalmente, at ainda ajudava no trabalho da roa, se bem pequeno fosse o seu auxlio. Mas, desde o segundo dia de viagem, mudara seus hbitos, era necessrio exercer constante vigilncia sobre ela pois sumia pelos caminhos, falando em voz alta, acenando para rvores  pssaros, amedrontando as pessoas, que casualmente encontrava, com suas palavras inexplicveis e seus gestos atemorizadores.   E J no se preocupava de ir ao mato fazer suas necessidades, defecava e mijava no vestido, e era Marta, paciente e boa,  quem a limpava, mudava sua roupa debaixo quase sempre suja.  E como era quase impossvel faz-la banhasse (inclusive a gua era difcil naqueles caminhos), um odor ftido desprendia-se das roupas e do corpo de Zefa, completando o extravagante da sua figura e o indecifrvel das suas palavras loucas. Apenas Marta e Jucundina tinham pacincia com ela. Tonho passava o dia bulindo com Zefa, puxando-Ihe os vestidos, mostrando-lhe a lngua, dizendo-lhe nomes. Jernimo lhe dera umas bofetadas mas o menino no se corrigia, cansara-se de puxar o jumento e de correr pelos caminhos, no tinha outra diverso seno atenazar a vida da tia lesa. Tambm Joo Pedro e Agostinho, Dinah, Gertrudes e o prprio Jernimo por vezes perdiam a pacincia, davam-lhe gritos, ameaavam-na. 
      S d trabalho...
     Apenas Jucundina e Marta cuidavam da pobre. Marta parecia-se cada vez mais com a me, na boniteza que recordava aquela moa Jucundina de outros tempos quando conhecera Jernimo, que era tropeiro por aquele serto, e na coragem para o trabalho, em certo fatalismo ao encarar os fatos, em no se desesperar. Era ela quem conduzia Zefa durante quase toda a viagem, tomando sentido para a louca no desaparecer, dizendo-lhe palavras carinhosas, limpando as sujeiras do vestido dela, lavando-lhe os ps quando havia gua de sobra, tocando Tonho para longe.
     Jernimo espia a filha naquele trabalho paciente e todo o seu corao se comove.   Ama aquela filha sobre todas as coisas. 
     Ao contrrio de Jucundina le no pensa demasiado nos filhos que partiram.  Era o destino deles, destino no  coisa que se mude na terra, cada qual nasce com sua sina, tem de cumpri-la. Admira-se at de Agostinho no ter partido, de ter ficado com le. Concentrou toda a sua ternura na filha, para ela le trabalhava o pedao de terra que arrendara do coronel Incio, para que pudesse fazer um bom casamento, com um rapaz de respeito, ter sua casa em ordem, no precisar talvez lavrar a terra.  De outras le sabia que at com rapazes do comrcio tinham casado. Marta era bonita, e mais que bonita era boa, obediente e trabalhadora, bem merecia ser feliz.  L vai ela ao lado da tia, guiando-lhe os passos incertos, como se conduzisse uma criana ou um cego.   E Jernimo se arrepende do modo brusco com que, por vezes, trata Zefa.  Recorda as palavras definidoras de Jucundina quando le gritou com a irm, impaciente:
       uma inocente...
     Os ltimos soluos de Noca confundem-se com o seu ressonar. As palavras mgicas de Zefa espantam as cobras e os lagartos da caatinga. A lua se derrama cr de oiro sobre os mandacarus. Jernimo, aps mastigar seu pedao de carne, vai cuidar de Jeremias que arranca cascas de arbustos, quanto mato verde encontra, quanta folha passa  altura da sua boca. Ao seu lado Jernimo sente-se seguro e confiante. O jumento  o que h de mais slido e inaltervel nessa viagem. Parece incapaz de sentir cansao,  o nico que sabe descobrir gua nas folhas e evita toda erva venenosa como se houvesse nascido e se criado em plena caatinga. Jernimo est lhe tomando cada vez mais amizade, faz-lhe agrados no focinho. A lua ilumina a caatinga, ao longe silvam as cobras venenosas.
     
10
     
     Os gemidos de Noca acordam Jucundina que dormia ao lado dos dois netos. Semilevantou-se, ps a mo na testa da criana. A febre era alta. Olhou em redor,  luz da lua. Devia ser quase meia-noite, calculou. A criana movia-se inquieta no leito improvisado, queimava de febre. Jucundina incorporou-se totalmente, pensava em que trouxa estariam as folhas de erva-cidreira que trouxera.  Ainda haveria por acaso alguma brasa acesa?
     Levantou-se procurando no fazer rudo. Mas ainda assim Marta acordou. Dormia junto com Gertrudes e Dinah, Tonho entre elas. Apoiou-se no cotovelo, viu o vulto de Jucundina movendo-se entre os arbustos. Primeiro pensou que a velha estivesse procurando um lugar no mato onde fazer as suas necessidades. Mas ela se dirigia para as trouxas, acumuladas junto aos homens que dormiam. A lua iluminava todo o pequeno descampado e Marta observou, durante um momento, a velha Jucundina desatando as cordas que prendiam uma das trouxas. E ouviu o gemido de Noca. Compreendeu de imediato o que se passava. Saiu, ainda mais silenciosa e levemente, de entre as companheiras de sono, e encaminhou-se para junto de Jucundina:
       Me...
     A velha assustou-se:
        tu?
     Falava em voz apenas ciciada:
       No faz barulho pra no acordar os outros... 
      Que  que vosmec t fazendo?
       Noca t com febre...    da ferida no p...
       Que  que vosmec t procurando?
       Erva-cidreira...   Pra fazer um ch...   V avivar o fogo.
     J no havia brasas, foi preciso buscar gravetos, os fsforos estavam com os homens. Marta andou de mansinho, tocou no brao de Agostinho. Os trs homens dormiam prximos uns dos outros, e a repetio descansava ao lado de Joo Pedro. Estavam largados, pareciam mortos. Agostinho se moveu, Marta segurou-o pelo brao, falou-lhe ao ouvido:
       No faz barulho pra no acordar Pai e tio Joo Pedro....
     Agostinho esfregava os olhos.
       Os fsforos...
       Pra que ?
       Noca t com febre...   Me vai fazer ch...
       Se precisar tu me chama...  deu os fsforos, deitou de novo, mas no dormiu.  Ficou espiando para os lados onde dormiam as mulheres.   Dinah estava na frente mas ainda assim le distinguia o vulto de Gertrudes, grande para os seus quinze anos, era uma mulher feita, se Agostinho a pegasse a ss...   Era sua prima mas que importava isso?   Podia at casar com ela, o difcil era esperar que aparecesse um padre ou um juiz. Levantou meio corpo, assim podia ver as coxas da moa que sobravam do vestido curto, grossas e  escuras.  Voltou a  deitar,  esperaria  que  chegasse  a ocasio.
     Ferveram as folhas numa lata d'gua. Noca continuava a gemer, Zefa havia acordado e estava em p ao lado da criana. Olhava-a com seus olhos de desvario, nada sabia da ferida nem da febre, mas tinha um sorriso tal nos lbios que amedrontou as duas mulheres.
       V dormir, tia Zefa...  disse Marta.
     Zefa apontou a criana com seu dedo de unha enorme e negra:
       Vai morrer!
       Tesconjuro...   Deus no seja servido...
     A criana gemia. Jucundina levantou-a nos braos, comeou a dar-lhe o ch. Noca sorvia a bebida doce  Jucundina pusera um pedao de rapadura  em grandes sorvos. A febre aumentara os seus olhos que pareciam no pertencer quele rosto chupado e assustado.
       Tou cum frio, v...
       Vai buscar o palet de teu pai...
     Marta voltou com o velho palet de casimira. Nele Jucundina embrulhou a criana.   Deitou-a novamente:
       Dorme...
     Zefa continuava de p, ao lado. O luar batia sobre seu rosto sorridente. Doce sorriso com que ela acompanhava as palavras cheias de definitiva certeza:
       Vai morrer...
     Marta a tomou pelo brao:
       Vem dormir...
     Zefa a acompanhou obedientemente. Ia repetindo pelo caminho, a cabea voltada para trs espiando a criana:
       Vai morrer...   Vai morrer...
     E Jucundina que a ouvia deixou-se encher por aquela certeza. Noca ia morrer... E talvez o pequeno, e Tonho tambm, e Gertrudes, e Marta, e Dinah, depois os homens, todos eles nesses caminhos desgraados. Recordou-se de que os mantimentos diminuam rapidamente, no chegariam nem para a metade da viagem. Sentiu um n na garganta mas no chorou. Atendeu  menina que gemia.
     
11
     
     Na frente iam Joo Pedro e Agostinho aparando os galhos mais agressivos dos arbustos.  Quem visse a estreiteza do caminho diria que h muito no passava gente por ali.  que os espinheiros logo se entrecruzavam, fechando a picada quase imediatamente depois da passagem dos homens.   Havia rastros pelo cho, muitos ps haviam pousado sobre as pedras e o p daquela estrada.   Por ali cortavam caminho.   Jernimo, no tempo que trabalhava de boiadeiro acostumara-se a percorrer todos esses atalhos da caatinga e os conhecia passo a passo durante grande extenso. Caminhava logo aps o irmo e o filho, tocando o jumento.  As mulheres iam atrs, em fila, porque a picada no dava para mais de um. Dinah, que conduzia a criana pequena, defendia-se com o brao contra os espinhos.
     Noca viajava agora num dos caus que Jeremias levava sobre a cangalha. Haviam-no esvaziado e ali Jucundina colocara a menina doente, sentada, o p cada vez mais inchado, a febre cada vez mais alta. Parara de gemer, numa indiferena por tudo, e era Gertrudes quem conduzia a gata. Nos primeiros dias de febre Noca ainda sorria ao ver Marisca e gostava de lev-la consigo, de acariciar seu dorso sedoso, de ouvir os seus miados. Mas, com o suceder do tempo, foi caindo num torpor que amedrontava Jucundina. Ao demais, desde a primeira noite de febre, Zefa no cessara de repetir aquelas palavras como uma praga: 
      Vai morrer...
     Parecia ter esquecido todos os demais termos do seu pequeno vocabulrio de maldies e ameaas. Reduzira-se a essa previso da morte de Noca e a princpio foi intolervel para os viajantes o constante ressoar daquelas palavras, era um agouro que todos desejavam afastar. Mas foram se habituando e se convencendo. Desde a noite em que os gemidos de Noca acordaram Jucundina, a menina s fizera piorar. No havia mastruo nem ch que desse jeito, "a ferida arruinara", como dizia Jernimo. Dentro de cada um deles as palavras de Zefa foram se transformando numa certeza indiscutvel: vai morrer. E ficaram  espera de que a hora chegasse, quando Noca fechasse os olhos e deixasse de sofrer. Dois dias passaram parados junto a um poo numa agonia diante da criana doente. E como ela nem melhorasse nem morresse, resolveram no terceiro dia continuar a viagem pois no podiam gastar mantimento inutilmente. E agora fazem por no se lembrar de Noca que vai no cau. Apenas Jucundina e Marta chegam de vez em quando e do uma espiada no rosto amarelo da doente, de olhos semicerrados, a respirao arfante.
     Zefa repete, no pensando mais sequer em Noca, maquinalmente, as palavras agourentas. E os demais, depois de todos esses dias de espera, j esto, cada um para si, achando que era melhor que ela morresse logo porque est atrasando a viagem, tm que andar no passo mais lento, o sofrimento se arrasta e a comida se acaba.
     
12
     
     E naquele dia no houve gua em todo o percurso. O sol escaldava, as pedras da estrada mais pareciam brasas acendidas, as cobras moviam-se entre os arbustos, Joo Pedro matou uma cascavel com o seu bordo e Tonho apareceu correndo, branco de susto, certa hora, porque encontrara um jararacuu na estrada. Andavam com cuidado e a sede ia aumentando. A pouca gua que levavam, um moringue pela metade, Jucundina a reservava toda para Noca.
     Em determinado momento foi necessrio colocar Tonho em cima da cangalha.   O menino j no agentava andar.   E a marcha se fz mais vagarosa, os olhos de Noca mais fechados, e o cansao de todos cada vez maior.
     Pelas trs horas da tarde Dinah arriou:
      No agento mais...
     Pararam todos, Joo Pedro e Agostinho baixaram os faces. Nenhuma rvore nas proximidades, nenhuma casa  vista, nem uma clareira, nem um descampado. Somente a caatinga, agressiva e inspita. At mesmo Zefa, a quem o delrio sustentava, se deixou sentar e pediu de beber.   Os homens se espalharam em busca de gua.
     Agostinho aproximou-se do jumento, olhou a sobrinha no cau:
      No passa dessa noite... 
     E dizia com um alvio na voz.
     
13
     
     Porm na noite daquele mesmo dia, na continuao da viagem, eles encontraram, numa clareira de onde partia uma larga estrada  em busca da qual andava Jernimo  um grupo grande de imigrantes, aos quais se haviam juntado trabalhadores da fazenda a que pertenciam aqueles terrenos. Eram umas vinte pessoas, entre homens, mulheres e crianas e estavam improvisando uma festa. Havia um tocador de violo  imigrante le tambm  e bebiam cachaa. Os trabalhadores da fazenda tinham vindo no tanto pelos caminheiros pois diariamente passavam flagelados pela fazenda, que iam e vinham de So Paulo.  que na fazenda aparecera um mgico, sobrado de uma pequena companhia de teatro que falira na cidade prxima. O mgico se jogara para as fazendas na esperana de conseguir com os fazendeiros, em paga das suas exibies, o dinheiro com que viajar novamente para o Rio de Janeiro. Nas grandes cidades, nos anncios espalhafatosos, costumava intitular-se Professor Flvio, o Grande. Mas ali, de roupas sujas (havia vendido o guarda-roupa para pagar a penso, conservando apenas o terno que vestia, o baralho para as mgicas e um que outro instrumento dos mais baratos), de cabelo comprido e barba por fazer, voltara a ser simplesmente Jos Duarte. Chegara  mais extrema misria e ia de fazenda em fazenda, exibindo-se primeiro para os coronis, depois para os trabalhadores e colonos, catando magros nqueis, sem nunca poder juntar o suficiente para um percurso maior que mais rpido o pusesse na capital. H mais de dois meses que vai assim, atravessando a caatinga, nem mesmo le sabe da alegria que tem espalhado por estas fazendas de homens que desconhecem o cinema e o teatro.
     J se exibira ante o proprietrio e o capataz. Ante os trabalhadores tambm. Preparava-se para tocar para diante quando soube que um grupo de imigrantes parara em terras da fazenda e resolveu buscar ali mais alguns nqueis.
     Quando Jernimo chegou com a famlia, o mgico ia iniciar o espetculo. Mas como todos se voltassem para observar os viajantes, le tambm parou e resolveu repetir o discurso com que iniciava seus trabalhos. Jernimo cumprimentava:
      B'as tardes...
     Havia umas quantas rvores, viam-se as pastagens que se estendiam ao longe, o criatrio de gado. Distantes estavam a casa-grande, os currais, casas de trabalhadores. Porm o simples encontro com aquele grupo de gente revigorou o corao dos que chegavam.
     Jernimo pediu licena para pousarem ali. Um trabalhador explicou que era preciso ir l em cima falar com o coronel. Mas outro disse que no era necessrio, o coronel j permitira aos que haviam chegado de tarde, a ordem podia valer tambm para a famlia de Jernimo. Comearam a descarregar o jumento e todos viram a criana doente quando foi retirada do cau. Jucundina a deitou junto ao tronco de uma rvore, a gata veio miar perto, rondando a dona, querendo brincar com ela. O menorzinho iniciou o choro reclamando comida.
     Uma mulher separou-se de entre os que cercavam o mgico e veio perguntar o que a menina tinha. Ento todos se movimentaram, interessados, e o prprio mgico, baixando novamente as mangas da camisa, aproximou-se. A conversa logo estendeu-se a todos, Jucundina e Dinah dando explicaes, enquanto Marta e Gertrudes aproveitavam o fogo onde os imigrantes haviam preparado o seu jantar para assar a carne-sca. Agostinho comprou uma penca de bananas de um homem. Enquanto Jucundina dava de comer ao pequeno, Dinah descrevia para as mulheres reunidas a doena de Noca.   Deram conselhos e uma trouxe um remdio, pomada que um mdico receitara para um caso assim acontecido com um filho dela.   Dinah aplicou a pomada mas Noca nem parecia sentir, o corpo mole, os olhos cerrados.   O mgico esperava pacientemente que o movimento acalmasse para iniciar o seu espetculo. No deixava de estar comovido com a viso da criana doente mas o sentimento que predominava nele era o medo de que a ateno dos imigrantes   se   desviasse   inteiramente   para   os   recm-chegados. Homens se haviam oferecido para ir buscar gua, outros ajudavam Jernimo a retirar os caus e a cangalha do jumento, as mulheres buscavam encontrar qualquer coisa que fosse til a Noca, uma delas conversava muito animadamente com Zefa que a ouvia silenciosa, os olhos fixos nos lbios da mulher. Foi preciso que Agostinho avisasse que Zefa era lesa. Outra narrava para Jucundina que j havia perdido dois filhos pequenos naquela viagem, ambos levados pela febre contrada no caminho. O mgico se afastara um pouco e olhava desconfiado toda aquela agitao.  Viu a famlia se reunir para comer, assistiu a Jucundina adormecer Ernesto e deit-lo na rede que voltaram a armar naquela noite.  Na outra ficou Noca, e Marta a balanava levemente.
     Finalmente foram todos se juntando em torno do mgico. le batia palmas com a mo, a noite ia se fazendo escura, a lua caminhava para o quarto minguante. Se demorasse a comear o espetculo, grande parte das mgicas perderia o efeito e os nqueis seriam poucos.
       Ateno!   Ateno!   Vai comear!
     Agostinho havia conseguido chegar at  primeira fila, levando Gertrudes com le. Tambm os outros estavam misturados com os demais imigrantes na curiosidade de assistir ao trabalho do mgico. Apenas Jucundina estava sentada ao lado de Ernesto. Marta, que balanava a rede onde Noca agonizava, disse:
       V vosmec tambm, Me.  V se distrair...  Eu tomo conta dos meninos...
     Jucundina estava com vontade de ver. Ernesto dormia tranqilamente, na outra rede Noca parecia calma. A velha foi andando, como que indecisa, colocou-se ao lado de Jernimo. Marta ficou em p e de cima das razes via as mos do mgico segurando o baralho, o seu rosto barbado, seu sorriso vitorioso.
     Fz um baralho diminuir de vrios tamanhos. As mulheres riam, os homens comentavam. Fz desaparecer um vo da sua mo e foi busc-lo atrs da orelha de Gertrudes. Os risos aumentavam. Fz mais outra mgica, a do dinheiro rasgado dentro do leno, aparecendo inteiro depois. Parou, anunciou que ia fazer um intervalo de poucos minutos para percorrer o distinto pblico em busca do agradecimento. No foram muitas as moedas recolhidas mas o professor Flvio j estava acostumado, sabia que eles davam o que podiam dispor na sua misria, e sentia tambm certo prazer ao proporcionar-lhes aquela alegria. Retornou ao centro da roda, perguntou quem possua um relgio. Um dos homens lhe entregou um grande e velho relgio que emitia um tique-taque alto que todos ouviam. O mgico tomou do leno, botou o relgio dentro, mandou que os da primeira fila pegassem no leno, para constatar que o relgio ali estava. Logo depois deu um n, enrolou o leno, bateu com le repetidas vezes numa pedra. O dono do relgio no pde conter um grito de medo. Mas o mgico sorria e pilheriava. Anunciou que o relgio estava todo quebrado mas que le ia faz-lo aparecer inteiro. Estavam todos de olhos presos nele, inclusive Zefa que o mirava como a um deus, inclusive Marta que esticava o pescoo para ver melhor. Havia ficado na ponta dos ps sobre a raiz da rvore e equilibrava-se segurando o cabo da rede onde dormia Noca. Seus olhos estavam pregados no mgico mas sentiu na mo os estremees da rede e voltou o olhar. E ento viu que Noca estava morrendo, convulsa na rede, batendo os ps e as mos, parecia um pequeno animal ferido. No mesmo momento em que o mgico fazia aparecer o relgio ante as vistas atnitas dos camponeses, Marta gritou, sua voz estrangulada:
       Me, t morrendo...
     E Jucundina veio numa carreira e os demais ficaram suspensos at que a mulher repetiu:
       J perdi dois nessa viagem...
     Ento andaram para a rede e Jernimo sustentou Jucundina que soluava. O corpo de Noca estava de costas, no estertor da morte ela se virar. Marta a retirou da rede e colocou no cho. Era um fiapo de gente, os ossos quase rasgando a pele de to magra. Tonho chegou, sentou ao lado da irmzinha morta, ps-se a chorar.
     
14
     
     No houve muito tempo para a memria de Noca. S tiveram o resto da noite para chorar e rezar por ela. Velaram o pequeno cadver numa sentinela entremeada de conversas tristes, casos acontecidos com aquela gente, cada qual contando suas desventuras, histrias de secas, de terras tomadas, de lutas com coronis poderosos, de crianas morrendo, de doenas e remdios do mato.
     Foi naquela noite que eles voltaram a ouvir falar no beato Estvo. Diziam que o beato andava por perto, vinha vindo no caminho da cidade, muitos sertanejos armados o acompanhavam, homens sem terra, trabalhadores despedidos de fazendas, outros batidos pela seca, fugitivos da justia e mais aqueles que fugiam para no pagar dvidas aos armazns. Vinham todos fazendo penitncia, rezando salmos e padre-nossos, tambm outras oraes que o beato inventava, e anunciavam o fim do mundo. Zefa ouvia atentamente todas as histrias do beato, naquele momento nem parecia louca, desinteressada at do cadver de Noca que tanto a intrigara a princpio. Logo depois que haviam estendido a criana morta no cho, Zefa se apossara do cadver e o comprimira contra o peito, comeara a nin-lo, cantando-lhe cantigas que os parentes no julgavam possvel que ela soubesse. Como se acalentasse o filho que nunca tivera, como se o adormecesse ao som de uma voz doce e carinhosa. Jucundina retirou a criana dos seus braos: 
      Rogou tanta praga, agora  que vem agradar a bichinha...
     Mas Zefa no entendia as palavras, era indiferente ao seu significado, e estendeu as mos pedindo o corpo:
      D le pra mim...
     Foi preciso que Agostinho a levasse dali, com o auxlio de Marta. Ela teve ento um dos seus ataques, gritou e xingou, ameaou a todos, aos parentes e aos desconhecidos que a espiavam de longe. S serenou quando a conversa recaiu no beato Estvo. Do beato Passou para Lucas Arvoredo que era personagem obrigatria de todas as histrias daquele pedao de serto, contaram dos seus feitos, das suas valentias e malvadezas. Tinham-lhe medo, sem dvida, mas no lhe tinham dio, era um campons como eles, sara tambm das fazendas, das terras tomadas, do trabalho de sol a sol. E algum citou Z Trevoada.
      Dizque tem um jaguno que  o mais valente de todos. Um de nome Z Trevoada, dizque porque no pra de atirar,  o mesmo que um trovo...
     Jucundina aguou os ouvidos. Chegou a esquecer o cadver de Noca ao seu lado porque ouvira falar do filho. Durante todo esse caminho que j haviam feito, ela muito se recordara dos trs meninos. Ah! se eles estivessem ali muita coisa seria mais fcil, muito trabalho tirariam das costas de Jernimo e Joo Pedro. Principalmente Nenn que sabia remediar tudo, que tinha um jeito especial para conseguir as coisas, amigueiro como le s, capaz de resolver qualquer situao. Tinham ido os trs embora e ela no se esquecia deles um s minuto. Para os demais  como se eles j no existissem, era preciso que algum falasse, como esse homem que agora fala em Jos, num deles, para se recordarem. Fazia anos que tinham partido, um aps o outro, desaparecendo de noite. Um estava com Lucas Arvoredo, os outros dois eram soldados, um da polcia, outro do exrcito, mas Jucundina no estabelecia diferena entre os trs, no achava que Jos fosse um bandido e Jo e Nenn fossem pessoas direitas. Direitos eram os trs, cada um seguiu seu caminho, seu destino diferente. Tudo que ela desejava era poder v-los novamente, novamente t-los em torno de si. Tudo isso se tornara muito mais difcil desde que haviam sido postos fora da terra de onde os rapazes tinham partido. A Jo ela fizera Dinah  a nica que escrevia melhorzinho na famlia  escrever uma carta, contando-lhe o sucedido e avisando que iam partir para So Paulo, de l escreveriam novamente. A Jos como avisar, se le era Z Trevoada do bando de Lucas Arvoredo, sem rumo nem pouso certo, vivendo pela caatinga, matando gente, saqueando povoados? De Nenn tampouco sabia o endereo. Uns tempos estivera em So Paulo brigando numa guerra, depois parece que fora para o Amazonas, nunca mais nenhuma notcia. Era o mais querido dos trs, o mais distante tambm, aquele do qual nada se sabia. Um conhecido fazia tempos falara dele, que j era cabo, ganhara a divisa na tal guerra em So Paulo. O homem o encontrara na cidade, ia passando num navio com destino a Manaus. Disse que ia pra dentro, pra zona dos ndios, patrulhar a fronteira. Jucundina esperou inutilmente uma carta que jamais chegara.
     Jernimo puxa pelo homem que fala sobre Z Trevoada. Mas o homem pouco sabe, apenas que se trata de um cabra valente, dizem que foi le quem matou o tenente Anselmo num tiroteio. E mais nada soube dizer. O corao magoado de Jucundina no se satisfaz com to poucas notcias. Deixa Marta ao lado do cadver, aproxima-se do homem:
      Que  que vosmec sabe mais desse Z Trevoada...
     O homem est um pouco encabulado de no ter mais notcias, ante tanto interesse demonstrado. Busca na memria, pensa em atribuir a Z Trevoada um crime que houve em sua terra, mas silencia ante a confisso de Jucundina:
       le  meu filho, sabe?  Por isso quero saber...
      Num sei mais nada, si dona, s o que contei.  Dizque  um homem valente, no tem medo de nada...
     Ela ento voltou ao cadver mas agora estava em companhia dos trs filhos, j no se sentia to desesperada. Tonho, silenciados os soluos pelo cansao, dormia sentado. Jucundina o deitou, cobriu-o com os trapos que antes serviam para Noca. E foi ver Ernesto que dormia na rede.
     O mgico estava l, espiando a criana. Quando viu Jucundina se aproximar no a reconheceu.  Apontou para o menino dormindo.
      Esse tambm no dura...
     Estranhou a falta de resposta, olhou para o rosto prximo da mulher. E quando viu que era Jucundina ficou sem jeito, procurando uma palavra com que se desculpar, sem encontr-la, a mo parada no ar num gesto incompleto.
       Se Deus quiser le no morre...
     O mgico abriu os braos, murmurou:
        isso mesmo...    capaz de ficar bom...   Tomara...
     E se afastou, seguido pelo olhar de Jucundina. Misturou-se entre os homens que lhe pediam explicaes das mgicas. A velha espiou a criana. Cada vez mais magra. Ali porm eles tinham conseguido leite, e Jucundina enchera o moringue com leite fervido, dava para todo o dia seguinte. O angu de farinha estava comendo as carnes da criana.   Mas Deus no ia permitir que os filhos de sua filha, que ela tomara para criar quando a me morrera, morressem todos em sua mo.  No, Deus no havia de permitir...
     
15
     
     E os dias rolam sobre os viajantes cujos ps chagaram, as feridas criaram casca e secaram, novas chagas se abriram e o caminho no terminava. Jernimo havia anotado o dia da partida e todas as noites fazia a conta de h quanto tempo estavam viajando. Fazia porm mais de uma semana que deixara de contar, como quem abandona uma tarefa por intil e cansativa. No sabiam mais h quanto tempo viajavam, rasgando a caatinga, parando de quando em vez em fazendas, mas devia ser bem mais de ms porque o mantimento que tinham calculado para trinta dias se acabara totalmente. E eles haviam feito economia, diminudo a rao de carne distribuda a cada um, nos ltimos dias tinham suprimido o jantar, apenas tomavam um pouco de caf antes de dormir. Estavam magros e rotos, quando partiram pareciam camponeses pobres, agora se assemelhavam a bandidos ou mendigos, os cabelos caindo pelas orelhas, as barbas enormes.
     Quando acontecia darem-lhe pousada numa fazenda sempre podiam comprar o que comer e alguma coisa para a continuao da viagem. Isso era raro, porm. Quase sempre os atalhos levavam para longe das casas-grandes e eles no desejavam dar voltas.
     Certa tarde, no entanto, desembocaram no terreiro de uma fazenda, bem distante da casa de moradia do proprietrio. Foram atendidos por uma velhinha que consentiu que eles pousassem numa casa de trabalhadores que estava vazia. Os agregados ainda estavam pelas plantaes trabalhando e eles conseguiram, antes que o sol casse, comprar carne-sca, caf, feijo, farinha e rapadura no armazm. A velhinha deu-lhes tambm um pouco de leite. E os trabalhadores quando chegaram pela noitinha trouxeram notcias do beato Estvo. Constava que le, com seus penitentes  quase mil no dizer dos trabalhadores  chegara a menos de uma lgua dali e acampara numa fazenda vizinha onde comeara a predicar. Mas que soldados de polcia o perseguiam, pois os seus homens j estavam saqueando e depredando as propriedades por onde passavam.
     Naquela noite Jucundina fz um verdadeiro jantar. Feijo com carne-sca, piro de farinha, bastante caf. Achava que os homens bem mereciam comer melhor naquele dia. Vinham de meia rao h mais de uma semana, e nos ltimos dois dias mal tinham provado carne, quase que se sustentaram de caf. Depois de terem comido deitaram pelo cho da casa, de mistura homens e mulheres. Agostinho deitou-se prximo de Gertrudes na inteno de convid-la a sair para os matos com le mas o sono o venceu e le dormiu antes mesmo do movimento da casa terminar.
     Jernimo avisara que deviam partir pela manh bem cedinho, desejava evitar um encontro com os homens do beato Estvo. E realmente acordou ainda com a noite e tratou de ir buscar Jeremias que pastava o gordo capim da fazenda. Alisou o focinho do jumento, pilheriou, tratava-o como a um semelhante, com carinho e estima:
       T tirando a barriga da misria, hein, Jeremias...
     O jantar da vspera, a dormida sob um teto, e as provises conseguidas, haviam-no posto de bom-humor, confiante e resoluto. Ps o cabresto e a cangalha no jumento, tocou-o para frente da casa. Entrou para acordar os outros. Faltavam Joo Pedro e Zefa. Imaginou que estivessem pelo mato fazendo as suas necessidades. Mas logo depois encontrou Joo Pedro em frente  casa metendo uns aipins num dos caus. As mos estavam sujas de terra e Jernimo compreendeu que le fora roubar a mandioca na roa. Aquilo doeu-lhe. Considerava-se um homem de bem, incapaz de um roubo. Quis reclamar com o irmo mas pensou na fome que tinham passado, no caminho que ainda restava pela frente e no disse nada. Perguntou por Zefa:
       Tu viu Zefa?
      No...  Joo Pedro observava o rosto do irmo mais velho e sentiu-se obrigado a uma explicao sobre o caso do aipim.  Tu num v que farturo de macaxeira...   Ontem falei de comprar umas raiz, o capataz disse que s falando com a veia que  a dona da fazenda mas ela j tava drumindo...
     Levantou a cabea:
      A gente tem mulh e filho, se no fizer assim vai morrer tudo pela estrada...   Num chega ninhum...
       No disse nada...
     E para mudar de assunto voltou a perguntar:
       Tu ho viu Zefa?
       Quando sa ela no tava mais...
     Agostinho foi procur-la. Bateu inutilmente as roas em torno, foi at os fundos da casa-grande, andou perguntando aos agregados que se preparavam para partir no rumo das roas onde trabalhavam. Foi tudo intil. Quando le voltou sem notcias, Jernimo quis partir:
       Se no a gente perde o dia...
     Mas Jucundina no consentiu e obrigou a que voltassem os trs e dessem uma batida completa pelas proximidades. E depois ela mesma foi  casa-grande, relatou o caso  senhora que era proprietria e conseguiu ordem para demorar mais um dia na fazenda. Porm todas as buscas foram infrutferas. Pela noite os homens estavam derreados e no traziam sequer uma informao. Tudo o que puderam saber no se referia a Zefa e, sim, ao beato Estvo que partira pela manh da fazenda onde estava e novamente se internara na caatinga. E segundo contavam, fizera milagres e adivinhara o futuro.
     
16
     
     Jucundina no dizia nada mas bem reparava que entre Agostinho e Gertrudes havia algum segredo. Dinah tambm parecia desconfiada e dera para vigiar a filha. Era descuidar-se um pouco e l estavam os dois caminhando juntos lado a lado, numa conversa comprida. Quando paravam para almoar ou dormir, sempre encontravam, o rapaz e a moa, algum jeito de escapulir da vista dos demais e, quando voltavam, Gertrudes tinha um ar entre espantado e satisfeito, ficava cheia de risinhos sem propsito, enquanto Agostinho ia deitar-se no seu canto, calado, procurando evitar conversas. Jucundina no estava gostando daquilo. Agostinho no tinha idade para se casar e quanto a Gertrudes era ainda menina. Ao demais casar como, se no tinham sequer um pouso onde descansar, nem de que viver, nem mesmo trabalho? Se ainda estivessem na roa ela no diria nada, a no ser que Gertrudes precisava esperar ainda uns dois anos para pensar em cuidar de filho e de casa. Compreendia porm que era difcil de evitar o desenvolvimento do caso.   Agostinho, apesar de rapazola, j dera suas fugidas ao arraial em busca de mulher. Naquela caminhada havia de sentir falta e a proximidade da prima, com suas risadas largas, as coxas aparecendo sob os vestidos curtos, era uma tentao permanente.
     Jucundina ficava pensando no que diriam Jernimo e Joo Pedro se desconfiassem do que se estava passando. No tinham nem tempo de notar, o dia todo ocupados nos trabalhos da viagem,  noite mortos de cansao, querendo apenas dormir. No escapava, isso sim, s mulheres. Dinah estava de orelha em p, Marta j sorria quando via o irmo e a prima se afastarem. Jernimo era um homem pacato e bom mas fazia medo quando se enraivecia. Por um caso semelhante Jo partira de, casa para nunca mais voltar. Comeara um namoro com a filha de um compadre deles, o velho Maneca, e ia conversar com ela na margem do rio, todas as tardes. Maneca interrogara Jernimo sobre o assunto. Se o rapaz queria casar, estava certo, le no tinha o que dizer. Mas no queria a sua filha falada, sua honra servindo de pasto para os maldizentes. Jernimo ouviu em silncio, disse que ia tomar uma providncia. Joo no completara ainda os vinte anos, o buo apenas assomava sobre seus lbios.
     Em casa,  noite, Jernimo o interrogou:
       Tu no pode casar, ainda no tem meio de vida...
     O rapaz respondeu que no tinha sastisfaes a dar, era muito dono da sua vida, trabalho no lhe faltava se quisesse ir embora. Jernimo se enraiveceu, tomou de uma tbua, correu em cima de Jo. Jucundina olhava a cena sem coragem de intervir. Marta amedrontada num canto, era uma menina de treze anos. Jo gritara para o pai:
      No me bata, pai, pelo amor de Deus...
     E como Jernimo continuasse a persegui-lo, acrescentou:
       Se vosmec me tocar eu vou embora desta casa... 
     Jernimo no ouvia nada. Perdera a cabea e rebentou a tbua nas costas de Joo. O rapaz no reagiu. Olhava para Jucundina at que ela sentiu-se tontear e avanou em cima do marido:
       Larga meu filho, desgraado...
     S ento Jernimo parou, ofegante. Soltou a tbua, saiu calado para os fundos da casa. Jucundina apalpou os braos, a cabea, as costas do filho.   Jo disse:
      Me, vou embora...
      No faa isso, Jo... Seu pai tava com raiva, le tinha razo, voc respondeu a le...   Filho no responde a pai...
      Vou embora, me, no fico aqui...   Vou tratar de minha vida...   Quero sua bno...
     Ficou diante dela, decidido. Ela compreendeu que le no ficaria de jeito algum. Ento foi buscar os cem mil-ris que tinha guardado para o caso de uma doena ou de uma necessidade inadivel e os entregou ao filho:
       Quando esfriar a cabea tu volta...
       No volto mais, Me.
     Andou para a porta. No levara nada nas mos, s o dinheiro, uma nota rasgada pelo meio, os pedaos colados com sabo. Antes de atravessar o umbral, voltou-se e falou:
       Diga a Pai que me adisculpe...
     Os olhos de Jucundina estavam cheios de lgrimas. Dirigiu-se tambm para a porta a tempo de ver a sombra de Jo perder-se no escuro. Foi o primeiro que partiu. O outro foi com Lucas Arvoredo e Nenn desapareceu uma noite, sem motivo, sem deixar um recado, sem que, durante muito tempo, soubessem o que tinha sido dele. Ficara apenas Agostinho, o mais moo dos quatro. E agora estava le metido com Gertrudes, nas conversas nos escondidos, com encontros pela mata. Aquilo no ia terminar bem. Jucundina murmurava para si mesma:
        melhor casar antes que ela se perca...
     O que no faria Jernimo se isso acontecesse?   Nem queria pensar...
     
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     E foi assim, entre a inquietao e os tremores de Jucundina e Dinah, que o amor se processou na caatinga. A comida faltara de todo e eles perdiam uma parte do dia para buscar o que comer. Um tatu, de quando em vez uma paca, uma pre. Mas na caatinga era difcil caar. Tinham que gastar horas no rastro do bicho e a viagem arrastava-se. Agostinho chegava a pensar que o pai perdera o rumo e s quando encontravam gente que lhes informava que seguiam na rota certa, le ficava mais descansado e confiante.
     Tudo que desejava era chegar quanto antes a uma cidade, ou a uma fazenda, onde conseguisse trabalho e fosse viver com Gertrudes. A fome o fazia irritadio e mesmo com a prima le brigava, j que ela comeara a se recusar a acompanh-lo ao mato. No prolongamento da caminhada e com o aumentar das intimidades com o corpo jovem de Gertrudes  os apertos, os encostamentos, as carcias com a mo  le foi se tornando cada vez mais exigente, disposto a possuir a moa ali mesmo pelas estradas, apesar de que antes lhe prometera s tomar dela depois que encontrassem um padre que os casasse e um lugar onde ficar. Agostinho j no pensava em viajar at So Paulo. Em fazendas por onde passavam ofereciam-lhe trabalho, muito mal pago,  verdade, mas le estava por tudo desde que pudesse ficar com Gertrudes.
     Certa tarde a moa apareceu com o lbio partido. No parecia ferimento produzido por espinho, como ela disse. Dinah a ps em confisso e ela terminou contando que fora Agostinho que lhe dera um soco. Quisera peg-la a pulso, ela resistira, le ento lhe batera. Dinah ficou como louca. Parecia Zefa nos seus piores dias. Jernimo e Joo Pedro tinham partido no rastro de um tatu e Agostinho sumira. Estavam apenas as mulheres e Tonho. Quando Jernimo e Joo Pedro saram atrs da caa  ainda no haviam comido naquele dia  Agostinho deixara-se ficar a pretexto de velar pelas mulheres.   J estava de plano feito, seu sangue fervia.
     Dinah, depois da confisso de Gertrudes, foi diretamente a Jucundina. Davam-se bem as duas, e se tratavam de comadre, se bem fossem apenas concunhadas, sem que nenhum parentesco de sangue as ligasse realmente. Porm, Joo Pedro e os seus, sempre haviam vivido um pouco na dependncia de Jernimo que os ajudara nos anos mais difceis, que era o irmo mais velho, aconselhava, dava a ltima palavra nos negcios e nos casos complicados. Dinah chegou ainda cheia de raiva, a fome os tornava a todos agressivos e impetuosos. Estavam magros, todos eles, parecendo figuras imaginadas, os cabelos pedindo corte, os piolhos pulando, os corpos sujos, os vestidos e as roupas em farrapos, como se fossem restos de uma populao batida pela guerra. Qualquer coisa os irritava. A prpria Jucundina sentia-se doente e de fcil raiva, resmungando o tempo todo, reclamando contra tudo, trocando speras palavras com o marido.   Apenas Marta conservava-se mais calma, era ela quem aparava os choques,  quem ainda tinha cabea para atender os meninos  o pequenininho cada vez mais fraco. Tonho com uma tosse seca, "tosse de cachorro", como classificava Jucundina. Dinah veio gritando do outro lado:
       Comadre!   Comadre!   Chega aqui...
     Mas foi ela mesma quem andou at onde estavam Jucundina e Marta tentando dar um pouco de angu a Ernesto. Tonho tomava conta do jumento que arrancava cascas dos arbustos, aqueles que seu instinto lhe apontava como os que mais continham gua. O menino j se habituara a mastigar e engolir, nos dias de mais fome, pedaos de cascas de rvores arrancados por Jeremias.
       Que , comadre?
     Jucundina ps-se de p, tal o estado de Dinah. Teria sido mordida por uma cobra? Um dos receios maiores de Jucundina: que uma cascavel ou uma jararaca mordesse algum deles. Era morte certa e vivia recomendando aos homens que tomassem cuidado. Muitas cobras j haviam matado no decorrer da viagem e uma delas quase mordeu Tonho, se o menino no pulasse rapidamente do bote o teria alcanado.
     s primeiras palavras de Dinah compreendeu o que se passava. Tinha que suceder, at j estava demorando.  Dinah ameaava:
       Se le fizer mal na menina, Joo Pedro mete bala nele e  bem feito...
       Cala a boca, mulher sem juzo...
     Esquecia-se que ela tambm se entregara a Joo Pedro nos matos, que vivera amigada com le muitos anos, que s muito depois casara, quando um padre fora celebrar Santa Misso na fazenda.
     O grito de Jucundina teve um bom efeito sobre os nervos de Dinah. Calou-se e as lgrimas comearam a correr pelos seus olhos. Jucundina continuava com raiva, falando agressivamente:
       Tu acha que meu filho no  bom pra tua filha?  le  at bom demais...   Que marido melhor tu pode encontrar...
     A voz de Dinah veio baixa e calma:
       Num tou dizendo que le  ruim...   Se le quer casar com a menina num vou dizer no...   O que no quero  ver a menina se desgraar pelos matos, ficar uma perdida por a...
     O  resto  da  conversa  decorreu  tranqila. Combinaram  que Jucundina falaria com Agostinho, acertaria que o casamento seria feito na igreja da primeira cidade onde passassem. 
       mais mi, assim.
     Os homens voltaram pela noitinha, no tinham caado nada. Agostinho s chegou mais tarde, pelo olhar dos demais compreendeu que no havia o que comer. Procurou enxergar Gertrudes na escurido que o fogo no conseguia romper e a viu num canto encorujada, o lbio inchado. A criana pequena chorava e a gata miava, havia crescido durante a viagem, estava magra e bravia, era uma dificuldade para peg-la mas os acompanhava pela estrada como se fosse um co. Mais de uma vez trouxera pres caadas e as atirara aos ps de Marta que, aps a morte de Noca, ficara cuidando dela.  verdade que quando trazia uma pre  que j havia comido outra, estava de barriga cheia. Ainda assim aquele seu instinto de caadora impedira que eles a abandonassem pelo caminho.
     Agostinho sentia fome. Nada comera durante todo o dia, a ltima refeio que havia tomado fora um piro de farinha e um pedao de rapadura comidos no meio-dia da vspera. O que ainda restava de farinha Jucundina guardava avaramente para Ernesto. Dera uma sova tremenda em Tonho porque o encontrara roubando um pouco de farinha que restava no fundo do saco.
     Jucundina chamou o filho:
      Agostinho, senta aqui...
     Antes de sentar, espiou a face de Ernesto. Nem assemelhava-se mais a uma criana. O prprio Agostinho no sabia como o menino ainda resistia. Os ossos quase furavam a pele, era um molambo envolto em trapos. Agostinho respeitava Jucundina mas tinha medo desta conversa de agora. Eram todos eles de poucas palavras, de curto vocabulrio e no sabiam se expressar bem, as palavras no revelavam quase nunca a verdadeira extenso dos seus sentimentos.
     Acocorou-se em frente a Jucundina e ficou esperando. Ela no sabia como comear, no era fcil, no sabia jogar com os vocbulos e tinha medo de que o filho se irritasse como acontecera com Joo. Decidiu-se finalmente, quando o silncio j se tornava pesado e desagradvel, a ir diretamente ao assunto:
       Tu quer casar com Gertrudes?
     Agostinho fechou o rosto, rugas cortaram sua testa.  Baixou os olhos, com um graveto remexia a terra seca da caatinga:
       Casar, amigar, juntar com ela...   Qualquer coisa...
       Tu no pode esperar at a gente chegar em So Paulo, t com a vida arrumada?    mi pra todo mundo...   A gente pode fazer um casamento direito, com padre e juiz...   Num pode t longe de Juazeiro, Jernimo diz que mais uns dias ns chega l... Depois  de navio e trem de ferro, num demora...
     Agostinho sacudiu a cabea:
       Num vou pra So Paulo...   Vou ficar na primeira fazenda que encontrar e quiser trabalhador.
       Dizque em So Paulo um homem ganha dinheiro, trabalhador  gente, por aqui trabalhador no vale nada, t sobrando, eles s quer pagar porcaria...
     Agostinho cocou a cara, impaciente:
       Num tem nada, me.   Vosmecs vo, Pai j t na teno de So Paulo.  Pode ser que chegue l e seja feliz.  Pode ser tambm que morra tudo pelo caminho,  o mais certo...   Mas eu no quero morrer, tenho meus braos, vou trabaiar onde houver trabaio. E levo Gertrudes comigo...
     Jucundina sentiu que era uma deciso definitiva, to definitiva quanto a de Jernimo de alcanar So Paulo e ganhar a dinheirama que havia por l. Conhecia os seus filhos, eram todos assim, haviam sado ao pai. No adiantava discutir, nem pedir, nem rogar, muito menos ameaar. Era o ltimo que ia embora, que os abandonava, que ia cumprir seu destino. E esse levava mulher, menina que ainda no servia para nada, quando tivessem filhos como iria ser? Pensou nos trs que haviam partido antes, Jos, Jo e Juvncio. Estariam casados? Teriam mulher e filhos? Jos ela sabia que no, cangaceiro no pode se casar, no tem o direito de pensar em filhos. Sua vida  uma corrida sem fim, e agora, que est viajando pela caatinga, ela sofre ainda mais pelo filho cujo quotidiano  esse, alm dos tiroteios e dos assaltos.
     Agostinho espera que ela fale. Tem receio das splicas, dos pedidos que ela possa lhe fazer. Armou-se contra tudo isso com uma deciso inabalvel. E se comearem a aborrec-lo le os largar ali mesmo. Tomar de Gertrudes e iro os dois em busca de uma fazenda. Jucundina fala mansamente, Agostinho no se recorda de ter ouvido sua me to terna e carinhosa:
       Se tu quer casar com ela que case...   Ningum tem direito de impedir...   Mas tu tambm no tem direito de largar a gente assim, no mato, de mochila nas costas, feito penado, pra ir embora, s cuidar de tu mesmo.   Eu posso falar assim porque fui eu quem te pariu e te deu de mamar nos meus peitos...  Se tu quer ir embora ento tu vai esperar que a gente chegue em Juazeiro e tome o vapor...    mais uns dias s, que  que te custa?  Tu no vai ter corao to ruim que largue me e pai na estrada como uns bichos do mato...
     Agostinho concordou:
       S tava querendo ir embora se me aborrecessem, se comeasse todo mundo a se meter na minha vida...   J tou homem, posso procurar minha melhora...   Vosmecs vai pra So Paulo, eu no quero ir...
       Tu t de cabea virada...   Eu num tou dizendo que tu v cum nis pra So Paulo.   S que v at Juazeiro...
       T bom.  At Juazeiro... 
     Jucundina ainda no estava sastifeita:
       Tem outro porqu...
       Que ?
       Tu vai deixar a menina em paz at chegar l...   Quando  chegar tu casa ou faz o que quiser...  Mas no vai fazer mal a ela no caminho que  para evitar uma desgraa...
     E completa:
       Se acontecesse eu no gentava...   Era capaz de morrer s do desgosto...
     le levantou-se sem dizer nada. Mas ela leu nos seus olhos e no seu gesto com a mo que concordava e sabia que em Agostinho podia confiar. Ainda assim ficou esperando uma palavra e s sorriu quando le disse:
       T combinado, Me.   Vosmec pode ficar descansada... 
     Andou para onde estavam os homens, ela o acompanhou com o olhar.   O estmago doa com fome.
     
18
     
     Joo Pedro foi devagarinho, na ponta dos ps, mas a gata fugiu a tempo. Agostinho compreendeu o que le queria e gritou para o pai, enquanto tomava posio em frente a Marisca:
      Cerca do lado de l, Pai...
     A gata vigiava cada movimento. Estava parada, os olhos indo de um para outro homem, esperando a ocasio para o salto. Jernimo se colocara num dos ngulos do terreno e entre os trs, apertaram o cerco. A gata tambm parecia ter compreendido a inteno deles. No haviam trocado palavras, o gesto de Joo Pedro fora suficiente para que os dois outros se lanassem  caa da gata. Mais de uma vez haviam planejado com-la. Nos dias de maior fome olhavam para ela com olhos cpidos, apesar de sua magreza. Mas encontravam sempre a resistncia de Marta e, como durante a viagem a moa fora adquirindo uma certa influncia sobre todos eles, os projetos no passavam dos olhares e da inteno.
     Naquele dia, porm, a fome estava por demais. E Marta no se encontrava perto, andava cuidando de Tonho e de Ernesto, era a ocasio mais propcia. No falavam, colocavam um p adiante do outro, paravam observando a reao da gata. Estava magra e ainda no completara o crescimento, seria um pobre jantar mas era melhor que nada, era melhor que aquela dor no estmago que parecia ratos roendo e dava uma tontura na cabea, um amargor na boca. Como o fumo de corda tinha acabado antes dos mantimentos no podiam, fumando, enganar a fome. De tudo o que faltava o que mais desesperava Joo Pedro era o fumo. Gostava de amassar seu cigarro de palha e nos primeiros dias em que no teve o que fumar parecia que ia sair doido. Aos poucos, porm, a fome foi superando a falta do fumo e agora le s pensa na gata em sua frente. To prximos esto uns dos outros que podiam se dar as mos e fazer uma roda. Agostinho vai se curvando sobre a gata, as mos estendidas. Marisca est atenta e salta no momento exato em que le a ia pegar. Salta para o lado. Jernimo se adianta, ela passa entre suas pernas, se esconde atrs dos arbustos. Para ela agora  uma brincadeira, quando Noca era viva gostava de correr com ela, tentar peg-la, Marisca a engan-la com seus saltos.
     A corrida entre os arbustos atrai as mulheres.  Percebem o que t se passando e no dizem nada.  Antes mesmo de Marta abrir ,a boca, Jernimo atalha:
       No tem outro jeito...  Nis no vai morrer de fome...  e ordena que vo botar gua para ferver...
     Vm conduzindo gua com grande sacrifcio. Conseguiram um barril numa fazenda e o enchem em quanto poo encontram, trazem-no num dos caus nas costas do jumento. Enquanto perseguem a gata, de arbusto em arbusto, ouvem como Dinah enche a lata, pe a ferver sobre as brasas antes inteis. Aquilo os anima, faz com que prossigam com mais coragem aquela ridcula caada, a gata a escapar-lhes das mos, passando entre as suas pernas. O tempo decorre e os homens no conseguem peg-la. Tonho veio se juntar a eles e se feriu todo nos espinhos. Foi chorar junto de Marta que espia, sem palavras, a corrida dos parentes e os saltos da gata.
     Quem primeiro desiste  Jernimo. Passou o dia atrs de caa, no mato,  muita coisa para um velho com fome. Diz um palavro e fica quieto, vendo os outros dois que ainda persistem. Afinal a gata se cansa da brincadeira, foge pela caatinga. Agostinho ainda tenta acompanh-la, olha com raiva para o lado de Marta como se a considerasse responsvel pelo fracasso. Tambm Joo Pedro a olha mas seu olhar tem outro significado. Bem que ela poderia pegar a gata, sem nenhum esforo, se assim o desejasse. Marisca confia nela, dorme ao seu lado, no calor do seu seio. Marta entende o olhar do tio. Ser que lhe iro pedir? Mas nenhum tem coragem de pronunciar palavra. Apenas a fome est presente em cada face, na do menino que chora, de Dinah que ferve a gua intil, de Jucundina que atende ao menino pequeno. Os homens esto na dependncia do seu gesto. Esperam e ela sabe que no pode suportar durante muito tempo aqueles olhos parados, insistentes, suplicantes.
     A gata mia entre os arbustos. Marta se decide. Vai andando lentamente para o lado onde ela est chamando-a com sua voz amiga:
       Marisca... Psiu  psiu... Marisca...
     A gata sai de seu esconderijo.   E corre confiante para Marta.
     
19
     
     E, em meio  fome, a sede e o cansao, Dinah caiu doente. A febre veio  tardinha, quatro dias depois de haverem comido a gata. Jantar insuficiente. Marisca estava quase to magra quanto eles, e mastigaram os ossos, apenas Marta se recusara a comer apesar de todos os rogos de Jucundina e de todas as palavras duras de Jernimo. O velho no gostava de brigar com a filha, a cada hora se acarinhava mais com ela, sentia todo o auxlio que ela lhes estava dando. Dinah no podia mais ajudar, queixando-se de dores, no trabalho com os dois meninos, no conduzia mais nenhuma das trouxas, ia quase se arrastando pelo caminho. E Marta tomara para si a sua parte no trabalho.
     Quando a febre chegou, anunciada pelos arrepios, Dinah se esforou para continuar a andar. Faziam poucas lguas por dia, o passo era lento, faltavam as foras para uma caminhada mais longa. Dinah no disse nada nem mesmo a Gertrudes que ia a seu lado (desde que descobrira o namoro da filha com Agostinho no a deixara afastar-se de si, trazia-a vigiada, no lhe bastavam as promessas de Jucundina). Continuou a andar. Foi naquela tarde que Agostinho matou a jibia na picada. A cobra digeria qualquer volumoso animal que comera horas antes, estava adormecida e foi fcil mat-la. Pararam para cozinhar um pedao da carne, levaram outro para comer depois.
       Isso no  comida de cristo...  disse Jucundina, mas no podia discutir.   Se no fosse a jibia no sabia como poderia ter continuado.
     Aps terem comido levantaram-se para continuar a jornada. Jernimo achava que, tendo matado a fome, bem podiam fazer um pedao de caminho, at que a noite se cerrasse completamente. Tangeu Jeremias, gritou para os parentes:
       Toca, gente...
     Dinah no conseguiu pr-se de p. Foram os chamados de Gertrudes que fizeram a caravana parar. Joo Pedro veio correndo saber o que era.
       Febre ruim...
     Na bagagem ainda tinham umas plulas com que Joo Pedro se tratara de uma febre assim. No sabia que febre era, o mdico falara em paratifo. E agora era Dinah quem a febre pegava e derrubava na estrada. Aquela febre que no perdoava, que eles temiam sobre todas as coisas. Dinah tremia de frio apesar do calor que reinava em torno, no fim da tarde.
     Juntaram todos os trapos em cima dela. E ali ficaram seis dias comendo o resto da jibia, caando umas pres, descansando tambm. Ficaram seis dias que foi o tempo que a febre durou. Dinah morreu pela manhzinha, justo no dia em que novamente havia acabado o que comer e j no havia sequer uma gota de gua. Enterraram-na quase  flor da terra, no tinham foras para cavar fundo. Os urubus voavam agora em grandes grupos sobre eles, eram sua nica companhia na viagem. Jucundina os olhava como um agouro.
      To esperando que a gente no possa mais enterrar defunto...
     
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     Os urubus ficaram para trs. No custou muito trabalho remover a pouca terra que cobria o corpo de Dinah. Tambm eles no encontravam muito que comer no desolado da caatinga. Juntaram-se num bando irrequieto e barulhento, trocando bicadas entre si, sobre o cadver. Adiante Jernimo que no os via no cu, a persegui-los, imaginava o que se estava passando. Tambm Joo Pedro sabia que eles estavam devorando o cadver de sua mulher. Mas no tinha coragem de voltar, de perder mais tempo como no tinha mais foras para sofrer nem lgrimas para chorar. Aos poucos iam se compenetrando de que no chegaria nenhum ao fim da viagem, a nenhum seria dado ver a fartura que existia por So Paulo. Mas marchavam para diante que pior seria voltar. E voltar para onde se j no tinham terra, nem casas, nem mandiocal nem milharal?
     Pelo meio da tarde novamente os urubus os alcanaram e voavam em crculos sobre eles.
     
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     S no morreram todos de sede porque Joo Pedro, batendo as redondezas, encontrou um resto de gua num poo que secara. Beberam quanto puderam mas o que restou no deu sequer para encher o barril. Agora que no tinham de parar para almoar e jantar, comiam quando conseguiam encontrar frutas do mato ou algum animal, agora paravam vrias vezes pelo caminho. Andavam dois e trs quilmetros e tinham de descansar, as foras faltavam. Apenas Jeremias mostrava ainda disposio para continuar. Jer-nimo costumava dizer que "abaixo de Deus eles deviam ao jumento ainda estarem vivos". No era apenas Tonho que fazia atualmente parte do caminho no lombo de Jeremias, montado na cangalha. Tambm Jucundina, quando as pernas se negavam a caminhar, era encarapitada entre os caus e o jumento a conduzia. Jernimo chegou a estim-lo como a qualquer dos parentes que iam com le. Nas longas horas do percurso, sob o sol ardente, as costas cansadas como se levasse um peso de quatro arrobas, gostava de falar para Jeremias, dizer-lhe palavras animadoras. Segurava no focinho do jumento, dava-lhe tapinhas, prometia-lhe um pasto gordo quando chegassem. Se bem soubesse que mal avistassem Juazeiro o que lhe restava fazer era vender o jumento que da em diante seria intil. Apesar de magro ainda daria algum dinheiro para ajudar o resto da viagem. Se Jernimo pudesse o levaria consigo para So Paulo, soltava-o no pasto e o deixaria livre para o resto da vida. J trabalhara demais, bem merecia descansar os anos que lhe restassem, com bom capim, guas bonitas para le se divertir, nada para fazer.
     Mas nem sequer o pde vender em Juazeiro porque, quando a sede apertou de novo, o pouco de gua que restava sendo apenas para Ernesto, dada gota a gota, quando eles pensaram que j no poderiam suportar e sentiam inveja de Jeremias que mastigava cascas de arbustos onde a gua se conservava, o jumento comeu erva venenosa, no desespero de nada encontrar com que matar a sede e a fome. Seu instinto lhe advertia mas no adiantou. Durante toda a viagem, enquanto encontrou casca de rvore, espinho de mandacaru e xiquexique Jeremias se guardara de comer tingui, a erva verde e convidativa. Mas  assim sucede com todos os da sua raa na caatinga  chega um momento em que a fome e a sede superam tudo. Zurrou longamente, seus olhos muito abertos como que se despedindo da paisagem seca.
     Viram os urubus que voavam sobre le. Mesmo antes do animai cair j o picavam. Alis os urubus estavam ficando cada vez mais atrevidos, pousavam ao lado dos caminhantes, rondando, e era preciso tang-los com paus e pedras para que alassem vo. A sombra que eles projetavam sobre a terra era a nica naquele solo de vegetao rala e mida, sem animais e sem verdura.
     Viram os urubus voando com pedaos do animal no bico, nem tinha morrido de todo. Os soluos de Jucundina estremeceram os arbustos.
     
     
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     O que doa a Jernimo como uma injustia  que se Jeremias houvesse resistido mais um dia no teria morrido. Porque no dia seguinte chegaram a uma fazenda que era uma beleza. Tinha um aude e parecia muito pouco afetada pela seca. Estavam em plena colheita e necessitavam de trabalhadores. Todos eles trabalharam alguns dias para assim poderem comprar mantimento suficiente para o resto da viagem. Foi ali que Jernimo soube que errara o caminho, que j poderia estar em Juazeiro se tivesse seguido direito. Agora tinha que varar para o leste, andar como umas trinta lguas que era a distncia que o separava da cidade. Por outro lado, porm, ia viajar em terras frteis, no necessitava se embrenhar novamente na caatinga. Cruzaria um ou outro trecho mas quase toda a viagem seria por estradas largas onde passavam at caminhes.
     Quando voltava do trabalho na lavoura (tinham lhes dado uma casa onde dormir) sentiu a picada nas costas. Uma dor fina e aguda. Empinou o corpo mas a dor no passou, era como se algum lhe enfiasse uma agulha entre as costelas. Sentiu um amargor na boca, cuspiu vermelho. Seu rosto tornou-se sombrio mas no disse nada em casa, no outro dia voltou para o trabalho. A dor se renovava de quando em vez e le se sentia febril nos fins das tardes. Era aquela caminhada sem comida.
     Passaram uma semana na fazenda, trabalhando. No sbado fizeram as contas, com o saldo ganho compraram mantimentos. No queriam bulir no dinheiro contado que levavam, era para as passagens no navio. Com a estada na fazenda Ernesto melhorara e, se a viagem no fosse ruim dali para diante, no haveria perigo dele morrer. Jucundina encontrava-se quase alegre na vspera da partida. Apesar de que Jernimo parecia mais cansado e magro do que nunca, uma tristeza nova em sua face.
     Naquela noite reuniram-se todos na casa para o jantar. Gertrudes estava de olhos baixos e no quis comer.
       O que  que tu tem, menina?  perguntou Jucundina...
       Nada, no, sinhora... 
     Joo Pedro falou spero:
       T doente?
       Inh, no...
     Jucundina procurou com os olhos a Agostinho. le respondeu ao seu olhar com um gesto. Ela ficou  espera do que sucedesse. O filho comia seu piro com carne-sca, sem falar, procurava um jeito de comear.   Jernimo tossiu.
      Pai...
      Que  que tu quer...
       Vosmecs j to perto de chegar...   De Juazeiro pra l  de navio e de trem...
     Jernimo esperava que le completasse. Gertrudes foi saindo s escondidas para a frente da casa. Joo Pedro ouvia atento as palavras de Agostinho.
       Eu vou ficar por aqui...   Peguei uma empreitada pra colher uma roa, no vou com vosmecs...
       Tu vai ficar?
     Se no se sentisse doente e fraco, Jernimo teria sido capaz de rebentar Agostinho de pancada. Onde j se viu largar a famlia assim quando esto todos viajando para longe? Mas a viagem mudou em muito o velho Jernimo. Sua famlia est desmantelada. Morreu gente pelo caminho, outros esto doentes, le mesmo com aquela dor nas costas e aquele calor no rosto...
       Tu quer ficar, pode ficar...   Eu te deito minha bno pra Deus te ajudar...   Nis vai pra frente, isso aqui no tem futuro...
      Quem sabe depois eu no vou encontrar com vosmecs? Se no me der bem por aqui...
       Vamos dormir...  completou Jernimo. 
      Pere a, Pai...
       Que ?
       Gertrudes quer ficar cum eu...
      Hein?
       Nis vai casar logo que o padre aparea por aqui.   Dizque vem pra uma festa...
     Jernimo olhou para Joo Pedro. No havia nenhum protesto no rosto do outro que levantava as mos:
      Antes seja com le que com outro qualquer... S quero  que case, no quero ter filha perdida por a...    uma vergonha que a finada no desejava...
       Nis vai casar...
       Tu j fz mal a ela?
       No.  Prometi a Me arrespeit e arrespeitei...   Mas agora ns vai ficar...
     Jucundina falou pela primeira vez:
       Tu me garante que casa?   Pela alma da me dela?
       Juro pra vosmec...    logo o padre chegar...
     No outro dia partiram sem eles. Gertrudes no chorou. Parecia contente na sua casa. Agostinho ia para o campo, levava uma foice. Jernimo se perguntava, como iriam se arranjar em So Paulo, le doente, o irmo com pouca iniciativa, Jucundina, Marta e as crianas? Se vivesse at v-los assentados num pedao de terra onde Joo Pedro fosse colono, pelo menos morria satisfeito. E novamente lembrou-se de Artur e do doutor Aureliano mas j nem tinha dio de to cansado estava, de to desanimado.
     
23
     
     Os imigrantes acampavam por detrs da igreja. Sempre havia muitos, a cidade era passagem obrigatria de todos os que iam para Pirapora de onde partia o trem para So Paulo. Em frente, do outro lado do rio, ficava a cidade de Petrolina, era o Estado de Pernambuco. Mas, mesmo os que chegavam daquele lado, logo atravessavam nas canoas para Juazeiro onde estavam as agncias de navios, onde podiam comprar passagens. E seu interesse era embarcar quanto antes, deixar para trs a lembrana da viagem pela caatinga, a saudade dos mortos, a recordao de tanto sofrimento. No havia entre tantas famlias acampadas na praa quase nenhuma que contasse com o mesmo nmero de pessoas com que partira. Todos tinham histrias que narrar e nenhuma delas era alegre. Por tudo isso o que desejavam era embarcar quanto antes. Os navios partiam com as terceiras classes abarrotadas e por vezes os imigrantes tinham que esperar vaga porque eram muitos e os vapores comportavam pouca gente apesar de que na terceira classe os sertanejos seguiam amontoados quase que uns por cima dos outros.
     Era uma tarde quente de vero. O sol levantava a poeira nas ruas e as janelas da maioria das casas estavam fechadas. Homens passavam em manga de camisa e no acampamento dos imigrantes a vida fervia apesar das doenas, do cansao e das dificuldades em conseguir passagem.
     Junto ao mercado havia sempre uma pequena multido que comprava e vendia. Montes de alpargatas, compra obrigatria dos imigrantes que chegavam com os sapatos em runas, roupas de mescla, vestidos baratos para as mulheres, carne de boi, alguma hortalia. Foi bem na porta central que o jumento veio se bater. Quem primeiro o enxergou foi um moleque que pensou que le pertencesse a algum sitiante das proximidades. Tangeu-o mas o jumento estava com sede e pretendia beber gua numa tina que estava na frente do mercado. Por pura curiosidade, gratuitamente, o moleque espiou para dentro do cau, a ver o que o jumento conduzia. Viu a primeira criana morta, ficou apavorado, sem fala. Tocou no brao do cego que pedia esmola na porta.
      Que ?
     Viu que era o cego, afastou-se, chamou a mulher que vendia inhame e puba. Logo juntou gente, havia uma criana morta em cada um dos caus. Foram em busca do delegado. No existia mistrio que resolver. Tratava-se de alguma famlia de imigrantes que tinha se acabado pelo caminho. Era fcil sarem doze ou vinte do alto serto e ficarem todos pela estrada. O jumento resistira e andara at a cidade.
     Formaram uma caravana para voltar sobre o rastro do jumento ver o que tinha acontecido. Iam uns sete homens, levavam armas, remdios e leite. Com hora e meia de caminho encontraram a famlia de Jernimo que descansava sob uma rvore. O velho tinha vomitado sangue e estava exangue. Foram eles que deram notcia dos mortos mais adiante, os donos do jumento. Haviam deparado com um casal morto  fome uns quilmetros para frente. E eles estavam tambm prximos a morrer. Os homens deitaram Jernimo na rede, apenas dois continuaram o caminho em busca dos cadveres. Iam fazer a caridade de enterr-los, era fato comum nas proximidades de Juazeiro a morte de flagelados.
     Conduziam a rede nos ombros. Jucundina levava Ernesto nos braos, um homem teve pena, tomou a criana, ficou admirado que vivesse ainda, to magra estava. Joo Pedro e Marta mais se arrastavam do que mesmo andavam. O mais animado de todos eles, o que ainda podia andar, era Tonho. Um dos homens que estavam com as mos livres o colocou nos seus ombros:
       Pobrezinho...
     E assim entraram na cidade. Jucundina olhava a rede onde ia Jernimo. No serto de onde chegavam era assim que enterravam os mortos. Levavam nas redes, balanando, lguas e lguas em busca do cemitrio. Seu corao se apertava ao ver o marido sem foras, botando sangue pela boca, sendo levado como um defunto. S faltavam as velas e as oraes.
     Foram diretamente para o Hospital. Uma enfermeira os atendeu, um dos homens explicou, Jucundina ouvia as palavras:
       Tuberculose...  T ruim...
     Houve uma discusso da qual ela nada percebeu. Tinham vindo homens l de dentro, vestidos com uma bata branca, eram mdicos, conversaram na porta. O Hospital estava superlotado, Joo Pedro que acompanhava a conversa veio explicar. Ainda assim tinham consentido em deixar Jernimo ficar para o examinarem e verem o que podiam fazer por le. Jucundina assistiu a rede ser levada para dentro. Um dos homens que viera com eles explicava como chegar ao acampamento dos imigrantes e onde era o mercado para se abastecerem. Podiam vir visitar Jernimo no outro dia, naquele era impossvel.   No era permitido.
     No havia nada no mundo de que Jucundina tivesse tanto medo como de hospital. Pobre quando entra em hospital no sai mais a no ser para o cemitrio. Aprendera isso ainda menina e a longa experincia da sua vida s fizera que essa convico se arraigasse em seu esprito. Quando finalmente desceu as escadas do hospital foi como se estivesse se despedindo de Jernimo para sempre. Tinha certeza de que no mais o voltaria a ver.
     Mas, contra toda a sua expectativa, trs dias depois le saa. Menos por ter melhorado do que pela dificuldade de leitos na casa de sade. Passada a crise, os mdicos constataram que a doena ainda estava na fase inicial. Deram uns poucos remdios e muitos conselhos. Descansar, dormir aps o almoo, no se dedicar a trabalhos pesados, alimentar-se muito e bem. Tudo o que le no podia fazer ou tudo o que le no podia deixar de fazer.

O rio

1
    
     O homem das passagens lhe havia explicado que a viagem no rio demorava em mdia uma semana. Que no podia, no entanto, afirmar com certeza porque s vezes os navios encalhavam e levavam dias parados, os marinheiros ocupados no trabalho de arranc-los do banco de terra. Deu todas essas explicaes de m vontade, passava o dia atendendo a imigrantes que queriam passagem e no encontrava nada de agradvel naquela tarefa.
     Quando Jernimo, acompanhado de Joo Pedro, chegou para adquirir os bilhetes, o guich estava ocupado por outro imigrante. Ouviu o final do dilogo:
       Vosmec no pode fazer um abatimento?
     Aquele pedido devia ser muito familiar ao vendedor de passagens:
       Aqui no  loja de turco.  O preo  fixo...
       Nem uma diferenazinha?...  gemeu o homem.
     Nem obteve resposta. Mas no largava da frente do guich, esperando que o corao do empregado se abrandasse.
       Desocupa o lugar para outro, meu velho... Tenha pacincia...
       Pelo amor de Deus, meu sinh, me venda as passagens... S falta onze mil-ris pra completar...   Depois eu venho e pago...
       J lhe disse que no posso...   Eu no sou o dono disso... 
     Pensava que se fosse o dono, nem em Juazeiro habitaria e assim estaria livre de ouvir os absurdos pedidos dos flagelados.
       E onde est o dono?  Quero falar com le, le deve ser bom, vai ter pena...
       O dono  o Estado da Bahia...
     E como o velho no sasse, o vendedor levantou a cabea no guich, chamou Jernimo:
       Voc a...   Sai, meu velho, vai arranjar os onze mil-ris e volte...
     O velho ainda murmurou algumas palavras mas desocupou o lugar. Enquanto Jernimo contava o dinheiro para pagar as passagens, le explicava aos que esperavam:
       Dissero que era um preo,  agora t outro...   Como vou fazer pra arranjar o que falta?  Aqui num h mesmo trabaio onde se ganhar...   S se pedir esmola...
     A idia o horrorizou e ao mesmo tempo se apegou a ela:
       Um homem veio dessa idade, de vergonha na cara, pedindo esmola que nem aleijado...
     Os outros no respondiam. No que faltasse solidariedade. Mas  que tinham medo que o velho lhes pedisse e eles tinham o dinheiro contado, alguns estavam em idntica situao, mas ainda assim, apesar de haverem ouvido as respostas do moo da bilheteria, queriam tentar.
     Jernimo possua o dinheiro necessrio.   At sobrava algum, pois trouxera um pouco mais do que o preo da passagem de todos, inclusive a passagem inteira de Dinah e a meia passagem de Noca. Gastaram algum pelo caminho, mais do que esperavam, ainda assim no necessitara rogar ao homem um abatimento como o velho que o precedera.   Por isso, aps pagar, o dinheiro tirado da ponta do leno, sentiu-se no direito de fazer vrias perguntas.   O dia certo da sada do navio o vendedor de passagens no sabia.   Estava marcado para a prxima tera-feira mas ia depender da data em que o vapor chegasse, da descarga e da carga.  O homem explicou, s primeiras perguntas respondera mesmo com pacincia, ainda estava sob a impresso do velho a quem faltavam onze mil-ris para completar as passagens.   Mas Jernimo queria saber muita coisa e acabou por impacientar o vendedor:
      Uma semana, dez dias ou ms, depende do rio... A gente sabe quando sai, no sabe quando chega...
     Agradeceu e saiu. A dor nas costas desaparecera quase por completo com os remdios e a febre cessara. No acampamento cozinhavam, havia carne bastante para comprar, leite para a criana, como que renasciam nos dias que passavam ali.
     Ao voltar para o acampamento Jernimo ia fazendo clculos, contas que exigiam esforo para no errar. "Se Agostinho e Gertrudes tivessem vindo, o dinheiro no ia dar para as passagens".  verdade que deixara cento e vinte mil-ris com eles, mandara Jucundina entregar. No devia ter dado, eles estavam trabalhando, muito mais precisavam os que iam continuar viagem. Mas no queria deixar o filho e a sobrinha sem dinheiro nenhum, dependendo s do saldo do fim do ms, saldo difcil j que o salrio era muito baixo e Agostinho tivera que comprar os instrumentos de trabalho. O dinheiro no chegaria para todos se os quatro que faltavam tivessem vindo tambm. Pelo caminho haviam gasto mais do que imaginaram. Tudo estava pela hora da morte e teriam que fazer muita economia nesta semana que eram obrigados a demorar em Juazeiro. Se no, chegariam sem um tosto a Pirapora e Jernimo j soubera que muitas vezes levavam mais de ms esperando conduo  a passagem de trem era paga pelo Estado de So Paulo  pois eram centenas e centenas os que aportavam ali para viajar.
     Alcanou o acampamento, andou para o canto onde os seus haviam arriado as trouxas no dia da chegada. Passava entre homens e mulheres, junto a foges improvisados com pedras, tropeava em crianas que corriam. Quantas pessoas estariam ali? Talvez trezentas, talvez mais, Jernimo contava com dificuldade, seus clculos eram sempre exagerados para mais ou para menos.
     Jucundina levantou-se quando o viu. Tinha o menino nos braos e le recordou-se de certa tarde na fazenda, a tarde que precedeu a festa de Ataliba e a notcia de que tinham de entregar suas terras. Tambm naquela tarde desde o curral le a vira assim, de p, com a criana nos braos, enquanto Zefa rezava suas oraes. No distava ainda trs meses desse dia e no entanto parecia que muitos anos se haviam passado, sentia aquele tempo to distante que o recordava com a mesma saudade com que na roa se lembrava dos dias de sua juventude, quando era boiadeiro pelos caminhos e conhecera Jucundina, moa bonita e faceira.
     Acocorou-se, deu as passagens para Jucundina guardar. Era o que de mais precioso possuam e ela as colocou dentro do seio. Sentou-se depois ao lado dele:
       T mais mi?
       Hum!   Hum!   A dor passou de todo...
       Isso foi a canseira do caminho...
       , sim...
     Tirou o resto do dinheiro que trazia no leno. Dava um n na ponta, o dinheiro ficava amarrado dentro.   Pediu a Jucundina:
       Conta pra ver quanto sobrou...
     Comeou a picar fumo para um cigarro. E atrapalhou a lenta contagem de Jucundina perguntando:
       Onde t Joo Pedro?
       Foi no mercado comprar que comer...
       Marta?
       T por a, ajudando um e outro...   No sabe ficar de braos cruzados...
     Jernimo sorriu. "Marta tinha um corao de ouro, at nisso sara a Jucundina." Esperava que ela fosse feliz em So Paulo, casasse com um rapaz direito, que tivesse alguma coisa de seu, que a merecesse.
       E Tonho?
       Foi com Joo Pedro... 
     Levantou a vista do dinheiro:
       Tu me trapaiou de novo... 
     le porm pensava noutra coisa:
       A famia ficou pequena...
     Ela no disse nada, baixou os olhos para o cho. O crepsculo da cidade era curto porque as lmpadas eltricas chamavam a noite mais rapidamente.   Houve um minuto de silncio.
       Ajuda a contar o dinheiro...  pediu Jucundina.   Contaram cento e trinta e oito mil e quatrocentos.
     
2
     
     Havia qualquer coisa de inexplicvel que os atraa  noite para a beira do rio. Viam as luzes de Petrolina defronte, a sombra da catedral majestosa, nico prdio grande e rico da cidade pernambucana. Ali havia um bispo, algum explicara, e por isso a catedral era to bonita, vitrais vindos da Frana, fazendo inveja a Juazeiro, maior, mais progressista e movimentada, mas sem uma catedral sequer parecida.   Alguns imigrantes perdiam o amor a um nquel de quatrocentos ris e tomavam a canoa para ir ao outro lado admirar de perto a catedral. Porm o sacristo no os deixava entrar com medo que fossem roubar os objetos de ouro que sobravam pela igreja. Em torno eram as casas pobres, caindo de velhas, choupanas arruinadas.
     Mais que a igreja, porm, o rio os atraa. Era o So Francisco, ouviam falar dele em suas terras de sol e seca. Nunca tinham visto tanta gua e associavam a viso da gua  idia de fartura, imaginavam que aquelas terras prximas seriam de uma fertilidade assombrosa. E se admiravam que os camponeses chegados da beira do rio fossem andrajosos e fracos, os rostos amarelos de sezo, piolhentos e sujos. Com aquele farturo de gua era de esperar que toda gente por ali estivesse nadando em dinheiro. No tardaram, no entanto, em descobrir que todas aquelas terras ubrrimas pertenciam a uns poucos donos e que aqueles homens magros e paludados trabalhavam em terras dos outros, na enxada de sol a sol, nos campos de ouricuri, nos carnaubais e nas plantaes de arroz e algodo, ganhando salrios ainda inferiores queles que pagavam pelo serto.
     A maioria dos imigrantes vinha do Cear, da Paraba e do Rio Grande do Norte, de regies desoladas pela seca e seus rostos resplandeciam ao enxergar o rio sem medidas, a gua sobrando por todos os lados. Ficavam na balaustrada do cais, onde os pequenos navios de roda dormiam  espera da hora de partir, e ouviam embevecidos o barulho que o rio fazia no seu caminhar sem descanso.
       T andando pro mar...  disse algum.
     E ficavam imaginando como seria o mar. Se o rio So Francisco j tinha tanta gua que at parecia mentira, o mar ento quanta gua no teria? Os mais viajados, que haviam estado em cidades prximas  costa, contavam casos sobre o mar. Que era de perder de vista, ningum enxergava o outro lado. Assim afirmava um mulato baixote que garantia j ter estado em Fortaleza.
       E quando bate na terra fica branco cr de leite que at d vontade de beber...
     Outro queria saber se era verdade que a gua tinha gosto de sal.  Diziam isso mas como que podia ser?
       Salgada de no suportar...
       E serve para temperar?  indagou uma mulher velhusca.
     No, no servia.   Ficaram pensando naquele mistrio.   Por que seria que,  sendo to salgada,  no servia a gua de mar para temperar?
      Bem que era uma economia...
     Raros ficavam no acampamento quando a  noite caa.   Iam saindo aos grupos  as famlias e mais as relaes feitas na convivncia daqueles dias  e a direo era sempre a mesma:  o balastre do cais.   Os habitantes os viam passar sem curiosidade pois aquele era um espetculo habitual da vida da cidade, renovava-se todos os anos.   Por vezes no acampamento havia dois grupos bem distintos: os que desciam para So Paulo, tendo chegado da caminhada atravs da caatinga, e os que voltavam de So Paulo e se preparavam para atravessar o serto.  Esses quase sempre seguiam logo viagem, dormiam uma noite em Juazeiro para ganhar foras e se atiravam para dentro do serto.  Os outros, os que iam,  que demoravam mais  espera do navio.  Havia alguns, sem sorte, que ficavam um ms ou mais, antes que a embarcao, encalhada em qualquer ponto do rio, chegasse.  Terminavam muitos por tomar passagens nas grandes barcas que demoravam semanas na viagem entre Juazeiro e Pirapora.
     Mais talvez que os navios, com suas rodas, seu casco de ferro, sua chamin e seu apito, as barcas de madeira, com esculturas primitivas na proa  cabeas de mulher ou de animais  parecendo imensos animais fantasmagricos, impressionavam os sertanejos. Muitas chegavam pela noite, enquanto eles estavam debruados na amurada, uma luz vermelha junto ao leme, os gritos estranhos dos patres, parecendo outra lngua de outra gente em outro pas.
     Desconfiados e amedrontados, os imigrantes no faziam relaes na cidade. Muito menos com os embarcadios, que mantinham um certo ar de superioridade como se a existncia sobre as guas do rio fosse uma aventura to herica que os colocasse acima daqueles magros e doentes sertanejos ansiosos por gua. Admiravam os negros e caboclos que iam de p, o peito nu, nos costados das embarcaes. Levavam compridas varas que afundavam no rio at atingir o leito, ajudando as barcas a se arrastarem sobre os bancos de terra lodosa. A ponta da vara encostada no peito que virava um calo sempre sangrante. Aquele servio espantoso enchia os sertanejos de incontida admirao:
      Trabalho de macho...  diziam.
     E ouviam os risos,  as canes,  a msica dos embarcadios. Era uma raa diferente da deles, com certeza.  No entanto eram to parecidos,  tinham  a mesma palidez no rosto,  as mesmas faces encovadas, os mesmos ps enormes de se assentarem sobre a terra!
     A barca parava finalmente e o vozerio aumentava, eram ordens gritadas pelo mestre, homens caam na gua com a ncora, outros com as varas, depois a barca ficava imvel como uma enorme ave adormecida sobre o rio.
      Parece um pato...  disse um homem.
     Mas a escultura na proa representava a cabea de uma mulher, de loiros cabelos rolando para as guas, de olhos azuis de conta, de lbios vermelhos e carnudos, bons para um beijo, de rosadas faces. A luz vacilante do barco iluminava a escultura e mais de um corao de flagelado bateu rpido, com sbito e intenso amor por aquela mulher feita de madeira e que s possua a cabea e o pescoo mas que era to linda, to linda que parecia viva e capaz de falar.
     A barca ficou prxima  amurada, e o rapaz que estava ao lado de Marta, um sertanejo alto de nome Vicente, lhe disse:
       sua xar...
      O qu?
       Essa moa da barca...
     Marta no entendia e le soletrou o nome da embarcao:
      M... a... r... Mar... t... a... ta... Marta.
     Ela espiou mas agora a embarcao bordejava e saa do crculo de luz da lmpada eltrica e j no se podia ler. Mas ficou contente. O rapaz fitou seu rosto moreno, emagrecido da viagem, os olhos fundos, os seios saltados. No era to bonita quanto a moa loira da barca, mas ainda assim era uma beleza, cabrocha que valia bem um casamento. Vicente dirigia-se tambm para So Paulo, seu pai estava em Fernando de Noronha cumprindo pena porque matara um senhor de terras que tomara sua lavoura, sua casa e suas terras, inventando umas coisas no cartrio. A famlia se dispersou, a me ficara com os irmos mais velhos que estavam de trabalhadores numa fazenda. Vicente preferiu vir para So Paulo, l podia ganhar dinheiro, botar um bom advogado para tirar seu Pai da cadeia.   Assim lhe havia dito o padre do lugar e ele partira e andara lguas e lguas, com fome e com sede, trabalhando aqui e ali para continuar a viagem, quase fica com o beato Estvo a quem encontrara e em cujas palavras tambm acreditara. Mas, mais forte que tudo, era o desejo de ganhar o suficiente para pagar um advogado que defendesse o velho e o libertasse. O padre dissera que com uns dois contos le poderia contratar o melhor advogado da Paraba. Dois contos  muito dinheiro mas com alguns anos de trabalho um homem econmico e com sorte pode reuni-los. Se esse So Paulo fr mesmo assim, to farto de trabalho e de pagamento, le no tem dvidas que cumprir o prometido. O velho estava condenado a trinta anos.
     A barca, no balano das guas, colocou-se de novo com a proa sob a luz. O nome estava escrito com letras vermelhas, mal desenhadas. Mas era bem legvel, at mesmo para Marta que estivera na escola apenas seis meses.
        mesmo  disse ela e bateu palmas.
       Vosmec  mais bonita que ela  falou Vicente.
       Que coisa...   Isso  conversa de vosmec...
     No se fartavam de admirar o rio, as guas rolando sem cansao, aquele barulho contnuo que era to doce aos ouvidos. Marta e Vicente, os outros todos tambm, vindos de onde no havia gua, onde a terra era seca e agreste, onde s os animais mais bravos resistiam, e o homem que era o mais bravio de todos. O rio seguia indiferente e das barcas paradas chegavam as msicas marinheiras, falando em amor e separao, em cime e saudade, em engano e morte.   Ficavam em silncio, escutando.
     
3
     
     Na balaustrada conversavam pouco. Demoravam olhando o rio, tomando o fresco da noite, espiando o profundo das guas escuras e barrentas. Tudo era novidade e quase mistrio, da o silncio apenas cortado por uma ou outra frase, de admirao ou de assombro. Raros eram os dilogos e logo morriam superados pelo interesse das mnimas coisas sucedidas no rio. E quando, por acaso, um navio largava, a terceira classe atestada de imigrantes, eles se debruavam todos no balastre, uma inveja dos que, mais felizes, j partiam naquele navio, as mos acenando tmidos adeuses, os lhos espichados na esteira do vapor,  na espuma  que  as rodas faziam de cada lado do rio.   Era uma coisa de ver-se, grandiosa para eles, que os enchia de respeito e certo temor.   Esse distante So Paulo devia de ser terra de muita riqueza realmente para exigir tanto sacrifcio dos que para l viajavam.
     No acampamento  que era onde conversavam largamente  no havia melhor motivo para as prosas do que fazer projetos sobre So Paulo. Quando apareciam, rotos, e ainda mais pobres que eles, os que voltavam da terra que idealizavam de toda fartura, e contavam das dificuldades que havia por l, eles se encolhiam, com pouca vontade de ouvir, e quase sempre davam razo ao comentrio fatal de um mais otimista:
       Isso  homem que no genta o trabaio...   Quer  vagabundar, ganhar dinheiro fcil...
     Nenhum esperava que o dinheiro de So Paulo fosse fcil, esperavam  que houvesse e que a terra no fosse to rida e, principalmente, to difcil de conseguir quanto aquela de onde chegavam.
       Dizque um chega, logo do terra pra le cultivar...   lavoura de caf...   Do muda j crescida, dizque do de um tudo...   Ferramenta e animais...
     Eis o que alimentava a esperana naqueles coraes cansados. A promessa de terra para cada um, livre de dificuldades, de processos posteriores revelando donos antes desconhecidos, quando j a terra estava lavrada, as benfeitorias levantadas. No acampamento estabeleciam-se relaes  base de troca de imprecisas informaes sobre So Paulo.
     Nos primeiros dias cada famlia que chegava apenas queria contar o que havia sofrido na viagem, a fome e a sede que havia passado, as doenas e os mortos.  Mas logo depois era o interesse por saber do navio, do trem de ferro em Pirapora, de So Paulo finalmente. Mortos e sofrimentos todos tinham para lamentar. Mas era coisa que ficava para trs, ningum pode levantar os mortos dos seus tmulos, muitos deles nem tmulos tinham, estavam no papo dos urubus, feito carnia.   Como que o rio, com suas guas rumorosas, cr de barro, punha uma fronteira entre o passado e o futuro.  Se tinham sofrido tanto, penado pelas picadas da caatinga, bem mereciam a fartura e o sossego que estavam a esper-los em So Paulo.
     Por vezes desconfiavam dessa fartura e dessa paz. Havia sorrisos irnicos nos lbios dos que regressavam de l:
       Vo pra l ver como ...
     As mulheres eram de fcil desnimo. Em geral, porm, durava pouco esse pessimismo, e s provas apresentadas pelos que voltavam, eles contrapunham as conversas no acampamento. Sempre existia algum que possua um parente que enriquecera em So Paulo. Um at tinha um tio que emigrara h doze anos e estava to rico que possua casa na capital e ganhara o ttulo de coronel.
      S tratam le de coronel...   Foi le que mandou dinheiro pra gente vim...   Vamos trabai em terra dele...   Dizque s p de caf tem tanto que nem se pode contar...
     Ento riam e afastavam para longe, como improcedentes e falsas, as afirmaes dos que voltavam. Tambm nem todo mundo pode se dar bem e ser feliz, prosperar e enricar. Alguns ho de ser pobres a vida toda. Esse era o raciocnio das mulheres mas cada uma se colocava entre os provveis ricos e felizes. Era assim que esperavam o navio em Juazeiro.
     Aquelas vidas que pareciam se extinguir pela caatinga, quando em determinado momento toda esperana parecia perdida, voltavam a florescer no acampamento. Era um miservel acampamento mas havia o que comer, gua no faltava, no estavam rodeados de cobras venenosas, novamente a esperana surgia. No entanto ainda morria gente por ali. Os que haviam chegado mais quebrados pelo impaludismo, mais fracos do peito, crianas principalmente. Mas essas mortes no conservavam aquele ar de agouro, de mais um antes de outro. Para eles os que morriam eram ainda vtimas da caatinga.
     Dormiam pelo cho, os que tinham algum dinheiro ajudavam os mais pobres, cedendo-lhes pedaos de carne, punhados de feijo, um pouco de farinha. O mercado era farto em Juazeiro mas todos eles chegavam com o dinheiro contado quando no o traziam insuficiente para as passagens. Compravam apenas o essencial e escolhiam a carne mais barata, e feijo pior, a farinha menos fina. Ainda assim, apesar de toda a economia, que diferena para a fome da caatinga!   Ali havia leite para as crianas, pelo menos para aqueles cujos pais podiam comprar. Jucundina apertava na bia dos demais porm tinha leite diariamente  meio litro  para Ernesto. le se refazia, ficara barrigudo do angu de farinha, mas j no estava com os ossos to  mostra e, se bem estanguido, chorava pouco, gatinhando pela sujeira do acampamento. Tonho  que continuava magro, avaro de toda comida, roubando pelas barracas vizinhas, levando surras de Joo Pedro e Jernimo. Parecia um rato, o rosto fino, os olhos atentos, as mos rpidas. Juntavam-se em grupo as crianas maiores e no havia quem as suportasse, at nas vendas iam roubar, apareciam com abboras, quiabos e chuchus tirados do mercado.
     Assim iam crescendo e aprendendo. Aprendendo coisas desconhecidas no serto de onde vinham, sabedorias de moleques da cidade, coisas referentes  vida sexual, palavres e respostas agressivas. Corriam atrs dos rabes que vinham mascatear no acampamento, tentando as mulheres com colares de vidro colorido, com pentes altos para o cabelo, com xales floridos, perfumes baratos.
     As mulheres olhavam os bas mgicos dos rabes, onde tanta coisa bela e desejada se acumulava numa tentao. Contavam o dinheirinho que quase sempre tinham escondido para alguma necessidade e ouviam, como se fosse tentadora melodia, as palavras na meia-lngua atrapalhada dos srios:
      Baratinha...   Baratinha...   Ouro verdadeiro...
     Eram anis, ai que anis mais lindos! Eram colares, azuis, vermelhos, cr-de-rosa! Eram pentes, com enfeites de estalactite, fulgindo ao sol que nem diamante! Eram quadros de santos, dos santos de maior devoo, Nossa Senhora do Bom Parto, Senhor do Bonfim, Santa Brbara, So Cosme e So Damio e do Santo Padre Ccero da outra cidade de Juazeiro, a do Cear! Eram perfumes, ai daqueles capazes de afastar essa catinga, esse bodum que est pegado nos seus corpos e que nem mesmo os banhos, agora possveis no rio, podem liquidar! Eram cortes de fazenda, de todas as cores, fazendas de So Paulo, diziam os rabes, mais baratas que em So Paulo! Tinham de um tudo nos seus bas de mascate que abriam ante os olhos das mulheres.
       Num tem dinheiro...
     Mas os srios sabiam todos os segredos:
       Freguesa tem na ponta do leno...   V buscar que  barateza...  e exibiam as formosuras que levavam.   Berliques e berloques nos bas abertos.
     Os meninos rondando por perto, as mos vidas de levar alguma daquelas coisas, dar  me ou  irm, vender por um cruzado a um flagelado qualquer. O srio manejando o metro, batendo com le nas pernas geis dos moleques:
       Sai, moleque...
     Mas sem perder o sorriso tentador para a freguesa:
       Compra, freguesa,  dado de graa...
     Apareciam de dia e de noite, no tinham hora para comerciar. At de noite era melhor, estavam os imigrantes em geral reunidos, os rabes sabiam conversar, davam notcias de Pirapora, viviam, indo e vindo nos navios. No se furtavam a contar como era a vida naquelas bandas e s interrompiam para fazer o elogio das mercadorias que vendiam. Pediam um preo, deixavam pela metade, contavam o dinheiro mido dos sertanejos, metiam no bolso. Com todo aquele sol, aquele calor do serto, vestiam escuras roupas de casimira e no dispensavam um colete em cujos bolsos colocavam mil coisas.
     E no vendiam apenas. Tambm compravam, perguntando por moedas raras, aqueles dois mil-ris antigos, de prata, que eram comuns na mo dos sertanejos. Pagavam trs mil-ris por cada moeda, adquiriam brincos de ouro, objetos diversos, certas coisas que aos sertanejos pareciam sem valor e que traziam consigo apenas porque as haviam herdado de mes e avs, eram de estimao.
     Os sertanejos iam-se relacionando no acampamento. As conversas noturnas, os emprstimos de lata e mantimento, o bisbilhotar das velhas, e aos poucos sabiam o nome uns dos outros, de onde vinham, o motivo por que resolveram imigrar. Entre as muitas notcias que Jucundina ouvira no acampamento uma sobretudo a impressionou. Falavam, certa tarde, numa roda, no nome do beato Estvo. Ela ia passando em busca de gua, a lata na cabea. Parou para prestar ateno, pois o que falava estava contando que, ao lado do beato surgira, nos ltimos tempos, uma santa:
       Dizque milagreira que nem o beato...  Ningum sabe cuma chegou, apareceu num dia, s ela  que entende tudo que o beato diz...
       Entonces  nova por l...  interrompeu outro.  E declarou que le tambm, h coisa de trs meses, havia se encontrado com o beato  que  descia  pelo  serto. Andou uns  dias  com  le,  depois, separou-se porque eles subiam para o norte e seu caminho era para o sul.
       Num  tinha  ninhuma  santa...    Muita  mulh  mas  tudo  de trabalhador, rezando e fazendo penitncia...
       Essa que tou falando faz pouco tempo.  Quando ela apareceu o beato disse que foi Nossa Senhora que mandou ela pra alertar as mulh...   Dizque tem tamanha fora com os esprito que eles faz tudo que ela pede...
     Jucundina retomou seu caminho mas ainda ouviu o homem contando:
         Zefa  de  nome...    Ela   mesmo  foi  quem  disse  quando chegou:  "Eu sou Zefa, mandada por Deus Nosso Senhor.
     Bem que podia ser, pensava Jucundina enquanto ia em busca da gua. s vezes tinha a gente uma santa em casa e nem sabia, tratava como a um qualquer, como uma doida, por exemplo. Bem que podia ser, ela passava o dia falando aquelas coisas atrapalhadas sobre o fim do mundo. Jucundina sempre achara que era um esprito que encostara na cunhada. Mas por que no o esprito de um santo, por que no o esprito de Deus Todo-Poderoso, capaz de milagres, alertando os homens sobre o fim do mundo? Desde menina Jucundina ouve falar no fim do mundo. Um dia tem mesmo que acabar, assim como comeou, todas as coisas tm seu comeo e o seu fim. E os tempos andavam to ruins, cheios de tanta desgraa que no era de admirar que o mundo fosse acabar, que estivessem chegando aqueles tempos de que falavam os mais velhos. E como acabaria? Com fogo ou com gua? Ali, perto do rio imenso, Jucundina pensa que ser a gua que se alastrar sobre a superfcie da terra e matar homens e animais, rvores e ervas. E talvez ento todos eles sejam salvos por Zefa que virou uma santa no grupo do beato Estvo.
     Quando voltou, contou  famlia a conversa que ouvira. Jernimo naquele dia no estava passando muito bem, a dor nas costas vetara e lhe dava aquela moleza, vontade de ficar estirado sem fazer nada. No teve nimo nem para um comentrio, mas Joo Pedro saiu  procura do homem que contara o caso para colher maiores informaes e saber se era mesmo Zefa, a parenta deles que sumira na caatinga. No fim da tarde o mormao pesava e Jucundina contava nos dedos os dias que faltavam para o navio sair. Chegaria naquela noite, demoraria trs dias descarregando e carregando, no quinto sairia e a bordo no teriam que fazer despesas, a no ser o leite para Ernesto, comida e casa de graa, Em Pirapora, segundo diziam, era s tomar o trem para So Paulo. Havia trem dia sim, dia no, Jucundina calculava que, quando muito, teriam que passar dois dias na outra cidade. Isso no mximo se chegassem no dia da sada do trem, sem tempo para ir buscar o passe com o homem da imigrao. Porque se desembarcassem cedo, a tempo de preencher aquelas formalidades, podiam seguir at no mesmo dia, o que ainda era melhor. Tudo o que almejava era chegar quanto antes, terminar aquela viagem, ver seu homem numa casa sua, tinha certeza de que le ficaria logo bom. Aquela tosse e a dor nas costas eram da viagem, quando estivessem novamente parados, com a vida assentada, a doena iria embora e eles voltariam a ter dias como os de antigamente. Agora  que Jucundina compreende que antes havia sido feliz, na sua terra, com sua casa, seus filhos, seus netos e seu marido.
     Jernimo est deitado, os olhos perdidos no cu azul. Faz um calor pesado e irritante. Aquele moo Vicente j vem vindo para o lado onde eles se encontram. Anda arrastando a asa a Marta, Jucundina bem que percebe. Parece ser um moo direito mas nada tem de seu, no pode casar. Ai quem dera que j estivessem em So Paulo, lavrando uma terra, plantando caf. Ai quem dera! O suspiro se perde nos rudos do acampamento. Jernimo espia com o olho triste de doente.
     
4
     
     Tambm Marta contava os dias que faltavam para o navio sair. Mas era para saber quantos dias ainda demorariam no acampamento, em Juazeiro. Vicente no seguiria no mesmo vapor que eles, quando chegara para tirar passagem a lotao j estava completa.  S conseguiu para o outro navio.
     Ficavam lado a lado na balaustrada junto ao rio. Falavam pouco, no sabiam o que dizer, os sorrisos tmidos substituindo as palavras. Olhavam as barcas, ouviam as cantigas dos marinheiros, Marta estirava o pescoo, baixava a cabea para ver a cr do rio de noite. Sentia o ombro dele junto ao seu e a mo que vinha devagar e tomava da sua para logo solt-la, rpido, quando ouvia passos. Jernimo e Jucundina sentavam-se num banco atrs, Tonho corria com outros meninos pela rua, Joo Pedro  que ficava perto deles.
     Numa rua paralela a gente da cidade fazia footing. Passavam moas e rapazes, as senhoritas da sociedade local, os moos do comrcio, em conversas animadas e compridas, os namoros e os noivados. Na balaustrada Marta e Vicente no achavam palavras, era aquele silncio respeitoso perante o rio, mas to cheio de doura e de calor que podiam ficar assim a vida toda sem sentir.
     Uma palavra apenas, de vez em quando. Apontando um peixe que pulava nas guas:
      Ali...
      Donde?
       L t le pulando...
       E  mesmo...
     Riam. Ficavam esperando que o peixe pulasse de novo.
       Aquele  grando...
       O outro era mais grande...
      Hum!   Acho esse...
     Nenhuma palavra de amor, nenhum galanteio, s o calor dos ombros se encontrando, a mo calosa sobre a outra mo. E os olhos da moa que baixavam, o rosto quente de vergonha. E depois, quando deitada, aquela mesma angstia dos dias em que se recordava do doutor Aureliano e das suas ousadias. Um arfar dos seios, a respirao mais rpida. Recordava ento os olhos de Gertrudes na caatinga, fugindo para os escondidos com Agostinho.
     Corria uma aragem pelo cais sobre os barcos e os imigrantes. O navio apitava l embaixo, podiam-se ver as luzes brilhando Joo Pedro falou em voz alta:
       L vem o bicho...
     Voltou-se para Jucundina e Jernimo: 
      L vem le...    o nosso...
     Jucundina levantou-se, estava com Ernesto no colo.   Jernimo acompanhou, recostaram-se na balaustrada.   A mo de Vicente fugiu, Marta sentiu-se abandonada, encostou mais o ombro. Era o navio, sim, e agora havia um movimento e um rudo de vozes entre os sertanejos. Muitos embarcariam nele e se alegravam de v-lo, haviam passado dias e dias a esper-lo. Jucundina, num gesto instintivo, meteu a mo pelo decote do vestido para constatar que as passagens continuavam ali, junto ao seio onde as tinha colocado.
     O navio aumentava de tamanho, as luzes brilhando, apitou novamente.   Vicente falou:
        o navio de vosmec...
       Dizque sai depois de amanh...
     O silncio agora era triste, estavam sem jeito, faltavam as palavras.
       Vou sentir falta...
       Logo se esquece...
       No sou desses...
     Achavam o navio enorme se bem fosse um pequeno vapor fluvial, antigo e de casco remendado, vagaroso e sujo. Para eles era uma beleza, uma coisa de conto de fadas, com as suas luzes acesas e os sons de piano que a brisa trazia. Marta, apesar de que tinha o corao cheio de saudade, no pde deixar de sentir certa vaidade  vista do navio em que viajaria.
       bonito...
     Vicente no respondeu. Seus olhares se encontraram e logo se desviaram.
       Se num encontrar vanc mais em Pirapora vou bater So Paulo de fio a pavio precurando...
      Nis viaja logo que chegue em Pirapora.
      Pode  no. Tem muita  complicao,  tive  sabendo.    Tem exame mdico, tem que esperar o passe e o trem dos imigrantes. Dizque demora...    capais que eu alcance vancs...
       Tumara...
       Tem vontade?...
       Tenho sim...
     O navio passava em frente deles. Viam os passageiros de primeira debruados, a moa que tocava piano com um rapaz ao lado. E, no alto, o comandante com seu bon branco bem visvel.
       Eu queria ser comandante...   Levava vanc rio acima e rio abaixo, levava vanc at o mar...
     Ela sorriu. Os imigrantes movimentavam-se em direo ao ponto onde o navio manobrava para atracar. Jucundina e Jernimo iam tambm.   Ao passar junto a eles, Jucundina disse:
       Marta, vam'bora...
     Joo Pedro j estava na frente, Marta enxergou Tonho num grupo de moleques que se ofereciam para carregar as bagagens dos viajantes.   Vicente saiu andando ao seu lado.
      Vou sentir tanta falta...
       Eu tambm...
       No navio tem muita animao, vanc se esquece...
     O olhar dela dizia que no era das que se esquecem. le segurou-lhe a mo, enfiou os dedos entre seus dedos. Os velhos caminhavam adiante, Marta baixou os olhos para o cho. No cais havia abraos e boas-vindas. Um homem gordo saltava e beijava a mulher que o esperava:
       Os meninos, como vo?
       Tudo com sade, graas a Deus...
     Passaram sob um poste, depois era mais escuro, havia uma rvore que fazia sombra. Vicente virou a cabea de lado, estendeu os lbios mas no chegou a beij-la que j saam novamente para a luz.
     Viram o comandante saudando sua esposa, acenando com a mo. Ela era uma moa frgil e bonita, sorria no cais. Marta disse:
      Comandante no pode levar a mulher no vapor...
       Se fosse eu levava vanc e levava at chegar nas guas do mar...   Juro que levava...
     Tonho passou depressa, conduzia um ba na cabea. Uma mulher de preto o seguia e gritava:
       Por aqui, menino!   Por aqui, menino!
     
5
     
     Na vspera da  sada do navio  chegou uma  grande  leva  de lmigrantes.   Superlotou o acampamento, foi necessrio interveno das autoridades pois iam saindo brigas. Homens e mulheres que ocupavam lugares onde j outros estavam desde semanas, uma balbrdia. O delegado esteve no acampamento, reclamou contra a sujeira, vinha acompanhado de dois soldados de polcia.
       Vocs s com muita bainha de faco...  declarou para os homens que o cercavam pedindo providncias.
     Mas estava preocupado. A chegada de grandes levas de flagelados representava sempre perigo de propagao de doenas. Sem falar no impaludismo que era endmico por ali, havia a varola muito comum entre os que chegavam da caatinga. O "alastrim", forma branda da varola, assolava o serto e o delegado mandou chamar o mdico da Prefeitura e o prefeito tambm.
     Da conferncia que mantiveram no prprio acampamento, enquanto o mdico fazia um exame superficial nos recm-chegados, ficou decidido que conseguiriam da Companhia de Navegao que fossem dormir no navio aqueles que iam partir no dia seguinte. A discusso nos escritrios da Companhia se prolongou por mais de uma hora e s  tardinha veio ordem para arrumarem as trouxas e embarcarem. Foi preciso mandar Joo Pedro em busca de Tonho, andava sumido pelas ruas da cidade, no havia mais quem o contivesse, quando aparecia para dormir trazia sempre alguns nqueis e coisas roubadas no mercado. Jucundina e Marta tratavam das arrumaes, Jernimo as ajudava. Nesse dia fora novamente ao Hospital, em busca de outros vidros de remdios, pois os que lhe haviam dado j os tomara. Sentia-se melhor, se bem ainda corressem os arrepios de frio pelo seu corpo no fim da tarde. Esperava que aquilo passasse com a viagem calma no rio, e a chegada a So Paulo. No pensava muito em Pirapora, era apenas um lugar onde trocariam de conduo.
     Um soldado de polcia mandou que se colocassem em fila. Eram mais de cento e cinqenta, se bem a lotao da terceira classe do navio fosse para cem pessoas. Seguravam malas de madeira, bas de flandres, trouxas. Uma famlia levava um papagaio, alguns tinham cachorros. Mas, como havia uma taxa para animais, naquele ltimo momento ofereciam, aos que ficavam  espera de navio, os bichos que ainda possuam:
       Trate dele... dizia a mulher que dava um cachorro a um cearense.   Pobrezinho...
     O soldado de polcia mostrou interesse em comprar o papagaio. Ofereceu cinco mil-ris. O dono disse que era barato, o papagaio ,era falador, sabia tudo quanto existia em matria de nome feio.
      Foi criado em casa de rapariga,  por isso...  explicava.  Aprendeu tudo que era porcaria...
     E animava o papagaio repetindo le mesmo grossos palavres at que o bicho mastigou as esperadas palavras de xingamento. Foi um sucesso e o soldado se decidiu a dar seis mil-ris.
     Saram em fila do acampamento. Foi to rpido que nem deu; para despedida.  Veio uma ordem, o soldado gritou:
       Em frente!   Marche!
     Marta voltou-se para ver mais uma vez a Vicente. le estava de p, o cigarro apagado no canto do lbio. Depois foi a entrada no vapor onde um homem conferia as passagens. Da cozinha chegava um cheiro de comida, de peixe fervendo.
       Donde a gente fica?  perguntou Jernimo.
     O homem fz um gesto com a mo mostrando o cho cheio de rolos de corda, de ferros, de objetos variados:
       Por a mesmo...   Vo se arranjando...
     E foram se arranjando, arrumando as trouxas pelos cantos vazios, procurando saber onde ficava a latrina, qual era a hora da comida.
       Hoje vocs no tm direito a jantar aqui.   S depois que o navio sair.
      Nis pode cozinhar? 
       Aqui a bordo, no...                                               .
       E cuma ?
      Eu sei l...   Vocs deviam ter vindo amanh que  o dia de sada do navio...   Idia desse prefeito...   Isso  burro como uma porta...
     Ficaram olhando uns para os outros. Se no davam jantar e eles no podiam cozinhar, como ia ser naquele dia? Voltaram a discutir com o homem. Estava proibido sarem de bordo mas conseguiram permisso para que as crianas pudessem ir ao mercado comprar banana e po. Um homem contou os meninos que saram, depois de muito pedido consentiu que um homem  um s  os acompanhasse para fazer os pagamentos. Foi escolhido um mulato forte que sabia ler e escrever e que, durante a estada no acampamento, se relacionara com todos eles. Os que tinham dado dinheiro para trocar ficaram ansiosos, com receio de serem prejudicados no troco. O mulato fizera uma lista com os nomes, as quantias que lhe davam e as compras que desejavam.
     Foi at alegre a volta dos meninos, carregados de cachos de banana, cestas com po, algumas melancias. O mulato prestou contas direitinho, o que o fz subir de muito no conceito geral. Comeram por ali mesmo, as cascas jogadas no rio. Tonho conseguira furtar dois pes, levou umas bordoadas de Joo Pedro. A mulher a quem le roubara reclamava aos berros e Marta foi levar-lhe os pes.
       Adisculpe, moa...
       No sabe dar educao, no tenha filho...
     Mas eram raivas passageiras, no havia menino que no roubasse, a no ser os de peito como Ernesto. Xingavam na hora, depois sabiam desculpar. Naquela primeira noite estavam amveis e confiantes. Ofereciam uns aos outros bananas e pes, aqueles que tinham comprado melancia repartiam, distribuam talhadas.
     Jucundina armou seu rancho junto a um enrolado de cordas. Colocou uma rede sobre as cordas, dobrada, fz ali a cama de Ernesto. O navio balanava suavemente e a criana dormia. Tonho metia os ps na gua, levava descomposturas do marinheiro que pescava na popa e cujo silncio le interrompera:
       Sai, corneta!
     A noite caiu e do navio apagado eles viam os outros sertanejos chegando para o cais, no passeio costumeiro. Marta forcejava por enxergar Vicente mas no o descobria entre os homens. Alguns vinham para o lado do navio, em breve estabeleceram-se conversas entre os embarcados e os que estavam em terra. Marta j perdera as esperanas quando ouviu o seu nome, murmurado:
       Marta!   Marta!
     Jucundina ouviu tambm. Marta ficou parada, esperando que a me reclamasse.   Mas, em vez disso, Jucundina falou:
       Vai conversar com o moo...
     Procurou entre os que estavam no cais. le sentara-se no cimento, sob a escada que subia da rua para a primeira classe:
       Tou aqui...
       Pensei que vanc no viesse...
       Cuma no havia de vir? 
     E depois numa voz triste:
      Dizque meu barco vai demorar, nem chegou ainda em Pirapora, t encaiado pelo caminho, depois ainda tem que voltar...
       Cuma soube?
       Fui hoje na Companhia...   Mas se vanc no tiver em Pirapora vou bater So Paulo todo pra lhe encontrar...
     Agora as msicas dos imigrantes embarcados misturam-se com as dos homens das barcas e as vozes se perdem todas em meio ao rudo do rio. O soldado de polcia que ronda nas imediaes j pensou duas vezes em botar Vicente para fora do lugar onde le est sentado. Se le quiser,  s um pulo e mistura-se com os que partem. Mas tem pena, acha que le est se despedindo da noiva, para que atrapalhar? le tambm foi moo e sabe o que so essas coisas.
     Ri uma risada gostosa, se pudesse ia ao botequim tomar uma pinga.   Em vez disso vai ter que estar ali at de madrugada.
     Sentiam mais que assistiam ao embarque dos passageiros de primeira classe. A sada do navio estava marcada para as nove horas da manh e desde cedo comeara o movimento. Haviam dormido profundamente, apesar do rudo que faziam os carregadores trazendo fardos para o navio, o balano do barco ajudava o sono. No lhes deram caf pela manh, comeram o resto de po e de banana que sobrara da vspera. Porm, coisa de sete horas, um marinheiro avisou que o cozinheiro estava vendendo caf a duzentos ris a caneca. Quase todos quiseram, levaram a caneca e os nqueis, o cozinheiro pedia:
      Dinheiro trocado!   Dinheiro trocado!
     Debaixo viam chegar os passageiros de primeira e seus parentes e amigos que vinham despedir-se.   Famlias com crianas, gente bem cuidada,  lgrimas e risos.   Logo  depois do  caf houve o embarque dos porcos.   Um homem vestido de caqui, um rebenque na mo, comandava as operaes. Eram uns vinte porcos, grandes, de alguma raa pouco conhecida por ali.  Iam para So Francisco, para um fazendeiro de l. Deu trabalho met-los a bordo. Os imigrantes riam vendo as peripcias do embarque e riram mais ainda quando um porco caiu na gua e foi preciso que dois homens se jogassem para comboi-lo at o navio.   O do rebenque gritava:
       Salvem o bicho que  do coronel Juvenal!
     Foram amontoados na popa do barco, fizeram uma espcie de cercado. Mas ali j estavam vrias famlias arrumadas. Foi uma gritaria, protestos, xingamentos.   Um marinheiro perguntava:
       Quer que os bichos vo soltos junto com vocs? 
     Outro, com um rosto moo e bom, acalmava:
        mesmo pro bem de vocs...  Pra no ir misturado... 
     Mas os que se tinham alojado na popa no se conformavam. Procuravam novos lugares na terceira superlotada onde ainda, no entanto, embarcavam novos passageiros e engradados com galinhas, malas e caixes.
       Meus Deus, onde a gente vai dormir?
     Dormiriam por cima dos caixes, de mistura com os bichos e as malas grandes do pessoal de primeira que no cabiam nos camarotes. Alguns haviam armado redes, utilizando as vigas do navio e era necessrio andar com a cabea baixa. Mulheres lavavam roupa suja aproveitando a gua do rio.
     s nove horas o vapor apitou. Mas s foi sair s dez e meia, fazendo a volta no rio com cuidado; no fosse encalhar logo na sada, como por vezes sucedia. Correram todos para a balaustrada de bordo, empurravam-se, lutavam por um lugar. Queriam ver as casas da cidade que iam ficando para trs, que pareciam andar, queriam ver conhecidos, outros imigrantes que estavam no cais. Marta esticava os olhos para o vulto de Vicente, j no o podia reconhecer, era apenas um ponto perdido ao longe.
     Os meninos admiravam o movimento das rodas. Ia uma algazarra pela terceira que s se acalmou na hora que a sinta anunciou o almoo.
     De falta de comida no se podiam queixar. Haviam distribudo um prato de flandres para cada um e mais uma caneca e uma colher. Formavam fila em frente  cozinha onde os ajudantes de cozinheiro, ao lado de enormes paneles, distribuam o peixe, pirarucu cozido com pouco sal, e o arroz. Davam farinha tambm e com o caldo grosso e gorduroso do peixe faziam um piro amarelado, gostoso.  Muitos abandonavam a colher, preferiam comer com mo e se atolavam no peixe.  A graxa escorria entre os dedos, achavam saboroso.
     Enquanto o barco corria no sentiam calor. A virao soprava e era agradvel, depois do almoo muitos se estiraram para dormir. Jernimo estava satisfeito. A dor das costas no o apoquentava, a brisa dava-lhe sono, o almoo fora bom. Jucundina levara os pratos para lavar. Vrias outras mulheres j o faziam. Metiam os pratos na gua do rio, passavam a mo em cima para tirar os gros de farinha, viam os peixes pequenos saltando em torno. Tudo servia de diverso naquele primeiro dia de viagem. Outras mulheres traziam roupa suja, metiam na gua, botavam para secar por cima dos rolos de corda, ficavam tomando conta. As crianas corriam, iam bulir com os porcos, enfrentando as iras do homem de rebenque.
      Puxa,   moleque   descarado...    Vai-te   embora,   se   no,   te arrebento...
     O problema para Jucundina era leite. Na vspera, com a confuso do embarque apressado, no pudera comprar leite para Ernesto. O que restava era pouco, mal dera para aquela noite, se bem ela tivesse misturado gua. Pela manh conseguira um pouco do cozinheiro, na hora em que comprara o caf. Mas j tinha acabado e le no lhe queria ceder mais. Se no ia faltar para a primeira classe e s na cidade prxima o navio se reabasteceria de leite. Aconselhou:
      D um caldo de peixe...
     E forneceu, tirando do caldeiro com uma concha, aquele caldo grosso e amarelo.   A criana o recebeu bem, estava esfomeada. Tomava avaramente,  s colheradas,  Jucundina ria.   Disse para Jernimo:
       Talvez no precise mais comprar leite...
       A comida  boa...   E muita...
     At Tonho, que parecia insacivel, que comia tudo o que estivesse ao alcance de sua mo, at le parecia farto aps o almoo. Tivera direito a repetir o prato, um dos ajudantes de cozinheiro simpatizara com o menino, com sua cara de rato, seu olhar ousado, seus gritos speros. E lhe dera um bolacho que le como no conseguisse com-lo todo, levou para Marta.
     Joo Pedro veio vindo para onde estavam Jucundina e Jernimo.   Sentou-se em cima das cordas, comentou:
      Se a finada tivesse viva ia gostar desta viagem... Tinha vontade de conhecer um navio...
     Falava sobre Dinah e ento recordaram os mortos e os distantes, Gertrudes e Agostinho, Noca e Dinah, os trs rapazes que haviam ido embora, Zefa que virar santa, e tambm o jumento Jeremias que se envenenara e a gata Marisca que eles tinham comido.
     
7
     
     O mais bonito de tudo era o reflexo das luzes sobre a gua. Marta ficava espiando, o pensamento distante, no moo Vicente. Ser que ela ainda vai encontr-lo algum dia? Tudo  possvel no mundo, mas bem que era difcil. Nem sabiam que destino haviam de tomar em So Paulo, um homem contara que ficariam na Hospedaria dos Imigrantes at que algum fazendeiro os contratasse. Talvez ali ela fosse rev-lo quem sabe? As luzes brilham sobre a gua.
     Os jogadores no tm olhos para a beleza dos reflexos das lmpadas na superfcie do rio. A terceira classe  mal iluminada e eles precisam estar atentos aos manejos do marinheiro para no serem roubados na volta da carta. Marinheiro  bicho sabido, o baralho  velho e seboso, e ronda  um jogo pra ladro. Apostam os paus de fsforos, cada um vale 20 ris, mas  muito caro para o bolso deles.
     O marinheiro vira as cartas, as conversas se prolongam nos grupos, agora, que esto reunidos no navio,  como se fossem uma s famlia, o mulato que sara para comprar mantimentos adquirindo uma autoridade de chefe.  le quem soluciona as brigas por causa de lugar, quem vai tratar com o cozinheiro e o comissrio. Chama-se Aristteles e nem parece imigrante. Dizque em So Paulo vai ficar  na capital,  fcil ser condutor de bonde. Alguns no sabem o que  isso e le explica, ajudando as palavras com gestos largos.
       um trem pequeno que corre nas ruas, levando gente de uma banda pra outra...
      Oxente... que coisa...
       J se viu...   Esse mundo...
     O mulato ria da ignorncia deles. le j viajou, conhece um pedao de mundo, sabe palavras desconhecidas. Vo se reunindo em torno dele, as discusses estalam as histrias vo surgindo:
       Num sei cuma foi quando vi tava em cima do homem, o punhal nas costela dele...   O jri disse que eu num tava nos meus sentido e  bem verdade...
     Da primeira classe chegam sons de piano, vozes e risos. Marta sente que sobre a sua cabea, no passadio de cima, um casal conversa. So noivos talvez, le a beija repetidamente, diz palavras de amor em voz cariciosa. Marta espia o brilho da luz sobre a gua corrente. Ser que vai encontr-lo ainda? E quando ser? Surge uma briga no grupo de jogadores. Correm homens e mulheres, um marinheiro grita, seguram o que est com a faca na mo:
       T doido, rapaz?
     Vem gente da primeira classe espiar. Mas os noivos no se movem de onde esto, os beijos estalam, alguns so longos, os lbios dentro dos lbios. Marta v as sombras, que estar fazendo Vicente nessa hora? Estar no balastre do cais, espiando o rio, as barcas, aquela que tem o nome de Marta. Nunca mais o ver, tem quase certeza. Um dia le a ia beijar estavam na sombra da rvore, no deu tempo. Por que no a beijou? Sente-se como se tivesse sido roubada.   A voz de Jucundina a procura:
      Marta!   Marta!
      J vou, me...
      s o tempo de espiar mais uma vez as luzes na gua, de ouvir o som de mais um beijo e a voz do homem dizendo  noiva:
       Querida!   Querida!   Como te amo... 
     Marta anda devagar, tem vontade de chorar.
     
8
     
     Do rio eles quase s viam a gua por onde o navio seguia, em marcha que lhes parecia rapidssima e aos viajantes de primeira casse se afigurava das mais lentas. Viam tambm a vegetao nas margens, os camponeses de rosto amarelo, e as pequenas cidades onde tocavam. Escapava-lhes o mistrio do rio, seus dramas, sua trgica geografia humana. Nem prestavam ateno  vida que os rodeava e s mostraram mesmo um interesse mais vivo quando o navio encalhou e os barqueiros do So Francisco empunharam as longas varas, as encostaram nos peitos e lutaram durante horas e horas contra o barco, a areia e o rio. Como nada sabiam de terras do outro lado do mar  a no ser precrias e falhas observaes ouvidas ao acaso  no compreenderam a observao literria feita por um caixeiro-viajante que ia na primeira classe e que, com ela, pensava impressionar os companheiros de viagem e principalmente a filha do coronel Menandro que viajava para a cidade da Barra:
       Parecem os barqueiros do Volga...
     Talvez parecessem, talvez no, o prprio caixeiro-viajante sabia pouco acerca do Volga, a no ser atravs da msica e da letra da cano e de que por l houvera uma revoluo sangrenta e os barqueiros no mais empurravam os barcos com os ombros. Isso tudo le explicou a Clarice na sua lngua cheia de gria, entremeada de anedotas:
       Foi um fuzu brabo...   Os barqueiros eram comunistas, mataram o rei e agora so o governo...
     Ela, que estudava numa faculdade, sabia mais que le e riu. No chegava a se emocionar com o espetculo dos homens com a vara contra o peito, levantando o navio do leito traioeiro do rio. Aquela era uma cena  qual se acostumara desde a infncia. Os colegas de Faculdade, vindos de outras regies gostavam de ouvi-la narrar aquelas coisas e falavam da sua vocao literria. Por isso sorria do caixeiro-viajante e sentia-se ligeiramente incomodada com sua insistente presena.
     Os imigrantes ouviram a comparao, pois o rapaz falava sempre em voz muito alta e no compreenderam. Mas estavam todos presos pela viso daqueles homens de peito nu, enterrados no rio, manejando as varas entre gritos, ouvindo as ordens que o comandante transmitia do alto. Aquele era um trabalho duro, to duro ou mais que o de lavrar a terra, de abrir-lhe sulcos profundos, de plantar e colher.   Jucundina apontou um dos homens:
       J tem um calo no peito...
     Todos o tinham, uma deformao no lugar onde apoiavam as varas. Viam quando mergulhavam, segurando logo depois os enormes varapaus, voltando a enfi-los sob o casco do navio. Uma luta de horas inteiras, sem descanso.
     O navio safava-se lentamente, e isso era o que mais os assombrava, pois no imaginava possvel que le se movesse sequer. Observavam os negros e os mulatos em torno ao barco. Eram homens como eles, da mesma estatura, de parecida cr, mas aos sertanejos afiguravam-se gigantes donos da fora e do poder, senhores do rio, capazes de tudo. Quando finalmente, aps quase uma tarde de trabalho, o navio retomou sua marcha e os barqueiros pularam para bordo, os imigrantes os cercaram, faziam perguntas, e vinham os meninos e tocavam nos calos que eles tinham no peito. Os barqueiros sorriam, aquele era o seu ganha-po, que de alguma coisa tem o homem de viver.
     
9
     
     Ernesto no foi o primeiro menino a morrer. Outros morreram antes e at adultos ficaram nas guas do rio com a disenteria. Aps a seca e a racionada comida da caatinga, charque assado e piro de farinha, aps a economia de Juazeiro, os tostes contados  a comida de bordo, peixe abundante e gorduroso, parecia um sonho. Era  vontade. Homens comiam dois e trs pratos de pirarucu, lambiam os beios, esticavam-se na madeira do navio de barriga para cima, calentando o sol como as jibias no serto depois de devorarem um bezerro ou um cabrito.
     Mesmo antes que a disenteria se declarasse, j a latrina se tornara intil. Era uma s em toda a terceira classe e, j no segundo dia, a descarga no funcionava e o mau cheiro se alastrara. Os homens foram sujando por todo o espao do pequeno quarto onde estava o aparelho e logo ficou inteiramente inservivel, no era possvel sequer transpor a porta. Aprenderam ento a equilibrar-se nas bordas do navio, a bunda para fora, as calas arriadas. Defecavam no rio.
     Todas as manhs os marinheiros limpavam a latrina.   Pelas dez horas j ningum podia se servir. A descarga estava definitivamente rebentada e o nico jeito era esperar a noite, com suas sombras, para fazer o servio no rio. Ou ento a chegada a qualquer porto com a conseqente corrida para os matos prximos. A princpio as mulheres recusavam-se a acocorarem-se nas bordas do barco, ante os olhares curiosos dos rapazes e as pilhrias sem gosto dos meninos. Mas quando comeou a disenteria perderam todo o resto de vergonha e j no esperavam a noite, os passageiros de primeira classe evitando olhar para baixo.
     As crianas sentiram primeiro a mudana e a fartura da alimentao. Os detritos eram verdes, moles e malcheirosos. Quando o primeiro morreu foi um deus-me-acuda no navio. No havia mdico a bordo, se bem um esquecido decreto do governo exigisse sua existncia. Apareceu um enfermeiro, um caboclo de cara feia e maus modos. Em todos os vapores onde iam imigrantes era sempre a mesma coisa: chegavam esfomeados, enterravam-se no peixe, morriam uns quantos de disenteria. Olhou o menino morto, espiou outros, perguntou se tinham dor de barriga.   Cuspiu:
       Comeou a caganeira...
     No deu remdios nem explicaes.
       O nico jeito  comer menos...   Quanto menos  melhor... 
     Impossvel seguir o conselho.   O peixe os tentava, era bem preparado com azeite de dend, o seu cheiro atravessava o navio. Mas em breve foi dominado pelo mau cheiro que vinha de todos os cantos, pois os mais doentes nem podiam se agentar de ccoras para defecar na gua do rio e o faziam ali mesmo pelo barco, sujando calas e vestidos, uma porcaria.
     Morreu outra criana, depois foi a vez de Ernesto a quem Jucundina,  falta de leite, dava o caldo de peixe. Quando estavam prximo a um porto, os cadveres eram conservados para serem enterrados no cemitrio. A famlia ficava em torno, chorando, no havia caixo nem flores. No porto entregavam  polcia, o vapor no podia esperar. E, quando estavam longe de uma parada, ento o jeito era atirar no rio, deixar que as piranhas comessem. Assim aconteceu com Ernesto e eles viram o pequeno corpo ser arrastado pelas guas, a suja camisola esvoaando como uma bandeira ou um leno dando adeus.
     Aquele foi um rude golpe para Jucundina, No comeo da viagem, nos dias iniciais da caatinga, esperava v-lo morrer a qualquer momento.   A falta de leite, de um alimento mais substancioso que angu de farinha, a apavorava. Mas a criana resistira, atravessara a viagem, emagrecendo dia a dia mas sem doenas, e aos poucos ela foi se convencendo de que le no morreria. E agora, quando tudo parecia prximo do fim, quando seus sofrimentos estavam  no seu pensar  para terminar, quando era a fartura de comida, quando ela j se convencera de que le se criaria e seria um dia um moo to simptico quanto Nenn, ento  que le morria e o seu corpo nem enterrado era, ia ao sabor do rio servir de pasto para as piranhas. Se fosse na caatinga pelo menos eles o enterrariam, poriam uma cruz por cima, passariam uma noite velando o pequeno cadver, rezando suas oraes. Mesmo que os urubus viessem depois e cavassem o lugar, eles j estariam distantes, no assistiriam. Mas agora vem o corpo indo pelo rio, junto com os galhos de rvores, as folhas secas, a sujeira que jogam do barco. As folhas aderem ao cadver e por vezes as guas o cobrem, s conseguem ver os ps, os magros ps to pequenos!
     Mas sua dor no  a nica a bordo. Sucedem-se as mortes e at cadveres de homens vo para as guas desse cemitrio estranho. Quando a hora da comida se aproxima trava-se um drama dentro de cada imigrante: a fome, o desejo de comer o peixe gostoso, e o medo da disenteria. Num dos portos onde pararam, o comandante mandou comprar um boi e abat-lo. Durante dois dias serviram carne e foi assim que os efeitos da disenteria diminuram. Mas dos olhos de Jucundina no desapareceu jamais a viso do cadver do neto sobre as guas do rio. Muito tinha que contar aos trs meninos, a Nenn principalmente, quando os voltasse a encontrar. Muita tristeza que lhes narrar, muitas lgrimas que derramar sobre os ombros dos filhos. Por que se recordava deles a cada desgraa? Agora quase que s eles lhe restavam na vida, sua famlia estava acabando depressa e ela j no lastimava que os trs houvessem partido mesmo para serem soldado e canganceiro, que pior era morrer naquela viagem para So Paulo.
     Ia tomando dio a essa terra de So Paulo, no sabia mesmo por que ainda marchavam para l. Podiam ter ficado pelo caminho, numa fazenda qualquer,  como agregados.   Que importava que o salrio no desse, que a terra no fosse deles, que lavrassem para um coronel e para le colhessem?   De  qualquer maneira iriam vivendo e estariam todos vivos e juntos e ela os veria vir pelo fim das tardes com seus instrumentos de trabalho. Agora os via partir um a um, cada qual mais triste na sua morte. Foi bom que Agostinho e Gertrudes houvessem decidido ficar naquela fazenda. A essa hora estariam casados, dentro de um ano teriam um filho, seria talvez parecido com Ernesto, esse se criaria, com seu saldo Agostinho compraria uma cabra, leite de cabra sustenta criana, cria forte, ainda mais que leite de vaca. Deviam ter trazido a cabra...   Por maior que fosse o sacrifcio...
     Vai um rumor de choros e gemidos pelo barco. Na primeira classe tocam piano e riem. L no servem apenas peixe. H carne, po com fartura, caf com leite, ningum adoeceu. Vida de pobre  assim mesmo e Jucundina no sabe para que nasce gente pobre se  para sofrer tanto. Sejam eles naquela viagem, sejam os barqueiros com as varas nos peitos sangrantes, aleijados de calos. Esse mundo  mal feito, tem muita injustia, deve mesmo acabar. E vai acabar com certeza, est perto do fim, o beato est dizendo, a santa est dizendo, e suas vozes so ouvidas em todo o serto onde cegos violeiros, os cangaceiros mais valentes e as mulheres mais desgraadas repetem que o fim do mundo est perto, o sofrimento vai se acabar.
     "Tumara que acabe logo",  o que deseja Jucundina. Que acabe antes de Jernimo morrer, ela tudo que deseja agora, alm de rever os trs filhos,  no assistir  morte do marido. J viu morrer gente demais, gente que ela pariu ou que ela criou. Por que Deus no tem pena e no a leva de uma vez? Por que a deixa vivendo se  apenas para sofrer? Morreria satisfeita se antes abraasse os filhos. Jo, que  soldado de polcia, Jos que  cangaceiro e Nenn que  cabo do Exrcito. Se eles chegassem, os trs juntos, e lhe pedissem a bno... Mas chegar para onde se j no tm casa, nem terra, se j no tm quase parentes, se nem sabem onde vo parar?
     As guas do rio correm para o mar, assim lhe explicaram, sabem para onde vo, qual o seu destino. Jucundina no sabe para onde vai, onde arrumar suas trouxas e descansar seu corpo. Quando chegarem a So Paulo que destino tomaro? Dizem que faz frio, que no inverno  to gelado que racham as orelhas e os lbios. Morrero todos de frio, os poucos que restam. Procura, com o olhar que j no enxerga o corpo de Ernesto, o resto da famlia. Jernimo est deitado, Marta seca as lgrimas com as costas da mo, Joo Pedro fuma na balaustrada, Tonho corre com os meninos que no adoeceram. Quando partiram eram treze, cantando com o jumento e a gata, foi Dinah quem contou. Agora so apenas cinco, quantos chegaro?
     
10
     
     A disenteria cedeu, porm alguns homens.e mulheres continuaram arriados, com febre. Era o impaludismo. Aqueles que j no o traziam no corpo, do alto serto, o adquiriram ali nas guas do rio das sezes. Uma catinga insuportvel fizera-se habitual na terceira classe. s sujeiras dos doentes misturavam-se outros ftidos odores, provindo do chiqueiro improvisado dos porcos, dos engradados de galinha, da latrina sempre cheia. E os gemidos e as palavras soltas na febre, e as queixas tornaram-se tambm to comuns que j ningum ligava. Os passageiros de primeira iam apavorados, alguns ameaavam at saltar com medo do impaludismo. Um caixeiro-viajante aparecera com febre e os passageiros exigiram providncias do comandante. Foi feita larga distribuio de quinino entre os imigrantes.
     Apesar de tudo a vida continuava entre os que no caram com febre e haviam escapado da disenteria. Jogavam baralho, perdiam dinheiro, tocavam violo, faziam projetos para So Paulo. Mais uns dias e chegariam a Pirapora, era quase o fim da viagem. Dali era s tomar o trem, com passagem de graa, e viajar dois dias para chegar onde havia abundncia e trabalho, dinheiro e alegria. Eram muitos os sacrifcios mas valia a pena porque contavam tanta coisa desse So Paulo que mesmo se apenas a metade fosse verdade, ainda assim compensava.
     Quando atiravam mais um corpo nas guas do rio e viam as piranhas se aproximarem vorazes, apenas lamentavam que aquele no tivesse agentado um pouco mais. O impaludismo matava menos que a disenteria, apenas amarelava os homens e fazias as mulheres parecidas com fantasmas. O que acontecia era nunca mais largar o que adoecia. Ia embora para voltar no outro ano, Quando chegasse o inverno com suas chuvas.   Porm como diziam que em So Paulo era tudo diferente, que no chovia no inverno, era um frio seco com geada e neblina, as chuvas caindo apenas no vero, podia ser que l nem houvesse impaludismo.
     O pior era que estava correndo a notcia, espalhada ningum sabe como nem sada de que boca, que em Pirapora no permitiam o embarque de doentes. Que os impaludados no podiam seguir viagem para So Paulo, o governo no dava passagem. Se quisessem ir teriam que pagar o bilhete de trem e no levariam nenhuma garantia de trabalho. Que havia um mdico do governo a examinar cada um e s os que conseguissem passar no exame, que era rigoroso, tinham direito  passagem.
     O desnimo invadiu o navio e era ainda mais concreto que o mau cheiro e os gemidos, e as lgrimas e a febre. Vinham de percorrer os caminhos da fome e da doena, to prximos da fartura ser que no poderiam dar o ltimo passo e alcan-la, prend-la nas vidas mos cansadas?
      Mato um...  dizia o mulato que fizera as compras em Juazeiro e que estava cado de impaludismo.
     Jucundina ouviu a notcia, pouco se comoveu. Agora tinha f nas palavras do beato, que ouvira repetir. O mundo ia acabar, estava perto do fim. Seria bom se acabasse logo, antes deles chegarem a Pirapora.  Assim nenhum mal podia mais lhe acontecer.
     
11
     
     O rio rugia na cascata, um barulho de ensurdecer. Ficaram vendo os passageiros de primeira desembarcarem. O caixeiro-viajante impaludado desceu carregado, diretamente para a casa de sade. Na terceira todos se tinham posto de p, mesmo os que ainda tinham febre, nenhum queria aparecer como doente, era o medo de no ganhar a passagem para So Paulo. Pediam notcia a toda gente que aparecia a bordo, como deviam fazer para conseguir os passes, aonde se deviam dirigir, que tal era o mdico que fazia os exames, quando saam os trens que levavam imigrantes.
     Estavam novamente animados e, se bem ali fossem se separar para diferentes penses, no faziam despedidas, esperando todos encontrarem-se no primeiro trem que sasse para So Paulo.
     O mulato das compras, que era conversador e bem falante, conseguia informaes do carregador. Ficou sabendo onde poderiam se hospedar. Havia umas penses baratas, nas ruas de canto, que aceitavam flagelados, desde que o pagamento fosse adiantado. Mas soube outras notcias tambm. Que havia na cidade de Pirapora mais de trezentos imigrantes  espera de conduo para So Paulo. Isso sem falar nos doentes, nos que no tinham conseguido o visto do mdico. Esses no se contavam mais, tinham virado mendigos pelas ruas, ou trabalhavam em paga da comida nas fazendas da vizinhana. Sempre na esperana de conseguir o visto, renovando o exame mdico de quando em quando.
      Vocs passam aqui uns dois meses quando nada...
     Finalmente desembarcaram. Levavam suas trouxas na cabea ou nos braos. Ficaram parados na ribanceira onde as canoas os deixavam, sem saber para onde se dirigirem. Carregadores mais caritativos indicavam os caminhos.
     O sol era vermelho e queimava. Uma poeira cr de sangue subia pelas ruas, enchia os pulmes. A cidade de Pirapora dormia a sesta quando eles chegaram. Apenas os mendigos enchiam as ruas, dezenas e dezenas, pediam esmola aos raros passantes. E aquela poeira densa que avermelhava as coisas e dava uma cr carregada ao cuspo. Adiante, a cascata rugia sob uma ponte abandonada. Eles foram marchando, aos grupos, no caminho das penses baratas.

O trem de ferro

1
    
     Quando o cliente saiu, o doutor Epaminondas Leite ficou um momento sentado, antes de chamar a enfermeira. Sentia-se exausto. Olhou o bico do sapato sujo de poeira vermelha. No adiantava engraxar, era dinheiro posto fora. Bocejou longamente, batendo na boca com as costas da mo. Sentia o calor que entrava pelas janelas do consultrio, estava com a camisa empapada de suor. Terra desgraada... Que jeito tinha se no levantar-se e continuar? Ali, em cima da mesa, estavam as papeletas. Um monte, diminua devagar. Nessa tarde le j examinara vinte imigrantes e apenas nove tinham sado com as papeletas que afianavam a sua sade e lhes garantia o passe para So Paulo na outra parte do prdio, onde funcionava a repartio do Servio de Imigrao do Estado de So Paulo. Quase todos com impaludismo, outros com verminose, uns tsicos, at um caso de lepra aparecera naquele dia. Por mais superficial que fosse o exame  e um ano antes, quando chegara, Epaminondas demorava-se a examinar cada um, conversando, perguntando antecedentes, querendo saber dos pais e avs  as marcas das doenas estavam estampadas em cada face. Muitos ainda queimavam de febre, a maleita aparecendo na palidez acentuada do rosto, no tremor das mos, no fundo das pupilas. Bastava olhar para o infeliz, para que demorar-se mais a examinar? Noutros era o abaulado das costas, os rostos covados, aquele rudo caracterstico na respirao. Havia um aparelho de Raios X mas estava quebrado e, apesar de suas reclamaes, nunca o haviam mandado consertar. Tambm no era preciso. Longe estava o tempo em que ia buscar as razes, as causas de cada doena, de cada tuberculose.  Tambm j conhecia de cor e salteado essas coisas:  a viagem   a fome, o trabalho excessivo.   Nos primeiros meses, os imigrantes, quando saam da pequena sala do consultrio, diziam:
      O doutor parece mais um padre confessor que um mdico... Pregunta a vida toda da gente...
     Sentia-se esgotado. No particularmente nessa tarde. Era um cansao que vinha de longe, de semanas e meses, um dio contra tudo aquilo que o rodeava: o calor de Pirapora com sua poeira entrando pelo nariz, pelas orelhas e pela boca, as conversas das comadres nas casas pacatas, o rudo do rio, as doenas dos imigrantes, os pedidos, as lgrimas, as histrias dramticas. Cansado da enfermeira, cansado at de Fil, a rapariga com quem dormia a maioria das noites e que o esperava no cabar. S uma coisa desejava: ir embora, largar a cidade, o consultrio, as papeletas quase inteis, no ver mais a cara dos outros funcionrios, no ouvir mais a voz da enfermeira Amlia comandando os imigrantes: 
      O prximo...
     Besteira... O prximo... Eles l sabiam o que queria dizer o prximo... Em nenhuma das suas significaes. A Bblia (seria mesmo a Bblia?) falava que no se devia fazer mal ao prximo. O difcil  estabelecer exatamente o conceito do bem e do mal. Ai daquele que o tentasse a srio: ficaria louco... le, Epaminondas, teve esse problema nos primeiros meses. Ficou sem dormir, foi um tempo terrvel. O melhor era no ligar, deixar que as coisas corressem. Esse mundo  mesmo errado, no seria le, o doutor Epaminondas Leite, com dois anos de formado e um ordenado de um conto e quinhentos, quem iria conseguir consert-lo... No fora outra a concluso a que chegara o doutor Digenes. Apenas, em vez de se conformar, entregara-se  bebida, estava inutilizado para sempre. Epaminondas bem que tem sido tentado. H noite que seu nico desejo  beber at ficar inconsciente, sem pensar em nada, largado por a, e limpo pelo lcool de toda a sujeira que o rodeia. Mas se guarda de faz-lo, o que vira do doutor Digenes valera como uma boa lio. O importante era agentar at que os seus amigos de So Paulo conseguissem sua transferncia. Mandava cartas, uma atrs da outra, seu pai no tinha descanso, largava a tesoura e a agulha, ia em busca dos amigos influentes, ouvia as promessas, tornava a voltar.  A Epaminondas pouco importava que o chamassem de chato. No sabiam o que era aquilo ali, aquele consultrio, os imigrantes, as suas histrias, e os rogos, as splicas que depois continuavam a ressoar nos ouvidos pela noite a dentro, impossibilitando o sono... Se eles soubessem, no o chamariam de chato...
     Se pelo menos ainda aparecesse alguma imigrante que fosse bonitinha... Coisa rara... Uma que outra, levando meses a examinar velhas de peitos moles e homens magros como uma vara... J sabia que era uma baixeza, uma quebra de toda a tica profissional, mas no resistia: quando aparecia uma cabocla bonita mandava que ela se desnudasse, a pretexto de exame, e apalpava ndegas e seios. Via as faces coradas de vergonha, os olhos baixos, as mos cerradas sobre o peito. Depois lhe dava um remorso, um asco de si mesmo, mas aquela terra e aquele trabalho rebaixavam qualquer um, amesquinhava o carter de quem quer que fosse. Recordava-se sempre da frase de um imigrante, logo nos primeiros tempos da sua chegada. O homem batia violentamente numa criana com um tamanco, o sangue escorria no lbio ferido do menino. Segurou o brao do imigrante, censurou-o:
       Pare com isso.   Que barbaridade...
     O homem o olhou com maus olhos mas logo que soube que le era o mdico mudou de modos, ficou humilde, largou da criana que nem saiu do lugar, choraminguenta e suja.
       Seu doutor, ns semo pobre e tamo viajando pra So Paulo. Tamo sem comer que nis no tem mais um tosto.   Pois esse desgraado ainda acha de ir roubar po s pra me criar embarao...
     E desfiou sua histria, ali mesmo, nos degraus da porta. Naquele tempo Epaminondas ainda ouvia com pacincia os relatos espantosos. Quando o homem terminou, deu conselho e fz uma pergunta:
       Como  que voc, depois de ter sofrido tanto, voc e sua famlia, ainda tem coragem de bater na criana?  No tem pena?
     O homem levantou os olhos, falou com sua voz humilde:
       O sofrimento no faz ningum ficar bom, seu doutor...   O sofrimento s piora a gente, s faz ficar ruim...
     Agora le gostava de repetir para si mesmo a frase do imigrante e at a escrevera numa das cartas semanais (antes haviam sido dirias) para Marieta, sua noiva que estava em So Paulo.
     le tambm ficara ruim, mas de uma ruindade pequena, covarde, incapaz de uma maldade grande, perdendo-se nessas torpezas de mandar as moas se despirem, de negar licenas aos funcionrios que estavam sob seu controle e que sonhavam fugir por uns dias do posto de imigrao.
     Imigrante bonita era raridade. Deitara com algumas, andavam com fome, eram presa fcil. Umas casadas, outras amigadas, havia vivas cujos maridos tinham ficado pelo caminho. Dava-lhes cinco mil-ris, para elas era uma fortuna. Muitas sobravam pelas ruas de rameiras, le por vezes reconhecia algumas que haviam passado no seu gabinete em busca da papeleta. Estavam doentes, no serviam mesmo para nada, le lhes barrara o caminho para So Paulo, acabavam nas casas de prostituio onde morriam mais depressa.   Era tudo muito nojento e le sentia-se cansado.
     Podia no vir ao consultrio, se quisesse. J o fizera algumas vezes, deixando-se ficar na pequena casa que alugara e onde residia s (durante o dia vinha uma negra arrumar as coisas). Comia no hotel e em certas tardes de maior calor e agonia em vez de dirigir-se, s duas horas, para o consultrio, caminhava para casa, atirava-se na cama. Mas se no pegasse logo no sono (aquele sono pesado do qual acordava suado e com dor de cabea), ento ficava inquieto, pensando na fila de homens e mulheres que o esperavam, sentados ou de p na sala, os olhos aflitos para a porta por onde le entrava. Alguns j tinham vindo duas e trs vezes, sempre calados, os olhos tmidos como os de um co que le tivera quando estudante. Revolvia-se na cama, terminava indo, e naqueles dias era ainda mais rspido, mais fechado e soturno. E para isso se formara...
     Que jeito tinha se no levantar-se e continuar? A sala estava superlotada, quando le chegara quase no pudera passar e depois nao parou de entrar gente. J atendera a uns vinte, rapidamente, era fcil ver logo os enfermos.
      Por ora  impossvel... Se voc ainda est com febre do impaludismo...
     Dava caixas com cpsulas de quinino:
      Tome isso e, quando a febre passar, volte pra gente ver o  fazer...
     Que mrbida fascinao o levava a fit-los quando j sabia de antemo que ia ver os mesmos olhos de espanto, a mesma boca torcida num pedido, o mesmo desespero?
       No adianta...   No posso fazer nada...
     Ouvia ainda as lamentaes l fora. E a voz de Amlia mandando a famlia embora, aos gritos, brutal e feia Amlia! le fazia o mesmo ou quase o mesmo, fazia coisas piores como pr nuas as moas bonitas, mas tomara raiva da enfermeira devido queles seus modos, sua estupidez para com os imigrantes. Ela parecia no sentir toda aquela desgraa que a rodeava, ria e trocava pilhrias com os outros funcionrios.
       Que gente...  que asco...
     Pensa que le no  muito melhor. Tambm era bruto, ruim muitas vezes, usando palavras iguais ou muito semelhantes s de Amlia.   Mas lhe tinha raiva e no a escondia.
     Espia pela janela. Com o cair da tarde a poeira diminui um pouco. Nos caixilhos amontoa-se o p vermelho. Algum passa na rua e o cumprimenta.
       Boa tarde...
     Como se pudesse haver uma boa tarde nessa cidade a examinar imigrantes... Olha o relgio. Felizmente est prximo o fim. Mais alguns e acabou-se por hoje. Depois  o jantar e a noite nos braos de Filo. Nem mesmo essa lembrana o entusiasmava. Estava cansado da cabrocha, s no a largara ainda porque no aparecera outra com uma cara razovel que a substitusse... E aquilo ali sem mulher...
     Grita:
       Amlia!
       J vou...
     Quando a enfermeira abre a porta que d para a sala de espera, Epaminondas ouve o rumor de conversas.
       Tem ainda muita gente?...
       Muita...   Hoje chegou navio...
       Quais so os primeiros?...
       Uma famlia, veio nesse vapor...  Dois homens, a me, uma filha  sorriu  bonitona, um menino...
       Mande entrar um dos homens... 
     Quando ela se dirigia para a porta, resolveu:
       Mande entrar todos de uma vez...   E os demais podem ir embora...   Que voltem amanh...   Esses sero os ltimos...    
     Todos de uma vez, seria mais rpido.  Afinal tratava-se de um exame superficial, o navio trouxera uma carga ruim.   Quase tudo impaludado, fora um surto a bordo, le j constatara.
     Est de costas, olhando pela janela quando Jernimo entra com sua famlia. Ouve os passos, a porta que a enfermeira fecha, o silncio respeitoso. Desce a cortina sobre a janela, volta-se. A moa era bonita, Amlia tinha razo. Como aquela poucas le tinha visto entre as imigrantes...
     
2
     
     Quando Epaminondas Leite chegara a Pirapora, pouco mais de um ano antes, vinha disposto a grandes realizaes, otimista e feliz. Aquele emprego custara-lhe muito trabalho e a viagem de trem, desde So Paulo, le a realizara com uma sensao de verdadeira euforia. De Belo Horizonte telegrafara a Marieta: "Viagem tima. Breve estarei a de volta.   Ser para sempre".
     Pensava em passar uns seis meses, assim tinham-lhe prometido os amigos. E o chefe da repartio, um velho pernstico que escrevera um livro sobre os bandeirantes e estava muito orgulhoso de si mesmo, dissera que ia se interessar para que "aquele exlio em Pirapora no demorasse demais". Depois lhe dissera, com seu jeito de falar como se estivesse fazendo discurso:
      O meu jovem amigo, no entanto, no deve afligir-se. Vai se colocar em contacto com dois dos maiores problemas do nosso pas: a imigrao nordestina e o rio So Francisco. Esse ltimo, em especial,  profundamente tentador. Eu o aconselho a aproveitar o tempo estudando os problemas da regio. H um, sobretudo, que  fascinante. Por que, numa terra to frtil e rica,  o homem to indolente e incapaz? Tenho para mim que  a mestiagem... Mas o senhor vai ter oportunidade de examinar o problema in loco...
     Prometeu que estudaria o problema e enviaria suas observaes ao chefe em cartas que seriam o incio de "uma larga estima epistolar" como definiu o historiador dos bandeirantes.   E quando prometera no o fizera por uma simples gentileza, para atender e ganhar a boa-vontade daquele homem de quem tanto dependia de ali em diante.  que levava todo um plano de estudos, de trabalhos, de realizaes. "L poderei me especializar em doenas tropicais, estudar muito,  uma especialidade que d". Quando conseguisse remoo para So Paulo podia abrir um consultrio. Via-se com dinheiro e fama, casa bem montada, Marieta feita uma grande dama, o pai largando o ofcio deprimente de alfaiate.
     Mas ficou na primeira carta, que, alis, nem ps no correio. Suas observaes, dois meses depois de ter chegado, levavam a resultados que certamente no agradariam ao chefe e achou melhor deixar o assunto de lado. Que diria o historiador dos bandeirantes se soubesse que a indolncia e a incapacidade queriam dizer apenas fome na terra rica e frtil?
     No largo percurso de trem fizera toda sorte de projetos. No vinha no ar, sem saber para onde ia, como acontecia com os imigrantes ao atravessarem a caatinga e o rio So Francisco. Aquele emprego, que devia sem dvida  interveno de Floriano  chegara da Europa, da viagem de estudos, na hora em que le j desanimara  representava o fruto de um ano de pedidos, de esperas em salas frias de reparties, levando cartas, apresentaes, humilhado, os sapatos rotos, o terno azul da formatura adquirindo uma cr fosca, as calas perdendo o vinco. Chegando a casa,  tarde, desanimado, sem palavras para a expectativa dos pais, indo noivar  noite com receio da invarivel pergunta de dona Isolina:
      Conseguiu alguma coisa?...
     Fazia um gesto negativo. Marieta o arrastava para a rua, sabia que, se ficassem ali, dona Isolina comearia a se lastimar, a dizer que noivado longo no serve, que um anel de doutor abre todas as portas se a pessoa que o possui  tenaz e trabalhadora. Os nervos de Epaminondas ficavam fervendo, mais de uma vez respondera asperamente. Era melhor passear em frente de casa, cumprimentando as vizinhas, dando dois dedos de prosa com uns e outros.
     O sonho do velho Leite havia sido formar aquele filho. J seu pai exercera a profisso de alfaiate e le ainda era menino quando lhe puseram a agulha na mo. No entanto seu desejo era ser mdico e j que no o pudera realizar jurou que formaria seu filho. Para isso fz os maiores sacrifcios, trabalhando  noite at alta madrugada, em servios para fregueses roubados  alfaiataria. Durante o dia trabalhava para a grande casa de modas masculinas,  noite para a sua freguesia. Tinha at etiquetas da casa, que pregava na gola dos palets, os fregueses sabiam que o corte dos ternos era o mesmo, aquele que fizera a fama da alfaiataria. E o dinheiro para as despesas era no contado, comprando apenas o necessrio para que no passassem fome, mas o filho no ginsio, possuindo todos os livros, com uma boa pasta, a farda sempre limpa.
     Quando fz o vestibular  teve uma boa nota, plenamente 8  a alegria do alfaiate foi enorme. Saiu dizendo  vizinhana toda, convidou os mais ntimos para uma cerveja; j olhava Epaminondas como a um doutor. E de doutor comeou a cham-lo logo, meio em brincadeira, meio a srio.
        para acostumar...  dizia. 
     Comeou a juntar o dinheiro para o anel:
       Quero um anel com esmeralda verdadeira e brilhante de fato...   No imitao como usam por a...  e ria satisfeito.
     Cedo Epaminondas encontrou tudo aquilo um pouco ridculo. Mas tinha suficiente bom corao para compreender o sacrifcio dos pais e a ingnua alegria do alfaiate que chegava a esconder sua paternidade aos fregueses da casa de modas que eram colegas do filho. Quando descobria, entre a freguesia, um estudante de medicina, arrastava a conversa de tal maneira que terminava falando em Epaminondas.
       Conhece?    meu fregus... 
     O rapaz conhecia.
       Inteligente, no ? Vai ser um mdico e tanto... Tem talento e vocao...   Tambm  um burro em cima dos livros.
     Epaminondas no escondia dos colegas a profisso do pai. E foi isso que o aproximou de Floriano, rapaz rico, filho de um senador, tratado com inveja e mimo por alunos e professores. Seu pai era trunfo na poltica, empregava gente, mandava um bocado, todos procuravam agradar o filho. Epaminondas nunca tivera intimidade com le, que possua roda sua, rapazes com automvel e amantes, que iam a festas elegantes e jogavam nos cassinos, estudando pouco, os professores sem coragem de reprovar, contentes de receber o carto do senador pedindo benevolncia para com o filho.
     Certa manh de aula prtica Floriano puxou conversa:
       Ontem conheci um seu admirador entusiasta...
      Meu?  admirou-se.
       , sim.   Um alfaiate.   Fao roupas no "Magazin Robles".  quem melhor corta em So Paulo.   E ontem quando o alfaiate descobriu que eu era estudante de medicina foi logo falando em voc, contando sua vida, fazendo elogios.  Disse que o conhecia.
     Olhou bem nos olhos do outro, no tinha simpatia por Floriano, tudo o que lhe custava esforo desesperado era fcil a le:
        meu pai...
       Seu pai?  era a sua vez de admirar-se.
     No falaram durante o resto da aula. Mas a franqueza de Epaminondas agradara ao rapaz rico, parecia-lhe uma coisa nobre e digna.   Quando saam da sala, aproximou-se novamente:
       Vai para o centro?
       Vou, sim.
      Entre.   Eu o levo.
     Entraram juntos na barata de Floriano, um Packard marrom que deixava as moas doidas. Foram conversando, ficaram amigos. Epaminondas ingressou na roda de Floriano. No o deixavam fazer despesas e aquilo a princpio o humilhava um pouco. Mas o que lhe ofereciam em troca daquela sensao de inferioridade era muito e le no resistiu. J namorava com Marieta naquele tempo, no terceiro ano ficou noivo. Floriano garantia-lhe que, mal se formassem, lhe conseguiria um bom emprego pblico.
       E vamos montar consultrio juntos...  Eu no sei nada, voc  bom estudante...   Vou fazer nome s suas custas...
     O alfaiate sentia-se feliz com aquela amizade. Agora conversava longamente com Floriano quando le ia renovar os trajes, esmerava-se no trabalho para o estudante. Epaminondas jantava em casa do senador, acompanhava Floriano aos cassinos, s festas, s recepes. At em Palcio j estivera, num baile. O prprio senador, de certa feita, indo provar uma roupa na alfaiataria, quisera apertar a mo do pai de Epaminondas e aquilo para o velho representou uma honra que le nunca esperava merecer.
       Quando le se formar, eu cuidarei do futuro do seu rapaz... 
     O proprietrio da casa acompanhava o senador e desse dia em diante tratou o alfaiate com mais amabilidade.
      O filho  estudante de medicina, protegido do senador Nogueira...   Est feito na vida...   Falam que  o senador quem lhe custeia os estudos...
     Marieta tambm vivia aquelas esperanas, por vezes acompanhava Epaminondas no automvel de Floriano que levava ao seu lado a namorada acidental. Iam beber usque em Santo Amaro ou danar em Guaruj. Tudo isso aumentava os sacrifcios do alfaiate, aquela vida custava dinheiro e le no desejava que a Epaminondas faltasse nada.
     No dia da formatura, quando viu o filho com a beca sobre a roupa azul que le mesmo cosera  noite em casa, com todo o carinho, no pde conter as lgrimas. Ouviu, com desmesurada ateno, o discurso do paraninfo e o do orador da turma. Quando o nome de Epaminondas foi lido, bateu palmas ruidosas. Tambm quando o velho diretor pronunciou o de Floriano Nogueira. O senador estava no camarote de honra e saudara com a cabea ao alfaiate sentado na platia do Municipal, onde se realizara o ato da formatura.
     Marieta fizera um vestido novo para ir ao baile. Foram de txi, parecia um sonho, em casa o alfaiate no tinha sono, comentava com a esposa todos os detalhes do ato:
       Agora est danando...
     Dera-lhe o anel e mais um relgio de ouro. E a caneta-tinteiro para assinar as receitas. Floriano havia presenteado o amigo com um rico termmetro.
     Seis meses depois tudo aquilo estava no prego. No quisera apressar Floriano na questo do emprego. Esperava que o amigo se lembrasse, falasse com o senador. Mas, quinze dias depois de formado, Floriano, acompanhado de seus pais, embarcara para a Europa. Trs meses depois o senador voltara para os trabalhos legislativos, Floriano ficara fazendo um vago curso de especializao. O senador esteve apenas dois dias em So Paulo, Epaminondas no pde sequer avist-lo, voltou para o Rio que a poltica estava complicada.
     E comeou aquele tempo de angstia. Conseguia uma carta de apresentao, ouvia promessas de pessoas importantes, pensava que no era justo que o pai continuasse a sustent-lo agora que le j estava formado. Via o alfaiate sobre a agulha at de madrugada, tinha desejos de arregaar as mangas da camisa, tomar da tesoura, ajud-lo. Notava tambm os olhares de dona Isolina quando le chegava para noivar. Por vezes no tinha sequer o dinheiro para o bonde, uma vergonha de pedir ao pai, era sua me quem lhe dava cinco mil-ris para os cigarros e as despesas midas. Demorou nas ante-salas das secretarias, as solas dos sapatos iam se gastando, eram longas aquelas horas de espera para ser atendido e foi ficando humilde e revoltado.
     Durou um ano. Quando j estava completamente desiludido, Floriano chegou da Europa com um novo automvel, um Fiat de corrida, uma francesa que era um amor de pequena e o atestado de que havia freqentado certas clnicas famosas. Epaminondas estava tentando clinicar no consultrio, que um colega lhe emprestara, duas vezes por semana, durante trs horas, mas sabia que aquilo no resolvia. Era s para tapear, dizer que estava fazendo alguma coisa. A roupa azul estava no fio e dava-lhe raiva ver que seu pai preparava-se para lhe cortar outro terno, diminuindo as despesas com a casa.
     Foi o prprio Floriano quem o procurou. Quando soube que le ainda estava desempregado, aborreceu-se:
      Ser possvel?  Recomendei tanto ao velho...    o diabo da poltica, no lhe deixa tempo livre...   Mas vamos tratar disso em seguida...   E um emprego que valha a pena.  Coisa boa de fato...
     E traou o programa daquela noite. Iriam a Santos, o cassino... Epaminondas mostrou a roupa.
       Vestes uma das minhas...   E ficas com ela...   No vais agora bancar orgulho besta, no ?  Afinal, a culpa  minha...
     Quando voltaram, Epaminondas lhe disse:
       Quanto ao emprego, qualquer coisa serve contanto que no demore...
     No demorou realmente. Floriano lhe explicou que, com mais tempo, poderia conseguir coisa melhor. Mas, com aquela pressa, pegara a primeira vaga. Era de mdico do posto de imigrantes em Pirapora.
       Coisa para pouco tempo. Arranjo logo tua transferncia para aqui ou outra coisa melhor...   Dessa vez no vai acontecer como da outra...
     Mas Epaminondas bastava com o emprego. Um conto e quinhentos j servia. No disse nada em casa, nem a dona Isolina nem a Marieta, at que a nomeao foi assinada. Naquele dia levou queijo e vinho para casa, flores para a noiva. Floriano lhe emprestara dinheiro para tirar o anel, o relgio, a caneta e o termmetro do prego e mais para as despesas de viagem. Entrou em casa com o "Dirio Oficial" na mo. A alegria do alfaiate foi tanta que Epaminondas temeu que le tivesse alguma coisa. Abraou o filho:
      No disse...   Mais dias menos dia...
     A alegria de Marieta no foi menor. Dona Isolina perguntou para quando podia marcar o casamento.
       Logo que eu seja transferido para aqui.   Coisa de alguns meses, cinco ou seis, no mximo...
     Ia substituir um tal de doutor Digenes, funcionrio h muito tempo, que passara quatro anos em Pirapora e agora conseguira ser removido para Santos. Ouviu dizer dele que era homem muito capaz, mdico de muito boa reputao.
     Durante a viagem fz projetos. Como seria essa cidade de Pirapora, to distante, na margem do So Francisco? Recordava as palavras do chefe da repartio sobre os problemas do grande rio. No conhecia cidades do interior a no ser Campinas e Jundia, Santos no podia ser considerada como tal. Mas essa cidade mineira devia ser diferente. Apesar de que passaria ali poucos meses, pretendia montar consultrio para clinicar nas horas vagas e estudar o mais possvel.
     Admirou-se de que o doutor Digenes no o estivesse esperando na estao. Telegrafara de So Paulo e de Belo Horizonte anunciando a sua chegada. Um carregador arrebatou suas malas.
      Onde  que mora o doutor Digenes Mendes?  Voc sabe?
      Doutor Dioges?  Mora no Hotel Internacional...
       longe?
      Pertim...
       Leve minhas malas pra l.   Eu o acompanho para saber o caminho...
       ali...  esticava o beio.  S andar essa rua, sai em cima.
     Deixou o carregador para trs. O calor era insuportvel, havia uma poeira que atacava os olhos. Precisava comprar culos escuros Mas achava a cidade simptica com suas casas brancas e se entusiasmou com a cachoeira rolando sob a ponte. Parou olhando o So Francisco. Um pobre lhe pediu esmola. Meteu a mo no bolso, buscando o nquel, espiou o homem. Firmou o olhar espantado.   No havia dvidas, era leproso.
     O hotel estava silencioso como se no houvesse ningum. Bateu umas palmas inteis. Foi o negro das malas quem foi acordar o proprietrio que dormia a sesta. Outros hspedes, chegados no mesmo trem, iam se juntando na sala.
       Seu Juc, tem hospe...
     Seu Juc no alterou seu passo vagaroso. Calava chinelas e passava as costas dos dedos nos olhos sonolentos.   Epaminondas adiantou-se:
       O doutor Digenes mora aqui?
     O hoteleiro o examinou detalhadamente:
       O senhor  o mdico que vem pro posto?
       Sou eu, sim...
       Seu quarto est reservado...    o 19...
     O negro foi indo com as malas. Mas Epaminondas queria era encontrar logo com o colega, conversar com le. Talvez no tivesse ido esper-lo devido a algum doente grave, talvez uma operao.
     Valia a pena indagar.
       E o doutor Digenes, onde est?   Na Casa de Sade ou no consultrio?  Ou visitando os clientes?
     Seu Juc levantou um olho, era um gesto indefinido.
       Quem?  Doutor Digenes?
       Sim...  disse Epaminondas j irritado.
       Ahn!   Doutor Digenes...   Visitando doente...   Qual... Estendeu a mo, apontou o botequim do outro lado da praa:
       T  ali...    Naquela  mesa,   de   roupa  branca...    Bebendo cachaa...
     
3
     
     Era uma desconsiderao.  Pediu ao dono do hotel que avisasse ao doutor Digenes que le havia chegado e foi para o seu quarto. Tomou um banho, mudou de roupa, esperou encontrar o doutor na sala  sua espera.   Com o banho limpara-se da poeira do cansao viagem.   E  foi lpido e  curioso  que  se  dirigiu   sala onde Digenes  devia  estar. No  encontrou ningum. Olhou  para  o botequim defronte, l estava o mdico, na mesma mesa e parecia-lhe que at na mesma posio.  Chamou seu Juc.  O hoteleiro veio sem pressa, ficou esperando o que le dissesse com aquela cara inexpressiva que enervava:
      Mandou avisar ao doutor?
      No, senhor...
      Mas eu no disse que avisasse...?  Tenho que falar com le,  coisa importante...
      No mandei, fui eu mesmo...   Empregado aqui  saco de preguia, tive que ir eu mesmo...
       Avisou?
     Balanou a cabea dizendo que sim.
       E le que foi que disse?
      Que j sabia...   E me mandou  merda... 
     Completou:
       costume dele, manda tudo  merda...   Tudo, menos a cachaa.   Diz que  a nica coisa que presta nesse mundo,  se tivesse uma filha botava o nome de Parati...  riu e era um riso frouxo, sem foras, "como seria o riso de uma lsma se ela risse", pensou Epaminondas.
     Encaminhou-se para a porta, ia dizer umas verdades quele cachaceiro. Ento era essa a maneira de receber um colega? Tinha a obrigao de ir esper-lo, de mostrar-lhe a repartio, transmitir-lhe o cargo, apresent-lo aos demais. Conversaria com le e diria o que pensava da sua atitude.
     Voltou para buscar o chapu, o sol era de arrebentar. Trazia o hbito de andar sem chapu, ali ia ser impossvel conserv-lo. E tinha que comprar uns culos escuros, sem falta. Que sol... Admirou ainda uma vez o espetculo das guas sobre as pedras nas cascatas, a espuma branca subindo como franjas. Aquilo valia a pena.   Mandaria contar a Marieta na longa carta que pretendia lhe escrever nessa noite.  Mas nessa noite no escreveu a Marieta, s o fz na manh seguinte, pois passou a noite no cabar com o doutor Digenes, "conhecendo as meninas", como dizia o outro.
     No imaginava que isso aconteceria quando cruzava a praa em direo ao botequim. Sua disposio era dizer uns desaforos ao doutor, arranjar-se sozinho, informar depois a repartio. E mandar um recado confidencial a Floriano sobre o tal mdico. Pensava que le no valia nada, no tinha suas relaes? Talvez soubesse que era filho de um alfaiate e por isso...
     O doutor Digenes levantou uns olhos baos. Devia estar com barba de uma semana pelo menos, pensou Epaminondas. Era uma barba avermelhada e rala que dava ao doutor um ar de louco. Os cabelos por pentear, onde le metia as mos que tremiam. "Delrio alcolico", murmurou para si Epaminondas, concedendo no entanto que podia estar em comeo. A roupa suja, queimada em vrios lugares pelos cigarros, a cinza do charuto que o doutor fumava espalhando-se pela gola do palet e sobre o peito cheio de manchas da camisa.
       Boas tardes...
     Os olhos mortos o fitavam:
        o meu substituto?   Muito bem.   Sente-se...
     Puxou a cadeira com gesto brusco, sentou-se um pouco afastado da mesa. Digenes era um homem de seus cinqenta e muitos anos, ao que parecia, gordo com umas mos redondas que tremiam levemente. Epaminondas ia falar, comear sua catilinria, mas o outro nem o olhava mais, batia palmas chamando o garom. Na mesa estava uma garrafa de cachaa, mais da metade consumida,
       Traz outro clice...   E depressa, seu merda...
     O garom riu, devia estar acostumado aos modos do doutor.
        pra j...
       Veja se passa pelo menos uma gua no clice.
     Tinha, no entanto, uma voz cheia e quente, voz de quem houvesse sido cantor em algum tempo. Epaminondas esperava que le lhe oferecesse bebida, para recusar. O garom pousou o clice, ia tomando da garrafa, um gesto do doutor Digenes o interrompeu:
       D o fora, seu merda...
     Encheu o outro copo.  Levantou o seu:
       Sade...
       No bebo...
     Os olhos baos o fitavam novamente e pareciam sorrir sob a moleza que os envolvia, um resto de ironia naqueles olhos.
      No bebe...   Ahn...    bom que comece logo...
      Que comece logo?   Por qu?
      Vai saber depois...  tudo o que resta aqui...  mostrava garrafa  Santa Cachaa, a melhor santa de Pirapora. Mais milagrosa que o Padre Ccero ou esse beato novo que anda pelo serto, o tal de Estvo...
     Aproximou o clice do outro, concluiu:
      Deixe de orgulho, vire a cachacinha... No presta,  uma merda, mas  a melhor que h por aqui...  de Januria. Mas no se compara com a pernambucana...
     E como Epaminondas ainda vacilasse, repetiu:
      Deixe de orgulho, jovem.   Aqui se perde todo o orgulho... 
     Sua voz modulada tinha um acento profundo nesse momento:
      E toda a decncia tambm... 
     Epaminondas suspendeu o clice.
       sua sade...
      Obrigado  esvaziou o seu de um gole, cuspiu, encheu novamente.
     A cachaa era forte, Epaminondas sentiu queimar-lhe o peito. O suor corria-lhe na testa, o sol terrvel fazia fechar os olhos. Tirou um leno do bolso (recordou-se que as iniciais haviam sido bordadas por Marieta), limpou o rosto:
       Que calor...
      Tem coisa pior...   Ora, se tem...  os olhos de Digenes abriam-se novamente naquela expresso irnica.
      A cachaa  bom pro calor...   diagnosticou com meio sorriso nos lbios moles.
     E, sem propsito, fz uma pergunta inesperada, apontando com o indicador o peito de Epaminondas:
      Que idade voc me d?  aprumava-se na cadeira para o outro poder examinar.
     Epaminondas calculou. Devia ter entre cinqenta e oito e sessenta anos.   Diria cinqenta e cinco.
       Anda a pelos cinqenta e cinco...   Pouco mais ou menos... 
     Digenes riu:
       T a o que  Pirapora e o lugar de Inspetor Mdico do Posto de Imigrao do Estado de So Paulo.
     Virou o clice de cachaa, novamente o encheu e tambm o Epaminondas.
      Faz quatro anos e pouco que cheguei aqui...  Quando desembarquei na merda dessa estao tinha trinta e oito anos...   Devia estar agora com quarenta e dois se ainda sei fazer contas de somar.   Estou com cinqenta e cinco,  isso mesmo...   Dezessete anos e no quatro...  E ainda acho pouco, a mim parece que foram trinta...
     Cocou a barba vermelha, Epaminondas estava preso da sua voz.
       Trinta anos,  a pena mxima dos cdigos dessa merda de pas, no ?   Cumpri trinta anos nos quatro que levo aqui...
     Epaminondas disse que se admirava um pouco daquelas afirmaes. Quase no pudera ver nada da cidade e sofria o calor. Mas do pouco que vira no chegara  concluso de que fosse assim to ruim. Para cidade do interior at no era das piores ao que parecia.
      Hum!   A cidade...   Tem um aeroporto, tem um clube de dana onde jogam gamo, boas casas de comrcio, em resumo  uma merda.  Mas no falo da cidade em si, no  ela quem liquida a gente, apesar do calor e dos chatos...
     Seus olhos agora estavam perdidos para alm da praa. Epaminondas no sabia o que le fitava por mais que acompanhasse seu olhar. Na praa deserta no havia ningum. Na outra rua, em frente a uma loja, um rabe de colete bocejava. Talvez fosse para le que o mdico olhasse e Epaminondas comentou num sorriso:
       De colete de casimira nesse calor...   Que cavalo!
     Mas Digenes nem o ouvia. Pensava noutra coisa, com certeza, pois quando falou foi para dizer:
       Espere at ver seus clientes, os imigrantes...   Quantos anos voc tem?
       Vinte e sete...
       Menino...   Na sua idade eu estava no Rio de Janeiro, boas mulheres, no eram essa merda daqui...
     Coou a barba novamente:
       Jurei que no fazia a barba at voc chegar...   Ficou muito brabo porque no fui  estao?
       Bom.  Esperava...
       Eu ia...   Mas logo de manh...
     Calou-se. Emborcou o clice de cachaa, voltou a fazer o elogio da bebida:
       Esquenta o corao da gente...  e sem soluo de continuidade contou:  Eles tinham vindo do Crato, tinham andado mais de seis meses para chegar aqui. Pelo caminho tinha morrido quase tudo e os que restaram...
       Imigrantes?
      Os nossos clientes... H uma papeleta para encher. S se enche quando o cidado est so,  com ela que le vai buscar o passe na sala que fica do outro lado do prdio. Quando tem alguma coisa no leva a papeleta.  Voc tem revlver?
      No.  Que lembrana...
      Era melhor que tivesse para defender as papeletas...   Ou pelo menos que tivesse um corao de ferro...   Boto cachaa em cima do meu para resistir, o meu  uma merda...
       So violentos?
     Violentos?  admirava-se do termo.  Que violentos... O difcil so os olhos, um olhar de bicho acuado... Quando botam aqueles olhos eu s tenho pena  de no ter um revlver para atirar neles... Estou aqui e estou vendo os olhos do homem quando eu disse que le estava com os pulmes arrebentados. Ps-se a chorar...
     Ficou em silncio uns segundos, perguntou:
       J viu homem velho chorando?
     Epaminondas lembrava-se do seu pai no dia da sua formatura. Mas disse que no.
       Se prepare pra ver...   a maior das merdas...  Como  que podia ir  estao?  Hoje de tarde no vou l, sua chegada serviu de pretexto e amanh pela manh lhe entrego o cargo, arribo no primeiro trem...    Minha pena terminou,  vai comear a sua...
      Mas  assim to terrvel?    Epaminondas custava a se convencer que o lugar fosse aquela desgraa de que o outro falava. Afinal era examinar os imigrantes, encher a papeleta para os sos, despachar os doentes.
       O que  que acontece aos doentes?
       O que acontece?  Pois nada... No podem seguir, s isso... Depois morrem, quem  que no morre na merda desse mundo? ~~ apontava a praa.   Ficam mendigos por a...    o que sobra em Pirapora:  mendigos.   E voltam ao consultrio todos os dias para novos exames,  garantindo que j esto curados...
       E o colega os examina novamente? 
     Digenes pousou nele os olhos baos:
      Que importncia tem?   Tuberculose e lepra no se curam assim.   Ainda quando  impaludismo...
     Estendia agora os dois braos num gesto que seria teatral em qualquer outro mas que nele era apenas triste:
       Nunca vi tanta fome...    o que mata essa gente: fome... 
     E logo riu para contar:
       Tem um poetastro por aqui, faz uns versos merdosos, num deles, mais passvelzinho, diz que eles percorrem  os imigrantes...  os caminhos da fome at chegar aqui...   Foi a nica coisa que presta que le escreveu...   Os caminhos da fome levam direito ao cemitrio.
       E o pessoal da repartio?
       Uns merdas...  mas achou a palavra inexpressiva e quase elogiosa e logo emendou.    No, uns miserveis, uns filhos da puta...   Negociam com os passes, fazem toda classe de bandalheira...   No me dou com nenhum...
     Resumia tudo numa palavra:
       Uns pstulas... 
     Esclareceu a Epaminondas:
      No adianta escrever  repartio em So Paulo,  reclamando.   Cada um tem um padrinho, no ligam para isso aqui. H dois anos que peo a minha remoo.  Na ltima carta mandei dizer que, se no me removessem, largaria o posto e mandava tudo  merda...   Dei um prazo a mim mesmo: at o fim do ms que est correndo...   Afinal vi sua nomeao, chegou um ofcio.  E se no larguei antes, foi porque tive pena dos desgraados que, sem mdico aqui, no viajava nenhum.   Nem os poucos que chegam em estado de seguir...
       Foi transferido para Santos...
       J sei...   Mas foi tarde demais, no me levanto mais... Isso aqui me liquidou de uma vez...   Pensa que eu bebia antes de vir para aqui?   Bem, no era abstmio, tomava um trago uma vez que outra, um aperitivo antes do almoo.   Como outro qualquer...
     Chamava o garom:
       Bote na conta, seu merda...
     Jogou uma prata na mesa, o garom murmurou um agradecimento.
       Estou lhe chateando com essas conversas.   Mas  melhor voc saber logo como  a coisa por aqui...   No entrar naquele consultrio com iluses, como me aconteceu...   Pensava em realizar uma obra de fundo social de assistncia mdica aos imigrantes...  balanou as mos  ... planos... tudo deu em droga...
     Levantaram-se. O sol brilhava sobre a cascata, andaram para aqueles lados. Epaminondas admirava-se de que Digenes no fosse aos tropees. Tinha bebido muito e ainda assim caminhava direito, apenas tinha o corpo curvado e as mos tremiam. Mas notou que o outro o examinava com o rabo dos olhos:
       No tenho ainda a minha dose...   riu.    De noite  que estou cheio.
     Riu ainda mais:
       No h outro jeito de conseguir dormir seno bbado...
       O calor...
       Que calor...   So eles e suas histrias...   E os olhos...   D vontade de matar...
     E  noite Epaminondas viu o mdico bbado, danando no cabar. Conhecia todo o mundo, pareciam gostar dele, homens rudes do porto, rapazes do comrcio, o tal poeta que era um mulatinho franzino, os marinheiros dos navios. Mostrou as mulheres a Epaminondas:
      No v com nenhuma sem me falar.   Sei as que tm gonorria e as  que  esto ss.   So  minhas nicas clientes,  fora  dos imigrantes...
     Pela tarde haviam estado no consultrio, Digenes a lhe explicar as coisas, fazendo uma apresentao humorstica de Amlia:
       Esse hipoptamo  a enfermeira.   O bicho mais bruto que Deus ps no mundo...
     Depois Epaminondas fora com Amlia ao outro lado da repartio, falar com os demais funcionrios. Trataram-no muito bem, le era a maior autoridade, recebeu convites para almoos, e puseram-se s suas ordens. Ningum disse nada sobre Digenes, tampouco le estava disposto a tolerar que falassem do mdico.
     Comeram juntos no hotel, Digenes o arrastou para o cabar. L apontava mulheres, cabrochas sem beleza:
       Aquela eu examinei?   Tava s mas o resto da famlia no podia viajar. Andam a pedindo esmola, ela caiu na vida...   Agora  to doente quanto os outros...
     Sabia a histria de cada uma. E at ali os imigrantes vinham procur-lo e foi no cabar que Epaminondas teve o primeiro contacto com aqueles que iam, do dia seguinte em diante, desfilar no seu consultrio em busca da papeleta de sade. Chegou um homem, vinha com dois rapazes, aproximou-se da mesa do doutor. Digenes o fitava com os olhos baos, sua voz agora estava pesada da cachaa:
       Que  que voc quer, Cardoso?...
       Que vosmec me examinasse amanh de novo...   J tou bom, no sinto mais nada...
       Tu pensas que caverna no pulmo fecha de um dia pra outro?
       Num tenho mais tosse...   Nem febre...
     Ali mesmo Digenes botou o ouvido nas costas do homem. Bateu nas costelas com as juntas dos dedos. Voltou-se para Epaminondas:
       Veja voc... 
     Examinou tambm:
       Os dois pulmes... 
     Digenes falava para o imigrante:
       Ainda no, Cardoso, mas no demora...   Passe amanh no consultrio para eu lhe dar um remdio...
      Amanh o senhor examina mais melh, seu doutor... 
     O homem se afastava.
      No demora a morrer...
     Estendia novamente os dois braos no mesmo gesto da tarde, resumia tudo na sua palavra predileta:
       Uma merda...
     E virava o clice de cachaa. Epaminondas tambm bebeu, daquela vez a cachaa no lhe pareceu to forte.
     
4
     
     Por  que diabo ordenara  que entrassem todos de  uma vez? Aquilo de mandar que as moas bonitas se despissem, examin-las detidamente, tornara-se um hbito poderoso. No passava do tmido manuseio mas  noite, quando deitava-se com Filo, a imagem da moa vista no consultrio voltava-lhe  imaginao e le parecia um animal em cio.  Filo dizia:
       Tu hoje t com o co...
     A famlia de Jernimo estava em sua frente. Ouviu a tosse do homem, diagnosticou para si mesmo:
       Tsico...
     O plano se formou quase instantaneamente no seu crebro. Amlia ainda estava parada ali, le fz um gesto, ela saiu fechando a porta. Epaminondas sentou-se na cadeira, comeou a fazer perguntas, os olhos indo de um a outro membro da famlia. Anotou os nomes, as idades, de onde vinham.
      Chegaram hoje?
       Inh, sim...   Nis veio logo, dizque tem muita gente com passagem esperando o trem, ns quer ver se vai logo...
     Balanou a cabea num assentimento.
      Pois vamos fazer esses exames...   Se todos estiverem com sade ficaro livres de mim hoje mesmo...   E recebero seus passes amanh...   Agora, quanto a embarcar, tm que esperar ocasio.    em ordem...   Os que receberam passe antes viajam primeiro...
     Fitou Marta:
      Em todo caso pode ser que se arranje um jeito de meter vocs antes de outros...
     Foi Jucundina quem respondeu:
      Se vosmec conseguir isso que Deus lhe abenoe...   Nis precisa chegar logo, j t no fim do dinheirinho que trazemo...
      Vamos comear o exame...
     Do seu plano fazia parte examinar a criana na vista de todos eles. Depois examinaria os demais, um a um, assim poderia espiar e apalpar o corpo da moa que estava de olhos baixos, mos cruzadas sobre os joelhos.
      Primeiro o pequeno a...   Como  mesmo o nome?  espiou suas notas, estava amvel e bondoso.    Antnio...
      Ns chama le de Tonho...  explicou Jucundina.
       Muito bem, seu Tonho.   Vamos ver.   Tire a roupa toda...
     Tonho encolhia-se num canto, agarrado s calas do av. Quando o mdico se aproximou, comeou a choramingar:
      No tenha medo, rapaz...   Onde j se viu homem chorar? No vai lhe acontecer nada de ruim...
     Mas foi preciso que Joo Pedro o arrastasse para o meio da sala,  fora, e que Jucundina o despisse em meio a ralhos e ameaas.   Tonho chorava como um desesperado.
     Deitou o menino na mesa de curativos.
       Magrinho, hein?
       Foi o nico que sobrou...  a voz de Jucundina tinha um acento triste que Epaminondas no pde deixar de sentir.    Era trs, dois meninos e uma menina, de nome Noca...   S restou esse...   Era o mais velhinho, agentou mais...
     Aquelas histrias... Repetidas a todo momento... Quem tinha razo era Digenes, aquele trabalho liquidava qualquer um, ali se perdia todo o orgulho, toda a decncia tambm.
       De que morreram os outros dois?...  suspendeu a cabea, retirando o ouvido das costas da criana a quem auscultava.
       Noca foi de um p postumado.   Rasgou no caminho, apodreceu, a febre matou.  O outro foi no navio...
       Disenteria ou impaludismo?
       A tal de disenteria...   Era de peito, no agentou o caldo de peixe...   Se sujava o dia todo...
     Balanou a cabea de novo. Continuou o exame meticuloso. Tonho ainda choramingava, movendo o corpinho sujo sob as mos do mdico. Epaminondas via os piolhos andando na cabea do menino.   Magro mas so.   Aquele no tinha nada...
     Deu-lhe um tapa na bunda:
       Pode mudar a roupa, seu rapaz... 
     Falou para Jucundina:
      No tem nada...   Precisa  comer muito...   Talvez tenha vermes...  voltou a chamar Tonho, examinou-lhe os olhos.    Tem, sim.   Quando chegarem a So Paulo d um bom purgante para vermes...   E mande raspar o cabelo dele aqui mesmo para acabar com esses piolhos...
       Inh, sim. Encheu a papeleta:
       Esse j tem direito ao passe.   Agora vamos ver os outros... Saiam todos, basta ficar um...  apontou ao acaso Joo Pedro.
       Voc, por obsquio...
     Abriu a porta, os outros saram.  Joo Pedro sentia quase tanto medo quanto Tonho.
       Sente-se a na mesa...   foi buscar outros instrumentos.
       Tire o palet...
     Joo Pedro botou o palet em cima da cadeira.
       A camisa tambm.
     O torso riu do sertanejo tinha pouca carne e era de uma cr bronzeada. Impaludismo le no tinha, pelo menos no era poca de ataque.
       Diga trinta e trs...
     Nada nos pulmes. Mas queria demorar o exame para que no se surpreendessem quando le estivesse com a moa.
       Diga de novo...   V dizendo at eu dizer que basta... 
     A voz de Joo repetia medrosa:
       Trinta e trs...   Trinta e trs...
       Basta.
     Levantava-se, examinava o corao do imigrante. Fz uma cara feia, Joo Pedro assustou:
       Que , doutor?
       Nada...  sorriu.  No tenha medo...  Voc pode viajar... 
     Enquanto enchia a papeleta ordenou:
       Pode se vestir... Entregava o atestado:
       Manda entrar a senhora...
     Jucundina ficou junto  porta. Epaminondas reparou nos ps, de sapatos furados, os dedos aparecendo.
       Tire o vestido...   Pode ficar de combinao...   Voltou as costas para esperar.
       Est pronta?
       Inda no...
     Na realidade nem havia comeado, uma vergonha que lhe queimava o rosto. J lhe tinham dito que os mdicos modernos punham a pessoa nua.
       Vamos, dona, depressa...  No precisa tirar a combinao...
     Mandou que ela sentasse na cama de curativos. Depois, que se deitasse. Via o corpo velho e flcido. Quantos anos ainda podia durar?   Fazia daqueles clculos muitas vezes por dia...
       Seu marido  o mais velho, no ?  O que est tossindo?
      Inh, sim...
       O outro  seu cunhado?  E a moa, sua filha?
       Inh, sim.   O menino  neto...
       Muito bem...
     Examinava lentamente para o tempo passar. O plano ia crescendo na sua cabea. O velho estava tuberculoso, com certeza. Eles no iam poder viajar...
       Diga trinta e trs...
     Escutava com o ouvido encostado ao peito da velha. Depois bateu com os dedos nas suas costelas.
       Temos que fazer um exame de escarro...   A senhora tem que voltar amanh, vou falar com a enfermeira...
       O que , doutor?  Diga pelo amor de Deus...
       No  nada...   S para garantir que a senhora no tem nada...
     Parecia aniquilada.   Epaminondas procurou tranqiliz-la:
       No fique aflita.   s uma exigncia, amanh ou depois, no mximo, j est tudo resolvido...
     Perguntava:
       Seu marido tem aquela tosse h muito tempo?...
       Faz uns dois ms...    A gente parou numa fazenda,  le comeou a se queixar de uma dor nas costas...
       Nunca cuspiu sangue?
       Quando nis tava chegando em Juazeiro...   Mas os mdicos de l dero remdio a le, ficou bom...
       Est bem...  chamou enquanto ela botava apressadamente o vestido:  Amlia!   Amlia!
     A enfermeira entrou.
       Exame de escarro amanh.   Acerte com ela, l fora.    E para Jucundina:  Mande entrar seu marido...
     Bastava olhar para Jernimo. Mandou que le tirasse o palet e a camisa. O peito fundo apareceu. Aquele no tinha jeito. Examinou mas sabendo de antemo o diagnstico.
      O senhor tem que voltar amanh para fazer um exame de escarro.  A enfermeira lhe explica l fora...    coisa tola, no se impressione...
      No vai me dar o papel, doutor?...
       Ainda no.   Depois do exame...
     Viu o homem plido como um defunto, parecia algum que tivesse recebido a notcia da morte do parente mais querido.
       nimo...    questo de comprovar apenas que voc no tem nada...   Amanh voc leva a sua papeleta...
     Nos primeiros tempos fazia assim. Levava dias enganando, s dava a notcia terrvel quando no tinha mais jeito. Depois fora perdendo o sentimentalismo, dizia brutalmente. Mas a presena, na outra sala, da moa, o impedia dessa vez. Fz como quem no se lembrava:
      Farta algum?
      Farta minha filha...  a voz era sumida.
      Mande entrar.
     Foi com le at a porta:
      Esse tambm, Amlia.   Exame amanh... 
     Marta entrou, Epaminondas sorriu:
       Tire a roupa e deite-se ali...  apontava a cama de curativos.
     Voltou-se para a janela para deix-la  vontade.
       Quando estiver pronta avise...
     O crepsculo caa, no tardariam a se acender as luzes da rua. A sala, com a cortina cerrada, estava envolta em penumbra. Virou o comutador:
      Pronta?
     Nenhuma resposta, voltou-se, ela o olhava com o vestido na mo, sem coragem de tirar a combinao.
      Vamos, tire tudo...   No tenha medo,  s para o exame... E pode se cobrir com aquele lenol, quando   deitar...
     Primeiro a examinou de fato. No tinha nada. Depois ento comeou sua ignbil tarefa. O desejo o enchia e suas mos tremiam iguais s do doutor Digenes quando estava bbado. "Cada um tem sua misria", pensava. Virou a moa de frente, baixou o lenol at a barriga.   Os seios eram altos e duros, lindos de ver. Encostou a cabea, o ouvido tocava na carne macia. Era um prazer angustioso.
     E assim tocou e viu, conheceu e desejou o corpo de Marta. Quando disse:  "Pode se vestir...", estava com os olhos injetados e os dentes apertados.
     Marta encolhia-se botando as roupas, no olhava para le.
       Sente-se a, vamos conversar um pouco...
     Ela sentou-se, o rosto baixo, as mos sobre os joelhos num gesto de proteo.
       No quis falar com sua me, no quis dar-lhe um desgosto. Mas voc  uma moa e vou lhe dizer a verdade...
     A confiana renascia agora, com certeza le tivera mesmo necessidade de tocar tanto nela para o exame... Fitou-o pela primeira vez, era um moo bonito, de olhos bondosos.
       Seu pai est muito doente...
       Que  que le tem?
       Tuberculose...
        doena do peito?
       , sim...   Como est no pode viajar...
       No pode...  E o que  que a gente faz?
       Tem que se tratar primeiro...   Depois, vamos ver...   E sua me, no sei...   Pode ser que no tenha nada, pode ser que tenha...    Vai depender do exame...   E  voc precisa de umas injees...
     Era muita responsabilidade para ela.  verdade que aos poucos fora se transformando na pessoa que mais trabalhava e resolvia na famlia.   Mas agora est idiotizada, sem saber o que fazer.
       Vou ajudar vocs no que puder...   Volte amanh com seu pai  e  sua  me,   vamos  ver  os  exames...    E  voc  tomar   sua injeo...
     Fazia uma ltima recomendao:
       Nenhum de vocs deve beber na mesma vasilha que seu pai... Nem comer no mesmo  prato, est entendendo?
     Pegou no queixo dela num gesto amigo:
       Vou ajudar por sua causa...   Gostei de voc...
     Naquela noite tomou um porre no cabar, acabou dando umas pancadas em Filo que estava cheia de luxos, negaceando o corpo, fazendo-se de rogada.
     
5
     
     Os mendigos enchiam a cidade. Assaltavam os passageiros chegados de primeira classe, faziam ponto na estao e em frente aos hotis, era uma espantosa multido chagada e imunda. Um museu de doenas, dissera algum, certa vez, ao desembarcar de Belo Horizonte. Eram as sobras dos imigrantes, os que no tinham podido seguir para So Paulo nem voltar para o serto. Ficavam por ali, os menos enfermos acabavam trabalhando nos stios e fazendas prximas, tendo, como nica paga, a comida e a casa, esperando a morte. Os outros incorporavam-se  legio de mendigos, juntando dinheiro para a passagem paga para So Paulo. Nem ali perdiam a iluso do Estado rico e farto. Mal se encontravam com o dinheiro necessrio tomavam o trem, iam morrer na capital de So Paulo. Outros voltavam para Juazeiro e retomavam os caminhos da caatinga, iam morrer no serto.
     Alguns ficavam para sempre em Pirapora. Dormiam na margem do rio, pelos matos, construam choupanas no outro lado da ponte, roubavam e at assaltavam.
     No era fcil no entanto, a no ser pelos pedidos gritados numa voz suplicante, distinguir os mendigos dos demais flagelados. A cidade lembrava uma viso apocalptica, com aquelas centenas de homens rotos e esfomeados, os que esperavam o trem, os que ainda no haviam perdido a esperana de conseguir a papeleta de sade, os que voltavam de So Paulo, os que faziam fila em frente ao posto de imigrao. As crianas soltavam-se pelas ruas, aderiam aos mendigos, as vozes finas misturando-se  voz grave dos velhos.
     O tal poeta que falara nos caminhos da fome e que era um ctico  pobre funcionrio de uma das companhias de navegao, amargo porque jamais conseguira que seus versos fossem publicados pelos jornais da capital  dissera que em Pirapora podia-se fazer uma classificao de cem diversos tipos de mendigos. Havia os permanentes, aqueles que h anos perambulavam pelas ruas, as caras j conhecidas, as doenas tambm. Cegos e aleijados que demoravam a morrer e tinham freguesia certa para as esmolas. E havia os provisrios, nessa diviso inicial.   Porm os provisrios subdvidiam-se em vrios grupos. Primeiro as crianas. Todas pediam esmola, mesmo aquelas cujos pais ainda tinham algum dinheiro. Quando chegavam, encontravam as outras estendendo a mo aos transeuntes e comeavam a faz-lo tambm como uma rendosa diverso. Em seguida as mulheres com filhos pequenos nos braos, vestidas de molambos, cujos maridos haviam morrido na viagem de navio ou aps a chegada a Pirapora e que no sabiam mais o caminho a tomar, se seguir para So Paulo, se voltar para o serto. Iam ficando em Pirapora, as menos velhas dividindo-se entre a prostituio e a mendicncia, as mais gastas sem poder sequer cair nas ruas de mulheres da vida. E os homens, por fim, em grupos diferentes. Os definitivamente doentes, aos quais Epaminondas roubara todas as esperanas de viajar e que procuravam esconder moedas para juntar com que pagar a passagem no trem que seguia ou no navio que voltava. Os que estavam com impaludismo e tomavam quinino, ainda confiavam em conseguir a papeleta e o passe. E os que chegavam de So Paulo, sem dinheiro para o navio. Roubando-se uns aos outros, empurrando-se na estao, no cais, nas portas dos hotis. Tomando sol na praa, comendo restos de comida, catando coisas nas latas de lixo. No vero ainda se arrastavam melhor sob o sol inclemente. Mas, quando chegava o inverno com suas chuvas, que duravam dias e noites, ento fugiam para as cabanas levantadas s pressas, escondiam-se, nas fazendas em torno, morriam s dezenas.
     Era como uma cidade de mendigos e, se o poeta tivesse algum talento e menos amargura, talvez pudesse escrever um poema imortal. Mas le, nos ltimos tempos, preferia fazer sonetos de amor para as prostitutas, assim dormia de graa com as menos feias.
     Na penso, onde pagavam trs mil-ris por dia, cada um, para dormir e comer (feijo e um naco de carne-sca), eles contaram o dinheiro novamente. Joo Pedro saiu em busca de trabalho, havia dezenas de homens procurando servio. Tonho j estava entre os moleques, pedindo esmola. Jernimo dera-lhe uma surra, nunca pensara numa pessoa sua estendendo a mo  caridade pblica. Mas agora via que talvez no tivessem outro jeito. Interrogavam-se uns aos outros sobre o que dissera o doutor. Apenas Joo Pedro e Tonho tinham as papeletas.
     Marta contou a Jucundina da doena do pai:
       Dizque vosmec parece no tem nada... Mas pai est mesmo doente...   Mas que vai ajudar...
     No seu desespero,  Jucundina  ainda encontrava palavras de elogio para o mdico:
        um homem bom...
       Nis vai terminar pedindo esmola...
     E recordava os trs rapazes, se eles estivessem ali seria diferente. Seria mesmo? Talvez fosse at melhor assim, como estava acontecendo. Pelo menos aqueles trs no teriam de mendigar pelas ruas. Jucundina lembrou-se tambm de Gregrio, o que tinha atirado em Artur:
       Tumara que no tenha sido preso...   Tumara...   Foi bem feito o que le fz...   Pena que no tivesse sido no doutor Aureliano...
     Marta pensava em Aureliano que a apalpara como o fizera esse outro mdico no consultrio. Sentia um arrepio no peito que afastava para longe a fome e a tristeza, deixava ver as luzes da cidade. E Vicente, onde andaria? le nunca a havia tocado, le de quem Marta gostava.
     
6
     
     Voltaram todos ao consultrio. Amlia mandou que esperassem. Ficaram na sala cheia, vendo a porta abrir e fechar, entrar e sair gente. Uns alegres, com a papeleta que possibilitava a obteno da passagem gratuita, outros com um ar de desnimo, mulheres com os olhos vermelhos de chorar. Afinal Jucundina e Jernimo foram chamados para os exames. Epaminondas disse que eles teriam de voltar no dia seguinte, para resposta.  Prometeu:
       Fao o exame hoje mesmo...
       Doutor, lhe peo pelo amor de sua me que ande depressa... Nis j t sem dinheiro nenhum.  Amanh vamos ter que sair da penso, o dinheiro s d pra pagar o dia de hoje...
       Amanh mesmo tero o resultado...   Agora mande a moa para tomar a injeo. Est muito anmica mas com umas injees ela se fortalece e eu poderei dar o atestado...
     Esperou impaciente que Marta entrasse. Fervia a seringa e a agulha, afinal a injeo s lhe faria mesmo bem. Ela deu boas tardes e sorriu timidamente.
       Amanh terei o resultado dos exames de escarro dos seus pais...   Desejo que tudo saia bem...   Mas quero lhe avisar que duvido de que o velho no esteja afetado do pulmo...
       Se tiver, no pode viajar?
       Pelo menos por conta do Estado no pode...   E se fr por conta  prpria  no  ter  nenhuma  das  facilidades  para  trabalho, hospedagem at ser contratado, ajuda, nada disso.   Praticamente no resolve le ir por conta dele, mesmo que tivesse dinheiro.
       Se o senhor pudesse ajudar le...
       O que eu puder fazer, minha filha, farei...   Voc merece...
     Sorria, ela baixou os olhos. No entendia bem o que le desejava mas percebia que as palavras e os olhares implicavam uma segunda inteno cujo significado mais profundo lhe escapava. Agradeceu.
       Prepare-se para a injeo...
     No sabia o que tinha que fazer.  le explicou:
       Tire   as   calas   e   suspenda   o  vestido.    A  injeo      nas ndegas...
       Onde?
       Na bunda...
     Passou o algodo com lcool, apertou a carne dura, enfiou a agulha.  Ela gemeu levemente.
       uma pena machucar uma coisa to linda...
     Marta no disse nada, sentiu a picada da agulha sendo retirada mas as mos dele continuavam dando massagem:
       Para no formar abscesso... tumor...
     E as mos escorregaram por suas coxas, subiram novamente pelas ndegas, abraaram a barriga, tocavam no centro mesmo dela. Estremeceu, um calor subiu pelo seu rosto, movimentou o corpo desvencilhando-lhe dele.
     Epaminondas levantou-se com medo de a ter espantado e logo levou a conversa para outro lado, enquanto ela se compunha sem o olhar:
       Sua me me disse  que vocs esto  sem dinheiro para a penso.   Que s tm para o dia de hoje...
       Tio Joo Pedro t procurando trabaio... 
     Epaminondas remexia na carteira, puxava uma nota de cinqenta mil-ris, estendia para ela:
      Isso  para ajudar vocs se tiverem de demorar... No precisa dizer a sua me que fui eu quem deu...
     Ela queria recusar. Mas sabia que o dinheiro ia acabar e no tinham onde dormir nem o que comer. E com o pai naquele estado. Aceitou...
       Vosmec  muito bom... 
     le arriscou:
       Voc pode ter muito mais...
     Mas Marta j estendia a ponta tmida dos dedos numa despedida.
     Na penso contou a Jucundina que o mdico lhe dera aquele dinheiro. Mas silenciou sobre as mos passadas nas coxas e na barriga.   Jucundina comoveu-se:
       Deus que lhe d sorte...   Que moo bom...
       Diz que no tem esperana em Pai...
       Como vai ser, minha filha?
     Jernimo tossia aflitivamente. Joo Pedro no encontrava trabalho. Nem mesmo em troca de comida. Sobravam imigrantes na cidade e as fazendas da circunvizinhana estavam abarrotadas.
     
7
     
     Apesar de que estava acostumado quele espetculo, Epaminondas o temia sempre. 
      Vosmec j fz os exames?
       J. A senhora no tem nada...  dirigia-se a Jucundina.  Agora voc, meu velho, est com o pulmo afetado.   Nesse estado no pode viajar...
       O senhor no vai me dar o papel?
     Achou que no era de boa poltica cortar todas as esperanas:
       Pelo menos imediatamente,  impossvel...   Vamos fazer um tratamento rpido e rigoroso: injees dirias, descanso e alimentao.   Com algum tempo, talvez possa lhe dar o atestado...
       E cumo a gente vai viver at l? 
     Jernimo levantou a cabea...
       Seu doutor, seja franco comigo...   Se no h jeito me diga, porque assim eles  mostrava a famlia  vo embora, eu fico sozinho.  Depois que eles tiver l, Joo Pedro trabaiando, elas duas tambm, me mandam o dinheiro e eu embarco...
     Naquele momento esteve a pique de desistir de Marta, dizer ao velho que nunca le poderia lhe dar a papeleta, arranjar na repartio que Joo Pedro e as mulheres viajassem no primeiro trem, dar algum dinheiro para ajudar a passagem de Jernimo. Mas sentia nas mos o calor das ndegas de Marta:
      Talvez voc possa ir, com um bom tratamento que eu fao de graa...   E, quanto a trabalho, posso arranjar para Marta.  Se ela sabe cozinhar pode, durante o tempo que estiver aqui, ficar cozinhando l em casa...  J  uma ajuda. E posso ver se arranjo um lugar onde vocs ficarem.   Penso que o melhor  esperar... Logo que voc esteja melhor eu consigo que embarque no primeiro trem...   Que acha?
       Vosmec  bom demais...   Foi Deus quem botou vosmec no nosso caminho pra ajudar nis...
     As palavras doiam-lhe como se o xingassem e esbofeteassem. Mas era a hora de aplicar a injeo em Marta e a cobia encheu seus olhos novamente. "Toda a decncia...", era Digenes quem dizia.
     
8
     
     Havia uns pretos num canto de rua que lhe deviam uns obsquios. Em realidade le salvara a preta quando ela tivera tifo. Moravam num velho barraco e foi ali que Epaminondas alojou Jernimo e sua famlia. Os pretos estavam encantados de lhe fazer um favor e nem queriam receber os vinte mil-ris que le lhes deu.
       uma gente que me foi recomendada por um amigo...
     Os pretos no pediam grandes explicaes. E Marta agora ia todas as manhs para a moradia do doutor, preparar a comida, arrumar a casa. A negra que vinha antes ficara espantada com as frias que o mdico lhe dera, frias era coisa que os domsticos dali no conheciam. E, com o correr dos dias, Marta compreendeu os motivos por que Epaminondas os ajudava. le no perdia ocasio de peg-la, apertar-lhe os seios e as coxas.  Ela negaceava o corpo mas no podia se furtar sempre, e, ao demais, havia a hora da injeo que le passara a lhe aplicar em casa. Estava cada vez mais doido  pela  cabrocha,  disposto  a  possu-la custasse  o  que custasse.   Aquele interesse por Marta fz com que Filo ciumasse e le aproveitou para romper com a rapariga.
     Passava em casa todo o tempo livre, rondando da sala para a cozinha, chamando Marta a pretexto de qualquer insignificncia, ficando em torno dela enquanto a moa varria a sala, puxando-a pela mo.
     Ela compreendia e a princpio quisera fugir, largar tudo, contar a Jucundina. Mas refletiu e viu que ento nada mais restaria aos seus, nem a casa onde viver, nem aqueles quarenta mil-ris que o mdico ia lhe pagar por ms e mais o que le dava a Tonho para fazer a recados. E, pior que tudo, desaparecia qualquer possibilidade do pai viajar e, se o pai no fosse, como iriam eles se arranjar em So Paulo?
     Marta refletiu sobre tudo isso. Percebia que era impossvel escapar ao mdico. Aos poucos ia gostando daquelas apalpadelas, Epaminondas era um moo bonito, sabia que no resistiria por muito tempo. Resolveu ento tirar todo o proveito do caso. Sabia que, se Jernimo descobrisse, no havia de querer mais nada com ela e no se enganava quanto a Epaminondas: le no tardaria a solt-la por a, no iam nem casar nem mesmo amigar. Era um doutor, estava noivo em So Paulo, a fotografia de Marieta ao lado da cama, com uma dedicatria carinhosa que Marta soletrara: "Ao meu amado Epaminondas com toda a imensa saudade da tua noivinha, Marieta".
     Resolveu ento, quase friamente, entregar-se contra a autorizao para o pai viajar e os passes para todos. Exceto ela, naturalmente. Mas a escolher entre ela e o pai, era melhor que viajasse le.
     Seu instinto de mulher ensinava-lhe que a melhor maneira era excit-lo ao mximo. Foi o que fz. Tornou-se arisca e difcil, sorrindo de longe, deitando-lhe prometedores olhares, o corpo sempre distante, Epaminondas ficando cada vez mais louco.
     Afinal uma tarde le a agarrou, machucou seus lbios com beijos. Conseguiu livrar-se a custo, teve que vencer a sensao de calor e abandono que lhe invadia o corpo. Comeou ento a caada. le a persegui-la a todos os instantes, ela a fugir, os dois sem se falar, Marta compreendia que o momento se aproximava. Por vezes chorava  noite, em casa, quando via o pai e a me, o sobrinho e o tio, e lembrava que no os acompanharia. Sabia seu destino: as ruas de mulheres, o cabar que funcionava  noite. Mas estava decidida. S tinha pena que Vicente no a houvesse possudo em Juazeiro. Assim para o doutor ficariam apenas as sobras, le no merecia mais.
     
9
     
     Tonho entrou em casa correndo:
       V!  V!
     Jucundina apareceu, estava cuidando de Jernimo, seguindo as recomendaes do doutor. Tonho vestia farrapos, os olhos irrequietos, os ps vermelhos da poeira da cidade.
       O que ?
     Riu um riso moleque:
       Vi o doutor beijando tia Marta...
     Ela o levou dali, que Jernimo no ouvisse. E o fz contar a cena toda, recomendando-lhe, depois, silncio.
       Eu tava chegando, ia pedir um tosto a tia, o doutor estava agarrado com ela, beijando na boca...   Sa correndo,  eles no me viu
     Quando Marta apareceu naquela noite, tinha um ar cansado, andava como se sentisse dores, mas sorria. Na mo trazia a papeleta que dizia ser Jernimo homem de perfeita sade, apto para embarcar. Jucundina pensava em conversar com ela, saber aquela histria dos beijos, mas, quando viu a papeleta, compreendeu o que tinha acontecido e estremeceu, o corao partido de dor. Marta percebeu que a me compreendera e ficaram as duas silenciosas enquantos os homens comentavam.
       Agora a gente j pode ir...
       Tem muita gente na frente...
       O doutor arranja pra gente ir antes...
     Deitaram-se afinal. Dormiam todos na mesma sala cheia de goteiras, em esteiras. Jucundina esperou que todos estivessem dormindo.   Tocou ento no ombro de Marta, a moa soluava.
     Saram as duas para a frente da casa. Marta baixava os olhos, no precisava sequer falar.  Mas Jucundina disse:
      Conta!
     E como ela no respondesse, perguntou: 
      le fz mal a tu?... 
     Balanou a cabea.
       S deu a papeleta depois?
     Olhou a me com os olhos molhados. Ficou esperando as palavras de recriminao, preparara-se para aquilo. Mas Jucundina no disse nada. Ficou acocorada, as mos soltas, pensando. Depois tomou a mo da filha, puxou-a para seu lado, fz uma coisa que h anos no fazia: beijou-a na testa.  E as lgrimas se confundiram.
     Depois  que falou:         \
       Se seu pai chegar a saber  capais de matar o doutor... E bota tu pra fora...
       Acaba sabendo... 
     No tinham dvidas:
       Se a gente pudesse ir logo...   disse Jucundina.  Pea isso a le.
     No sentia sequer dio a Epaminondas. Aquilo tinha que acontecer, era o destino. Ainda bem que os trs meninos no estavam ali.   Com o gnio que possuam eram capazes de uma desgraa.
       Vai dormir, minha filha...
     E ela ficou por ali. Ouvia o rudo do rio, o cu estrelado deixava cair uma luz prateada sobre seu cabelo que embranquecera de todo na viagem.
     
10
     
     Epaminondas queria ret-los o mais que pudesse. No saciara ainda seu desejo. Marcou o passe deles para o segundo trem de imigrantes, dali a vinte e trs dias. Agora que fizera a besteira de dar o atestado, ento era aproveitar o mais possvel da cabrocha. Era a primeira vez que le dava um atestado de sade a imigrante doente. Resistira a todas as splicas, que moral poderia ter junto aos demais empregados da repartio? Amlia sabia do resultado do exame, os funcionrios comentavam, no era mais segredo. E logo chegou ao conhecimento dos imigrantes, e um deles, que teve um bate-boca com Joo Pedro, atirou-lhe o acontecimento ao rosto:
       Vosmec no vale nada...   Dero a honra da menina pelo atestado pro velho...
     Jernimo teve um acesso de raiva quando soube. Se Jucundina no estivesse perto dele era capaz de matar a filha. Caiu em cima dela com um pedao de tbua:
       Puxa daqui, puta sem-vergonha!   Desgraada!   Desgraada! Eu, um homem velho, e essa desgraada sujando minha velhice...
     Marta saiu, ferida no rosto, correndo pela rua. Era pela noitinha, havia imigrantes espalhados pelas proximidades. Os gritos de Jernimo continuavam l dentro, Jucundina procurava acalm-lo. Afinal le teve um acesso de tosse, foi obrigado a deitar-se. Ento Jucundina tentou defender Marta. Mas Jernimo no quis ouvir nada, declarou que nunca mais a desejava ver e proibiu qualquer contacto da famlia com ela.
     Logo que melhorou da nsia que o tomara, com a tosse, mandou que arrumassem tudo para irem embora daquela casa. No demoraria ali nem mais um minuto, naquela casa que fora arranjada pelo mdico, pelo amante da filha. Ficaram sob umas rvores prximas, onde outros imigrantes j estavam acampados. Os negros olhavam tudo aquilo sem compreender. Os imigrantes espiavam sem palavras.
     
11
     
     Marta no pde ficar muitos dias em casa de Epaminondas. O caso era muito comentado na repartio e mesmo fora dela (at o poetastro j falara ao mdico sobre o assunto) e corria que le pusera casa para a cabrocha. Por outro lado, seu entusiasmo passara. Ela era de todo ignorante das coisas sexuais e Epaminondas acostumara-se s mulheres da vida, sbias de todos os vcios. Chegara uma rameira nova de Januria, uma que viera da Bahia com um sargento e o largara para fazer a vida, Epaminondas andava de olho nela.
     E Marta tomou o caminho do cabar e da rua de prostitutas. Como era nova por ali apareceu uma freguesia grande. Dias depois estava doente mas custou a sab-lo, nada entendia daquilo. Foi Epaminondas quem a tratou (herdara aquela clientela de Digenes), mas to distante e frio que nem parecia o homem ansioso de quinze dias passados. Marta emagrecera e agora pintava a cara e os lbios, fizera dois vestidos e comprara uns sapatos.
     
     
12
     
     E era ela quem sustentava a famlia. Jernimo e Tonho pediam esmolas mas os mendigos eram muitos. Continuavam a viver sob a rvore, na promiscuidade de dezenas de outros imigrantes, todos  espera do trem ou do passe. Jernimo jamais voltara a falar na filha, mas cedo percebeu que o dinheiro com que Jucundina comprava farinha e feijo, acar, caf e carne-sca provinha dela, dos "homens que dormiam com ela. Naquela viagem nada o ferira tanto, nada o magoara de tal maneira. Amava aquela filha e mesmo agora, quando a repudiara, era a sua imagem que levava no corao.
     Quando percebeu que o dinheiro era fornecido por Marta teve uma cena violenta com Jucundina. Mas depois deixou de protestar. Iria deixar que todos morressem de fome? A comida amargava em sua boca, estava com o peito cada vez mais cavado, a tosse aumentando.
     Via quando Jucundina saa para encontrar-se com a filha. E quando voltava, com mantimentos, os olhos vermelhos de chorar. No dizia nada, aquilo tudo o matava mais rapidamente.
     
13
     
     Afinal o trem chegou, iriam no outro dia. Pela noite Jucundina foi despedir-se de Marta na rua onde ela morava. Pela primeira vez a viu com os vestidos noturnos, aqueles com que freqentava o cabar, as faces pintadas e um perfume agressivo no cangote.
       Nis vai amanh...
     Abraaram-se chorando. Jucundina tinha trazido Tonho e Joo Pedro a acompanhara. Convidara tambm a Jernimo:
       No quer se despedir da pobre?
     Mas le nem respondera. Ficara de corao sangrando, a cabea baixa, uma vontade de morrer logo, de que aquilo tudo acabasse.
     Conversaram longo tempo. Marta contou que Vicente chegara no vapor da vspera e estivera no cabar. Mas no contou que, mal a avistou bebendo com uns homens, retirara-se, sem querer sequer falar com ela.
     Deu-lhes todo o dinheiro que tinha. Jucundina soluava. Marta avisou:
      Amanh vou na estao.   Quero ver Pai...
     
14
     
     Olhavam o trem que botava fumaa. Os imigrantes chegavam aos grupos, os trs ltimos vages lhes estavam reservados, carros de terceira. No saltariam at So Paulo. Finalmente chegariam l, naquela terra da fartura e da riqueza. Estavam todos contentes, pareciam esquecidos de tudo o que haviam passado. Os que no podiam viajar olhavam com inveja, estendiam a mo mendiga aos viajantes de primeira.
     Jernimo sentara-se no banco de madeira ao lado de Jucundina. Ela estava junto  janela e o velho compreendia que a nsia dela era para levantar-se. Marta devia andar pela estao mas Jucundina no tinha coragem de espiar, temia o marido. Joo Pedro e Tonho, no banco em frente, tinham o mesmo ar conspirativo e receoso. O menino j tentara levantar-se umas duas vezes, mas Jernimo o obrigara a sentar-se:
       Fica a, se no, te quebro todo, fio da me... 
     Imigrantes armavam redes pelo trem, outros, que j tinham feito aquela viagem, ensinavam. O vago estava superlotado. Passava gente, saa gente, pessoas gritavam nomes, palavres, havia conversas. E foi no meio dessa confuso que Joo Pedro (cujos olhos procuravam Marta) descobriu Gregrio entre os que andavam pela estao:
       Olha quem est ali!   Gregrio!
       Quem?  Jucundina quis levantar-se mas a mo de Jernimo, pousada em seu ombro, a impediu.
     Joo Pedro chamava aos berros:
       Gregrio!  Gregrio!
     Gregrio os reconheceu, apertou-se entre os imigrantes, fz fora, penetrou no trem.
       Cheguei ontem no navio.   No sabia que vosmecs tava por aqui...   Seno tinha procurado.
     Observava o rosto magro de Jernimo, notava que faltava muita gente da famlia.   Jucundina perguntava:
       No lhe sucedeu nada?
       Capei o gato,  enfiei no mato,  dei  uma volta grande,  at chegar em Juazeiro.   Tinha um dinheirim...
     Contava que j tinha feito o exame:
       J tou de passe, vou daqui um ms...
       Procure a gente por l.
     O trem apitava.  Antes de sair, Gregrio perguntou a Jernimo:
       E o resto da famia?
     A tosse quase impede a resposta:
       A fome comeu pelo caminho...
     O trem resfolegava. A mquina comeou a andar, vagarosa ainda. Aumentou a velocidade, Gregrio saltara. Jucundina levantou-se ento, afastou a mo de Jernimo que a segurava, jogou-se para a janela. Jernimo levantou-se tambm para obrig-la a sentar-se. Mas em vez de faz-lo debruou-se sobre ela a tempo de ver ainda, no canto da estao, de vestido vermelho, a figura de Marta acenando com a mo.   O trem apitava na curva.
     

LIVRO SEGUNDO


***

  AS ESTRADAS DA
  ESPERANA

Jos

1
     
     Jos, a quem chamavam Z Trevoada, jogou-se no cho. A bala passou zunindo, na altura de onde estaria sua cabea se le no tivesse sido ligeiro. Havia deitado sobre espinheiros mas a roupa de couro protegia seu corpo e, ao demais, j estava acostumado. Fz pontaria atravs dos arbustos, no atirou logo, ficou de olho na mira do fuzil. Quando, finalmente, puxou o gatilho, soltou ao mesmo tempo um grito agudo de animal em fria. Outros gritos partiam atravs da caatinga, brbaros e estranhos. Z Trevoada viu o homem estender-se, as mos agitando-se no ar, soltando a arma. Avisou a Lucas Arvoredo que se encontrava perto, deitado le tambm...
      Liquidei um...
     Lucas Arvoredo sorriu. Estava preocupado com a arma, no queria errar o tiro, muito menos agora que Z Trevoada acertara num dos "macacos" desgraados.
       L vou eu...  bradou e sua voz foi conhecida do outro lado, onde estavam os soldados de polcia. O tiro partiu, o tenente escapou por milagre.   Os soldados sentiram durante um segundo o desejo de largar as armas e correr.  Mas foi um instante somente.  A voz do tenente comandou:
       Fogo!
     E a fuzilaria recomeou, as balas penetrando por entre os espinheiros, assustando as cobras e os lagartos. Os soldados novamente animaram-se na esperana de liquidar Lucas Arvoredo e o seu bando de jagunos.
     O ferido gemia surdamente, a bala penetrara na barriga, apareciam, sobre a farda, o sangue e pedaos de vsceras. Um soldado velho, chamado Cndido, deu-lhe gua. O tenente no queria olhar para aquele lado, era quase um menino, o espetculo do homem morrendo dava-lhe nuseas. Sara no fazia muito da Escola de Cadetes da Polcia Militar do seu Estado e como casara e nascera o primeiro filho, o comandante, que gostava dele pelo seu bom comportamento e sua aplicao aos estudos, arranjou aquele jeito de comission-lo como tenente: mandando-o para uma cidade do interior com uma pequena guarnio. Os soldados voltaram a atirar, os cangaceiros no respondiam.
      Ser que fugiram?  pensou o tenente. Aquele era o seu primeiro combate, nada sabia dos mtodos de luta dos jagunos e foi o soldado velho quem lhe avisou que a coisa apenas comeara. O tenente pretendia cerc-los, mandou que alguns soldados dessem a volta por uma picada que havia  direita, para atacar Lucas por detrs. Cndido balanou a cabea, mas no disse nada, acostumara-se a obedecer. Largou o ferido que agonizava para comandar a patrulha que seguia pela picada.
     O tenente no sabia se tinha tido sorte ou azar. Na tarde da vspera (chegara apenas h uma semana na cidade e ajudava a mulher na arrumao da casa, orgulhoso do filho pequenino), um caminho carregado de cimento trouxera a notcia. O chofer contava que encontrara o bando de Lucas a umas quatro lguas dali. Tinham-no feito parar, ameaaram-no com armas, o tal de Z Trevoada botara o punhal no seu cangote. Queriam informaes sobre a cidade, o nmero de soldados de polcia, as armas que tinham. le contou, quem no contaria? Tomaram-lhe ento o dinheiro que le levava, examinaram a carga do caminho, quando viram que era cimento mandaram que le fosse embora. No podiam estar longe, quando o caminho partiu o chofer ainda espiou, viu que eles se internavam na caatinga.
     O tenente no disse nada  esposa, foi conversar com o Prefeito. Achava que o melhor era ir ao encontro de Lucas, atac-lo na caatinga, mat-lo ou prend-lo, pelo menos dar-lhe uma corrida que lhe tirasse a vontade de andar por aquelas bandas. O Prefeito concordou. O bando de Lucas em geral evitava uma cidade bem guarnecida.   Se o tenente fosse com os soldados, Lucas pensaria que aqueles eram apenas a vanguarda da tropa acampada na cidade. E, mesmo que o tenente no prendesse nem matasse, le com certeza fugiria. E, enquanto isso, o Prefeito reuniria os homens da cidade, os mais corajosos se armariam e, por acaso Lucas viesse eles o enfrentariam. Sugeriu tambm que mandassem gente com um recado  cidade vizinha pedindo que viesse a patrulha de l. S que, entre ida e volta, demoraria mais de um dia j que a estrada de rodagem estava interceptada por Lucas e o homem teria de ir a p, pela caatinga. O tenente achou que no era preciso. Tinha dezoito homens, bastaria com eles. O Prefeito poderia armar uns trinta na cidade. O bando de Lucas no tinha, era voz geral, mais de vinte homens...
       Menos...  disse o Prefeito.  Quando le entrou em Grana tava s com onze jagunos...
       E ento...
     S na hora de partir  que disse  esposa. Viu-a empalidecer. Quando o comandante propusera sua transferncia e promoo, ela no quisera aceitar. Aquela cidade distante, perdida no serto, encontrava-se nos limites das terras dominadas por Lucas Arvoredo. O prprio Lucas se intitulara "governador do serto" e h mais de dez anos atravessava pela caatinga, roubando, matando, estuprando. Sua fama corria mundo, nunca o haviam conseguido pegar. Uma nica vez uma bala o acertou, ferindo-o na coxa, mas agora le se sentia invulnervel depois que o beato Estvo fechara seu corpo. Voltara ainda mais feroz desse encontro com o beato, em cuja companhia passara quatro dias. Deixara-o h menos de dois meses e marchava pela caatinga.
     O tenente no sabia se tinha sorte ou azar. Podia ser a promoo a capito, por merecimento, o retrato nos jornais, falado at no Rio de Janeiro, se prendesse ou matasse Lucas Arvoredo. Podia ser a morte tambm, os cangaceiros de Lucas no costumavam errar a pontaria. O tenente era jovem, tinha um fio de bigode sobre o lbio, amava a farda que vestia e sonhava com a glria. Seu nome era Ezequiel da Silveira. Os soldados gostavam dele e achavam que aquilo fora um azar.
     Quando o tiroteio comeou, o tenente pensou no filho.   Quando crescesse podia se orgulhar do pai, o tenente que abatera Lucas Arvoredo.   Ficou de p entre os arbustos, desatendendo ao velho soldado que o tratava como filho e que lhe suplicava que se deitasse Mas le no respondia e de p, aprumado e sorridente, dirigia o combate.
     Sara na vspera pela noitinha e de manh encontrara o rastro de Lucas na estrada de rodagem. Afundaram-se na caatinga, os homens sabiam procurar ali as pegadas dos cangaceiros. Iam assim, estudando os galhos quebrados, as folhas amassadas, quando partiram os primeiros tiros. Nem puderam ver em seguida de onde provinham.
        eles...  disse o velho soldado. 
     Entricheiraram-se atrs das moitas, localizaram os cangaceiros mais adiante no cerrado dos arbustos. De onde estavam partia uma picada que ia dar na estrada de rodagem, por detrs de onde entrincheiravam-se os cangaceiros. Foi por ali que o velho soldado partiu com seis homens.
       Quando chegar l d trs tiros seguidos, avisando.   Depois espere cinco minutos e avance...  foram as ordens do tenente.
     O velho soldado fz continncia e seguiu. Considerava-se um homem perdido mas tinha pena era do tenente, to bom rapaz, to jovem ainda. Aquela tentativa de cerco era uma besteira, Lucas conhecia a caatinga como a palma de sua mo, ningum ia cerc-lo ali e com to poucos homens. Se fosse o tenente Miranda nunca faria isso. Apenas procuraria assustar os cangaceiros, bot-los para longe.
     Os homens de Lucas viram os soldados se movimentarem. Avisaram ao chefe.   Lucas compreendeu o que o tenente queria:
       Eles vai querer cercar nis. 
     Fz seu plano de combate:
       Primeiro nis acaba com os daqui, quando os outros tiver na curva da picada.  Dali no adianta vir socorrer...   Depois nis pega os outros, liquida esses macaco todo...
     Os tiros vinham de onde estava o tenente, as balas passando alto, os homens de Lucas no respondiam. Haviam tomado posio e esperavam o aviso de que os soldados comandados pelo velho Cndido estavam no mais distante da picada. Ouviu-se um assovio, parecia um pssaro chamando a companheira, era o aviso. Dispararam ento e comearam a pular e gritar como demnios.  Atiravam e jogavam-se no cho urrando como condenados, num barulho de causar pnico aos mais corajosos. E assim iam avanando para onde estava o tenente. Trs soldados j haviam cado e os demais fugiriam a qualquer momento. O tenente percebeu o medo nos seus comandados e ainda teve uma leve esperana de que Cndido chegasse e atacasse Lucas pelas costas. Mas sabia que o tempo no era suficiente nem para le chegar nem para voltar em socorro. Os soldados o olhavam, um disse:
       Seu tenente, vam'bora, se no, nis morre tudo...
     Os gritos dos cangaceiros estavam prximos, os tiros eram quase  queima-roupa.   
     O tenente replicou:
       Fujam vocs se quiserem, seus covardes.  Eu fico, no vou abandonar Cndido e os soldados que foram com le...
     Um se adiantou:
       Eu fico com meu tenente...
     Outro coou a cabea, levantou a arma. Mas os demais j corriam, embrenhavam-se na caatinga, largando os fuzis.
     Lucas Arvoredo teve tempo de fazer a pontaria com toda a segurana. A bala rasgou o peito do tenente. Os dois soldados, quando o viram cair, soltaram as armas e sumiram.
     Z Trevoada foi o primeiro a chegar junto aos feridos. O tenente morrera mas ainda havia dois que estavam vivos. Acabou-os a punhal.   Revistaram os homens.   Lucas examinava os fuzis:
      Boas armas...
     Arrecadaram a munio abandonada, era assim que se municiavam.  Assim e atravs de certos coiteiros espalhados no serto que compravam balas para Lucas e seu bando.
       Agora vamos acabar com os outros.
     A picada estava ali mas eles entraram pela caatinga. Qualquer outro no atravessaria. Mas os homens de Lucas estavam acostumados a romper entre os espinhos. Vestiam-se todos como vaqueiros, calados de alpargatas, as cartucheiras sobre os palets de couro.  Iam silenciosos, pareciam onas no seu passo sem rudo.
     Acontece, porm, que Cndido era um velho soldado e, quando ouviu o tiroteio, concluiu que Lucas soubera da sua partida e conhecera o plano do tenente.   Ainda assim continuou a andar porque voltar no podia. Se tivesse sorte ainda poderia atacar o bando antes que a resistncia do tenente terminasse. Ia chegando ao ponto fixado quando o tiroteio silenciou. Adivinhava o que se tinha passado, ouviu um ltimo tiro:
       To acabando de matar um...
     E marchou com seus homens para a estrada de rodagem. Ali Lucas no o atacaria. Andava o mais depressa que podia, gritava com os outros soldados. Se pudesse, voltaria para onde estava o. tenente, iria ver o seu corpo.
     Quando chegou  estrada j os cangaceiros de Lucas apontavam na caatinga. Mas, como le previa, no atravessaram. Atiravam de l, Cndido tocou para frente. E ento Lucas mandou que os seus homens os acompanhassem, paralelamente, por dentro da--caatinga. Ainda derrubaram um soldado. Mas Cndido teve sorte, encontrou um caminho que vinha, f-lo voltar, levando-os a todos.
     A notcia de que Lucas marchava para a cidade chegou antes, deles. Os soldados que haviam abandonado o tenente j estavam na cidade e contavam os fatos.  A populao comeava a fugir.
     Cndido foi direito  casa do tenente. A mulher era uma jovem, de olhos grandes, delgada e com certo triste encanto.
       O tenente no chegou?
       Aconteceu alguma coisa?
     Cndido ia mentir mas o Prefeito apareceu em sua busca e, na certeza de que a senhora j sabia da notcia, adiantou-se para dar os psames. Ela desmaiou e o Prefeito correu a socorr-la. Dizia, atrapalhado:
       E ainda mais essa...
     Deitaram-na na cama, deixaram-na aos cuidados da empregada-.. O Prefeito avisou:
       O melhor  ir prs matos...  Sair da cidade... E para Cndido:
       Rena os soldados que restam, v me esperar na Prefeitura.... 
     Gente corria pelas ruas, os comerciantes fechavam as portas, pessoas transportavam seus haveres para o campo que circundava a cidade. Os poucos automveis existentes praticamente no serviam de nada pois ningum tinha coragem de seguir pela estrada de rodagem.  Uns homens passavam armados em direo  Prefeitura.
     
2
     
     Lucas Arvoredo jogou a fotografia para um lado, aps olhar o rosto da mulher e a figura da criana enrolada em cueiros. Z Trevoada interessou-se, espiou a cara da mulher, depois limpou o retrato com o brao, guardou no bolso. A fotografia fora arrancada da carteira do tenente.
       Boa gua...  comentou Z Trevoada.
     Entraram na cidade dando tiros para o ar. As ruas estavam desertas, os homens armados, reunidos pelo Prefeito e pelo Pretor, haviam sumido como por encanto. Em realidade eles no acreditavam muito na vinda de Lucas, pensavam que o cangaceiro, aps o tiroteio, houvesse tomado outro rumo. Os soldados que restavam resistiram um pouco. Uns dois conseguiram fugir, os outros foram logo mortos. Mesmo os trs que se renderam. Para no gastar munio (no tinha de sobra) Lucas mandou que os matassem a punhal. Ficaram estirados na rua, o sangue correndo das feridas. Cortaram a lngua de Cndido, arrancaram-lhe os olhos. H muito que Lucas o procurava.
     Um comerciante atrasado fechava as portas s pressas. Lucas meteu o fuzil.
       Abra essa bosta...
     O homem tremia atrs do balco. Lucas exigia:
       Abra todas as portas...
     A luz invadiu a casa. L fora era uma dessas tardes sertanejas de sol claro e lmpido cu azul.
       T mais mi assim...   A gente pode ver as coisas... 
     Antes de tudo foram pelos perfumes.   No havia muitos, uns quantos vidros, nem chegou para os que estavam dentro da loja, menos ainda para os que montavam guarda na porta.  Desarrolhavam os vidros de gua-de-colnia, de extratos, de leo para cabelo, e os derramavam sobre a cabea e pelo corpo.  Raramente tomavam banho, embrenhados pela caatinga sem rios, e desprendiam um cheiro de azdo que se sentia ao longe.   De mistura com o perfume ficava ainda mais terrvel, porm eles gostavam: 
      Tou cheirando que nem mui dama...
     Abriu a gaveta onde o homem guardava dinheiro. Nem um tosto. Fz um sinal a Z Trevoada, ele puxou o punhal. Cutucava a barriga do comerciante:
       Solta o arame...
     O homem tirou o dinheiro do bolso, um mao de notas, por cima uma de quinhentos mil-ris.
       Pelo amor de Deus no me mate...
     Z Trevoada recebeu o dinheiro, entregou a Lucas. Saram da loja, dirigiram-se para a Prefeitura. Estava vazia, nem uma pessoa. Lucas Arvoredo sentou-se na alta cadeira do Prefeito, riu uma gostosa gargalhada. Os outros riram tambm. Mas voltaram a sair e na rua prenderam umas quatro ou cinco pessoas.
       Mato tudo se o Prefeito no aparecer...
     Atravs das venezianas cerradas olhos espiavam apavorados. Lucas deu uns tiros para o ar. Um dos presos se comprometeu a trazer o Prefeito.
       E no v fugir porque seno  pior...
     O Prefeito veio com o Juiz Municipal  o Pretor, como chamavam ali  quase arrastado, fora encontrado debaixo da cama. Cumprimentou Lucas humildemente, apertou a mo de Z Trevoada.
       Por que vosmec fugiu?   Tava com medo?
     Explicou que no, preparava-se para vir quando o homem o encontrou:
       Sei que o senhor no  malvado...
       Num  cum palavra de agrado que vosmec me compra... Se no quiser ver muita desgraa na cidade ento trate de levantar trinta contos e me entregar at seis horas.  Se no, no arrespondo pelo que acontecer...
     O Prefeito achou que era muito dinheiro, o comrcio da cidade era pequeno, gente de poucas posses, onde ia arranjar trinta contos? Choramingava, numa voz de falsete e se recordava da mulher do tenente.   le a deixara desmaiada, teria fugido para o mato?
     Lucas exigia:
       Num quero saber de conversa nem de choradeira...    trinta contos se quiser...   Se no, nis vai percurar...   E na passagem avise os comerciantes pra abrir as lojas que eu quero fazer compras.   Eu e minha gente.   Se abrir nis compra e paga.   Se no abrir nis arromba e no paga...
     O Prefeito foi se retirando.   O Juiz ia com le, mantinha uns restos de pose no andar.   Lucas chamou:       
      Seu doutor!
     O Juiz voltou-se:
       O senhor fala comigo?
        com vosmec mesmo...   Pode ser doutor e saber muito mas pra mim no vale nada,  capaz de nem saber dar um tiro... Faa um favor a Lucas se quiser viver: passe no hotel, diga pra preparar bia pra mim e meus homens que nis t com fome, vai comer l...
     Distriburam-se ento pelas lojas. O grupo maior acompanhava Lucas, os outros iam com Z Trevoada que era uma espcie de lugar-tenente. Z Trevoada havia esquecido do retrato, s se recordou na hora do jantar.
     Entravam nas lojas, compravam os objetos mais disparatados. Colares, teros, anis falsos, cortes de seda, presentes para amsias que tinham nos coitos distantes e em arraiais onde entravam de vez em quando.
     Chico Gog mostrava um broche com muito vidro:
       Vou levar pra Nair, ela vai se babar...
     Pagavam com dinheiro velho e sujo. Numa loja, Z Trevoada achou que o turco queria roub-lo e tinha razo.   Zangou-se:
      Rebenta com isso e ningum paga nada...
     O turco pedia pelo amor de Deus em sua lngua arrevesada.  Mas os homens j tinham comeado a beber e se divertiam rasgando peas de pano, rebentando brinquedos, apunhalando chapus.
     
3
     
     Havia um pato de molas, pequeno, dava-se corda, le andava, movia o bico e grasnava. Foi o que salvou o turco da morte. O brinquedo devia estar com um resto de corda porque ao bater no cho comeou a funcionar. O pato deu uns passos, abrindo e fechando o bico, dando seu rito pequeno e engraado. Z Trevoada fitou-o arrebatado:
       Que graa!
     Mas o mecanismo logou parou, o bicho ficou de bico aberto. O rabe havia se metido debaixo do balco. Z Trevoada cutucou-o com o punhal:
       Sai da, gringo fio da puta...
     O rabe apareceu, verde de medo.
       Bote isso pra andar...
     Procurou a chave da corda entre os destroos. Z Trevoada estava ansioso, os outros reunidos em torno:
       Vocs vai ver que beleza...
     O rabe no encontrava a chave, de rastros no cho, procurando. Via o pano rasgado, os objetos quebrados, tinha vontade de chorar. Z Trevoada dava-lhe pressa:
       Anda depressa,  gringo,  se no,  te mato...
     Afinal encontrou. Deu corda no pato, ensinou ao cangaceiro. O brinquedo funcionou, eles riam em torno. Z Trevoada meteu a mo no bolso, tirou cem mil-ris:
       Isso  pelo patinho, o resto a gente no paga, gringo ladro. E se d por feliz...
     Encontrou Lucas que vinha pela rua, os homens carregados de coisas compradas. Deu corda no pato, botou para andar no passeio. Lucas ria, batia palmas...
       Parece vivinho...
     Ali, em torno ao pequeno pato de molas, no recordavam os cangaceiros terrveis, bandidos sem alma do serto, jagunos que matavam e roubavam. Eram novamente os ingnuos camponeses, puros como crianas, crdulos e confiantes. A corda parou, Lucas explodiu com raiva:
       Rebentou...
       Que coisa...    s dar corda...
     Saiu andando de novo. Os cangaceiros iam atrs, cutucavam-se com o cotovelo, chamando a ateno para os passos do pato, o bico que abria e fechava, o grito rouco. Vestidos de couro, armados at os dentes, revlveres, fuzis e punhais, os rostos ferozes, as barbas crescidas, um odor ftido, mas inocentes e puros, rindo admirados, felizes como crianas ante o esperado brinquedo...
     
4
     
     O pato de molas  agora na bolsa de Z Trevoada  pusera Lucas Arvoredo de bom-humor. Quem ganhou com isso foi a cidade, pois, o Prefeito apenas conseguiu arrecadar dezoito contos. Lucas e os seus homens jantavam (dois guardavam as portas do hotel, armados e vigilantes) quando o Prefeito apareceu.
     Os hspedes haviam tomado sumio, s um caixeiro-viajante, cuja curiosidade e desejo de brilhar na Capital foram superiores ao medo, se deixara ficar e agora compartia do jantar de Lucas, regado a cerveja e vinho, fazendo perguntas, puxando pelo cangaceiro que contava bravatas e grandezas. A conversa ia cordial e animada quando o Prefeito entrou. O dono do hotel, seu Clemente, servia ele mesmo porque o garom  um mulato efeminado  se escondera no quintal e no houvera quem o conseguisse trazer para a sala. O Prefeito ouviu ainda no corredor a pergunta do caixeiro-viajante:
       Por que o senhor no junta o dinheiro que tem, no ruma para oeste, atravessa a fronteira, vai ser fazendeiro na Bolvia?
     J estava na sala quando Lucas respondeu:
       Pra que, seu moo?...   Tou nessa vida de bandido porque tomaro as terras de meu pai.  E no se contentaro, ainda mataro o pobre veio que nunca tinha feito mal a ningum.   E era uma porquera de terra, num chegava a dois arqueire...   L quero terra pra me tomarem de novo...   Sou bandido j vai pra mais de onze anos, vou morrer nessa vida.   De morte matada porque nenhum macaco vai me pegar com vida, se Deus me ajudar...
     O Prefeito ficara parado junto  cadeira de Lucas que estava na cabeceira da longa mesa do hotel, com o caixeiro-viajante a seu lado.   Esperava que le terminasse para falar:
      Boa noite, seu Lucas...
     Voltou-se na cadeira, sorriu, estava alegre naquela noite. E a cachaa que bebera pelas vendas  tarde, o vinho que emborcava agora no tinham dessa vez trazido para diante dos seus olhos a imagem do pai assassinado pelos capangas do coronel, viso que o fazia raivoso e odiento. O pato andando no passeio, a conversa com o viajante, a amabilidade medrosa de Clemente, tudo o dispunha a ter boa-vontade. Os seus homens o acompanhavam nos seus sentimentos e mais alegre que todos estava Z Trevoada que levava o pato em sua bolsa. Quando terminassem o jantar daria corda no bicho, botaria para andar em cima da mesa. E ia lev-lo para Maricota, uma cabrocha desdentada que era seu amor e que vivia na fazenda de um dos coiteiros de Lucas: um senador estadual. Lucas tinha coiteiros grados. Um era o coronel Joo Batista, pai do governador de um Estado.
        vosmec?   Tome assento, venha fazer uma boquinha...
       Muito obrigado, j jantei...  era mentira mas o Prefeito queria resolver o assunto o mais rapidamente possvel.
       Ento tome um copo de vinho.   Ou quer cerveja? 
     Aceitou a cerveja, seria perigoso recusar, le bem sabia. Lucas iria se ofender e sua vida ento no valeria um real. Sentou-se ao lado do cangaceiro, bebeu a cerveja. Felizmente tivera tempo de mandar sua mulher e sua filha para a fazenda de um amigo. Se no, Lucas era capaz de querer ser apresentado a elas. J ouvira falar no ferro que o jaguno trazia consigo e com o qual marcava as mulheres que forava, como quem marcasse gado.
       As minhas vaca...  dizia.
     O caixeiro-viajante silenciara,  espera de que o Prefeito falasse. Estava a par do dinheiro conseguido, le mesmo concorrera com duzentos mil-ris. Pensava se devia intervir no caso de Lucas se aborrecer. A conversa na mesa teria lhe dado suficiente prestgio para isso?
     O Prefeito pousou o copo. O difcil era comear. Lucas afastou o prato (tanto le como os seus homens comiam com a mo, os talheres desprezados), chamou o dono do hotel:
       Traga doce...   De tudo que tiver...   Esses de lata  que eu gosto...
     Olhou ento o Prefeito:
       Trouxe os pacote?
     Foi colocando o dinheiro na mesa. Estava separado em montes de conto de ris:
       S consegui dezoito...   A gente daqui  pobre, no pode dar mais.  O senhor vai ter pacincia e fazer a caridade de se contentar com isso...
     Lucas olhou os homens na mesa, demorou o olhar no caixeiro-viajante, antes de responder deu uma ordem:
       Borboleta e Joo Tainha!
     Dois cangaceiros voltaram as cabeas para o seu lado.
       Vocs come o doce, vo tomar conta das porta, manda Arueira e Rubem vim comer...
     Seu Clemente retirava os pratos, colocava os de sobremesa. Suas mos tremiam e os jagunos sorriam do seu medo...
       T cum medo, meu tio?  perguntou Z Trevoada.  Nis no  bicho,  gente feito qualquer um...
     Seu Clemente empalideceu, deixou cair um prato que se partiu em cacos.   Lucas riu largamente:
       Num assuste o home, Z.   Se no le  capaz de se cagar aqui mesmo na vista de seu intendente.
     Riram s gargalhadas. Batiam com as mos na mesa, jogavam as garrafas vazias pelo cho.   Um gritou:
       Mais vinho...
     Lucas dirigiu-se ao Prefeito:
       Conte vosmec...  Aqui t dezessete home, tem dois na porta, faz dezenove...   Um conto pra cada um e mais seis pra mim so vinte e cinco...   Arranje os sete que falta e eu no mexo com ningum...   Palavra de Lucas Arvoredo...
     O Prefeito suplicou:
       impossvel.   No tenho onde ir buscar mais sete contos. Talvez uns dois, ainda pode ser...   Faa por vinte, seu Lucas, que ns somos pobres.    uma caridade...
     O caixeiro-viajante interveio, pediu le tambm. A gente dali era toda ela sem recursos maiores. Os fazendeiros, que podiam dar uma boa ajuda, viviam longe.
       Desses eu tomo conta...  disse Lucas.  Como o senhor pediu, vou deixar pelos vinte...  guardou o dinheiro na bolsa.   V buscar o que falta, eu espero aqui...
     Mas antes que o Prefeito sasse, perguntou:
       Quem  o dono do cinema?
         o doutor Gentil, da farmcia.
       Diga a le que quero assistir cinema hoje.   Uma fita bonita cum home dando tiro nos ndio...
     Os cangaceiros bateram palmas. Lucas comeou a comer o doce de pssego, lambeu o caldo que ficara no prato:
       Tem mais?
     Seu Clemente serviu. Lucas cocou a cabea. Os piolhos andavam at pelo pescoo, enormes e negros. Interrogou o viajante enquanto comia:
       Vosmec gosta de danar?
       Aprecio...
       Num gosto muito mas os meus home gosta demais...   volta-se para Z Trevoada.  Vamos fazer uma dancinha, Z?
      Hum! Hum!
     Foi ento que Z Trevoada lembrou-se do retrato. Meteu a mo na bolsa, apalpou o pato, buscou a fotografia. Tirou do bolso, exibiu aos presentes:
       Vou danar com essa dona...
     O caixeiro-viajante reconheceu a mulher do tenente, haviam estado hospedados no hotel enquanto no encontravam casa. Sentiu-se incomodado.   Z Trevoada continuava:
       Mulher de macaco graduado...  Ela hoje vai ver o que  um macho de verdade...
       Onde pode ser?  Lucas queria saber do viajante a melhor sala da cidade.
       Boa mesmo, merecedora do senhor, no h nenhuma.  O viajante tentava impedir o baile:  Nenhuma que preste...
       Qualquer uma serve pra gente arrastar o p...
       O senhor no disse que queria sair cedo da cidade?
       Seu moo, os rapaz precisa se adivirtir...   A vida da gente  nos mato,  escondido,  andando na caatinga,  se rasgando nos espinhos.  A gente precisa aliviar o corpo, vamos aproveitar o dia de hoje...
     Seu Clemente servia caf.  Lucas continuava:
       Vosmec vai se divertir com nis...   Vai ver como nis sabe danar que nem os rapaz da cidade...
       E as mulheres?   Onde vo arranjar... 
     Viera outra idia e conduzia a conversa:
       Tem poucas mulheres da vida mas so aproveitveis...   
       Nis no quer mui dama...   Nis hoje vai danar  com as moas e as dona da cidade.   Tem que ir todo mundo...   Ns vai buscar...
     Z Trevoada perguntava:
       Onde mora essa dona?
     O caixeiro-viajante calou-se.   Foi seu Clemente quem informou com uma voz gaguejante, como se algum apertasse sua garganta.
     
5
     
     O viajante esperava ter tempo para avisar, durante a sesso do cinema. O Prefeito voltara com os dois contos que faltavam, disse que o cinema poderia funcionar da a meia hora. O caixeiro-viajante fazia planos. A exibio demoraria pelo menos hora e meia. Poderia avisar, os maridos e pais que tratassem de esconder as filhas, de levar para os matos. le iria buscar a senhora do tenente, sabia de um lugar onde os cangaceiros nunca a encontrariam.
     Mas no contava que Lucas resolvesse levar todo mundo para o cinema. Assim que o Prefeito deu a notcia, le disse aos homens:
       Vo reunir o pessoal da cidade para o cinema.  Tudo que fr mulh e os homens grado...   Tudo,  sem faltar nenhum...    E vosmec  ordenava ao Prefeito  v dizer  banda de msica pra se preparar que Lucas Arvoredo quer danar hoje.
     O Prefeito tremeu, perguntou: 
      Mas o senhor no disse que com os vinte contos ia embora?
       Disse que no matava ningum e no vou matar.   Mas no disse que no ia me adivirtir...   J to querendo me ver pelas costas?...  e um brilho de raiva passou no seu olhar.
     Alguns homens j estavam bbados, aos demais faltava pouco. O Prefeito olhava para o caixeiro-viajante mas esse estava acabrunhado com a impossibilidade de realizar seu plano. Falou sem convico:
      No  isso...
      Seu moo, cale a boca...  No se meta onde no  chamado, me responda a pergunta que lhe fiz: qual  o mi lugar pra se danar aqui?...
       O salo da Filarmnica...
       Pois  nesse o baile...   V avisar, seu Intendente...
     O Prefeito vacilava ainda mas um homem se aproximou dele. Saiu cambaleando como um bbado.   Lucas chamou-o:
       E leve sua famia...
      No est aqui.   Esto fora, em casa de um amigo...
       Fugiro?
       No.   J tinham ido h mais de ms...
       Pode ir e ande depressa...
     J no estava de bom-humor. Restavam apenas dois cangaceiros na sala, os demais tinham partido. Ficaram somente aqueles que haviam estado de guarda. Lucas esperou que eles terminassem de comer.
       Quanto lhe devo?  perguntou a Clemente.
       O que o senhor quiser pagar...
     Botou uma nota de quinhentos mil-ris na mesa.
       Chega?
       T at demais...
       V botar o palet pra ir pra festa.   E sua mulh, cad ela?
       T doente...  Clemente tremia.
       Tava aqui quando nis chegou...   Fale a verdade.   Clemente se ajoelhou, estendeu as mos:
       Seu Lucas, leve seu dinheiro, o jantar eu lhe ofereo...   Mas dispense minha mulh, a pobre  doente,  capaz de morrer s de saber...
     Lucas guardou o dinheiro, empurrou o hoteleiro com o p, Clemente perdeu o equilbrio e caiu.
       Some de minha vista...   O que te vale  que tua mulher  um couro que nem macaco quer...
     Ainda restavam no armrio umas garrafas. De cachaa e vinho. Lucas mandou que os homens as recolhessem:
       Pra alegrar a festa... 
     Voltou-se para o caixeiro-viajante:
       Vamos, seu moo. Vosmec  meu convidado...  No precisa ter medo, vosmec  solteiro...  Pode escolher a mui que quiser...
     O viajante imaginava o que estaria sucedendo  viva do tenente. Os msculos do seu rosto doam quando le fazia fora para rir das pilhrias que Lucas Arvoredo ia dizendo no caminho para o cinema. Arrependia-se agora de no ter fugido como os demais hspedes. Na rua viam-se passar, sob a guarda do fuzil dos cangaceiros, as famlias assustadas, mulheres desgrenhadas, homens alarmados, em direo ao cinema. Um dos cangaceiros cantava uma velha moda do serto que falava nos feitos de Lucas Arvoredo:
     
                 "L vem Lucas Arvoredo, 
                 Armado com seu punhal. 
                 Nos homem le mete medo 
                 Pras mulh  um rosedal...
                 
                 L vem Lucas Arvoredo, 
                 Armado  com seu punhal. 
                 Menina no tenha medo 
                 Que eu no vou lhe fazer mal..."
     
     As mulheres e os homens eram empurrados para dentro do cinema. Alm da platia havia uns camarotes laterais e foi no primeiro deles que Lucas se aboletou com um jaguno e o caixeiro-viajante. Na platia umas cinqenta pessoas se encolhiam nas cadeiras. Lucas assinalou o Juiz que, ao lado da mulher e das filhas, perdera todo o resto da pose. Gritou por um homem, apareceram uns trs.
       Traz o juiz pra um camarote...
     A esposa do juiz era gordssima, e as filhas, trs moas entre  os vinte e trinta anos, a acompanhavam na largura do corpo. Uns seios enormes precipitavam-se para a frente. Choravam todas e Lucas fz uma careta ao v-las:
       Que zebus...
     O caixeiro-viajante sorriu contrafeito. Sob a guarda de um homem, o Juiz ficou no camarote vizinho e minutos depois o Prefeito tambm era trazido para ali. Esperando que o filme se iniciasse, Lucas examinava as mulheres chorosas da platia. Fixou-se numa vestida com um "tailleur" azul-claro, as faces alvas, cabelos loiros. No era bonita aos olhos dos rapazes da cidade. Mas o que encantou Lucas foi o cabelo loiro se derramando sobre os ombros, cortado em franjinhas na testa, emagrecendo e empalidecendo o rosto da moa.
       Quem  aquela?  perguntou ao caixeiro-via jante.
        a professora do Grupo Escolar...
     Fz um sinal ao capanga que estava a seu lado:
       Traga ela praqui...
     A moa veio quase aos arrastes, entre os olhares apavorados dos demais. Os assistentes formavam um bando aterroriazdo. Nenhum deles sabia o que lhe podia acontecer e aos seus. Consideravam-se felizes se pudessem escapar com vida. A crnica de Lucas Arvoredo era um suceder de crimes, de assassinatos, saques de cidade, estupros de jovens.
     Quando a professora chegou ao camarote, Lucas disse:
       No chore, dona.   No sou bicho do mato...   Se abanque na cadeira, pare com essa choradeira...
     A moa sentou-se na cadeira ao seu lado, encolheu-se toda num canto. Lucas adiantou a mo pesada e calosa, suja ainda de comida, segurou nos cabelos finos e doirados, macios como seda, afundou os dedos, num prazer que lhe andou pelo corpo todo at  ponta dos ps. Riu para ela, tinha poucos dentes, a moa encolheu-se ainda mais. le baixou a mo, descansou-a no seu cangote magro, voltou a brincar com seus cabelos.
     Z Trevoada entrava no cinema arrastando a viva do tenente. Puxava-a pelos braos, j lhe dera umas bofetadas pelo caminho. Ela viera como estava em casa, de chinelas, despenteada, aos soluos.  le a atirou como um fardo em cima de uma cadeira:  Fica a, mula...
     Os assistentes olhavam num silncio de dio e terror. Mulheres tapavam o rosto com a mo, que lhes iria suceder? Apenas Quinquina, uma solteirona de quase quarenta anos, no parecia amedrontada. Quando o cangaceiro a tocara de casa em caminho do cinema, ela at sorriu para le, admirando sua juventude. Era Bico Doce, um dos bandidos de mais terrvel legenda apesar de no ter sequer vinte anos.
     Lucas achou que a sesso estava demorando a comear e temeu uma traio. Mandou reforar a guarda em torno ao cinema, botar um homem em cada esquina.  Disse ao Prefeito e ao Juiz:
       Se aparecer macaco por aqui eu liquido voc dois logo  e mostrou a mulher e as filhas do Juiz.  E essas vaca tambm... F tem mais: se esse cinema no comear logo eu vou me entender com o dono...
     O  Prefeito levantou-se  no  camarote   (o Juiz  no  tinha  mais forcas), balbuciou o nome de Gentil, o dono do cinema apareceu: 
      Seu Lucas t querendo que comece logo...
       Estava esperando que le mandasse...
     As luzes se apagaram. O caixeiro-viajante notou o movimento de Lucas, soltando o cabelo da moa, segurando o revlver. A professora aproveitou-se para afastar se o mais possvel na cadeira. Estava espremida contra as tbuas do camarote, no via sequer os letreiros do filme.
     Era um filme de "cow-boy", do tempo do cinema silencioso. Ainda no possua o Cine-Teatro Rex um aparelho sonoro. Mas para Lucas e seus homens era indiferente. Gostavam era de ver os tiros, as corridas a cavalo, Tom Mix (de quem eles no sabiam o nome) dominando os seus adversrios. Batiam palmas nas cenas mais hericas, gritavam animando o "mocinho". Novamente eram as crianas que antes haviam admirado o pato de molas. Lucas chegou a esquecer os cabelos de oiro da jovem ao seu lado.
     Houve uma cena de luta na qual Tom Mix enfrentou uns vinte homens e a todos venceu com seu brao poderoso. Lucas no resistiu, quis ver de novo, mandou que passassem devagar, bem devagar. Os assistentes seguiam mudos as aventuras na tela, aqueles bandidos que perseguiam a noiva de Tom Mix eram risveis ao lado de Lucas e do seu bando, dessa presena terrvel dos cangaceiros. No escuro no os viam bem, mas sentiam o odor que vinha deles, azedo e ftido.  E ouviam os risos, os comentrios:
       Que fia da puta, aquele de bigode...
     Quando a pelcula terminou e as luzes voltaram a se acender, Lucas ainda no estava satisfeito. Deu ordens para que passassem a fita de cabea para baixo. Aquela era uma das suas diverses prediletas. Quando entrava numa cidade onde havia cinema gostava de ver o filme das duas maneiras. E recomeou a tortura para os assistentes. Apenas Quinquina riu ao ver os personagens com os pes para cima, andando ao contrrio, a terra onde devia estar o cu.
     Houve tambm uma fita de Carlitos e eles riram com as peripcias do vagabundo. O vilo era um gigante fortssimo e, quando le comeou a bater em Carlitos, um dos cangaceiros no resistiu, mandou trs balas na tela. Mulheres desmaiaram mas o vilo continuou sua tarefa:
      No bate no hominho, fio de uma gua...
     Finalmente as luzes acenderam-se. A viva do tenente estava desacordada, Z Trevoada jogou-a no ombro, saiu com ela. Os cangaceiros enquadraram os assistentes, tocaram-se todos para o salo da Filarmnica. Lucas ia de brao com a professora, aproximou o nariz do seu cabelo de oiro, aspirava o perfume da moa, ria contente.
     Uma filha do Juiz, alucinada de medo, quis fugir. Um cangaceiro derrubou-a com uma tapona, a me foi chorando levant-la. O juiz tambm tinha lgrimas nos olhos. Os msicos, na Filarmnica, comearam a tocar quando eles apareceram na esquina. Do bar tinha vindo todo o estoque de cachaa e de vinho. No cu brilhava uma lua redonda e amarela, baixa sobre as casas, derramando sua luz sobre os cabelos loiros da professora, dando-lhe nuanas novas e ainda mais belas.
     Animada no se podia dizer, com justa verdade, que a festa estivesse. Tampouco desanimada seria o termo perfeito para classificar o baile de Lucas Arvoredo na cidade invadida. Era como um enterro com msicas alegres, sambas e foxes. Mais ou menos metade dos msicos tinham sido reunidos, os que estavam na cidade, no tinham tido tempo de cair no mato. E umas trinta mulheres, entre velhas e moas, moviam-se na sala, puxadas pelos cavalheiros, na sua maioria jagunos do bando. Lucas queria ver todo mundo danando, obrigara o Juiz, o Prefeito, o caixeiro-viajante. Mandara dar bebida aos msicos, fazia as mulheres beberem cachaa. A professora ia com le, os ps pisados, incapaz de raciocinar, sua sorte entregue ao destino.
      Seja o que Deus quiser...  murmurava ela.
     Tinha um noivo na cidade mas o sentia como uma coisa distante, sonho que se esfumava ante a nova realidade.  Lucas beijava-a nos cabelos.
     Era um baile infernal. Se o padre da localidade no houvesse sido um dos primeiros a fugir quando a vinda de Lucas se anunciou, poderia ter um bom assunto para um sermo naquele baile sem alegria mas de danas rpidas, de msicas entremeadas de tiros, de gritos, de garrafas se esvaziando rapidamente, mulheres sufocadas com cachaa.
     Z Trevoada arrastava a viva do tenente. Ela ia como uma inconsciente, movendo os ps no ritmo da dana sem sequer dar por isso. Seu pensamento estava no marido morto, no filho que deixara sozinho em casa, nada do que lhe acontecesse ali poderia ofend-la.
     Quando a msica silenciou e todos ficaram parados, os homens da cidade espiando suas mulheres e filhas, essas tremendo nos braos dos cangaceiros, Lucas pronunciou as palavras fatais, que os comerciantes e moradores da cidade temiam ouvir a cada momento:
       T fazendo muito calor, vamos tirar as roupa... 
     Bateu palmas:
       Todo mundo,  sem faltar ningum... 
     Dirigia-se  professora:
       Tu tambm, cabelo de ouro...
     Os homens e as mulheres ficaram imveis. O caixeiro-viajante tentou intervir. Lucas fechou o rosto:
       Tire a roupa tambm...
     Sob o punhal dos homens comearam a se despir. A mulher do Juiz era um elefante de gorda, os seios batiam na barriga. O marido, em compensao, era uma vara de magro, os ossos das costelas aparecendo. Lucas os imaginou danando os dois, nus no meio da sala. Deu ordens para a banda tocar uma valsa. Meteu o punhal na barriga da esposa do Juiz. A mulher tapava a cara com as mos, nunca pensara em sentir tanta vergonha:
       Vocs dois, vo danar...
     Os cangaceiros riam, um comerciante no pde deixar de rir apesar de que sua esposa tambm estava ali, nua como as outras.
     Juiz e a mulher andavam mais do que danavam pela sala e era ridculo espetculo, a gordura dela sobrando por todas as partes, a magreza do homem, os olhos de lgrimas dos dois. A valsa morria nas ltimas notas, veio um samba:
       Dana todo mundo  disse Lucas.
     Tomou da professora, sentia o corpo nu desfalecer nos seus braos. Z Trevoada segurava a viva do tenente, arrancara-lhe , fora os vestidos, ela o olhava distante e silenciosa.
     E o baile se prolongou, os cangaceiros cada vez mais bbados, o desejo se avolumava dentro deles. Cada um foi escolhendo a sua preferida e quando Lucas arrastou a professora para a sala dos fundos, eles comearam a tomar das mulheres ali mesmo, na vista de todos. Era uma cena inconcebvel, de gritos, alguns homens, tentando reagir mas logo encurralados num canto pelas armas de dois ou trs dos jagunos.
     O mais terrvel porm foi quando Z Trevoada derrubou a viva do tenente. Quando ela compreendeu o que se ia passar ficou; de todo louca e correu pela sala. le ia atrs, estava muito bbado,, tropeava nas cadeiras, caa. Mas ela perdeu as foras e novamente le a segurou. Ela o arranhou e mordeu, virava o corpo, de outras mulheres vinham gemidos de dor na posse obrigada.
     Z Trevoada segurava-a pelos braos, as pernas em cima de suas pernas:
       Mulher de macaco, tu vai ver o que  macho...
     Ela ouvia agora o choro do filho, vindo de longe. E teve de sbito um momento de perfeita lucidez. Libertou-se do cangaceiro que preparava-se para possu-la, olhou-o nos olhos de bbado.
       Voc no tem me, desgraado?
     A pergunta foi to inesperada que Z Trevoada quase no a entendeu. Raras vezes se lembrava da velha Jucundina. Mas no queria pensar nela naquele momento.
       Deixa a via em paz...
       Se o senhor tem me pense nela e veja que eu tambm tenho filho.  No basta com ter matado meu marido? Deixe eu ir embora pelo bem de sua me...
     Estava sria e parada diante dele. No escondia nenhuma parte do seu corpo. Z Trevoada via a velha Jucundina andando em casa,, ralhando com eles, olhando-os com amor.  A mulher continuava:
      Tou-lhe pedindo pelo bem de sua me...   Se no quiser fazer que ela lhe amaldioe...   No vou mais correr, o senhor  quem sabe o que vai fazer...    pelo bem de sua me...   Z Trevoada passou a mo nos olhos, no podia afastar dali a viso da velha Jucundina.
      Vai embora...   Depressa, antes que me arrependa...
     A mulher saiu pela porta, na passagem arrebatou um pedao de vestido largado na sala.  Cobriu-se com le, precipitou-se na rua.
     Z Trevoada ficou parado, sem saber o que fazer. Via ainda a velha Jucundina e agora a viu nua no meio da sala. Afastou um homem do seu caminho:
       Sai, peste ruim...
     Agarrou uma garrafa de cachaa.
     L dentro, da sala onde estava Lucas, veio um grito terrvel. E um cheiro de carne chamuscada penetrou na sala de baile. Um jaguno disse:
       Lucas marcou a brancona...
     O caixeiro-viajante sentiu uma tontura, sentou-se na cadeira, no via nada em sua frente. Lucas surgia na sala, o ferro em brasa na mo, a moa arrastada pelos cabelos, um L de sangue no ombro alvo que nem leite. E ali atirou-se novamente em cima dela que no se movia. Z Trevoada espiava pela sala, s tinham sobrado as mais velhas e as mais feias. J estava arrependido de ter deixado a viva partir. Em sua frente no via mais Jucundina e o desejo o tomava novamente. Ningum quisera uma gorda filha do Juiz.  Z Trevoada gritou:
       Vem c, pata choca...
     A moa quis correr, caiu, le colocou o punhal no seu pescoo:
       Se se mexer eu meto a faca...
     O cheiro de carne queimada ia desaparecendo lentamente. Os msicos fugiam pela janela. A orquestra agora era de ais, de soluos e gemidos, o baile de Lucas Arvoredo terminava.
     Saram de caminho pela madrugada, o chofer com o revlver de Bico Doce encostado nas costelas. Muitas lguas acima, quando o sol j ia alto, mandaram parar, atiraram nos pneus, sumiram na caatinga.
     
8
     
     Internaram-se no mais profundo da caatinga, sabiam que o assalto  cidade repercutiria, dando como resultado uma intensificao no combate ao bando de cangaceiros. Os jornais falariam, os deputados da oposio fariam discursos contra o governo, novos contingentes de polcia seguiriam contra Lucas Arvoredo. Quem sofria com isso eram os sertanejos. No os fazendeiros ricos, respeitados pela polcia que lhes garantia as propriedades, respeitados tambm por Lucas quando eram seus coiteiros ou quando no se negavam a lhe dar o dinheiro exigido. Quando faziam negaas, Lucas entrava nas fazendas, queimava roas e casas-grandes, matava alguns, impunha respeito.
     Mas os pequenos lavradores, os sitiantes e colonos, os sertanejos pobres, esses sofriam, seja da passagem do bando de Lucas, seja  e ainda mais  da polcia. Os tenentes e capites comissionados na perseguio a Lucas enriqueciam nos dois anos que passavam pelo serto. Levavam dinheiro para pagar comida e cavalos mas os requisitavam dos camponeses pobres, roubavam e violavam tanto ou mais que os cangaceiros. Os sertanejos tinham mais medo da farda da polcia, farda que ali se modificava, os homens vestindo gibo de couro sobre as levitas, substituindo os quepes por chapus de vaqueiros, do que mesmo da roupa de couro dos cangaceiros. A polcia tinha direitos, roubava matava e deflorava baseada na lei. E no passava de corrida como os cangaceiros. Onde havia bois e galinhas eles demoravam, os tenentes dormindo com as cabrochas mais bonitas, os soldados fazendo e acontecendo. Muitos daqueles soldados eram recrutados por ali mesmo, alguns j tinham sido inclusive cangaceiros e eram os nicos realmente teis na perseguio ao bando, os nicos que sabiam se movimentar no intrincado da caatinga. Os tenentes e capites, querendo conservar o mximo que pudessem da verba recebida para o reide, davam liberdade aos soldados para se arranjarem como pudessem. E eles caam com fria sobre os sertanejos, suas posses, suas filhas, seu rebanhos.
     Tampouco os cangaceiros perdoavam. Apesar de que haviam sado de entre os sertanejos mais pobres, vtimas quase sempre do latifndio, das lutas desiguais com os coronis que tomavam suas terras, frutos do meio social, ainda assim no guardavam particular simpatia pelos que sofriam o que eles j haviam sofrido.  Tambm os cangaceiros roubavam e defloravam, matavam e capavam.   A nica diferena entre cangaceiros e polcia era que esta respeitava todos os grandes fazendeiros enquanto Lucas atacava tambm a esses.
     Internaram-se pela caatinga, foram acampar no seu recesso mais escondido. Ali s chegavam os espies, os que vinham trazer as notcias para Lucas. De todas as partes, das fronteiras de cinco Estados, movimentavam-se soldados. Os discursos da oposio tinham sido dessa vez mais violentos, o caso do assalto repercutira at na Cmara Federal. Os jornais publicavam fotografias da professora que enlouquecera, com o ombro marcado a ferro em brasa, o L de Lucas, sua marca para seu estranho gado: as mulheres que possua. Publicavam tambm retratos da viva do tenente, para a qual um deputado solicitou uma penso especial do governo, e uma entrevista onde ela contava como se havia libertado das mos de Z Trevoada. O reprter, que amava o sensacionalismo (era um jovem ambicioso mas sentimental) dera um ttulo que comoveu as famlias:
     
     "O REMORSO PARALISOU AS MOS DO BANDIDO."
     
     Os soldados de polcia atravessavam as estradas, cercavam o pedao da caatinga onde Lucas estava com seus homens. Vinham de todos os lados, em breve o cerco estaria completo. Entregaram o comando da expedio a um capito do Exrcito, comissionado em coronel, e le, antes de partir para o serto, deu uma entrevista aos jornais dizendo que aquilo era o fim de Lucas Arvoredo e do seu bando de cangaceiros. At esse jornal trouxeram para Lucas, le soletrou as declaraes do capito, espiou o rosto do homem para guardar bem.   Reservou uma bala para le.
     Quando o capito, com o grosso dos seus soldados, chegou  caatinga, Lucas j estava muito longe, descansando tranqilamente na fazenda de um dos seus coiteiros, um coronel que era trunfo na poltica, senador estadual que fazia discursos falando na defesa civilizao crist e que se aproveitava de Lucas para expulsar das terras vizinhas das suas todos aqueles lavradores cujos bens lhe interessavam. Depois que os homens fugiam e no podiam voltar, le adquiria as terras por ninharia. E no Senado do seu Estado ouvia os discursos contra o governo que no liquidava com Lucas.  Dizia nas rodas do caf:
      Se le tiver a ousadia de aparecer por minha fazenda, vai ser o fim dele...
     Votava as verbas para a polcia perseguir os jagunos. Sabia que aquela perseguio s tinha um fim: enriquecer uns quantos tenentes e capites.
     E como no encontrasse Lucas Arvoredo, e no desejasse voltar, o capito espalhou seus soldados pelo serto, e roubaram, violaram e mataram. Os jornais atribuam tambm esses crimes ao cangaceiro Lucas Arvoredo.
     Quando o Senador chegou, Lucas foi cumpriment-lo, acompanhado de Z Trevoada. Estavam acampados sob um telheiro, prximo  casa-grande e tinham mandado buscar mulheres da vida no arraial, amantes que possuam por aquelas redondezas. Era como uma festa na fazenda, todas as vezes que Lucas e seu bando acoitavam-se ali. Vinham violeiros, tocadores de harmnica, havia bailes pela noite, trabalhadores resolviam abandonar a enxada e a foice para seguir no bando de Lucas, para a aventura da vida na caatinga, livre e sem obrigaes.
     O Senador apertou a mo que o cangaceiro lhe estendia. Havia um banco de madeira na varanda, ali conversaram. Lucas tirou o chapu de couro, colocou-o no cho, entre seus ps. Z Trevoada acocorou-se em frente. O Senador fumava um charuto perfumado, Lucas aspirou a fumaa, era quase um pedido. O Senador mandou buscar a caixa com certa m-vontade, cada charuto daqueles custava-lhe oito mil-ris. Deu um a Lucas, outro a Z Trevoada. Este guardou o charuto no bolso:
      Vou dar a Maricota...  a amsia estava ali com le.
     O Senador queria reclamar. Daquela vez fora demais, Lucas se excedera. Aquilo poderia terminar por prejudic-lo, a le mais que a qualquer dos outros coiteiros,  pois nenhum to altamente colocado quanto le.    verdade que sabia que o coronel Joo Batista pai do governador de um Estado vizinho, tambm acoitava Lucas. Mas, em compensao, havia-lhe proibido que entrasse em qualquer das cidades do seu pequeno Estado.   Lucas s se dirigia para a fazenda do coronel Joo Batista quando estava num aperto muito grande,  ali nunca iria a polcia.   Em compensao,  em nenhuma parte se acoitava tanto quanto na fazenda do Senador. Culpa do prprio Senador que muitas vezes o havia mandado chamar, precisando dele para tomar as terras dos outros.  Na varanda o Senador pensa se no teria usado demais a Lucas Arvoredo.
      Seu Lucas, me desculpe a franqueza, mas voc est abusando...   Assim voc acaba mal e no poderei fazer nada para lhe ajudar...  o Senador erguia o dedo numa advertncia.
     Lucas ps nele uns olhos inocentes:
       De que  que vosmec quer falar? Num sei de nada...  Ando at quieto, bem do meu nesses tempos...
       Voc sabe do que estou falando...   Que necessidade voc tinha de marcar aquela pobre moa com ferro em brasa...    O Senador vira o ombro da moa, ainda no se libertara de todo da impresso.
       Tava um pouco bebido, a malvada se fz de besta, o senhor sabe o que  raiva, no me gentei...
     O silncio reinou durante alguns minutos.
       Foi muito malfeito.   Assim, Lucas, voc ainda vai terminar mal...   Um dia lhe pegam...
      Vosmec bem sabe que ningum vai pegar Lucas com vida. Esse caboclo que t aqui no vai bater com os costados na cadeia... Antes  mi morrer brigando...   No sou bandido de se deixar prender...
       E a conscincia?  perguntou o Senador. Pouco se recordava da sua, mas seria exagero dizer que, por vezes, durante as noites, de insnia, cansado das mulheres jovens, le no sentia um estremecimento. Repetiu:  E a conscincia?  No lhe di?
       Se no me alembro?...   Seu Senador, vosmec bem sabe que vim pra essa vida no foi por querer.  Nis tava bem de seu em nossa terra, viero e tomaro ela, assim como vosmec tambm taz...   e dero um tiro no veio meu pai, que necessidade tinha? Matei o homem, ca no cangao...   L vou sentir...   Tou  me vingando, os outro tambm, vosmec sabe que essa gente do serto  mais desgraada e mais sofredora que nem mesmo urubu que  bicho que s come carnia... Pelo menos tem carnia pra comer...
     O Senador no gostara daquela aluso aos seus mtodos. Lucas cada dia se tornava mais ousado, respondo, perdia-lhe completamente o respeito.   Resolveu encurtar a conversa:
       Vai se demorar por aqui?
       S uns dias enquanto os home descansa e a polcia assossega. Dizque tem mais soldado na caatinga que espinho nos mandacaru...
      Tem muito soldado. Mas j esto se dispersando, espalhando-se pelo serto. O melhor era voc atravessar o rio, ir para o outro lado...  com Lucas no outro Estado, le se sentiria melhor.
       Talvez seja mi mesmo...   Faz tempo no vou praquelas bandas, tenho umas contas a ajustar por l...   S demoro uns dias, o tempo dos macaco tomar sumio...
       Muito bem, Lucas...   Folguei em v-lo com sade.   Agora vou descansar um pouco, dar depois umas ordens a Licurgo  falava do capataz da fazenda.    Venha me ver antes de ir...
     Mas Lucas no se levantou:
       Queria falar um arrespeito com vosmec...
       Que ?
       Tou cum pouca munio, tava querendo ver...
       Onde vou arranjar?  estava de p e ligeiramente colrico com o pedido de Lucas.    Voc sabe que no  fcil conseguir munio.
       Licurgo me disse que vosmec tem pra cima de trezentas balas de fuzil guardada em casa...
     "Aquele Licurgo saberia essa tarde quanto custa ser linguarudo..." As balas o Senador as tinha reservado para uma necessidade qualquer, a poltica no serto se fazia tambm com tiros e lutas.
       Nem me lembrava.   Mas no posso lhe ceder tudo...   S uma parte...   Preciso de ficar com um pouco de munio, ningum sabe do futuro...
       Em vosmec ningum toca que Lucas no deixa...   Vou mandar dois home arrecolher as bala...
       Est direito.   Vou descansar.   At outra hora...
     Lucas se levantou, Z Trevoada j estava de p. O Senador estendia a ponta dos dedos. Vestia um pijama de seda, listado. Lucas ficou parado, esperava evidentemente alguma coisa. O Senador perguntou, ao v-lo naquela atitude:
       Que  mais?
       Vosmec no vai me convidar pra jantar?   Todas as vez vosmec me convida, Lucas fica contente...
     Forou outro sorriso.
      Venha amanh,  vou  mandar  matar  um capado  para  os homens
     Ficou olhando os dois cangaceiros que caminhavam para os lados do barraco. Lucas Arvoredo estava se tornando incmodo. Enfim, ainda podia ser til se as coisas na poltica se embaralhassem ainda mais, como estava parecendo que ia acontecer... O melhor de tudo, porm, seria se le nunca mais voltasse  fazenda... Se a polcia o liquidasse, o Senador se sentiria satisfeito. E pela primeira vez pensou em trair o cangaceiro, em entreg-lo s foras policiais.   A idia ficou crescendo no seu crebro.
     
10
     
     As noites no barraco eram de festa. Lucas mandava buscar tocadores de harmnica, violeiros de fama, danavam at de madrugada, as mulheres sabiam que, depois, os seus homens passariam meses e meses enterrados na caatinga e tornavam-se carinhosas,  os ais de amor eram como msica tambm.
     Um dos trabalhadores da fazenda falou a Lucas de um tocador de harmnica que le ouvira h algumas noites numa fazenda vizinha. O homem estava de passagem, ia viajando para o sul no rumo de Juazeiro, na Bahia. H uns dias que com sua famlia, demorava na fazenda, pegando na enxada para ganhar algum dinheiro com que continuar a viagem. O trabalhador contou maravilhas do homem. Tocador to bom le nunca vira, dava gosto escutar, valia a pena Lucas mandar busc-lo.
      A no ser que le j tenha arribado... S tava de passo, ia era pro sul, no caminho de So Paulo...
     Lucas mandou um recado e naquela noite Bastio apareceu com sua harmnica. Deixara a famlia, viera s, era mais garantido. Muitas e muitas vezes ouvira contar acerca de Lucas, das suas malvadezas, mas tambm de sua generosidade quando algum ou alguma coisa o agradava. E tinha ouvido dizer que Jos, filho de Jernimo, andava no bando. Gostaria de v-lo, de contar-lhe o que se tinha passado na fazenda do coronel Incio. Chegou com a harmnica debaixo do brao, acompanhado pelo trabalhador que lhe levara o recado. Homens e mulheres esperavam pelo tocador de tanta fama.  Z Trevoada o reconheceu, imediatamente:
       Mas se  Bastio...
       Tu conhece le?  perguntou Lucas.
       Tou cansado de conhecer.   Vive junto de minha gente, na fazenda do finado coronel Incio...   Onde tu passou daquela vez, quando eu vim pro bando...   Se ar recorda?
     Lucas se lembrava. Como poderia esquecer a figura de Zefa predizendo o futuro, ameaando o mundo e os homens? Mas no vira Bastio, o negro fugira com a famlia, s aparecera depois que o grupo de cangaceiros tinha ido embora.
     Foi da boca de Bastio que Z Trevoada teve as notcias da fazenda e dos seus. Soube da venda pelo doutor Aureliano, de como haviam tomado as terras dos colonos, da viagem, do tiro que Gregrio dera em Artur e que no matara o capataz. A ltima novidade que Bastio tinha a respeito dos parentes de Jos, era a que lhe transmitiram uns homens com quem se encontrara e que voltavam do sul. Haviam estado com Jernimo mais alm da caatinga e disseram que a famlia estava reduzida a dois meninos, Marta, os velhos e Joo Pedro. Seis pessoas, to magras que mais pareciam bichos do que gente.
       E o resto?  o rosto de Z Trevoada estava sombrio e os olhos ficavam pequenos e maus.
       Dizque morrero pelo caminho.   Eu tambm j perdi dois fio nessa viage...    uma malvadez o que fizero cum a gente...
     Tocou a noite toda, os homens danando, as mulheres felizes, que tocador! Lucas se entusiasmara, gostava da msica de harmnica, e Bastio tinha uma voz agradvel, cantava modas do serto, ABCs e desafios. Cantou aquela que falava nos feitos de Lucas Arvoredo, os homens do bando acompanhando em coro:
     
                 "L vem Lucas Arvoredo, 
                 armado com seu fuzil... 
                 O serto treme de medo, 
                 j matou pra mais de mil...
                 
                 L vem Lucas Arvoredo, 
                 armado com seu punhal... 
                 Os ricos caga de medo, 
                 Tiro de Lucas  fatal...
                 
                 L vem Lucas Arvoredo, 
                 armado com, seu fuzil... 
                 Menina, no tenha medo, 
                 Meu apelido  gentil...
                 
                 L vem Lucas Arvoredo, 
                 armado com seu punhal.. .
                 S os bichos no  tm medo, 
                 comem em seu embornal...
                 
                 "L vem Lucas Arvoredo, 
                 armado com seu fuzil..."
     
     As vozes atravessam sobre as roas, acordam os passarinhos nos galhos, estremecem as rvores. O nome de Lucas Arvoredo quer dizer sangue e morte, tristeza e luto. Os sons da moda, na voz rouquenha dos cangaceiros,  como um sinal de partida. Ao ouvir Bastio, Lucas pensa que chegou o momento de marchar. J esto ali h mais de dez dias. A caatinga os espera, se no der que falar logo dele se esquecero, outro mais audaz tomar seu lugar na conversa dos sertanejos, na boca dos violeiros.
     A noite est findando, vrios j se retiraram com suas mulheres para os cantos ou para os matos. O prprio Lucas est com sono. Bastio prepara-se para partir. Vai abraar Z Trevoada que passou todo o tempo calado, encaramujado num banco, sem cantar nem danar. Maricota no tem sequer coragem de cham-lo. Quando o convidou para irem dormir, le a olhou com tais olhos que ela se afastou e o fita de longe. Que se passa com le? Que lhe disse esse negro quando conversaram? Bastio chega para se despedir:
      At nis se ver, Jos...
     O nome assim por inteiro, como ningum por ali o pronuncia, ainda mais aumenta sua dor, como que o aproxima da infncia na fazenda.
      V descansado, Bastio.   Num vou deixar isso ficar assim. Vou falar com Lucas, nis vai l e ai dos que tiver na casa-grande. Num  por dinheiro que nis vai l...    s pra matar...
     Deu cem mil-ris ao negro velho. Lucas dera-lhe duzentos, Bastio julgava-se rico. Bastaria para le chegar a Juazeiro. De sobra. E, mais que o dinheiro, que os elogios de Lucas Arvoredo, aquela notcia que Jos lhe dava enchia o seu corao. Desta vez Artur no escaparia. E quem dera que o doutor Aureliano andasse por l nem que fosse de visita... No caminho de volta ainda cantava e o fazia de pura satisfao:
     
     "L vem Lucas Arvoredo, 
     armado com seu punhal..."
     
11
     
     Lucas reparou em Z Trevoada num canto como se estivesse doente. Era o seu preferido. Nunca esquecera o primeiro tiroteio em que Jos tomara parte e que lhe valera o apelido. Quando vira os outros saltando e gritando, na ttica de luta que Lucas introduzira no cangao, os urros e pulos amedrontando mais que os tiros, Jos soltara tais gritos e to altos que pareciam mesmo trovo.   Um dos homens disse:
      Parece trevoada...   Tu  Z Trevoada...
     E o nome ficou. Mas coragem e dedicao estavam ali. Cedo Lucas o distinguiu dos demais, confiava-lhe misses difceis, mandava-o s fazendas receber a quota com que os proprietrios pagavam o direito de no serem atacados. Confiava nele e o estimava. Por isso se dirigiu para seu lado quando o viu quase escondido no fundo do barraco. J durante a festa sentira a falta de Jos. Mas como o outro andava agarrado com Maricota pensou que estivesse com a mulher, dormindo pelos matos.
     Foi  prpria Maricota que le perguntou:
       O que  que Z tem?
       Sei l que bicho mordeu le...   T cum cara de morte...
       O que  que tu tem?
     Z Trevoada levantou a cabea:
      Quero saber se tu pode me atender um pedido...
       s tu falar...
       Dizque mandaro minha gente embora das terra deles.   Meu pai   minha me, meus tios tambm.   Tudo que era vivente que tinha terra na fazenda, aquele tocador era de l, botaro le pra fora tambm.   Dizque minha gente desceu pra So Paulo, t morrendo tudo pelo caminho. . .  Tu sabe que esses fragelado num chega nem metade em Juazeiro...
       Que  que tu quer?
       Ir na fazenda, pegar o dono, o tal que comprou e mais o capataz.  Dero um tiro nele mas no matou...
       Tua tia t l?
       Tocaro cum ela tambm. Mas dizque j morreu no caminho, dizque no t mais cum eles, s resta cinco...
       Tocaro cum ela?  Num devia ter feito...
      E eles se importa?
       Nis sai amanh.  Discansa hoje que  pra poder andar bem depressa.   Cum dez dias nis t por l se num acuntecer malefcio nenhum...    mi tu drumir, t decidido...
     Mas Jos no conseguia dormir. Voltava a ver Jucundina andando pela casa, as vozes ressoando no curral, Marta to nova ainda correndo no terreiro, Jernimo na roa. E a casa, onde crescera e  qual pretendia voltar algum dia, no sabia quando, mas no importava. Importava, sim, saber que ela existia e que le podia voltar se quisesse, abraar a me, pedir a bno ao pai, pegar na enxada, partir para o mandiocal. Apertava o punhal, no ia gastar bala com aquela gente...
     
12
     
     Quando voltavam do assalto  fazenda, tiveram um encontro com uma patrulha da polcia. Borboleta foi ferido numa perna e Lucas Arvoredo dirigiu-se para um dos seus coitos para ali deixar o jaguno, aos cuidados de um mdico. Na fazenda eles no encontraram  Artur que  andava  de  viagem,  comprando  gado, o novo proprietrio estava convertendo grande parte da propriedade num criatrio. Deu-lhes raiva no encontrar o capataz e ento puseram fogo na casa-grande, abateram quantas vacas puderam. Z Trevoada botou fogo nos mandiocais e no milharal que rodeavam sua casa. Entrou pela casa adentro, assustando a famlia de um trabalhador, olhou as paredes de barro batido, nada mais recordava ali a presena de Jernimo e Jucundina. Pensou se devia incendiar a casa tambm mas os trabalhadores no lhe tinham feito agravo nenhum.  Perguntou se as plantaes eram deles ou do fazendeiro.
      Nis  s alugado...
     Botou fogo. A casa-grande ardia, Z Trevoada no estava satisfeito. Mas no tardou a saber que o doutor Aureliano andava por perto, havia estado hospedado na fazenda h dois dias, viera numa comisso do governo. Z Trevoada conversou com Lucas Arvoredo, combinaram planos, le partiu sozinho, encontraria o bando num lugar determinado. Atirou em Aureliano naquele mesmo dia mas no tinha certeza se o havia matado. Ficou rondando pelas proximidades at que soube que apenas ferira o seu antigo campanheiro de correrias quando meninos. Haviam-no levado para o arraial e de l para a cidade num automvel.
     Z Trevoada praguejou. Pensou at ir  cidade, mat-lo mesmo para ser preso mas considerou depois que no valia a pena. No faltaria ocasio. Nem que tivesse de voltar todos os anos por aquelas bandas como quem cumpre promessa.
     Embrenhou-se nos matos, dois dias depois encontrou o bando. Naquela mesma noite deram com o piquete da polcia, o tiroteio foi no descampado, o que no agradava a Lucas. A sorte deles era que o grupo de soldados compunha-se apenas de oito homens. Mas ainda assim Borboleta ficara ferido e os soldados tinham fugido ilesos. Lucas se contrariara e estava espantado de encontrar aqueles soldados inesperadamente. Que faziam por ali? No tinha notcia deles e andava sempre bem informado, tinha espies por todo o serto.
     Resolveu sair para outro Estado, comearam a marcha acelerada. Dias e noites atravs da caatinga, parando apenas para renovar as provises nas sedes das fazendas. Numa delas houve resistncia armada, o fazendeiro jurara que Lucas nunca tomaria nada em suas terras. Lucas enfureceu-se, matou a famlia toda.
     Quando finalmente saiu da caatinga para atravessar o rio que demarcava a fronteira dos dois Estados soube o porqu da polcia e encontrara no caminho. No eram s aqueles soldados com quem tiroteara os que se dirigiam na mesma direo. Eram dezenas e dezenas de soldados de polcia e iam todos liquidar com o beato Estvo e sua gente, ao que diziam eram mais de mil sertanejos, que se haviam juntado em torno do profeta. E a polcia resolvera acabar com aquilo de uma vez.
     O sertanejo que contava tinha informaes seguras. Lucas retirou da boca o pedao de fumo de corda que mascava:
       Mas o beato  um homem to bom, por que  que querem fazer isso com le...   le s faz rezar, pregar pros que quer ouvir, porque to mandando polcia contra le?
     No compreendia. Que o perseguissem estava certo, le matava e assaltava, era um bandido, um criminoso sem lei. Mas o beato no fazia nada disso, apenas mandava que os homens se penitenciassem dos seus pecados porque o fim do mundo estava perto.
     Mais adiante outro sertanejo deu-lhe mais notcias. Dessa vez porm no se referiam ao beato e, sim, a le mesmo, Lucas Arvoredo. Disse-lhe que todas as passagens do rio estavam tomadas pela polcia, que os soldados o esperavam j h dias, algum o trara.
       Argum que sabe que vosmec ia vadear o rio pro outro lado...   Adivinha eles no podia...
     Lucas despachou o homem, chamou Z Trevoada e Bico Doce, conversaram longamente.   Depois reuniu todos os demais e lhes falou: 
      Minha gente, nis foi trado e s pode ter sido pelo Senador...
     Alguns se admiravam mas Lucas Arvoredo completou:
       S le  que sabia que nis ia atravessar o rio...   Foi at le que me conseiou, dizendo que a coisa tava preta por esse lado... E s me deu uma porquera de munio...
     Juntava os fatos, a coisa lhe parecia clara:
       Estive sabendo que logo que nis partiu le viajou, foi pra cidade.   Que ia fazer assim de carreira?  Ia mandar os soldados...
     Os jagunos mantinham um silncio de expectativa. Apenas moviam-se no cho onde estavam sentados, desejosos de partir quanto antes.  Lucas Arvoredo sentia a mesma coisa que eles:
       Mas nis vai ensinar esse fio da puta...   Nis no travessa o rio, nis volta pra fazenda dele...
       E se le no tiver l?
       Nis espera at le chegar...   Um dia le tem que vim... 
     Retomaram os caminhos da caatinga, e iam depressa.   Lucas Arvoredo recompunha os fatos em sua cabea. O Senador sabia perfeitamente que, se le atravessasse o rio para o outro Estado, seu destino seria a fazenda do coronel Joo Batista, que ficava bem na fronteira. Durante grande trecho da viagem lhe preocupara saber o que o Senador poderia ganhar ao entreg-lo. Agora j descobrira: o Senador no estava de muito boas relaes com o governador do Estado vizinho. Se Lucas fosse preso ou morto na fazenda do pai do governador, acoitado ali, seria um escndalo, um deus-me-acuda.  No era outra coisa, pensava.
     Comeara a margear a estrada de rodagem at que depararam com um caminho. Viajaram nele um grande trecho para novamente internarem-se na caatinga quando a estrada se tornou mais movimentada. Iam de corao cheio de dio, macabros projetos ruminados enquanto caminhavam. Lucas dizia para si mesmo que esperaria o Senador mesmo que tivesse de envelhecer na fazenda...
     
13
     
     Mas no teve que aguardar. Quando se aproximou da propriedade soube logo que o Senador havia regressado, era o comeo da safra. Demora de poucos dias, segundo constava, para dar ordens, ter certeza de que tudo marcharia bem durante os meses em que o Senado o prendia na capital.
     O bando chegou pela tardinha, as mulheres no esperavam. Foi uma correria, Maricota atirou-se nos braos de Z Trevoada. Porm viram logo que acontecia algo de anormal, bastava olhar para a cara de Lucas.
     Foram diretos  casa-grande. O Senador acabara de ser avisado da intempestiva chegada do cangaceiro. Veio para a varanda, vestia um robe-de-chambre elegante,  no dedo brilhava um solitrio.
      Por aqui, Lucas?   Alguma novidade?
     Lucas se adiantou, subiu os degraus da varanda, ficou de p ante o Senador. Antes mesmo que le falasse o outro compreendeu que o cangaceiro sabia. Empalideceu, recuou um passo. Um pensamento atravessou sua cabea: "Mariana que pensou vir com Jaime." Eram a mulher e o filho acadmico de medicina.
      Vosmec entregou a gente  polcia...
     Protestou mas sua voz era fraca:
       Eu...   Sou seu amigo...
       Amigo do co, no de Lucas Arvoredo... 
     Levantou o parabelum.   O Senador gritou:
       Lucas, t doido?  Num faa isso... 
      Toma, fio da puta...
     Descarregou a arma, o homem caiu, corriam de todas as partes trabalhadores, mulheres e agregados. Ficaram olhando de longe, contidos pelos cangaceiros.
     Tomaram das suas mulheres, juntaram uns animais da fazenda, cavalos e burros, tocaram-se para outro coito mais distante ainda, mais garantido tambm. Viajaram sem parar, dia e noite, Lucas Arvoredo sabia agora que toda a polcia se movimentaria atrs dele.
     
14
     
     A perseguio amainou como as outras. O bando de Lucas passou sumido quase dois meses. O seu coiteiro, naquela emergncia, era um pequeno fazendeiro a quem Lucas salvara a vida certa ocasio numa viagem. E foi ali que o emissrio do beato Estvo o veio encontrar. le j se preparava para retomar o caminho, varar novamente o serto, invadir vilas e cidades, ir buscar dinheiro nas fazendas, quando boquinha de certa noite sem lua, o homem chegou. Vinha apoiado num bordo, andara muita estrada, custara descobrir onde Lucas se metera.
      A polcia  a que fora mandada para persegui-lo e a que buscava Lucas  cercara o beato nas proximidades de Juazeiro. Mais de trezentos homens encontravam-se com Estvo mas quase no tinham armas e nenhuma experincia de luta. A nica esperana que tinham era a ajuda de Lucas Arvoredo.
      Meu pai Estvo manda dizer que vosmec leve quanto homem puder.  E tudo que fr arma que o baruio  grande...
     Lucas, antes de partir, enviou emissrios para reunir gente, compadres seus, camponeses que o estimavam, gente que, de quando em vez, tomava parte no bando, outros que eles sabia se deixariam matar por le. E veio muita gente, uns para servi-lo, outros porque era para defender o beato Estvo. Nunca tinham visto o beato, mas para eles era um santo, pela sua voz falava a voz de Deus.
     Na madrugada eles partiram, deixando as mulheres, tomando nas fazendas onde passavam todas as armas que existiam. O enviado do beato, um preto cuja carapinha embranquecia, dava pressa. Mas eles andavam com tal rapidez que o prprio negro s com dificuldade os acompanhava. Durante seis dias e seis noites avanaram entre espinhos, at que na stima noite enxergaram as fogueiras do acampamento do beato. O vento trazia um rudo de oraes cantadas pelo povo que seguia Estvo. Lucas parou, dobrou os joelhos na terra, os demais cangaceiros o imitaram. Fizeram o pelo-sinal e s ento avanavam humildemente.
     

Jo

1
     
     Joo, a quem chamavam de Jo, soergueu a cabea, os olhos numa expresso interrogativa, escutando. Aquela cantilena nos fins da tarde, prolongando-se pelo comeo da noite, j se tornara familiar. Tomava do fuzil, andava at o alto de uma pequena elevao, onde existiam grandes panelas de um formigueiro abandonado. Sentava-se ali, descortinava um amplo horizonte. Via as cabanas de barro dos "peregrinos", o movimento entre elas, a maior de todas cercada de gente, era a do beato Estvo. A brisa suave acariciava o rosto mulato de Jo, le retirava o quepe para refrescar a cabea. Sentia o agudo mistrio do crepsculo mas o espetculo que o comovia era o acender das fogueiras no acampamento dos sertanejos. Tambm no bivaque das foras da Polcia acendiam-se fogueiras, mas eram pequenas e serviam to-smente para cozinhar e afastar as cobras. No acampamento elas tinham uma outra serventia, no eram simplesmente pedaos de gravetos onde cozinhavam o jantar e ferviam a gua para o caf. Tinham um significado religioso, oferendas de fogo ao Deus que ia destruir o mundo e castigar os homens, colocadas simtricamente, um determinado nmero, sempre vinte e uma, s o beato sabia porqu. A lenta procisso que, s sete horas, percorria as ruas do acampamento, parava ante cada uma das fogueiras, e as vozes que cantavam adquiriam maior volume, as sombras alongavam-se  luz vermelha. Diante da ltima, colocada no centro da praa, em frente  casa do beato, Estvo predicava, repetindo quase sempre as mesmas palavras de ameaa e de humildade. Depois a procisso dissolvia-se, e Jo sabia que eram nove horas, no tardaria a sentinela a tocar na vibrante corneta o toque de recolher. Descia ento do pequeno morro, vinha vagarosamente, trazia ainda nos ouvidos os sons merencrios da litania que os peregrinos cantavam. Quando havia vento conseguia distinguir tambm palavras do beato na sua prdica, e em seu corao de campons elas ressoavam, le acreditava nas novas por elas transmitidas. Era um bom soldado, cumpridor de seus deveres, obediente s ordens dos superiores, atiraria contra o beato se o tenente ordenasse fogo, mas o faria na certeza de cometer o maior dos pecados. O beato era pessoa de Deus, por que cerc-lo como se le fosse um criminoso? Todas as tardes Jo subia pela colina, algumas vezes outros soldados o acompanhavam. Ficavam esperando o acender das fogueiras. Percebiam depois o burburinho da gente se ordenando nas filas da procisso e o lamento das vozes nas oraes:
     
"Pra sempre louvado..."
     
     Mas naquela noite, quando mais de metade da procisso desfilara atravs das fogueiras, o beato na frente, como todos os dias, vestido com seu camisu branco, pareceu-lhe ouvir uns sons diferentes, vindos do outro lado, que se misturavam e se chocavam com a montona cadncia da litania. Era outra melodia, parecendo festiva e orgulhosa, to em contraste com a humildade da orao como um som de clarim que cortasse o grave acento de um rgo. A princpio imaginou que se enganava, seria um rudo de animal no mato, um daqueles gritos das aves noturnas, mas a melodia persistia e ia aos poucos dominando as vozes dos peregrinos. Jo soergueu a cabea, alou os ombros, o ouvido  escuta. Seus olhos, acostumados  treva da noite, perceberam outros vultos, que no os dos peregrinos, chegando por detrs do acampamento. Eram eles que cantavam e a melodia foi se tornando mais clara e Jo comeou a entender palavras esparsas. Seu corao suspenso, parecia adivinhar o que estava se passando. Viu a sombra do beato, os braos agitados, viu a procisso tomar outro rumo, quebrando toda a tradio, as vozes que oravam silenciarem a um gesto de Estvo. E foi nesse sbito silncio que le pde perceber as palavras da melodia que ganhara volume ao parar das oraes:
     
                          "L vem Lucas Arvoredo, 
                          armado com seu fuzil..."
     
     Viu como a procisso, aps um momento em que peregrinos e cangaceiros confraternizaram, novamente se ordenou, maior agora, e as oraes continuaram. Viu como chegavam  praa, o beato subindo no caixo colocado  porta de sua cabana, o vento abanando o branco camisu de algodo. Estranhas emoes aninhavam-se no peito de Jo, sob a sua levita de soldado. Ao mesmo tempo em que pensava na transformao por que passava o cerco, com a chegada dos cangaceiros de Lucas Arvoredo  deixando de ser uma caada a homens desarmados para virar batalha contra os jagunos mais temidos do serto  sentia uma satisfao inescondvel. Sem deixar de ser, nem por um momento sequer, um soldado fiel s ordens recebidas, executando as patrulhas, montando guarda e pronto para avanar contra os sertanejos do beato, sentia-se preso ao outro lado, se no vestisse a farda de polcia seria um dos homens do beato, rezaria em suas procisses, lhe pediria a bno, baixaria a cabea ao ouvir suas palavras. E no podia deixar de sentir-se satisfeito ao ver que o beato j no estava abandonado, sem poder resistir ao cerco, tendo que se entregar para no morrer de fome. Agora que Lucas Arvoredo estava com le a coisa mudava de figura, j os tenentes no podiam rir, o coronel perderia muito da sua arrogncia. Esse coronel era aquele capito do Exrcito que fora comissionado para perseguir Lucas. Agora chefiava o cerco ao beato Estvo e se divertia aproximando-se todas as noites mais uns metros, reduzindo cada vinte e quatro horas o terreno onde ainda podiam os peregrinos buscar gua e caar animais que comer. Resolvera reduzi-los pela fome, prender o beato e seus lugares-tenentes, espalhar o resto pelas fazendas.
      Botar esses vagabundos pra trabalhar...   dizia.
     Que pensaria le agora? Com Lucas haviam chegado mais de cinqenta homens, Jo calculava pelo movimento que vira. Havia oitenta soldados de polcia mas vrios deles eram rapazes da capital, gente que no servia para brigar com Lucas Arvoredo. Jo sentia-se alegre, apesar de saber que aquilo talvez lhe custasse a vida. No pensava na morte, de qualquer maneira o mundo ia se acabar, o beato afirmava.
     Ouviu o toque da corneta, chamando. Desceu da colina de m-vontade, os passos arrastados. O sermo do beato terminava tambm. E novamente, agora entoada por centenas de vozes, a moda dos feitos de Lucas encheu os ares, desta vez ouvida por todos os soldados:
     
                     "L vem Lucas Arvoredo, 
                     armado com seu punhal..."
     
     Corria um vento de chuva, trazia as palavras inteiras, a melodia se espalhara no rumo de Juazeiro, se perdia na direo do grande rio onde tambm mestres de barcas a cantavam, aprendida dos imigrantes que ficavam na amurada do cais a olhar os navios e a gua. Jo vem andando lentamente, seu corao bate apressado. Os soldados correm ao som da corneta, a guarda foi reforada. O coronel atravessa entre os homens, o passo agitado, dois tenentes vo a seu lado, discutem a situao. O rosto mulato de Jo se ilumina num sorriso.   Trauteia a melodia que chega com o vento.
     
2
     
     Um dia, no fundo do agreste serto, onde a fome mata os homens, os rios secos pelo sol ardente, os coronis tomando a terra dos lavradores, mandando liquidar os que discutiam, os imigrantes partindo em levas sucessivas para o Sul, os cadveres ficando pelas estradas, quando morriam crianas s centenas, e as que cresciam eram doentes e tristes, quando o impaludismo se estendeu como um manto de luto e a bexiga negra deixou sua marca mortal em milhares de faces, quando a febre tifo se alastrou que nem grama ruim, quando j nenhuma esperana restava no corao cansado dos sertanejos, apareceu o beato.
     Ningum sabia de onde le vinha, quem era, quando chegara, nem sua idade, nem seu nome por inteiro. Chamava-se Estvo, sobrenome no possua, o seu bordo, que parecia uma cobra cascavel, trazia poeira de muito caminho percorrido, as alpargatas velhas e rotas, o camisu salpicado de lama seca de muitos dias. A barba alva e revolta, no muito densa, descia-lhe sobre o peito, os cabelos compridos, brancos tambm, escorriam sobre o pescoo at o princpio das costas. Os piolhos baixavam dos cabelos para o camisu, e as aves, nas horas do meio-dia e do entardecer, pousavam nos ombros do beato e beliscavam suas orelhas que as mechas de cabelo escondiam.
     Apareceu dizendo que o mundo ia acabar, a maldade dos homens chegara ao mximo, a piedade findara no corao de Deus. O limite de sua pacincia se esgotara e agora viria o castigo terrvel, era chegada a hora da penitncia. Ai dos que no cobrissem a cabea de cinza e no abandonassem tudo, casa e trabalho, patres e colheitas, para rezar... Os que assim no agissem no teriam salvao possvel quando a hora soasse implacvel.
     Sua voz era sugestiva e terna, parecendo mais a voz de uma criana que a de um velho, porm na hora das imprecaes se alteava violenta, doa como chicotada. Nesses momentos todos se esqueciam de que era um velho curvado sobre um bordo de caminheiro. Semelhava uma rvore majestosa, um rio caudaloso, uma cachoeira ruidosa. Quando os olhos azuis, comumente bondosos e quentes, olhos que chamavam e arrumavam, ficavam parados, perdidos na distncia, vendo coisas que os demais no viam, quando davam medo e frio. Alto e to magro que balanava ao vento como um bambu, tinha uma resistncia de ferro e marchava lguas e lguas num passo rpido, difcil de acompanhar. "Come menos do que um passarinho", diziam as mulheres e circulavam histrias fantasiosas sobre a maneira como, pela noite, Nosso Senhor alimentava o beato e renovava suas foras.
     Chamava-se Estvo mas todos o tratavam de beato Estvo, os peregrinos usavam a voz carinhosa de "meu pai". Curvavam a cabea para receber sua bno quando le passava, a mo levantada, as palavras quase inaudveis. Sua bno era milagrosa, curava doenas, cicatrizava feridas, evitava pragas nas plantaes, molstias nos animais, expulsava os maus espritos e fechava o corpo dos homens s mordidas das cobras venenosas e s balas assassinas.
     Como duvidar do seu poder sobrenatural, da sua santidade, se as cobras, as mais temidas  a cascavel, o jararacuu-cabea-de-platona, jararaca  saam do caminho ao seu passo e o acompanhavam na estrada e se deixavam pegar por le e compreendiam a lngua embrulhada que le falava?   Como duvidar, se le falava da fome dos homens, de todas as desgraas que sucediam, se le dizia que nenhum coronel, nenhum dos grandes fazendeiros se salvaria da ira de Deus, do castigo iminente?
     Nenhuma palavra podia contra le, nem mesmo a palavra dos padres que se levantavam para condenar o beato.  Os sertanejos sabiam que os padres no batizavam nem casavam de graa, viviam pelas fazendas mas hospedados nas casas-grandes, comendo fartamente na mesa dos coronis, e seus sermes nada adiantavam sobre as terras tomadas, sobre os salrios que nem davam para pagar o armazm.   Nos sermes dos padres, cheios do fogo do inferno, eles imprecavam era contra os amigados, os que tinham filhos por batizar, os que se punham nos animais por no ter mulher com quem dormir. O beato falava outra lngua. Nenhuma palavra contra as raparigas, contra os homens que tinham mulher sem receber a bno do vigrio, contra os que usavam guas e jumentas.   Clamava, em compensao, contra os pecados dos ricos, falava de como eles estavam matando os pobres de fome, e a eles,  sua usura e cobia, atribua a clera de Deus que resolvera terminar com o mundo.   Nunca parou para descansar numa casa-grande e as poucas vezes que se encontrou com algum coronel foi para lanar-lhe em rosto as mais violentas imprecaes, para convid-lo a entregar aos colonos espoliados as terras tomadas, para pagar o roubado nas contas do armazm aos seus trabalhadores.  E mais de um fugira de sua presena, impressionado com a figura do velho se alteando no bordo, as barbas flutuando ao vento, aves canoras no seu ombro, cobras venenosas no seu rastro.
     Quando surgiu estava sozinho e falava mesmo quando no havia ningum, como se os arbustos espinhentos da caatinga, os lagartos e as cobras, os urubus famintos, pudessem entender o que le dizia. Mas logo sua palavra se espalhou, levada de ouvido em ouvido, e os peregrinos foram chegando e se reunindo em seu redor, a acompanh-lo em sua caminhada. Pouco ou nada tinham a perder quando largavam o machado ou a enxada, quando fugiam das fazendas para buscar nos olhos azuis do beato a sombra de unia esperana. Apesar de que le anunciava novas amedrontadoras, os sertanejos sentiam-se confortados ao seu lado, no calor da sua voz, sob a proteo diria de sua bno.
     O primeiro que veio era uma viva e trouxe os seus cinco filhos pequenos. Mas, no mesmo dia, chegaram homens e o seguiram. le marchava sempre, parando apenas nos domingos quando realizava procisses e cobria seus cabelos brancos com a cinza sobrada das fogueiras. Marchava em direo ao mar, onde ficavam as grandes cidades, onde corriam os trens e das quais partiam os navios que eles nunca tinham visto e cuja forma, tamanho e cr amavam imaginar nas noites montonas das fazendas.
     Eram uns poucos a comeo.  Mas ao seu passo os homens iam deixando tudo, calando as alpargatas, colocando o chapu de couro. E o acompanhavam, queriam ouvir mais uma vez aquelas palavras contra a maldade dos coronis, contra as tomadas de terra, contra os salrios miserveis.  Todas as noites o beato pregava, os homens abriam tambm seu corao, lhe contavam suas histrias dolorosas, recebiam sua bno pacificadora. E uniam-se em torno a le, cuidando da sua  comida,  acendendo  as fogueiras nas  noites  de domingo, dormindo ao seu lado pelas estradas e descampados.  E assim vinham, atravs do serto, o nmero aumentando sempre, sertanejos que deixavam o trabalho, como le recomendava, para se penitenciarem, doentes de todas as doenas tambm que chegavam em busca de sade que o beato distribua com sua bno. E de ponta a ponta do serto, nesse imenso pas de tanta misria e tanta riqueza, por todos os caminhos da febre e da fome, correu o nome do beato Estvo e peregrinos partiam de todos os extremos em sua procura.  Bandidos e cegos violeiros, capangas de muitos assassinatos, homens a quem haviam tomado a terra que lavravam, trabalhadores alugados que deviam nos armazns, velhos e moos, mulheres com filhos e jovens que ainda no conheciam homem, tsicos e impaludados, leprosos e loucos.   Vieram todos, enchendo os caminhos, roubando para comer, marchando dia e noite, buscando o rastro do santo.   S le curava e consolava.   E o beato seguia, indiferente ao nmero de peregrinos que o acompanhavam, rezando suas oraes, difundindo suas profecias.   Mas para cada um tinha uma palavra diferente, para cada histria ouvida, uma soluo que acalmava como um blsamo sobre uma ferida.
     Mais rpido que le andava seu nome,  chegara s cidades, aparecera  nos jornais.  Os  coronis  se  agitavam,   trabalhadores abandonando as colheitas, colonos ficando rebeldes, os padres se levantavam contra le, era a ameaa de uma seita supersticiosa que abalava o prestgio da Igreja. O beato continuava, indiferente, no sabia sequer que seu nome provocava tanta discusso. As aves vinham pousar em seu ombro, os violeiros cantavam em sua honra, as mulheres beijavam a ponta do seu camisu, e as cobras enroscavam-se em seu brao magro, aninhavam-se em seu peito cavado. Essas coisas se passaram no serto, onde a fome cria bandidos e santos.
     
     
     
     
3
     
     Longe de Jo pensar que seu irmo Jos, mais moo que le um ano, estava no bando de Lucas Arvoredo, montava sentinela com uns cangaceiros em frente de onde le, Jo montava sentinela com alguns soldados. Fora o primeiro a partir, abandonar a famlia e a fazenda, procurando suas melhoras que no via futuro ali, na pequena terra que o pai lavrara e que no era dele sequer. Quando Jos arribou com Lucas Arvoredo, na noite do ataque  fazenda, le j era soldado de polcia numa capital distante e s muito tempo depois soube que o irmo tambm partira mas sem que lhe mandassem dizer qual o seu destino. Quando recebera a notcia, numa das rarssimas cartas que a tia Dinah escrevia, passara uns dias de olhos atentos pelas ruas da cidade na esperana de descobrir Jos. Mas o tempo foi correndo e le desistiu daquela busca infrutfera. O irmo devia estar trabalhando numa fazenda qualquer, ou de assalariado na construo da interminvel estrada de ferro. Inmeros camponeses abandonavam a terra para virem ser "cassacos" no leito da estrada. Era um trabalho estafante mas sempre de melhor salrio que os das fazendas.
     Soubera depois que tambm Nenm, o mais moo dos trs, o mais sabido, aquele que os dirigia nos brinquedos, havia partido. Ficara apenas Agostinho que era quase um menino e tambm le  pensava Jo  partiria algum dia quando crescesse. Como ficar no pequeno pedao de terra que mal produzia prs velhos e pras mulheres?
     Lembrava-se da sua fuga, da caminhada at  cidade, do seu espanto ante as belezas da capital, andando nas ruas de boca aberta. O que o animara a largar-se foram as descries ouvidas de trabalhadores que j haviam estado por l. Contavam maravilhas e Jo sonhava pelas noites com aquelas conversas, o trabalho na roa parecia-lhe cada vez mais estafante e sem futuro. Mais ia ficando, ajudando o pai nas plantaes, sem coragem de se decidir. Tinha dezenove anos, era um caboclo forte e as prostitutas o disputavam quando le ia ao arraial. Dormiam com le mesmo quando Jo no tinha dois mil-ris para lhes dar na despedida. Nesse meio-tempo comeou um namoro com a filha do velho Maneca, ia se encontrar com ela atrs do curral. Teve ento aquele desgosto com Jernimo, no podia mais ficar em casa. Primeiro pensou em ir em busca da moa, roub-la de casa, pedir a Artur um lugar de trabalhador ou buscar noutra fazenda. Mas o chamado da cidade com suas luzes imaginadas, era mais poderoso que o corpo da moa namorada. E partiu, trabalhando aqui e acol para conseguir o dinheiro para a passagem do trem. Andando pelas noites, parando de dia nas fazendas, pedindo servio. Alugou-se mais de um ms no leito da estrada com os "cassacos", trabalho duro, de rebentar. Juntou um dinheirinho, partiu novamente. J as alpargatas estavam inteis e os ps descalos se rasgavam pelo caminho.
     Mas um dia atingiu a cidade e todo o sacrifcio pareceu-lhe bem pago. O mar, que o tentava mais que tudo, era de uma cr varivel, ora verde, ora azul, branco de espuma na areia da praia. Beleza assim nunca vira e deixou-se ficar sentado num banco, espiando. Os navios colossais estavam amarrados no cais, pareciam uns bichos imensos, os mastros eram como rvores sem galhos e folhas, e quando um vapor apitou Jo se levantou com o susto, estremecendo. Sorriu depois e viu, emocionado, o navio afastar-se do cais, a gente que acenava adeus, os que respondiam e choravam. Viu como le embicava para a frente, para a gua sem limites, e aumentava a velocidade. Pareceu-lhe tudo muito rpido e, quando o navio j era um ponto perdido no mar, Jo ainda tinha nos olhos a sua imagem, parado no cais, botando fumaa pelo bueiro.
     Ali no havia crepsculo. Na roa era longo e triste, o fim da tarde demorado, a noite tardando a chegar, havendo uma bem profunda separao entre as ltimas claridades do dia e as primeiras sombras noturnas. Mas ali no havia crepsculo. Apenas o sol descambava e o horizonte sobre o mar acendia-se em vermelho, as luzes eltricas brilhavam e a noite j era. Como que as luzes a puxavam mais depressa e ela se confundia com os restos de claridade. No existia aquela hora misteriosa quando tudo parece se aquietar por um momento, quando se sente que mais um dia termina. Mesmo porque na cidade nada terminava, o crepsculo no marcava as fronteiras de certas ocupaes, a vida continuava to ou mais intensa pelas ruas afaristas.
     Jo no tinha onde dormir, no possua bagagem, todo seu dinheiro resumia-se em doze mil-ris. Sentia fome e abandonou o cais. Tomou pela rua mais movimentada, onde passeavam homens bem vestidos e mulheres lindas, e andava timidamente, parando ante as vitrinas, o chapu de couro na mo desde que vira que riam dele. No tinha coragem de entrar nos restaurantes e s se acalmou quando penetrou nas ruas de canto, parecidas com as do arraial prximo  fazenda. As mesmas mulheres da vida, negras e caboclas, pelas vozes de algumas, le reconhecia sertanejas vindas, como le, do interior. Encontrou onde poder comer por dez tostes, onde dormir por trs mil-ris. Nessa mesma noite fz relaes. Um sertanejo, que estava empregado numa padaria, ouviu sua histria num botequim. Beberam cachaa juntos, o homem prometeu-lhe um emprego. Marcaram um encontro para o outro dia e le foi trabalhar em casa de um portugus, fazendo recados, limpando o jardim, encerando a casa lustrosa que fazia gosto. Aos poucos foi conhecendo a cidade, se dando com gente, com soldados de polcia que iam beber  noite nas ruas de canto, fazer barulhos, dar nas mulheres. Entre eles encontrou conhecidos, vizinhos da fazenda moos que haviam partido antes dele. Interessaram-se por sua sorte, apresentaram-no ao sargento. Assentou praa, fazia ginstica, ensinaram-lhe a ler direito, s ento escreveu para a famlia contando onde estava.
     Quando se viu com a farda sentiu-se outro homem. Tmido ainda, desconhecendo muitos dos modos dos soldados, sem saber gritar com as raparigas, sem saber pegar o bonde andando e saltar na maior velocidade do veculo. Mas estava orgulhoso da farda e no tardou em arranjar amsia que lhe dava dinheiro, em aprender tudo que os soldados tinham que lhe ensinar. A cidade o dominava lentamente, cada vez o serto ficava mais distante. Ainda gostava, no entanto, de ouvir os sons de uma viola e a voz de um cego cantando qualquer moda sertaneja. Revia ento as cenas da fazenda, os velhos pais na labuta, a tia Zefa dizendo suas coisas trapalhadas, Marta correndo no terreiro, sua irm casada partindo com o marido. E tinha saudades, naquelas noites bebia mais cachaa, dava uns tabefes na rapariga, entrava com outros soldados em casa de mulheres, expulsando os paisanos a tiro.
     Serviu em cidades prximas, porm conseguiu sempre voltar para a capital, arranjava um jeito, a proteo de um tenente. Mais que tudo era o mar que o prendia, os navios que chegavam e partiam, a viso da gua infinita, as cores variando.
     Pegara cadeia, servira de bagageiro de um capito, foram tempos de folga, a corneta do regimento no valia para le. O capito mandava-o lustrar suas botas, a esposa mandava-o fazer compras no mercado, e a filha, que tinha dezesseis anos e era formosa, pedia-lhe que levasse recados para o namorado, um estudante de direito que escrevia versos nos jornais.
     Assim passavam os anos, pensava em fazer concurso para cabo, mas ia adiando, no gostava de estudar, a vida de soldado era boa. Tinha regalias, bonde no pagava, impunha respeito com a farda. De quando em vez brigavam com os soldados do exrcito, havia tiroteios nas ruas de rameiras, algum saa morto ou ferido. O caso era comentado, eles se reuniam, arquitetavam planos, a cidade vivia momentos de pnico. Mas os superiores tomavam providncias, suspendiam as licenas, todo mundo no quartel na hora de recolher. O incidente era esquecido, voltavam s boas com os milicos do exrcito.
     At que fora surpreendido com a notcia de que ia partir com a companhia para liquidar com o beato Estvo. O nome do beato no lhe era estranho, fazia meses que penetrara no quartel, atravs das notcias dos jornais e as histrias contadas pelos sertanejos recm-chegados. Para le era como um santo, mas ordens no se discutiam.
     
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     Voltou a ver a caatinga bravia, as paisagens da sua infncia e adolescncia. Pouco depois havia abandonado o quepe e usava a chapu de couro dos vaqueiros.   Sabia-se movimentar ali melhor que na cidade, as botinas substitudas pelas alpargatas, o tenente chamando-o, de quando em vez, para pedir sua opinio sobre as picadas que se entranhavam pela caatinga. Rindo dos homens que haviam nascido na cidade e que no sabiam andar por entre os espinhos, que resmungavam e praguejavam o dia todo. Para le era como se houvesse voltado para casa. S que agora levava um fuzil, a baioneta e a farda. E dirigia suas armas contra os sertanejos do beato.
     Pensava nisso quando a hora do crepsculo chegava, solene e melanclica. Ali, sim, o crepsculo se estendia longo sobre a terra. As luzes eltricas no apressavam a noite, as estrelas demoravam a subir no cu sem nuvens. Para le o beato era um santo homem, no fazia mal a ningum. O tenente ria das suas profecias, de que o mundo ia acabar e era necessrio rezar e lanar cinzas sobre os cabelos. Mas Jo no ria, era frgil a casca de vcios e conhecimentos com que a cidade o envolvera, rompia-se ao contacto com a caatinga, na hora do entardecer, ao grito agourento das corujas. No s Jo como muitos outros soldados, chegados h anos do serto, perdiam a cada dia que passava o ar de praas e mais se pareciam com os trabalhadores das fazendas, os camponeses da caatinga. A farda ia sendo substituda pelos palets de couro, as palavras aprendidas no quartel e nas ruas da cidade sendo esquecidas, a lngua, renovada nos anos passados longe, voltando a ser aquela lngua trpega e de poucos vocbulos dos sertanejos. O serto recuperava seus filhos. Por que atacar o beato? remoam eles.  Era um pecado que iam cometer.
     Em todas essas coisas le pensava enquanto, de sentinela, montava guarda, sem imaginar sequer que seu irmo Jos estava do outro lado, no comando de um pequeno grupo de jagunos, observando os movimentos dos soldados de polcia. No cu sertanejo sobravam as estrelas e Jo as olhava, reconhecendo-as. No cu da cidade elas no brilhavam to intensamente, as lmpadas eltricas ofuscavam tudo, era um cu para o qual os homens pouco se voltavam. Olhando as estrelas, sentindo o cheiro de terra que chegava com o vento da noite, le recordava a casa da fazenda com o curral prximo, o milharal nos fundos. Onde andariam seus pais a essa hora? Antes de partir recebera a carta de Dinah com as notcias da viagem para So Paulo.   Mais de vinte anos levara seu pai lavrando aquela terra, derramando sobre ela o seu suor, gastando ali a sua vida. Nada disso fora levado em conta, o beato  que tinha razo, e era um pecado o que eles estavam fazendo, apertando o cerco em torno de Estvo e dos romeiros que o seguiam. E agora tudo estava sendo preparado para o ataque final, o capito decidira que, com a chegada de Lucas Arvoredo, no podia mais haver contemplaes. Esperava apenas completar o cerco, envolver os homens do beato num crculo, para liquidar com aquilo de uma vez. E a chegada do reforo pedido com urgncia.
     Um sargento contara num grupo de soldados, onde Jo se encontrava, que o capito e os tenentes, reunidos em conselho, tinham decidido atacar. Antes pensavam reduzir o beato pela fome. Como o cerco no se tinha completado todavia, podiam os peregrinos sair pela noite em busca de mantimentos, comprados nas vendas ou roubados nos armazns da fazenda. O plano da polcia era completar o cerco, impedir a sada dos que iam buscar gneros, e esperar. Esperar que o beato se entregasse, prend-lo e aos homens mais ativos do bando, dispersar os demais, encaminhado-os para fazendas necessitadas de trabalhadores. Sabiam que assim o preo do trabalho baixaria, mas aquilo pouco lhes importava. Para o capito tratava-se de malandros que usavam o beato e suas palavras loucas como um meio de no trabalhar. E se algum lhe falasse da fome, das terras tomadas, das doenas sem remdio, de todas as desgraas do serto, le riria em sua cara. Para le tudo se resumia em preguia.
     Com a chegada de Lucas le resolvera mudar de ttica. Deixara de ser um bando de preguiosos, apenas. Agora eram cangaceiros temveis e para estes s bala  que resolvia. E como um tenente levantasse tmidas objees, perguntou-lhe asperamente por que o beato fizera vir Lucas Arvoredo, se no queria ver o sangue dos seus homens correr. O tenente poderia replicar que o beato o fizera para se defender, j que as patrulhas da polcia matavam, sem d nem piedade, quanto romeiro encontravam na tarefa de procurar alimento. Mas o tenente no disse nada, ouviu o resto do plano em silncio.
     Jo pensava compreender o que se passava com o capito, tao orgulhoso de estar comissionado em coronel da polcia! Prender o beato, dissolver os sertanejos, seria, sem dvida, um feito de repercusso. Mas terminar a carreira de Lucas Arvoredo, cangaceiro com doze anos de valentias e crimes pelo serto, isso sim seria glorioso, faria seu nome conhecido em todo o pas. Jo no criticava, nos seus pensamentos melanclicos, o seu capito. Se le estivesse em seu lugar agiria de idntica maneira, mas le no era capito comissionado em coronel, era um simples soldado, menos ainda: ali se sentia apenas um campons, crdulo e ingnuo, solidrio no fundo do corao com o beato Estvo, crente nas suas palavras ameaadoras. Tinha medo de Lucas,  bem verdade, mas no lhe tinha dio, era um deles, sara da mesma dor e da mesma desgraa que os demais sertanejos. E se matava e roubava, se violava e assaltava,  que haviam matado seu pai para tomar a sua terra e le fora muito homem para se vingar e cair no cangao. Jo talvez tivesse feito o mesmo se estivesse em casa quando puseram o velho Jernimo para fora de suas terras e o empurraram para os caminhos que levam a So Paulo. A carta de Dinah contava que Gregrio dera um tiro em Artur, o capataz. Talvez andasse agora no bando de Lucas, fosse um daqueles cangaceiros que haviam entrado no acampamento, interrompendo na vspera a procisso com seus cnticos.
     O que Jo no sabia era que seu irmo Jos era o falado Z Trevoada, lugar-tenente de Lucas Arvoredo, e que estava em frente a le, numa distncia no maior de quinhentos metros e que vigiava os passos da sua patrulha, pronto para lhe cortar o passo se eles avanassem. Mas no se surpreenderia se o soubesse, nem lastimaria o irmo, no abriria a boca contra le.
     
5
     
     O beato descera o serto, atravessando a caatinga, varando os caminhos, acampando nas imediaes dos povoados. O grupo crescia sempre, foram dez, foram vinte, chegou o momento em que eram cem e continuavam a chegar de todas as partes homens e mulheres em sua busca. Encontravam-no acampado e ento se prostravam a seus ps, diziam de suas necessidades e seus sofrimentos, contavam suas histrias, pediam a bno e conselhos, deixavam-se ficar, no outro dia partiam com le para diante. Outros encontravam em caminho, marchando na frente de todos, apoiado no cajado como uma cascavel, murmurando frases soltas, os olhos fitando o horizonte. Sabiam j que le no os atenderia durante a caminhada. E incorporavam-se ao grupo que o acompanhava, obedeciam aos rituais do acampamento quando paravam, ningum fazia observaes aos novos peregrinos, davam-lhes o que comer, gua para beber, no perguntavam ao que vinham nem queriam saber os seus nomes. Eles  que,  noite, iam beijar o camisu do beato, pedir sua proteo. E no o deixavam mais, presos pelos seus olhos azuis, pela voz mansa e morna, pelas palavras que aliviavam a dor.
     O nmero certo dos que haviam chegado s imediaes de Juazeiro nunca ningum soube direito. Seriam duzentos, trezentos talvez com os homens de Lucas. Certos jornais que noticiaram os fatos falaram que havia para mais de quinhentos, existia, no entanto, quem garantisse que no chegaram nunca a mais de cento e cinqenta. Era uma suja multido de doentes e desgraados. Homens, mulheres e crianas, caboclos pardos, mulatos e negros.
     Roubavam,  bem verdade. Os que traziam dinheiro compravam comida enquanto podiam. Quando o dinheiro se acabava no tinham outro jeito seno assaltar armazns de fazendas, j que a caa era magra e difcil pela caatinga. Roubavam galinhas, cabras e porcos, mantas de carne-sca, sacos de feijo. Onde eles passavam os assaltos se sucediam, arrancavam os aipins, as batatas-doces, os inhames, o milho quando as bonecas j estavam crescidas. Mas roubavam apenas o suficiente para comer, o beato proibira que tomassem qualquer coisa em excesso. Para Estvo no era roubo. Dizia que os frutos das rvores eram de todos, Deus os fazia nascer para a pobreza, todos tinham direito sobre eles. No permitia no entanto que pusessem a mo em qualquer objeto, que furtassem um prato ou um copo, um palet ou um nquel.   "Isso era deles", dizia, era pecado levar". A comida no, os animais se criavam soltos na terra, as rvores cresciam por si mesmas, alimentadas com a seiva da terra. A terra era a me farta e boa. Eles tinham direito, o beato no via as cercas delimitando as propriedades, no se preocupava com os ttulos de posse registrados em cartrio. "Aquilo tudo era fantasia, vaidades dos ricos", repetia.  O mundo ia acabar, Deus estava cansado de assistir, do seu trono de nuvens, a tanta ruindade dos homens. E, se ia acabar, que importavam as cercas e os ttulos, nada seria mais de ningum a no ser o fogo do inferno para os maus, as delcias do cu para os pobres, aqueles que vinham fazendo penitncia, que haviam largado suas foices e seus machados.
     Nunca admitiu que tocassem em ningum e quando soube que um dos peregrinos esfaqueara o empregado de um armazm que no lhe quisera vender fsforos, mandou-o embora, no o quis mais consigo. No foi rude com le, no lhe negou sua bno. Mas o o proibiu de seguir, le havia derramado sangue de um homem depois que comeara as penitncias. E isso era pecado, estava proibido na lei do beato.
     Que o tivessem feito antes, no lhe importava. Chegavam assassinos famosos, cabras de coronis que haviam matado a troco de dez mil-ris e uma garrafa de cachaa. Relatava seus feitos ao beato, mortes de arrepiar, malvadezas sem motivo, le lhes deitava a bno, proibia-os de matar da em diante.
     Mesmo Cirilo, que com cimes infundados matara a mulher e os dois filhos, fugindo depois para viver sozinho como um bicho, no meio do mato, indo ser posteriormente jaguno do coronel Bragana, de fama sinistra, com muitas mortes nas costas, nome que amedrontava crianas e assustava mulheres, at le merecera o perdo do beato.
     Chegara numa tarde e logo o reconheceram. Mas nada disseram e o deixaram marchar entre eles. Cirilo estava armado, um punhal e uma repetio, seu punhal e sua repetio, com os quais muita desgraa praticara. Quando acamparam,  noite, as mulheres trouxeram comida como faziam com todos os recm-chegados. le comeu silencioso e arredio, acompanhou logo depois a procisso em torno s fogueiras, procurando repetir as palavras das oraes, ouviu a pregao do beato no final da cerimnia.
     Era chegada a hora em que os novos romeiros se apresentavam, beijavam o camisu de Estvo, diziam-lhe o que desejavam dele. Cirilo no foi o primeiro.  Mas quando se ajoelhou todos o olhavam e todos ouviram o que le disse:
      Meu pai, vosmec que  santo bote sua mo na cabea desse negro ruim e livre le do mal. Meu pai, me perdoe que minha cacunda est cansada de levar tanto pecado, de carregar tanta desgraa! No agento mais o peso e se vosmec no tirar depressa vou morrer penando, no vou ter salvao.
     Os olhos azuis de Estvo fitavam a carapinha do negro curvado ante le. Pousou a mo em seu ombro, o negro levantou os olhos. E encontrou tanta piedade e tanta doura nos olhos de Estvo que teve foras para abrir o corao e arrancar de l toda a maldade, todo o remorso tambm, assim como quem arranca um espinho e com le a dor que sua presena produz:
       Meu pai, vou lhe contar que j matei muito homem que nunca tinha feito desfeita pro negro Cirilo... Matei por dinheiro,  por amizade com o coronel...   Matei pra roubar,  matei sem razo, matei por matar...   Negro ruim, meu pai, negro malvado como nunca se viu...
     E contava tambm da mulher:
       E matei ela meu pai, no tinha razo.   Era direita, nunca olhou pra nenhum...   Matei s de medo que um dia olhasse, que um dia largasse o negro ruim e fosse cum outro...   Matei, meu pai, porque gostava dela, gostava demais, gostava tanto que tive que matar.  E matei os meninos pensando que podia no ser meu, podia ser de outro, tinha que ser de outro porque o negro era ruim e ela no podia ser to boa que suportasse o negro sem enganar... Era tudo mentira, ela era direita, mais direita no havia.   Matei de ruindade, porque gostava dela demais, via ela rindo, os dentes brancos, os beio fino, os io que tambm ria e via ela rindo pra outro, botando os dentes pra outro, os io em cima de outro...   E pra ela no fazer algum dia foi que matei.  Fiquei cum tanta raiva de ter matado que cortei ela em pedacinho pra no enxergar os io se rindo, os beio se rindo...
     Soluou alto, todos o ouviram e estavam suspensos do que diria o beato.  Cirilo baixara novamente a cabea:
      Minha cacunda t pesada de tanta desgraa que fiz, no agento mais cum o peso, me livra dele, meu pai...
      Tu j pagou o que fz e tu no vai mais fazer ruindade, tu agora  que nem um passarinho de to bom que tu ...
     Levantava a mo e abenoava o negro. Cirilo saa de rastros,  limpo de toda dor, feliz de toda felicidade. E se juntara aos homens do beato, andando atrs dele, guardando seu passo, como um escravo seguindo a seu dono.
     
6
     
     Outra noite de sensao, quando os sertanejos que iam com Estvo ficavam parados e silenciosos, foi aquela em que Zefa apareceu. Chegou quando a procisso apenas se iniciara, e se incorporara sem que quase ningum a notasse, misturada com outras mulheres que iam rezando.
     Quando o beato iniciou sua falao ela ficou na primeira fila e se contorcia ao ouvir as palavras, e ria, abanava as mos, o corpo todo mexendo, a boca num rudo que recordava o som da gua num bzio. Os que estavam mais perto notaram a excitao de Zefa e viram que era nova entre eles, devia ter chegado no decurso da tarde. O beato falava, parecia no enxergar ningum em sua frente, as chamas da fogueira o envolviam num halo vermelho. Para Zefa le estava solto no ar, uma nuvem de fogo, baixada do cu. Reconhecia-o, muitas vezes o vira em suas tardes de alucinao. Agora estava descansada, todo o passado se esvara da sua memria, era como se houvesse estado ao lado de Estvo desde o comeo dos seus dias. Quando o beato terminou de falar e ergueu a mo para abenoar a multido, ela pulou na sua frente, virou-se para os homens, os cabelos esvoaando, se enchendo de fumaa, a boca espumando, e disse:
      Foi Deus que mandou le, veio numa nuvem de fogo, quem no obedecer a le t condenado... le  o santo de Deus,  a lngua de Deus,  os io de Deus. Quem no obedecer a le t perdido e vai morrer apodrecido e seu esprito no sai do corpo, fica preso na terra. le  os ouvido de Deus, ouve dentro dos home, ouve, mesmo os menino na barriga da me antes de nasce... le  os ps de Deus andando no mundo, le  as mo de Deus perdoando os pecados.   Quem no obedecer a le t perdido...
     Ajoelhou-se na frente do beato, beijou-lhe a fmbria do camisu, depois se ergueu e colocou-se ao seu lado. Os sertanejos a fitavam e compreendiam de imediato que ela era diferente deles, superior a eles, estava mais perto de Estvo que qualquer um deles, mais perto at que Cirilo que no deixava o beato um s momento, que dormia aos seus ps com o punhal sobre o peito. Estvo colocou a mo sobre os cabelos despenteados de Zefa e disse:
      Tu no tem pecado, tu faz penitncia  pelos outros, tu  santa, tudo tem que te arrespeitar... Eu tava esperando por tu, tu agora vai benzer a gua que nis bebe, a comida que nis come. Cumo  teu nome?
     Ela fz um esforo pra se lembrar:
       Me chamo de Zefa... 
     Estvo falou para os homens:
       Ela sabe as verdades, t na graa de Deus...
     Ento Zefa meteu a mo na fogueira, onde ainda as brasas crepitavam, encheu-as de cinzas, derramou sobre a cabea. E acocorou-se em seguida ao lado do beato, as mulheres vieram e se prostraram em sua frente. Ela as benzeu, agora os santos eram dois.
     
7
     
     A noite  comprida, larga de passar, dizem que existem pases onde faz tanto frio que a gua vira gelo, fazer sentinela em terra assim deve ser um sofrimento. Jo anda de um lado para outro, seus olhos atravessam a escurido perscrutando as sombras no acampamento do beato. Tudo  silncio por l, nessa noite o cerca ser completado, os soldados tomaro todas as passagens e j nenhum homem poder sair em busca de mantimento. Lucas Arvoredo chegara no ltimo instante. Mais vinte e quatro horas e j no poderia passar, juntar os seus cangaceiros com os peregrinos do beato. A polcia estaria entre eles. E com mais alguns dias, avanando lentamente, passariam adiante dos poos e a gua terminaria no acampamento. Soaria ento o momento do ataque, o capito seria promovido, em vez de coronel comissionado da polcia, seria major do exrcito mas efetivo e com elogio na ordem-do-dia. Naquelas terras onde a gua vira gelo no inverno como ser que os soldados ficam na sentinela? Devem ser quentes os capotes, talvez acendam fogueiras, mas como poder o fogo crescer em cima do glo? Dizem que a terra fica toda coberta de gelo, chamam de neve, Jo viu no cromo de uma folhinha, um quadro to lindo mostrando a terra mais alva do que algodo, do gelo do inverno. Na caatinga no faz frio,  se fizesse os sertanejos teriam todos morrido porque vestem farrapos de roupas, calas de mescla azul, camisa de burgariana.  Na caatinga faz calor, pelas noites corre a virao, nos invernos bons cai a chuva, noutros nem mesmo a chuva,  o sol de todos os dias, quente como brasa. Como as brasas que ainda brilham no acampamento do beato.  Restos das fogueiras em torno das quais rezaram suas oraes, donde tiraram as cinzas com que cobrir as cabeas.   So vinte e uma fogueiras, h quem diga que aquilo  um feitio do beato.   Que no crculo por elas formado  so dispostas no mesmo lugar diariamente  os romeiros se acolhero no momento final.   E que nem os soldados nem as balas atravessaro esse crculo enfeitiado e que dali jamais podero desalojar Estvo.   Assim dizem e Jo acredita.   O beato possui foras que esto acima do entendimento de simples soldados, onde j se viu andar com uma cobra no peito? Cobra  animal traioeiro e ruim.   Jo cresceu tendo as cobras como inimigas, quando anda no mato seu passo  vigilante, seu ouvido atento ao menor rudo. Sabe distinguir no silncio da caatinga os sons de cada espcie de cobra, da jararaca e surucucu, da cascavel e da pico-de-jaca.   E no tem piedade para com elas, se as enxerga esmaga-lhes as cabeas peonhentas, quebra-lhes os flexveis espinhaos.   O beato brinca com as cobras, trata-as com o mesmo carinho com que acolhe as aves to belas que vm pousar em seu ombro, beliscar sua orelha.   Conduz por vezes,  durante dias, uma cascavel nos cabelos do peito, aninhada ali, dormindo como se fosse bicho inocente.   Jo no sabe de homem que faa tal coisa, no ficar admirado se no puder atravessar o crculo das fogueiras, se as balas voltarem-se contra os soldados.   Acontece muita coisa que parece mentira.  No h terra onde no inverno tudo vira gelo?  Se le  no  tivesse visto  a  folhinha  no  acreditaria  em coisa to espantosa.
     Anda de um lado para outro. E se o beato fizesse a gua virar gelo em derredor, lguas e lguas de gelo, o frio matando os soldados, os tenentes e o capito? Jo sente um sbito frio. S de pensar. Ou ser o impaludismo que est chegando? Aquelas guas por ali, perto do So Francisco, do maleita em todo mundo. Mas volta o calor da noite da caatinga. No h neve em parte alguma, o beato sabe tratar  com o fogo, aquele crculo que eles no podero atravessar. As balas voltaro para os peitos dos soldados, cada uma para aquele que a disparou. Jo no cr que o beato possa ser morto. Ai do homem que levantar a arma contra le... Onde j se viu atirar num santo, num profeta que traz a palavra de Deus? O capito no acredita nessas coisas, dar ordem de fogo. Tudo que Jo deseja  que no seja dele a mo que atire, a arma que faca pontaria no peito do beato. Antes morrer no combate, ferido por um homem de Lucas, antes morrer quando de sentinela de um tiro partido dos cangaceiros que esto do outro lado, de sentinela eles tambm. Talvez um deles seja Gregrio, o que atirou em Artur. No ficaria com dio se le o matasse, pra que foi feito cangaceiro se no para matar soldado de polcia, pra que foi feita a polcia se no pra caar jaguno na caatinga? Era uma guerra sem fim, e sem razo, pensa o soldado Jo de sentinela. Sem razo porque eram to parecidos, eles e os cangaceiros, em verdade eram iguais, que diferena havia? Nem mesmo na farda que agora vestiam: gibo de couro e alpargatas que outra roupa e outros sapatos no resistem na caatinga. No havia diferena nenhuma, mas o mundo era assim mesmo, cheio de coisas sem explicaes. Por que uns eram ricos, tinham fazendas enormes, palacetes na cidade, automveis e criados e outros to pobres, no tinham nada, somente doenas? Jo no procura explicar. Tudo que le sabe  que a noite  comprida, larga de passar, e que  um pecado atirar no beato.   Antes morrer com uma bala no peito.
     
8
     
     Quando o beato chegou prximo  cidade de Juazeiro, depois de atravessar, numa viagem de mais de um ano, todo o serto, centenas de romeiros o acompanhavam. A fama de seus milagres se espalhara por toda a caatinga e, mais que os milagres, aquelas palavras onde o desespero e a esperana se misturavam, que anunciavam o fim do mundo com suas desgraas e a vida no cu com suas belezas, atraam os camponeses cansados de tudo. Vinham mais para ouvir que para pedir. Ouvir a narrao dos fatos que iam se passar, narrao que o beato repetia quotidianamente ao fim das procisses. E os que j tinham ouvido uma e cem vezes no cansavam de escutar novamente e sentiam a mesma intensa sensao de medo e de alegria, de terror e de felicidade. Nada restaria do mundo, nem as choupanas de barro batido onde moravam nem as casas-grandes das fazendas com suas salas, quartos e oratrios, suas cozinhas imensas. Nem as plantaes que eles plantavam nem as roas de lguas dos coronis. Naquela hora final seriam todos iguais, pois partiriam nus, nada levariam da terra, ningum poderia distinguir o pobre do rico porque as doenas e a magreza teriam se acabado para sempre. Sobre a terra seria silncio jamais interrompido, mais alm da terra estavam cu e inferno.
     Nosso Senhor mandara o beato para avisar, chamar os homens para fazerem penitncia. Aquela era sua misso, e os sertanejos derramavam cinzas sobre as cabeas, rezavam, caminhavam com le. Roubavam nas fazendas, tinham choques com pelotes da polcia que andavam buscando Lucas Arvoredo. O prprio Lucas viera ao encontro do beato, conversara com le, recebera sua bno. E todos tinham visto que a Lucas o beato no proibira de continuar sua vida de bandido pela caatinga. Deixara que le partisse sem lhe recomendar que nunca mais matasse nem ferisse. Durante algum tempo no compreenderam por qu. S muito depois, quando j estavam quase cercados,  que viram a razo: o beato adivinhara o que ia acontecer. Agora Lucas voltava, podia matar e ferir, era quem ia defend-los contra a polcia. Talvez que depois o beato mandasse que le largasse o fuzil, soltasse o punhal, lanasse cinzas sobre a cabea. Quando os soldados tivessem ido embora, sob o fogo de Lucas. O beato adivinhava, via o futuro, no havia segredo no tempo para le.  Dizia:
       No precisa ir buscar gua hoje que de noite vai chover... 
     Nem uma nuvem no cu, nem uma ameaa de chuva, e de noite o aguaceiro caa, era s colocar os potes e as tinas, aparar a gua chegada do cu, pedida por Estvo. Como duvidar ento de que o mundo ia acabar, de que todos morreriam sem sentir para ir prestar contas a Deus dos seus malfeitos na terra? O beato repetia todas as noites, envolto na luz da fogueira, parecendo pairar sobre a terra:
       Num vai ficar p de pau, nem capim rasteiro, nem limo molhado.  Num vai ficar nem passarinho, nem bicho do cho, nem bicho  das  gua,  nem  peixe  nem  sapo,  num vai ficar vivente nenhum...   Vai morrer tudo na mesma hora.   Primeiro  eles, depois  o homem, os bons e os ruim, os rico e os pobre, os so e os doente.   Foi Deus que mandou dizer... 
     E como um eco Zefa repetia:
       Foi Deus que mandou dizer...
       Tudo  vai  prestar  conta,  tim-tim  por  tim-tim,  num pode esconder mesmo que queira, num pode mentir, quem pode mentir pra Deus que v tudo ?
     Zefa levantava os braos:
       Quem pode mentir pra Deus que v tudo?
     Estvo esperava que a voz de Zefa morresse ao longe, continuava sua pregao:
       Deus se cansou, seus io se fechou aguniado, de ver gente to ruim fazendo ruindade pros filho dele...   Os io de Deus espiavam  o  serto,   s  via  desgraa.   Menino  morrendo  sem  ter  de comer, os homens morrendo sem ter tratamento.   Os homem sem terra suando na terra dos outro...   Gente cum tudo, gente cum nada...   Deus achou ruim, num tava direito...
       Deus achou ruim,  num tava direito...    aquela segunda voz ajudava a gravar a verdade no corao dos homens.
       Deus me chamou, mandou que viesse.   Estvo, diz a eles que o mundo vai acabar.  Quem fizer penitena vai se salvar, quem no fizer num tem salvao...   Quem num fizer no tem salvao, Deus foi quem disse...
       Quem num fizer num tem salvao, Deus foi quem disse...
       Chama s os pobre,  os rico t tudo perdido,  fizero coisa de espantar, num quero ver eles.   Os rico t condenado, no salva nenhum...
       No salva nenhum...
       J gozaro na terra, os pobre sofrero...   Manda eles fazer penitena que vou acabar cum mundo de vez, com os bicho, os ps de pau, as borboleta e cum os homem...   Assim falou Deus e estava cum raiva, cum raiva dos rico, cum raiva dos homem...
       Estava cum raiva,  cum raiva dos ricos,  cum raiva dos home...
      Meus filho, eu lhe digo que o mundo no dura, seu tempo passou.  T chegando no fim, j vai se acabar.   O dia t perto, os homem no pode empatar.   Foi Deus que arresolveu, cansado de ver tanta misria...
       Cansado de ver tanta misria...
       Seus io at se fecharo de tanto que viu...   Meus filho, eu lhe digo que j t perto e que  tempo de penitena.   Quem no fizer no vai se salvar...   Foi por isso que vim, s falo pros pobre, no falo pros rico, falar no adianta...
       Falar no adianta...
       Eles vai ser castigado, os que tomaro terra nesse mundo quando chegar l em cima vo dar suas terra pros que no tem nada.   Fica mais pobre que cego de feira...   Os que mataro gente vo morrer todo dia de morte matada...   Os que roubaro vo dar tudo que tem, dinheiro dos outro e o seu tambm.   Eles vai ser castigado, no escapa nenhum...
       No escapa nenhum...
       Deus t cansado de tanta ruindade...   Meus filho, a hora chegou,   o  mundo  vai  se  acabar.   Vamo  rezar,  fazer  penitena, limpar os pecado pra Deus perdoar...
       Pra Deus perdoar...
       Deus abenoe ocs todos  levantava a mo, os romeiros baixavam as cabeas sujas de cinzas, saam silenciosamente para suas cabanas.   Zefa andava entre eles, olhada com respeito e amizade.  Tambm ela fazia milagres.  S o negro Cirilo ficava ao lado de Estvo.   Quando le entrava na cabana o negro se estendia na porta, de peito pro cho, a repetio ao alcance da mo, o punhal sob a camisa, o sono leve, o menor rudo o despertava. Despertava com a mo no punhal.
     
9
     
     Os trabalhadores largavam seus instrumentos de lavoura, quando os fazendeiros reclamavam, eles diziam que o mundo ia acabar, no adiantava se matar nas roas para ganhar misria. Soltavam as enxadas, fugiam de noite, em busca do beato. E olhavam os coronis sem aquele respeito costumeiro, sabiam o que sobre eles dizia Estvo em suas pregaes. Estavam todos condenados, nem um s se salvaria. Nas igrejas dos arraiais diminuam os batizados, no vinham mais os pares pelos sbados para os casamentos sem solenidade.   O beato tambm batizava e casava e no cobrava nada, era de graa. Os jornais da capital publicaram artigos dizendo que o beato estava incitando os homens do serto  desordem, que corria perigo a safra daquele ano por falta de braos, que os mais sos princpios da civilizao crist que, com tanto sacrifcio, os abnegados sacerdotes levavam pela caatinga adentro, perigavam, sucumbiam naquela onda de superstio que to rapidamente se alastrava por todo o serto nordestino. Fazia-se necessria e urgente uma enrgica providncia das autoridades. Jornais governistas e oposicionistas uniam-se contra o beato, e se bem um reprter houvesse publicado fotos e comentrios explorando o que havia de pitoresco em Estvo e nos seus ritos, os diretores, nos artigos de fundo, afirmavam que chegara o momento de colocar o beato num hospcio e reconduzir os camponeses s fazendas abandonadas, obrigando-os ao trabalho. Se no os prejuzos da lavoura seriam totais naquele ano j que a seca liquidara parte das colheitas. Os sertanejos no liam os jornais, em geral no sabiam ler nem escrever, mas ouviam as palavras do beato e como j estivessem desesperados, continuavam, cada vez em maior nmero, a largar as foices e as enxadas, os machados e as puas, s no deixavam o faco porque era a arma que possuam. E cortavam o serto em busca dos passos de Estvo, no queriam que o mundo se acabasse sem haver recebido a sua bno.
     Estvo acampou a algumas lguas de Juazeiro, ainda na caatinga, longe dos caminhos. Ali havia uns poos de gua, os sertanejos caram de faco nos arbustos, roaram, levantaram cabanas improvisadas. Pelo visto o beato pensava em demorar ali, ningum sabia dos seus planos, nem mesmo Zefa que era santa tambm. Iria le descer sobre a cidade, assaltar um trem e rumar para a capital? Iria ficar ali para sempre, recebendo os romeiros, fazendo milagres, curando doentes? Se assim fosse no tardaria que uma cidade se levantasse naqueles matos. Nem para Bom Jesus da Lapa, nem para Juazeiro do Cear, onde pontificava o Padre Ccero, caminhava tanta gente pelas estradas da caatinga. Voltaria sobres seus passos e se embrenharia de novo no serto, percorrendo-o mais uma vez? O mais certo  que quisesse esperar naquele lugar o momento que anunciava, do mundo se acabando, ele dizia que havia um lugar no qual Deus ia descer para o julgamento fmal.  Com certeza era aquele, com seus sete poos.  Estevo parara diante de cada um, acompanhado de Zefa, benzera as guas para que elas no secassem.
     Foi ali que a expedio policial o veio encontrar. As romarias de sertanejos sucediam-se. Em certas ocasies chegavam mais de cem de uma vez e era preciso conseguir comida fosse como fosse. Os armazns no vendiam, havia uma ordem dos fazendeiros. O jeito era roubar, matar vacas no campo, carnear ali mesmo, trazer os quartos para o acampamento. Romeiros se especializavam em assaltos, os pedidos de providncia eram cada vez mais freqentes. A polcia chegou finalmente, oitenta homens bem armados. O capito estudou a situao, concluiu que se os cercasse eles teriam que se render por falta de comida.   Aquilo era uma brincadeira de crianas.
     Mas comeou a ter atritos com os romeiros que chegavam. Queriam passar, tinham vindo de longe em busca da bno salvadora do beato. A polcia cortava o caminho de um lado, os romeiros insistiam, travavam-se pequenos combates, caam sertanejos mortos e feridos. E os homens do beato continuavam a sair pela noite para roubar. Nunca atacavam a polcia mas, quando eram atacados, se defendiam valentemente, j houvera baixas entre os soldados.
     Estvo durante algum tempo parecera no se preocupar com a fora policial que o cercava. Mas quando as mortes comearam e o cerco foi se apertando, le pensou que os soldados podiam matar os sertanejos sem defesa. Foi quando mandou que Cirilo fosse em busca de Lucas Arvoredo. Aqueles eram os soldados mandados pelos ricos sem salvao que no queriam que sua palavra fosse ouvida, que os homens fizessem penitncia. No era pecado lutar contra eles. Mas quem o poderia fazer seno Lucas Arvoredo, o cangaceiro?
     O cerco se apertava e Cirilo no voltava com Lucas, os sertanejos iam at muito longe, buscando-os para lhes indicarem o caminho. No ser que eles se perderam nas voltas da caatinga, nos embrenhados de espinhos? Mas ningum conhece os segredos da caatinga como Lucas Arvoredo. le vem vindo pelos caminhos, antes que a polcia se d conta le chegar.
     Romeiros furavam o cerco pela noite, vinham beijar o camisu do beato. Vinham de cinco Estados diferentes; haviam andado lguas e lguas, a polcia no os podia impedir de receber a bno de Estvo. Deixavam as mulheres e os filhos do outro lado, se arrastavam por entre a caatinga, atingiam o acampamento do beato. E no voltavam a sair porque era preciso defender Estvo e eles tinham faco e garrucha, no era pecado atirar nos soldados. O mundo ia mesmo acabar, que importava morrer?
     A cada dia ficava menor e mais difcil a sada livre para os campos. Os soldados ganhavam a cada noite alguns metros, fazia-se necessrio muita sutileza e malcia, um passo de gato, uma ligeireza de ona, para passar entre as patrulhas, ir s fazendas, trazer os bois abatidos, as cabras mortas, as mantas de carne-sca. Alguns ficavam com uma bala no peito. Mas a comida para os romeiros no faltava no acampamento do beato Estvo.
     
10
     
     Lucas Arvoredo nunca andara to depressa. O negro Cirilo que o fora buscar e que pedia rapidez quase no os pde acompanhar. Viram as luzes das fogueiras no princpio da noite. Puseram os joelhos em terra, fizeram o pelo-sinal, comeavam a pisar em terra santa, sentiam-se aliviados dos pecados, defendendo o beato eles se redimiam dos crimes praticados.
     Quando Lucas levantou-se, Z Trevoada comeou a cantar a moda dos seus feitos e todos acompanharam. Anunciavam ao beato a sua chegada:
     
                        "L vem Lucas Arvoredo, 
                        armado com seu fuzil..."
     
     O perfil do cangaceiro destacava-se na noite. No era muito alto mas dava uma impresso de fora descomunal com suas roupas de couro, seu cabelo comprido, o fuzil levantado. Estavam sobre uma elevao, no chegava a ser uma colina, dali descortinavam tambm as fogueiras dos soldados.   Lucas disse:
      Tem muito macaco pra gente queimar...
     Z Trevoada sentia-se alegre, nada lhe agradava mais que matar um soldado de polcia. E se fosse um graduado, melhor ainda. Andaram para diante, o canto ia dominando as vozes dos romeiros, era um canto de guerra, agora as coisas se modificavam no acampamento.   Aquela foi a ltima noite de paz.
     Quando Lucas chegou, o beato o esperava de p, em frente  fogueira, os romeiros em torno, a multido silenciosa e suja, desgrenhada e enferma. Os quartos de vaca para o jantar estavam sendo assados nas fogueiras e um cheiro de carne chamuscada se elevava no ar. Ao lado de Estvo estava Zefa, Cirilo se adiantou, tomou seu lugar s suas espaldas antes que algum cangaceiro o fizesse.   Lucas caiu de joelhos mas Estvo o levantou:
      Meu filho, tu chegou bem chegado. Mandei buscar tu porque os homens ruim mandou os soldado atacar os filho de Estvo, os que vo se salvar. Tu tambm vai, mas com tu e teus homens  doutro modo. Tu vai lutar, acabar com os soldados... Estvo no terminou com sua misso, num pode interromper... Eles no deixa os romeiro chegar pra vim fazer penitena, eles no deixa eles passar, assim eles fica sem bno, vai tudo se condenar... Deus num quer isso, tu vai acabar...
     A voz de Zefa repetiu num eco:
       Deus num quer isso, tu vai acabar...
     Aquela voz ressou familiar aos ouvidos de Z Trevoada. Procurou enxergar entre a fumaa negra em borbotes. Quem seria que falava assim, com voz to conhecida dele?   Lucas Arvoredo respondia a Estvo:
       Meu pai, sou teu filho pra obedecer tuas ordens.   Dizque tem muito soldado, viero quarenta e sete homem comigo, munio no tem muita mas nis arranja...   Meu pai, onde tu fr, Lucas vai tambm e seus homem com le...   Mu pai,  s tu mandar e a gente t pronto...
       Deus t contente com tua chegada...
       Deus t contente com tua chegada...  Zefa repetia.
     Z Trevoada tremia. Parecia-lhe a voz de Marta, era a mesma entonao, s que mais spera e menos cristalina. Quem seria, Senhor?   Anda uns passos pra frente.
     O beato mandava juntar, num monte, os fuzis dos cangaceiros. E os benzia, a mo levantada, os olhos perdidos, aqueles seus olhos azuis que davam medo e infundiam confiana. E a procisso recomeou. Mas antes que ela partisse, Z Trevoada se aproximou e reconheceu sua tia Josefa. No era mais a sua tia, porm, maluca atacada dos espritos, da qual eles riam e debochavam quando rapazes.   Agora parecia outra, nem olhou para le, o passado no existia para Zefa. Agora era uma santa, quase to santa quanto Estvo, era a segunda lngua de Deus, como diziam os romeiros. E Z Trevoada se inclinou diante dela, contou orgulhoso aos outros cangaceiros que era sua tia, de nome Zefa, e que de h muitos anos ela vinha tambm repetindo que o mundo ia se acabar e que era preciso fazer penitncia. Olhava para ela como hipnotizado e s descansou quando Zefa pousou a mo cheia de cinza em sua cabea e a derramou nos seus cabelos. Sentiu-se aliviado, perdoado at dos deboches que fizera com ela, do pouco caso com que a tratava quando ela ainda estava em sua casa, j era santa mas le no sabia.
     Os cangaceiros apontavam Zefa com o dedo respeitoso: 
       tia de Z Trevoada...
     Como se fosse uma parenta deles todos, uma espcie de santa ligada ao grupo, a que viera particularmente para os jagunos de Lucas Arvoredo. Z Trevoada no se animava sequer a perguntar  tia pelo destino de Jernimo e Jucundina, ela no era desse mundo. Alis, ali no acampamento, entre as fogueiras sagradas, os sete poos bentos, ouvindo as profecias do beato, no pareciam estar mais no mundo de todos os dias. Era como numa alucinao, no havia limites entre a realidade a a imaginao.
     Lucas reuniu os seus, traaram seus planos. Os soldados completavam o cerco.
     
11
     
     E tudo depois foi muito rpido. Eles estavam cercados, dos sete poos trs j se encontravam pra l dos soldados. E tinham que romper o cerco cada noite. Agora os romeiros iam escoltados por homens de Lucas e os combates se repetiam, mortos dos dois lados. Mas vinha carne, as palavras do beato eram mais violentas cada noite, sua voz tinha novos encantos e espumava sua boca geralmente to doce. Zefa repetia as frases, os sertanejos as guardavam no corao.   Chegaram reforos para a polcia.
     Poucos dias se passaram e os soldados cobriram um poo atrs do outro.  Agora era a sede e Lucas resolveu fazer um ataque que os jogasse para fora.  boca da noite reuniu vinte homens. Durante o dia havia le mesmo estudado, acompanhado de Z Trevoada, a situao.  Em frente a um dos poos estavam apenas oito homens. No era o poo maior mas nenhum de to pura gua como aquele, era uma nascente, com ela chegaria para abastecer o acampamento. 
     Depois da procisso le saram.  Eram vinte homens escolhidos, os melhores atiradores, os que no erravam a pontaria.  Iam Bico Doce e Sabi, Borboleta e Chico Martins.  Foram de mansinho, se arrastando entre os espinheiros, e no faziam mais rudo que as cobras.   Levavam os fuzis sob o brao, tomaram posio. A fuzilaria rompeu, pegou os soldados desprevenidos, alguns deles conheciam j aqueles gritos endemoninhados, gritaram pros outros:   Lucas Arvoredo...
     Eram oito soldados, ficaram oito cadveres em torno ao poo, os romeiros vieram e levaram gua para muitos dias.
     Do outro lado o capito ouviu o tiroteio. Cento e trinta homens no eram muito para aquele cerco. Mas com os reforos tinham vindo metralhadoras, seria melhor no esperar, atacar de uma vez. Se no o fizesse era possvel que Lucas fosse ganhando as posies, guarnecidas com poucos soldados, abrisse caminho e se le e o beato penetrassem na caatinga ningum os pegaria mais. E adeus promoo, citao na ordem-do-dia, o nome com elogios nos jornais. Reuniu os tenentes para discutir.
     Na outra noite os soldados tentaram recuperar o poo. Mas os homens de Lucas reagiram, mantiveram a posio. O capito traava planos, inspecionava os soldados, conversava com os antigos sargentos envelhecidos na perseguio aos cangaceiros. E deles soubera que o melhor era o combate em campo aberto, atac-los no acampamento,  mais  alm  dos  espinheiros.    S  assim poderiam venc-los.
       o seu calcanhar de Aquiles...   disse aquele tenente tmido para o capito.   Mas o capito tinha raiva dessa gente literatizada que sabia frases e citaes. Na hora da briga essa gente s sabe correr.  
     Trinta homens atacariam por detrs, primeiro. Abririam fogo cerrado, chamando para l os homens de Lucas. Os outros cinqenta penetrariam ento no acampamento para o combate a descoberto. Um sargento aconselhou que esperassem uma noite sem lua, facilitaria os movimentos. Com os reforos chegados tinham vindo tambm reprteres dos jornais da capital. Constava por l que o fim do beato se aproximava.
     
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     O fim se aproximava, o fim do mundo, dizia o beato Estvo. Aquela era a noite de Santa Josefa e le ordenara que a procsso desse duas voltas em vez de uma. Zefa trazia uns ramos de alecrim nos cabelos, os romeiros recebiam as folhas, botavam nas feridas, cicatrizavam.
     A Lucas Arvoredo no passara despercebido o movimento no bivaque dos soldados. Os romeiros traziam notcias, as patrulhas da polcia estavam deixando suas posies, os soldados se reuniam, em grupo grande, dezenas de homens marchavam para detrs do acampamento, escondidos pelas sombras da noite sem lua. Lucas chamou Z Trevoada, entregou-lhe vinte homens, mandou-o para aqueles lados.
       Eles quer atacar, j viro que num leva vantage com os grupo pequeno...   Quer v se acaba cum a gente...
       Tu pensa que nis pode agentar?
       A munio t pouca...   Mas, se nis manter eles distante, pode abrir caminho e atravessar cum o beato...
       E le quer ir?
       Dizque vai...   le e mais doze, os outro fica, vai depois se encontrar...
     Z Trevoada marchou com seus homens. Os soldados vinham por entre a caatinga, Jo vinha com eles, sob o comando daquele tmido tenente que citava frases. O capito esperava ouvir os tiros para ordenar que seus homens marchassem sobre o acampamento. Suas ordens eram que atirassem sem piedade, sem distinguir romeiros de cangaceiros.
     Jo estava contente porque havia sido escolhido para vir por detrs, assim no teria que atirar contra o beato nem contra os sertanejos desarmados. Marchavam dificilmente por entre os espinheiros. Com passo sutil e manso os cangaceiros que eles pensavam surpreender chegavam do outro lado, estavam a poucos metros, viam o tenente de culos, os soldados andando. Z Trevoada no viu o rosto de Jo, via apenas a cala caqui da farda odiada. Ordenou que seus homens deitassem e esperassem. Quando os soldados estivessem bem perto, ento sim...
     Deitaram-se, o cano dos fuzis passando entre os troncos delgados dos arbustos.   A noite era escura, sem lua, mas os olhos de Z Trevoada sabiam enxergar no negrume da noite.  Via as pernas do soldado marchando.  No sabia que era seu irmo, Jo, o que tinha partido antes de todos.   Pelo seu passo calculava o momento em que deviam pular e atirar, soltando seus gritos que amedrontavam, seus gritos de guerra de cangaceiros.  agora. Um sinal que passa de homem em homem.  E os gritos cortando a caatinga, gritos de animais em fria, terrveis de parar o corao.   Z Trevoada levanta o fuzil, no claro do tiro Jo viu seu rosto.  Era seu irmo Jos e le murmurou o seu nome mas Z Trevoada partia pra frente, os cangaceiros atiravam.   Jo via os soldados correndo, ouvia a voz do tenente gritando ordens mas ouvia tudo baixinho e enxergava atravs de uma nuvem que cobria seus olhos.   A nica coisa que via perfeitamente vista era a face de seu irmo Jos disparando o fuzil, a boca aberta num grito, os olhos apertados de raiva.  E no momento mesmo de morrer Jo compreendeu que Jos era o falado Z Trevoada, lugar-tenente de Lucas Arvoredo. E ainda pde desejar que le escapasse com vida e o beato tambm, ah! o beato tambm...
     Os tiros continuavam e na parte fronteiria ao acampamento ressoavam os passos dos soldados no ataque decisivo. Z Trevoada gritava seus gritos de guerra, Jo morrera sorrindo.
     
13
     
     Agora a fuzilaria era cerrada no acampamento. Os soldados tinham penetrado, o beato se colocara com Zefa e os romeiros no crculo das fogueiras, comeara a pregar como se nada estivesse acontecendo. As balas derrubavam os homens, os gemidos se misturavam s palavras, Cirilo sustentava a repetio por detrs do beato. Lucas e seus homens, no descampado, faziam frente aos soldados, mas no sabiam brigar assim. E quando Lucas caiu, ferido na cabea, seus homens recuaram. Vieram vindo de costas para onde estava o beato, pararam diante dos romeiros. Os soldados avanavam, uns quinze j haviam cado mortos ou baleados mas as baixas nos cangaceiros eram maiores.  E no ardor do combate o desejo de matar crescia de cada lado. Os romeiros iam tomando das armas dos que caam, ocupavam seus lugares. Os soldados atiravam indistintamente sobre cangaceiros e romeiros, aqueles que eram nascidos na cidade procuravam acertar no beato em torno ao qual amontoavam-se os cadveres.
     Agora era um combate corpo-a-corpo, os cangaceiros puxavam os punhais, os tiros ouvidos vinham de longe, da luta de Z Trevoada com os soldados que atacavam por detrs.
     O soldado fz pontaria no peito do beato, o seu tiro partiu ao mesmo tempo que o de Cirilo, o beato rolou sobre os corpos dos sertanejos, o soldado caiu no cho onde as brasas se espalhavam. Ento Cirilo marchou pra frente, largara a repetio, tomara do punhal. Um soldado segurou Zefa por um brao, ela se debateu, mordeu e arranhou, dava-lhe pontaps, cuspia-lhe na cara. le bateu no seu rosto com a coronha do fuzil, quando ela caiu, o soldado baixou a arma e atirou.
     Z Trevoada ainda veio dos fundos, aps haver liquidado os soldados. Mas j encontrou os ltimos cangaceiros correndo para donde le vinha, disseram que Lucas e o beato haviam morrido. Sua tia Zefa tambm.
     Olhavam-no esperando ordens. Dos vinte homens que le levara apenas quatro tinham sido postos fora de combate. E mais uns dez chegavam do acampamento, nada mais havia que fazer. Voltaram correndo, os soldados j os perseguiam, mas Z Trevoada alcanou a caatinga a tempo. Quando passou, pisou no rosto de um soldado. Disse um palavro mas Jo sorria sempre mesmo da praga do irmo.
     O serto se esqueceu do nome do beato Estvo, se esqueceu do nome de Lucas Arvoredo.   Mas o nome de Z Trevoada ficou cada vez mais famoso, sua malvadez e seus crimes deixaram muito longe os de todos os cangaceiros que o antecederam no domnio da caatinga. Dele diziam que no tinham mesmo corao, que homem assim to ruim nunca  surgira,  nem mesmo Virgulino Ferreira Lampio. Nunca perdoou um soldado, nunca abateu um tosto nos tributos que lanava nas cidades assaltadas. As modas diziam dele:
     
                          "Trevoada j chegou, 
                          muito sangue vai correr..."
     
14
     
     Por ordem do capito cortaram as cabeas do beato Estvo, de Lucas Arvoredo, de Zefa, dos outros cangaceiros, de alguns romeiros tambm para aumentar o nmero. Levaram como trofus, exibiram-nas na cidade, desfilaram centenas de curiosos. O capito foi promovido, citado em ordem-do-dia, e, apesar de no gostar de literatura, escreveu um livro sobre a campanha. Ps o ttulo de "O NOVO CANUDOS".
     No acampamento, de madrugada, os cadveres estavam amontoados. Com o calor comearam a apodrecer. Os urubus vieram de toda caatinga, cobriram o sol com seu negrume, foi tamanha escurido que parecia que o mundo ia se acabar.
     

Nenn

1
     
     Juvncio, a quem os ntimos chamavam de Nenm, ouvia em silncio, a ateno concentrada, o homem alto que falava. Pouco sabia daquele companheiro, apenas que viera do sul, de Pernambuco talvez, e que era da direo. Assim lhe tinha dito o sapateiro quando viera avis-lo da reunio:   
       com um companheiro dirigente que chegou a...   S leve os homens de absoluta confiana...   Gente duvidosa, no!   No podemos pr em perigo a segurana do companheiro...
     E o responsabilizara:
       A responsabilidade  sua...
     Enquanto escutava, atento porque desejava entender tudo que fosse dito, aprender bem o sentido das palavras de ordem, Juvncio examinava o dirigente. Havia no homem qualquer coisa que o fazia antiptico  primeira vista, algo que impedia que entre le e os que o ouviam se estabelecesse essa corrente de simpatia e compreenso que tanto ajuda o entendimento. Juvncio procurava perceber que coisa seria essa, no se sentia bem com aquele sentimento abrigado no peito. Como conseguir desligar as palavras justas que o homem dizia  e dizia com certa nfase e alguma clareza  da antipatia que sentia por le? Talvez faltasse na nfase e na clareza do homem aquele fogo nascido da convico profunda e da a frieza da sala. Naquele tempo no era apenas o Partido que lhe parecia sagrado e intangvel. Eram os companheiros dirigentes tambm, Juvncio ainda confundia o Partido com os homens, e era neles, na sua sinceridade e capacidade de luta, que buscava encontrar a concretizao do Partido.  No o sentia atravs da luta e seus resultados e, sim, nos militantes e nas suas qualidades. Tinha pouco mais de um ano de Partido e alguns meses desse ano le os passara na Amaznia, em meio  selva, sem nenhum contacto com os camaradas. O homem citava Lenine e Stalin, livros que Juvncio no lera, frases difceis para le. Tudo quanto lera, alm de materiais clandestinos, fora um livro de Maria Lacerda Moura e com le se entusiasmara. Admirava o homem, sem dvida. Parecia saber muita coisa e os esmagava  quele grupo de cabos e sargentos  com as citaes, as frases de Lenine e at de Marx. Juvncio murmurou para si mesmo o resultado das suas observaes:
       Pernstico...
     Muito tempo depois, na cadeia, le iria ter oportunidade de conhecer de perto a Agnaldo  que ali, na reunio, usava o nome de guerra de Tadeu  e de aprender uma palavra que melhor o definia: auto-suficiente. Mas quando isso aconteceu j o cabo Juvncio distinguia perfeitamente o Partido dos homens que o compunham.
     A casa onde efetuavam a reunio era nos subrbios da cidade de Natal, e atravs das frestas da janela fechada entrava a brisa da noite. O ar da sala estava empestado com o fumo dos cigarros baratos e houve um momento em que Juvncio se sentiu sufocar e no pde acompanhar as palavras de Agnaldo. Perdera-se no estudo da sua fisionomia e implicava com aquela voz sibilante, que demorava na pronncia das ltimas slabas como um professor que ensinasse meninos a soletrar. Fz um esforo maior, concentrou novamente a ateno:
       ... e cada companheiro deve estar preparado, consciente das suas responsabilidades, do papel histrico da classe operria, e apto a enfrentar a situao...
     O homem era inteligente, no havia como negar. Traava agora o quadro poltico do pas e Juvncio foi ficando entusiasmado. As palavras de Agnaldo eram cheias de otimismo, pelo que le dizia o poder estava quase nas suas mos, como uma fruta madura numa rvore, bastava alar-se nas pontas dos ps e colh-la. A palavra "baluartismo" j era conhecida de Juvncio e le mesmo a empregava, rudemente, quando recebia  para transmitir a direo local  os informes dos cabos de cada companhia, dos sargentos e dos soldados.   Quando as notcias lhe pareciam demasiado otimistas (Macedo sempre tinha que contar de um "oficial que  nosso, batuta") le retrucava spero. 
      Olha esse baluartismo...
     Ouvira a palavra uns dois meses antes, noutra reunio como aquela, apenas mais restrita, quando falara tambm um dirigente chegado do Sul. Juvncio no podia se furtar  comparao. O outro no era to fluente, parava procurando as palavras, a voz um pouco trpega como se le no estivesse afeito a longas dissertaes. Mas no s o entendiam completamente, percebendo o significado de todas as frases como as instrues que le transmitia ficavam gravadas no fundo de cada um, saam dali para cumpri-las. Era bem jovem aquele dirigente, tinha um sorriso tmido e abraara a todos eles na hora da despedida. Perdera tempo explicando frases do material que trouxera, frases que realmente eles no poderiam entender s com a simples leitura. Juvncio gostara dele. Agnaldo era desagradvel nos modos, se bem de palavra fcil. Uma distncia se marcava entre le  o dirigente  e os homens na sala. Olhava-os de cima, como que havia uma leve ameaa em cada uma das suas afirmaes. Mesmo quando traava aquele quadro otimista parecia responsabilizar os sargentos e cabos do regimento por qualquer falha que houvesse ainda que ela acontecesse no Rio Grande do Sul e no no Rio Grande do Norte. O sapateiro, que era da direo local, olhava Agnaldo humildemente e aquilo incomodava igualmente Juvncio, de natural rebelde e pouco inclinado a bajulaes.
     Agora o dirigente iniciava o estudo da situao local. A atmosfera da sala ia se tornando insuportvel. H trs horas j que eles estavam reunidos, a sala era pequena, no havia eletricidade e a fumaa do candeeiro ficava boiando sobre eles, misturada  dos cigarros sucessivos. Juvncio percebeu que Macedo deixara de prestar ateno, apesar de manter os olhos fixos em Agnaldo. Conhecia bem aquele olhar do companheiro, sabia o que le significava: Macedo estava distante dali, imaginando coisas, cenas nas quais le era o heri. No mnimo j estava pensando num levante, nas proezas que realizaria, nos tiros que dispararia, nas valentias Que faria. Macedo era assim, mas, em compensao, nele se podia confiar, era homem para as horas ruins.   Juvncio conhecia cada um daqueles cabos e sargentos como se houvesse nascido do mesmo ventre que eles e ao seu lado houvesse crescido. Ali estava Valverde, baixote e sorridente, capaz das maiores besteiras, mas um que nunca trairia, desses que morrem mas no falam. J em Francisco Conceio, to meticuloso que nem uma rendeira com seus bilros, Juvncio confiava pouco. No sabia o que le podia dar numa situao difcil. Os outros gostavam muito de Conceio, achavam-no formidvel porque le era dos que mais intervinham, cheio de detalhes, com solues prprias para cada coisa. Mas Juvncio tinha um palpite de que le falharia quando chegasse o momento decisivo. Vira-o empalidecer, tremer e ficar com a testa cheia de suor, quando, certa manh antes da instruo, lhe passara, sob as vistas do tenente, um papel com uma ordem. O tenente estava perto mas Juvncio escolhera o momento exato, e o nico em que teria, nesse dia, contacto com Conceio. A tarefa era urgente, para ser executada naquela mesma manh, tinha que arriscar e se o outro no se revelasse to medroso o tenente nada teria percebido. Mas Conceio tremera, o tenente desconfiou, andou para os lados do cabo. Conceio estava com o papel entre os dedos, Juvncio sentiu que le ia deix-lo cair, marchou ento para o tenente, propondo-lhe uma questo, cortou o rumo dos seus pensamentos e dos seus passos, deu tempo a que o outro escondesse o papel. Quando deixou o tenente, esse ainda olhou para onde estava Conceio, mas j sem aquela intuio, achando que no devia ser nada.
     Juvncio depois reclamara com Francisco Conceio mas le lhe respondera que ia engolir o papel, fazer e acontecer. Bravatas, pensava Juvncio, mas, na opinio dos demais Conceio crescia, se bem fosse a Juvncio que eles todos, sem exceo, respeitavam e seguiam.   Sobre le no havia duas opinies.
     Cutucou Macedo para que o cabo prestasse ateno:
       Agora  com a gente...  murmurou baixinho mas ainda assim Agnaldo percebeu, parou, olhou-o com certa censura e perguntou:
       O Companheiro Juvncio tem alguma observao a fazer? 
     "Sujeito besta."    Pois  aproveitaria  para reclamar  contra a atmosfera insuportvel da sala:
       Queria dizer ao companheiro que seria bom se pudssemos parar uns minutos, para abrir a janela e deixar sair essa fumaceira.   Assim a gente no pode prestar ateno...
     E como visse que o outro ia reagir e achasse que no valia a pena criar um caso e, sim, conseguir o que desejava, completou:
      O informe do companheiro  muito srio. Ns no somos instrudos como o companheiro, a gente  pouco politizada. A gente precisa estar bem atenta para no perder nada do informe to importante...
     Juvncio via o sapateiro incomodado, fazendo-lhe sinais de reprovao com os olhos e os lbios. Sorriu, derramou mais uns elogios na "capacidade do companheiro Tadeu", este estava satisfeito. Alis le mesmo gostaria de descansar um pouco, beber um copo de gua, a lngua estava seca, falava h bem mais de uma hora. Concordou e todos se levantaram e foram para a sala dos fundos. S ficou o dono da casa, um sargento, que abriu as janelas e respirou o ar puro da noite.
     Na sala dos fundos eles se espreguiavam, trocavam comentrios. Uma criana chorou no quarto, acordada talvez pela voz gritante de Macedo que dava sua opinio entusiasta:
       Formidvel!   Formidvel!
     Agnaldo bebia gua, sem se misturar com eles, levando o sapateiro para um canto, numa conversa cochichada. No se tratava de nada importante. Agnaldo queria apenas saber detalhes sobre as ruas da cidade que no conhecia para no se perder quando andasse sozinho, mas o sapateiro punha uma cara de mistrio para que os cabos e sargentos pensassem  como pensavam  que ali altos problemas do Partido estavam sendo resolvidos. Juvncio gostava do sapateiro, era um bom homem, e respeitava-o como a dirigente do Partido. Aquele respeito, porm, que inicialmente, logo que le chegara a Natal, fora grande, ia diminuindo  proporo que o tempo passava e que o contacto entre eles se tornava maior. Juvncio era um ser ansioso de aprender, vivia fazendo perguntas e a muitas o sapateiro no sabia responder. Se dissesse isso francamente, no se diminuiria perante Juvncio. Porm nunca respondia no sei". Embrulhava as palavras, numa conversa comprida, a explicao no vinha. Por vezes, dias depois, num novo encontro ele trazia a soluo e Juvncio ficava satisfeito:
      Esse bruto teve que estudar...
     Certo domingo almoara em casa do sapateiro, conhecera sua esposa e seus trs filhos, vira a pequena estante feita de tbuas de caixo onde repousava meia dzia de livros. Juvncio olhou-os com inveja. Via os ttulos, alguns em espanhol, eram obras de Lenine, folhetos, um resumo de "O Capital". O sapateiro, ao seu lado, sentia-se orgulhoso. Retirou da estante um volume em espanhol, era o "Que fazer?", de Lenine.
      Isso  que  livro.   "Que hacer?", quer dizer "Que fazer?"  de Lenine...   Explica tudo...   S no lhe empresto porque voc no sabe espanhol...
     Mas no quis lhe emprestar tambm os folhetos em portugus. Juvncio podia perd-los e eram livros difceis, nas livrarias no havia, chegavam por meios ilegais. E como Juvncio garantisse que tomaria todo cuidado, se responsabilizaria pela devoluo, o sapateiro usou de outro argumento. Era perigoso um livro daqueles em mos de um cabo do Exrcito, no regimento, ou mesmo em casa. E se um reacionrio visse? A provocao que resultaria... E logo agora...   No, no podia emprestar.
     O argumento pesou sobre Juvncio, no teve o que dizer.  Mas durante dias a viso daqueles livros o perseguiu, quando poderia ler tudo que desejava?  Quando sara da roa em busca da cidade, antes de entrar para a polcia militar e seguir para So Paulo, mal sabia soletrar e desenhar o nome.  Aplicou-se ao estudo com uma vontade de ferro.   No lhe custou muito aprender a ler correntemente, a escrever com desembarao.  Tinha at uma letra bonita, uma assinatura que parecia de doutor, com uns floreados embaixo. Em S. Paulo, o camarada Tavares, Z Tavares, um sujeito de sua terra que imigrara e era guarda-civil na capital paulista, dera-lhe a ler o livro de Maria Lacerda Moura e um romance sobre a vida de trabalhadores do campo.   E depois o convidou a ingressar no Partido,   contando-lhe,   enquanto   andavam   pelas   ruas   trocando pernas, qual a misso dos comunistas, como lutavam e o que pretendiam.   Entusiasmou-se:
      Mas era isso que eu tava procurando... 
     Nunca mais conseguira ler um livro.  Chegara a estar de posse de um, logo que desembarcara em Natal.   Fora Valverde quem aparecera com le no regimento.  Ttulo mais sugestivo no podia haver: "ABC do comunismo." Lera avidamente as primeiras pginas quando o sapateiro apareceu e, ao ver o volume, tomou-o de suas mos, avisando-lhe que aquela edio no merecia confiana, estava toda deturpada, obra dos trotskistas. Juvncio o entregou, agradecido do aviso do outro.   Viu-o rasgar o livro:
       Pra no envenenar outro companheiro...
     Falara-lhe depois sobre Trotsky e o mal que le fizera  revoluo. Como os trotskistas sabotavam o esforo do Partido e traam a classe trabalhadora. Ali pelo Norte eles eram raros, felizmente. No Sul  que havia muitos, infiltravam-se no Partido s para destru-lo. Juvncio ficava pesando as palavras de Z Tavares. E conclua que le no podia ser trotskista.
       Trotskista e policial  a mesma coisa...  resumia o sapateiro, rasgando as ltimas pginas do livro condenado.
     Na cadeia, muito depois, Juvncio teria tempo para ler e ter sua opinio sobre os trotskistas  to arraigada nele devido  paixo com que o sapateiro falara  iria se reforar diante das provas e dos fatos. Leria tambm o "ABC do comunismo", desta vez uma edio merecedora de f. E pensava que se tivesse tido livros naquela ocasio talvez muita coisa tivesse sucedido de maneira diferente.
     Dez minutos haviam passado desde que a reunio fora suspensa. Agnaldo achava que era tempo de voltarem  sala.  O fumo sara pela janela aberta, eles sentavam-se nas cadeiras e no banco com outra disposio.   O sapateiro, que presidia a reunio, disse: 
      O camarada Tadeu vai continuar seu informe... 
     A voz pedante do outro:
      Pois, companheiros, como ia dizendo agora vamos analisar as condies do nosso Partido e da Aliana aqui... Comearemos pela Aliana Nacional Libertadora...
     O cabo Juvncio sorriu para si mesmo do espanto de Macedo e Valverde quando le lhes falara da Aliana Libertadora. Quando Juvncio chegara da Amaznia, com certa lenda a rodear-lhe o nome devido os acontecimentos da fronteira, e sua personalidade se imps ao grupo de cabos e sargentos do regimento, logo um oficial o procurara e o sondara sobre a possibilidade de um golpe para o estabelecimento de uma "ditadura republicana", golpe que seria chefiado pelo general Manuel Rabelo.   Juvncio no discutiu.
      Topo...
     O oficial o encarregara de aliciar os sargentos e cabos, estabelecer ligaes. Juvncio tinha por aquela poca vinte e um anos e numa autocrtica posterior, sobre o movimento de 35, realizada na cadeia, no tivera dvidas em reconhecer que por aquele tempo ento era golpista, s acreditava mesmo na fora das armas e dos levantes militares. Ao demais perdera completamente o contacto com o Partido, desde que fora transferido de So Paulo, e agia por conta prpria.
     Alguns dias depois, porm, um msico de l classe, Quirino, o procurara, exibira uma credencial do Partido Comunista, e lhe fizera algumas perguntas. O companheiro no era membro do Partido? No tivera ligaes em So Paulo? Juvncio sentiu uma alegria de adolescente que encontra a primeira namorada. Seu prestgio entre os cabos e os sargentos crescia a olhos vistos. Gostavam de ver como le tratava com os oficiais, sem arrogncia, mas sem nenhuma inferioridade, altivo. Os meses na Amaznia, em Letcia, haviam ensinado a Juvncio que os oficiais eram feitos da mesma carne que le e que nos momentos difceis  que se pode conhecer perfeitamente os homens. Ali, na selva espantosa, oficiais, soldados e cabos apareceram uns diante dos outros como realmente eram, despidos de todos os artifcios, nus na sua verdadeira personalidade. Aprendera ali, durante a luta contra os paulistas em 32, a tomar resolues rapidamente, assumir responsalibidades, no temer as situaes. Com pouco mais de um ms em Natal j era le quem resolvia os assuntos da maioria dos cabos e sargentos, seu consultor para as coisas mais variadas. Um grupo se formara em torno dele, com Macedo e Valverde  frente, e estavam todos com le na conspirao para a "ditadura republicana".
     Quirino, e mais uns trs, eram dos que no se aproximavam muito de Juvncio, o olhavam de longe, com certa preveno. At que chegara do Sul aquela informao. A direo local tinha resolvido conversar com Juvncio, sabia do seu prestgio, e, se bem ainda no confiasse muito nele, resolvera ver se podia aproveit-lo ganhando assim aquele enorme grupo de cabos e sargentos. Quirino, naquela primeira conversa, esteve misterioso e reticente. Perguntou muito, disse pouco. Juvncio queria logo contacto com o Partido e saber das diretrizes, das palavras de ordem.  Quirino cortou a conversa dando-lhe um nmero da "Classe Operria" e prometendo procur-lo no outro dia. Mas no dia seguinte Juvncio no conseguiu falar com le. Quirino no lhe deu possibilidade de nenhuma conversa, arredio e esquivo. Juvncio ficou matutando sobre aquilo. Que estaria acontecendo?
     Leu as quatro pginas da "Classe" repetidas vezes. J ouvira falar na Aliana Nacional Libertadora, uns amigos de Quirino pertenciam a ela mas eram uns poucos, a gente da "ditadura republicana" era em muito maior nmero. Uma semana se passou assim, le em busca de Quirino, o outro evitando conversa, escapulindo quando o via, dando desculpas que no convenciam. Finalmente num sbado aproximou-se risonho e disse:
       Queria lhe levar a um lugar hoje... 
     Juvncio estava por conta:
       Hoje estou ocupado...   J estive s suas ordens a semana inteira...   S outro dia...
     Quirino falou srio e foi essa frase que fz com que Juvncio o ficasse estimando:
       So ordens do Partido...   No  para discutir.   Se eu no conversei com o companheiro antes  que no tinha ordem para isso...    o Partido quem est chamando o companheiro...
      No se discute...   Pode marcar...
     Quirino marcou um encontro num subrbio distante. As nove horas da noite.   Estava conspirativo e avisou:                                ,
       Espere s cinco minutos.  Se eu no chegar, d o fora, espere outro aviso...
     Juvncio gostou daquilo, bulia com sua imaginao. Apertou a mo do companheiro. Depois foi uma luta para convencer a Valverde que no podia sair com le naquela noite, ir, como le queria, visitar Conceio, cuja amsia fazia anos.
       Talvez eu aparea mais tarde...   Se tiver tempo...
       Onde voc vai?
       Num lugar...
       Mas, onde?
       Por a...
     Valverde era cheio de suscetibilidade:
        segredo?
     Ps a mo no ombro do outro:
       Depois tu vai saber...
     Valverde se lembrou da "ditadura republicana". A conspirao marchava lentamente mas, de quando em vez, Juvncio tinha uns encontros com oficiais comprometidos. Devia ser uma coisa dessas.   Apenas pediu:
       V se d um pulo l...   Se no, Conceio vai ficar aborrecido ...   A turma toda vai, tem arrasta-p e mesa de doces... Era pra voc levar Lurdes...
       Vou dizer a Lurdes pra ela ir...   E, se eu tiver tempo, apareo...   Mais tarde, l pras onze ou meia-noite...
     s nove horas estava no ponto. Fumava um cigarro, olhava a rua deserta. Apenas, numa esquina, um casal de namorados encostados  parede. O sino de uma igreja bateu as nove horas e logo depois Quirino apareceu no escuro, assobiando. Quando chegou a seu lado disse:
      Vamos...
     Passaram pelos namorados, Juvncio notou que a moa virava o rosto para no ser vista. Seria bonita?  pensou. Quirino ia calado e pouco adiante dobraram uma esquina, entraram num beco sem calamento, onde a lama se acumulava. Um vulto era visvel um pouco adiante. Quirino voltou a assobiar, agora um pouco mais alto. O homem diminuiu o passo at que eles o encontraram. No houve apertos de mo. Quirino apenas disse numa rpida apresentao:
       O companheiro Juvncio...   O companheiro Pedra...
     Nome de guerra, refletiu Juvncio, enquanto procurava examinar o homem ao seu lado. Teria uns cinqenta anos, era careca, o rosto avermelhado, um ar de pessoa pacata e modesta. Sorria e era simptico o seu sorriso, mostrando as gengivas na boca desdentada. Quirino, quando chegaram sem palavras na outra esquina, resmungou um boa noite em voz baixa e desapareceu. Em silncio andaram mais uns passos para diante e o homem falou:
       Por que o companheiro no se apresentou ao Partido quando chegou?   Um comunista...
       E como diabo eu ia adivinhar onde estava metido o Partido?
      No trouxe nenhuma ligao?
       S se fosse dos ndios.   Cheguei foi da Amaznia  narrava.  Quando sa de So Paulo para Mato Grosso me deram ligao para o pessoal de l. Em Campo Grande me apresentei mas a reao estava dura, mandaram que eu esperasse. Fiquei zanzando, nunca me deram uma ordem. Quando apareciam, era para buscar dinheiro, sempre arranjei algum no batalho. Mas demorei pouco tempo l, vim pro Amazonas. Me deram ligao pra Manaus mas eu fui parar na fronteira com a Colmbia, em Letcia...
      J sei da histria...
     Juvncio ficou um pouco desconcertado pensando que o outro imaginara que ia lhe relatar os acontecimentos da fronteira. Continuou sem muita vontade:
       De l vim praqui...   Como  que podia procurar o Partido, se no sabia de nenhum comunista?
     Acrescentou e o outro sentiu a sinceridade na sua voz:
       Doido pra encontrar eu estava...
       O companheiro est envolvido na conspirao para a "ditadura republicana", no est?
      Estou.   J disse a Quirino...
       um erro.  Admito que o companheiro no pudesse procurar o Partido, no era realmente fcil descobri-lo...  riu um risinho de satisfao, orgulhoso da perfeio da ilegalidade.  Mas um comunista se meter numa conspirao burguesa, de carter aventureiro, isso, no sei como o companheiro poder explicar. ..
       Nem procuro explicar.   Pode ser um erro, nem discuto.   O caso  que eu estava de braos cruzados, bestando...   Me convidaram, topei.   Burrada...
       Gosto de sua franqueza.   No vem com desculpas tolas... O comunista deve saber fazer autocrtica...   Agora o que voc tem de fazer, quanto antes,  pular fora dessa besteira...
       uma ordem?
     O careca balanou a cabea. Andaram mais uns passos, le voltou a falar:
       O companheiro tem influncia junto a vrios cabos e sargentos.  Segundo o Partido est informado, o companheiro  o cabo de mais prestgio no regimento...
     Primeiro pensou em fazer modstia mas de imediato respondeu:
        verdade...   O pessoal gosta de mim...
     O outro sentiu tambm que le no dizia por vaidade, comprovava apenas um fato. O sapateiro, pois Pedra era apenas o sapateiro Lus, ia se deixando influenciar tambm por aquela sinceridade e pelos modos bruscos mas naturais do cabo.
       Voc pode fazer um bom trabalho...   A clula no regimento  pequena  abanava as mos numa explicao:  O trabalho apenas comea.  Voc, com seu prestgio, pode trazer muita gente para o Partido...   Ou pelo menos para a Aliana...
       A Aliana Nacional Libertadora?
       J ouviu falar, no?    um movimento que est empolgando...   Com Prestes  frente, vai que  uma beleza...
     Juvncio queria saber a diferena entre o Partido e a Aliana e quais as ligaes entre um e outro organismo. O sapateiro explicou longamente, o assunto era-lhe familiar, muitas vezes tivera que dar aquela mesma explicao.  Juvncio ouvia em silncio.
     Deixou o sapateiro (para le ainda era o companheiro Pedra, desconhecido, cuja autoridade no Partido no sabia qual era, apenas percebia que tratava-se de algum responsvel) ainda a tempo de ir  casa de Conceio. L estava a turma toda. Foi recebido com gritos e aclamaes, trouxeram-lhe cachaa e cerveja, Lurdes sorria sentada numa cadeira na sala, vendo os pares na dana. A barriga comeava a crescer e, ao demais, ela s danava com Juvncio. Foi a ela que se dirigiu primeiro:
       Tu trouxe uma lembrana pra Alzira?  era a amsia de Conceio que aniversariava.
       Trouxe uma caixa de sabonete...
       T bom...   Vamos danar...
     No meio da festa chamou Valverde e Macedo num canto, disse-lhes em voz baixa:
       Aquele negcio da "ditadura republicana" acabou-se...
       Acabou-se?   Desistiram da brincadeira?  Valverde estava aborrecido.
     Macedo reclamava:
       Ora essa...   E eu que j contava ser promovido... sonhava com as divisas de sargento, esperava consegui-las com o golpe.
      No desistiram, no...   No  que desistimos...
       Nis?  Macedo no entendia nada.
      Ns, sim...   Com eles, nada mais...    aventura...   E ns no nos metemos em aventuras...   Acabamos com eles...
      E o que  que vamos fazer?   
      Agora somos da Libertadora... 
      Libertadora?   Que troo  esse? 
      A Aliana Nacional Libertadora...
       Ahn!  fz Valverde.  Tem um tenente que  dela...    um bom sujeito...
       Mas por que isso?  quis saber Macedo.
       Voc no  comunista?  todos eles se diziam comunistas, desde que haviam sabido que Juvncio era comunista. O cabo, desde que se ligara ao Partido, jamais deixara de se apresentar como comunista, mesmo quando sem nenhum contacto com o organismo.
       Sou,  claro...
      Pois os comunistas esto  com a Aliana.  E  se preparar porque a revoluo vem a e no tarda...
       Quer dizer que a Aliana...
       A no ser que algum de vocs queira logo entrar para o Partido. Para o Partido Comunista.  A a coisa  mais perigosa...
       Eu quero  o Partido...  disse Valverde.
       E eu tambm... 
     Conceio vinha chegando:
       Que  que h?
     Juvncio ia mudar de assunto mas Valverde, que era falador, foi logo dizendo:
       A gente acabou com a "ditadura republicana".
       E agora?
       a Aliana Nacional Libertadora...
     Os que lhe mereciam mais confiana, Juvncio os levara para o Partido. E comearam o intenso trabalho no regimento. Quirino era a pessoa mais responsvel e o foi pelo menos nominalmente, at o levante. Mas na realidade foi o cabo Juvncio quem passou a dirigir a clula e o organismo aliancista.
     Agora, na sala apertada, ouve o informe daquele camarada vindo do Sul. O homem fala de coisas que le conhece, do seu regimento e suas palavras no correspondem  realidade. H evidente exagero no que le est dizendo. Juvncio fita Quirino, seria ele o responsvel por tais afirmaes?   Ou seria o prprio Tadeu, para melhor impressionar os homens? Se assim o fosse no era justo, no ganharia nada escondendo dos companheiros a verdadeira situao. Eles tinham fora no regimento, muitos cabos e sargentos estavam com eles, mas no eram tantos como o homem dizia. Juvncio conhecia bem os oficiais e no sabia que mais de metade simpatizasse com a Aliana. Ao contrrio, sabia da fora dos integralistas.
     O homem terminava o informe. Dizia que eles no deviam provocar o levante. Mas se os soldados e cabos, insatisfeitos com a situao que s tendia a agravar-se, mostrassem tendncias  revolta, ento eles deviam apoiar. Dizia de tal modo que parecia, nas entrelinhas, desejar o golpe.
     Quando terminou, Lus, o sapateiro, que presidia a reunio, franquiou a palavra. Houve um silncio cheio de olhares de um para o outro.   Afinal Quirino tomou a palavra:
       Todos ouviram o informe do companheiro Tadeu.  le exps muito bem a situao.   Todos ns aprendemos muito e sabemos agora como devemos agir.   Eu tambm acho que a coisa est madura e que, se quisermos, levantaremos o regimento e dominaremos o Estado em dois tempos... Acho o informe dele formidvel... O companheiro mostrou que  mesmo um dirigente...
     Calou-se, os outros apoiavam com as cabeas.  Lus disse:
       Se ningum quer mais usar da palavra, ento...
       Eu quero falar, camaradas...
     Todos olharam para Juvncio. Agnaldo apertou as sobrancelhas, esse cabo era um bocado impertinente...
     Juvncio comeou a falar. Disse que havia aprendido muita coisa com o informe. Porm que o companheiro Tadeu estava mal informado quanto a Natal.
      Pelo menos no regimento no  essa beleza que le diz... Temos fora,  verdade.  Mas eu acho que o companheiro deve ter recebido uns informes baluartes.  Esses oficiais nunca vi por l... No  verdade que os cabos estejam todos com a gente...   Menos ainda os sargentos...   Demais eu no entendi direito:  ou no  pra gente fazer o levante?   O companheiro no explicou direito. . . Se  para a gente levantar o regimento, ento vamos tratar disso para fazer uma coisa bem amarrada...   Como o companheiro falou no  peixe nem carne...
     Agnaldo no estava gostando. Mas a Juvncio pouco se lhe importava. Assim le compreendia sua lealdade para com o Partido: abrir o peito e dizer o que sentia. A atmosfera na sala voltava a ficar abafada. A luz vermelha do candeeiro alongava as sombras dos conspiradores.
     
2
     
     Quando chegou em casa naquela noite, cansado da reunio, encontrou Lurdes passando mal. Ela era fraca, o rosto caboclo, de longos cabelos negros e escorridos, tinha uma certa palidez e a gravidez aumentava o seu ar doentio.
       Tu demorou...   Tou que no me agento...
     Zangou-se de repente, trazia aquela irritao consigo, descarregou na mulher:,
      Besteira...   Deixa de luxo que pobre no tem isso...
     Ela no disse nada mas o olhou com os olhos espantados, uma ponta de tristeza no canto do lbio.   le logo se arrependeu:
       No te importe...  Tou cansado pra burro...   Pensando num bocado de coisa...   Que  que tu tem?
     Estava novamente solcito e carinhoso. Os olhos  le os tinha travessos, olhos de criana risonha e brincalhona  estavam cheios de ateno e de remorsos.   Deitou-se ao lado dela, beijou-a:
       Que  que a negra tem?
     E repetiu aquela brincadeira de que ela tanto gostava:
       Tu  negra, ruim, escura...   (ela era apenas cabocla, de traos finos, mais finos que os dele que, se bem que fosse claro, o mais claro dos irmos, tinha bem pronunciadas ainda as marcas do mestio).  Tu pegou num branco mas tem que andar direita...
     Ela ria:
       Tou ruim, de verdade...  J vomitei...   A cabea tonta, no posso ficar em p...
       Tu trabalha muito...   Trabalha demais...   Nis no pode ter empregada, no sei como vai ser, tu com essa barriga estufada...
     Perdeu-se em pensamentos. Como iria ser? Sempre dizia a Macedo e a Valverde:
       Comunista no deve casar...
     Os outros dois eram solteiros, se morressem pouco importava. le tinha mulher e ela levava um filho na barriga. E nem casado era, achara que no devia casar, era um preconceito. S na priso, ao contacto com outros companheiros, compreendeu que o preconceito era no casar e casou-se por procurao. Lurdes rompera com a famlia para vir morar com le. O namoro nascera numa tarde de sol, le de folga, alinhado na farda bem passada, ela de azul, vindo do trabalho no atelier de costura. le a seguira pelas ruas dizendo piadas, localizara a casa onde ela morava, viera  noite passear por ali. Lurdes estava na janela, ria para le, depois sara para dar uma volta no passeio com umas amigas. le se aproximara, puxara conversa, voltara na outra noite.
     Quando deu de si estava apaixonado. Sonhava com ela pelas noites, parava no quartel para espiar o retrato que ela lhe dera e que le colocara na caderneta. Ainda no havia conversado com Quirino, estava metido no golpe para a "ditadura republicana". Mas casar era contra seus princpios. Um comunista no faz concesses a esses preconceitos. .. explicara a Lurdes entre beijos. Recordava o livro de Maria Lacerda Moura, no sabia que nem ela o fora nem le era ainda, naquele tempo, comunista. Lurdes previa a oposio da me. Era rf de pai, vivia com a me e os irmos. Fugiu de casa certa noite. Juvncio, que havia desarranchado e alugado uma pequena casa, dera-lhe um verdadeiro ultimato:
       Se tu quer,  bom decidir...
     Ela passara os primeiros dias chorando. Mandara recados para a velha, no obtivera resposta. Soubera, no entanto, por uma vizinha que a velha proclamara em voz alta:
       S me entra aqui, nos batentes dessa casa, com a certido de casamento...   Se no, pra mim no passa de uma puta...
     A velha era disposta e, quando o marido morrera, se atirara ao trabalho sem vacilaes. Lavava roupa para fora, trouxas enormes, que o filho mais moo, de onze anos, levava s casas dos fregueses. No entanto no manteve aquela opinio. Quando Juvncio foi preso e a filha ficou nos dias de ter menino, ela deixou o orgulho de um lado e a foi procurar. Xingou-a muito,  verdade, mas quando chegou a ocasio do parto e Lurdes no pde mais ir ao Hospital levar comida para Juvncio, ela botou o xale na cabea, marmita no brao e tomou o caminho do Hospital Militar onde Juvncio, preso, restabelecia-se lentamente. le se admirou de v-la. Seus olhos burles a fitaram e riu seu sorriso de menino travesso:
      Vosmec por aqui... Ela no deu o brao a torcer:
      Vamo ver se quando tu sair toma vergonha e casa.   Agora  pai de filho...
      Nasceu?   Homem?
      Mulher pra sofrer como eu minha filha... 
     Sentou-se no tamborete frio:
      Tu no tem mesmo juzo...   Pra que tu se meteu nessa revolta?
       Para melhorar a vida da gente que  pior que a de cachorro...   Vosmecec acha que fiz mal?
     Ela o fitou de frente:
      No.
     Foi assim que fizeram as pazes.
     Mas, nos meses que precederam o levante, muitas vezes Juvncio pensou no que seria da mulher se le morresse de repente. Voltar para a casa da me ela no podia. Mesmo que a velha no fizesse objees, Juvncio conhecia Lurdes, possua um certo orgulho obstinado, no voltaria. Com aquele filho no bucho no poderia tomar costuras, e com que iria pagar parteira, alimentar a criana quando nascesse? Os companheiros sem dvida a ajudariam. Mas o dinheiro era escasso, o Partido lutava com dificuldades imensas...
     "Comunista no deve casar...", dizia le a Valverde e Macedo nas horas de conversas no quartel. Pode morrer de uma hora para outra, naquela vida ilegal, num conflito com a polcia, num comcio onde sasse bala, numa revolta como a que eles preparavam. No entanto no se arrependia nem um momento de ter trazido Lurdes para junto de si. Ela lhe dava nimo e confiana. Quando chegara ainda rezava, ainda freqentava a igreja pelos domingos. Mas fora deixando, a nova f de Juvncio passou tambm a ser a sua, lendo os materiais que le trazia para casa, silenciosa e pouco perguntadeira, compreendendo que le podia ter seus segredos. Alis, le, desde que novamente se ligara ao Partido, lhe dissera:
       Tem coisa que nem a tu eu posso dizer...   E  melhor tu nem me perguntar...
     Lurdes fizera-se muito amiga do sapateiro Lus, que por vezes aparecia. Preparava um caf bem quente para o careca, pedia notcias da esposa e dos filhos, ensinava-lhe receitas de chs para resfriados e catarros das crianas. Juvncio atalhava a conversa com seus modos bruscos mas ela sentia a ternura escondida atrs daquelas palavras rudes:
      D o fora que agora a conversa  sria... 
     Ia saindo, por vezes puxava a orelha dele, Juvncio repelia a sua mo, mas o seu dedo mnimo fazia-lhe uma carcia pequena e doce no pulso, ao mesmo tempo.
     Deitado na cama, Juvncio fita a face plida da mulher. Os cabelos negros tm o cheiro de um leo barato, solto sobre o travesseiro. Aquilo tudo era fraqueza, pensava le. Grvida como estava, ela devia se alimentar melhor, mas cad o dinheiro para comprar comida?
     Dedicava-lhe pouco tempo, ela devia ressentir-se disso tambm. Pobre Lurdes, que seria dela quando a revolta estourasse? No devia t-la tirado de casa, trazido para a sua vida que no lhe pertencia... E pusera-lhe um filho na barriga. Sorria ao pensamento do filho que ia nascer... Seria homem, desde cedo aprendendo com o pai a no suportar as injustias, a se revoltar contra as misrias desse mundo. le o ensinaria a fechar o punho e a dar vivas ao Partido. Como o filho de Lus, o mais moo que responde quando lhe perguntam o que le :
       Comunista...    com  sua voz gaguejante  no soletrar da palavra longa.
     Lurdes geme baixinho. As nsias de vmito a assaltam novamente. Juvncio, que voltara a pensar na reunio, a rememorar o informe de Agnaldo, se curva para ela:
       Que ?
     A palidez aumenta no rosto da mulher. Ela vira a cabea para o cho, le corre, traz o urinol, ela vomita. Que ser dela se le morrer de uma bala, se acabarem com le no levante? Nem por um minuto sequer aquele pensamento o faz vacilar. Teme por ela e se preocupa, mas sem que isso, em nenhum instante, faa-o pensar em desistir.
     Sustenta a cabea de Lurdes, coloca-a sobre o travesseiro.  Ela cerra os olhos:
        Tou tonta...
       Vou fazer um ch...
     Amanh precisa falar com aquele tenente da "ditadura republicana". A conspirao morrera inteiramente, quem sabe se le no toparia a Libertadora?
     Acende o fogareiro. Do quintal, com o vento da noite, chega um cheiro de terra. E le se recorda, subitamente, do serto, da fazenda, de sua casa, com o terreiro na frente e o curral um pouco adiante. E pensa em sua me, na velha Jucundina. Ela gostaria de Lurdes, se a conhecesse... E do Partido, ser que ela gostaria? Bastava que fosse uma coisa dele, ou de qualquer dos irmos, para ela gostar. Seu irmo Jos era cangaceiro de Lucas Arvoredo e jamais Juvncio ouvira da velha Jucundina uma palavra contra o bando de jagunos que levara seu filho.
     A voz de Lurdes chega do quarto:
      Nenn!   Nenn!   No precisa mais...   J estou melhor...
     
3
     
     Tambm le poderia a estas horas estar no grupo de Lucas, vestindo a roupa de couro com que os jagunos andavam pela caatinga, em vez da farda de cabo do Exrcito. Quando fugira de casa, seu pensamento no era outro seno buscar Lucas Arvoredo, apresentar-se a le, pedir um lugar no seu bando. Ouvira falar que Lucas andava por perto, levou dias e dias a procur-lo pela caatinga. E quando concluiu que no era verdade, resolveu busc-lo onde le estivesse. Disseram-lhe, numa feira, que o bando se encontrava num Estado vizinho e eis a por que Nenn, em vez de entrar para a Polcia Militar do seu Estado, assentara praa na de outra terra. Porque, buscando Lucas, le se aproximara do mar, aps atravessar as fronteiras do seu Estado natal. Lucas Arvoredo desaparecera como por encanto, devia estar aoitado no fundo do serto ao mesmo tempo que as notcias o assinalavam em cinco ou seis partes diferentes. Alis le usava por vezes dessas tticas: mandava grupos de cangaceiros, de dez e doze homens, assaltar fazendas em uma direo, grupos que arrastavam atrs de si as foras policiais, enquanto o grosso do bando entrava numa cidade importante.
     Seu irmo Jos partira porque a viso dos cangaceiros, da sua brbara e ruidosa alegria, da sua liberdade defendida a tiros todos os dias, fora irresistvel.  Como poderia ficar na fazenda depois de t-los visto?   J antes partira Jo, o irmo mais velho.   No via futuro na roa, naquele pedao de terra que o pai lavrava. E tivera aquela briga por causa da filha de Ataliba. Juvncio, quando desses acontecimentos, era um rapazola apenas. Mas o desejo de ir embora j botara sementes em seu corao ante o exemplo dos irmos. Quando partia pelas manhs para a roa, a foice ao ombro, era como um escravo que levasse cadeias nos ps.   Aquela terra no era deles, no lhes pertencia, e mesmo o seu direito sobre as plantaes de mandioca e milho poderia ser discutido pelo coronel a qualquer momento.  O dia de trabalho gratuito para a fazenda parecia-lhe demasiada explorao.  No bastava a obrigao de vender os produtos da roa ao coronel, pelo preo que le fixasse, e ter de comprar no armazm tudo de que necessitasse?  Ouvia histrias de tomadas de terra, de crimes, camponeses matando fazendeiros, fugindo pelos matos, outros condenados a largas penas, indo para Fernando de Noronha.   Uma sede de vingana e de justia foi o que o impulsionou.   Lucas Arvoredo, com seu bando de jagunos, parecia-lhe o destemido vingador da gente sertaneja. A razo estava com le.   Se haviam de trabalhar dia e noite, para uma fazenda, nascer e morrer em cima da enxada, sem nenhuma outra perspectiva, ento nada restava a no ser largar tudo, tomar de uma repetio, e ir cobrar nas fazendas e nas cidades o que  segundo Nenn  lhes era devido.   Teria sido cangaceiro se encontrasse Lucas na sua ansiosa busca pela caatinga.  Despertava nele, como em outros filhos do serto, aquela revolta sem direo contra a vida que levavam. Se o beato Estvo j houvesse iniciado sua pregao quando da sua fuga, Juvncio seria talvez um dos seus homens. Ali, na caatinga, a revolta contra a fome levava os homens ao cangao ou ao misticismo desesperado.   Mas Nenn, em vez de encontrar o bando de Lucas, deparou com a estrada de ferro e o apito do trem o tentou, meteu-se num vago, desembarcou na capital. Tinha ento dezoito anos, um pouco menos.  Entrou para a Policia Militar  destino quase obrigatrio dos camponeses recm-chegados  quase por acaso.   Envolveu-se numa briga de rua, ao lado de um cabo e um soldado da polcia, contra uns inspetores de trnsito e guardas-civis. No sabia o motivo da briga mas viu que eram quatro contra dois. A verdade  que o soldado e o cabo no no tinham razo, estavam bbedos, fazendo tropelias, os guardas tiveram que intervir e os inspetores chegaram para ajudar. A coisa s terminou com a interveno da patrulha da Polcia Militar que levou todo mundo preso: cabo, soldado, guardas, inspetores e o rapazola que j estava sangrando.
     O comandante da Polcia Militar orgulhava-se dos seus soldados, costumava dizer que no via homens para eles na cidade, nem mesmo os soldados do Exrcito, sequer os marinheiros da Escola de Aprendizes. O comandante da guarda-civil enfureceu-se com a priso dos guardas, metidos no xilindr da Polcia Militar, alvos dos desaforos dos solduados. O incidente criou um pequeno caso poltico e a melhor maneira que o governador achou para sanar tudo foi mandar passar uma esponja sobre os acontecimentos. Os guardas e inspetores foram restitudos  sua corporao. O cabo e o soldado receberam uma descompostura meio sorridente do comandante. Sobrava Juvncio. Enquanto preso fizera-se amigo de soldados e cabos, contavam sua histria, sua participao na briga, pelos ptios do quartel.   O comandante chamou-o:
       Por que se meteu na briga?
     Um sargento o havia industriado para as respostas:
       Era dois soldado da Pulia contra quatro guarda...   Num queria ver soldado apanh...
       Gosta da Polcia Militar?
       Inh, sim...
     O comandante tinha uma especial estima por aqueles sertanejos. Eram bons soldados, valentes, os nicos que serviam para a perseguio aos cangaceiros na caatinga, incapazes de roubar, cheios de um certo sentimento de honra difcil de encontrar entre os homens recrutados na cidade.
       Quer ser soldado?
       Queria, inh, sim...
     Estava com a farda h pouco tempo quando estourou a revoluo constitucionalista de So Paulo. Juvncio nada sabia de Poltica mas se metia nas discusses no quartel e, por uma inclinao natural, era pelos revoltosos contra o governo. Sentia-se contra a ordem estabelecida mas de maneira inconsciente e anrquica. Apesar de suas simpatias, embarcou satisfeito no navio que os levava para o Rio. Iam lutar contra os paulistas e o gosto da luta superou nele as vagas preferncias pelos contitucionalistas. Ao demais haviam-lhe dito que eles iam lutar contra os italianos que queriam dominar o Brasil e escravizar os brasileiros.
     Revelou-se no front!   Destemido como poucos, em breve era cabo  e  terminou  a  campanha  como  primeiro-sargento.   Entrara vitorioso na capital de So Paulo, desfilara em suas ruas, e, como sucedeu com muitos, ficou preso pela cidade, pelo seu movimento, aquela vida estuante to diversa das cidades do Nordeste.  Durante toda a sua infncia e adolescncia, na roa, aquele nome de So Paulo ressoara em seus ouvidos como uma palavra mgica. Para ali se dirigiam anualmente milhares de camponeses em busca de uma vida melhor. Ali havia riquezas sem conta, um mundo imensamente maior.   Na Polcia Militar, com um afinco que admirava os superiores, le se dedicara ao estudo primrio e lia e escrevia corretamente, passara na frente de muitos outros que haviam comeado primeiro.   No front, nos trs meses que passara lutando, ganhara experincia de alguns anos e, com pouco mais de dezoito anos, sentia-se homem feito, capaz de enfrentar qualquer coisa.   Aquela sua instintiva revolta no desaparecera, agora sabia de certas coisas, vivia sempre metido na eterna conspirao de cabos e sargentos de cada batalho.   Insatisfeito sem saber mesmo por qu, contra tudo e todos.
     Nas antevsperas do embarque para Santos, onde o navio que os traria para o Nordeste os esperava, o sargento Juvncio desapareceu sem deixar rastos. Como os paulistas matavam, nas ruas escuras da prostituio, os soldados vitoriosos, pensaram que assim havia acontecido com le e o comandante lamentou o fato. Gostava de Juvncio, pensava at em conseguir um lugar para le na Escola de Cadetes da Polcia, faz-lo oficial.
     Foi Z Tavares, a quem le encontrou por acaso (e a quem reconheceu apesar da farda de guarda-civil e de s hav-lo visto h uns oito anos quando Z Tavares era trabalhador assalariado da fazenda), quem impediu que le morresse de fome. Levou-o para sua casa, deu-lhe comida. Ficou de ver se lhe arranjava um lugar na Guarda Civil, mas no estava fcil, e Juvncio terminou engajado no Exrcito.   Foi quando se ligou ao Partido.
     De So Paulo mandaram-no para Mato Grosso. A luta na fronteira, entre o Peru e a Colmbia, fervia. Um destacamento foi enviado para Letcia, sob o comando de um primeiro-tenente. Juvncio, que acabara de ser promovido a cabo devido a seus conhecimentos militares aprendidos na Polcia e na luta, foi incorporado para seguir. O Partido deu-lhe uma ligao para Manaus mas eles nem passaram em Manaus, foram pelo interior. O serto ia ficando cada vez mais distante na memria de Juvncio. No entanto, por vezes se recordava da roa, da casa, da tia louca, do velho Jernimo com seu grito de boiadeiro. E em meio  selva amaznica, quando, com a chegada da noite, os coraes se apertavam naquele medo ao desconhecido, le, repetidas vezes, encontrava-se pensando nos seus. Quando rapazinho, na fazenda, com a rebeldia que o lanara em busca de Lucas Arvoredo para entrar em seu bando, pensava que nada de mais desgraado podia existir no mundo que a caatinga de secas e de fome. Na Amaznia, no corao da selva, ao lado dos grandes rios, vendo o povo nu, camponeses sem ter o que vestir, cortando os seringais, compreendia que a misria era comum a todos eles, era a nica coisa que existia com fartura em toda parte.
     
4
     
     O primeiro-tenente morreu de febre. O sargento Vicente e alguns soldados morreram de flechadas dos ndios. Cada dia caa um, morto pelos ndios invisveis na floresta, ou derrubado pela febre. O impaludismo habitava ali, mais tremendo ainda que o da caatinga, e eles pareciam abandonados do mundo. O segundo-tenente, agora no comando, enviava rdios sobre rdios. Nem uma nica resposta, era como se houvessem esquecido completamente aqueles soldados que guardavam a fronteira. Os ndios vinham pela noite, roubavam os poucos mantimentos que restavam, destruam e matavam. O impaludismo estava presente dia e noite. Quando o rdio-telegrafista morreu, o segundo-tenente se apavorou. Resolveu ir com alguns homens em busca de socorro. Ficou um sargento no comando. Restavam uns vinte homens. O tenente partiu pela madrugada, levava seis homens consigo, grande parte das munies e das latas de conserva. A selva o tragou para sempre, nunca mais tiveram notcias.
     A ordem era gastar poucos tiros, no tinham muitos e fazia-se necessrio caar para economizar a comida. Durante o dia, na margem do rio, os soldados pescavam. Mas sal j no havia e a comida ficava insossa e sem graa. Os ndios, ante a timidez da resposta dos soldados, tornavam-se mais agressivos e chegavam cada vez mais perto. A estao de rdio escangalhada provava-lhes diariamente que eles estavam separados do resto do pas. Quando o fumo faltou eles pensaram que iam enlouquecer. Os doentes eram cada vez em maior nmero. Durante dias e dias esperaram a volta do tenente. Mas uma tarde um soldado, que se afastara para caar apareceu com umas perneiras, um quepe e a notcia de que havia ossos espalhados em trno de um lugar onde existira uma fogueira. O desnimo tomou conta dos homens.
     Uma noite, quando os ndios estavam bem perto, o sargento foi tomado de uma crise de loucura. E ordenou que todos atacassem. Mataram alguns ndios mas ficaram reduzidos a doze homens sob o comando do cabo Juvncio j que o sargento fora o primeiro a morrer, sara correndo para o lado onde os ndios se encontravam.
     O medo chegava com a noite. As grandes rvores da selva, to diversas da vegetao de arbustos da caatinga, escondiam mistrios mortais. Os passos dos ndios eram mais leves que os dos animais e por detrs de cada uma daquelas rvores a morte podia estar aoitada. Os soldados, os sos e os doentes, se reuniam num grupo denso. O frio dos impaludados era terrvel mas tinham receio de acender fogueiras que mostrassem sua localizao aos silvcolas. Juvncio pensava que iriam morrer todos ali e sentia um dio profundo pelo abandono em que os haviam deixado.
     A falta de fumo desesperava mais que a de sal e de feijo e farinha. Comiam carne de caa, chamuscada nas brasas, os corpos se enchiam de feridas. Os mosquitos j no incomodavam. Nos primeiros tempos tinham sido um horror, os homens de braos e pernas inchados da picada do pot. Mas se haviam acostumado e agora no ligavam. Pior eram as flechas dos ndios, aquele silvo ouvido tarde demais, quando j era impossvel furtar-se.
     Juvncio refletiu a noite toda. No outro dia reuniu os homens. Sos e doentes, dispensou apenas dois que no se podiam mover.
     Foram derrubar rvores, fizeram uma paliada em trno do acampamento.   Dividiu os tiros que ainda restavam, escalou os homens em turmas para caar animais fora da paliada.   E comeou a resistncia organizada aos ataques dos ndios.   Os homens obedeciam-lhe mais pela sua capacidade e bravura que mesmo pelas divisas de cabo.  Ali o respeito havia desaparecido.  E a fuga (assim consideravam) do segundo-tenente no havia concorrido para que divisas e  dragonas  pusessem  respeito.   Mas  com  Juvncio era diferente. le era o primeiro a se expor, no se furtava ao trabalho, ia caar com os grupos designados, passava noites acordado, os olhos vigilantes nas frestas da paliada.  Quando os ndios se aproximavam  os ouvidos agora mais experimentados j distinguiam os sutis rudos de seu passo  le tratava de localiz-los e no deixava que se perdessem balas.  Passou cinco dias sem ter um morto, durante trs noites os ndios no atacaram. Alguns soldados pensavam que eles haviam desistido e j queriam sair, abrir caminho em busca de socorro.  Mas Juvncio adivinhava, no inesperado recuo dos ndios, a preparao de um ataque em regra.   E preparou-se para le.  Reforou a paliada, mandou cavar trampas em trno do acampamento. E quando os ndios vieram, como le previra, foram recebidos com um tiroteio violento.  Afundavam-se nas trampas, quebravam pernas, caam baleados, os homens j haviam ganho experincia e no desperdiavam bala.  Ainda assim os ndios chegaram junto  paliada e a tentaram escalar.   Morreram trs soldados na luta mas eles conservaram a posio e puderam, pela primeira vez desde que estavam ali, capturar prisioneiros, ndios que haviam cado nas trampas. Mataram-nos porque no os podiam alimentar e tambm por que estavam com dio.
     Quando o socorro chegou, seis dias depois, Juvncio, com cinco homens, dois dos quais feridos, ainda sustentava a posio.
     
5
     
     O sapateiro o mandou chamar, com urgncia. Estava com dois outros companheiros,ambos da direo. Agnaldo j havia Partido de volta, novos dirigentes tinham passado por ali, sentia-se que o momento se aproximava.
     A conversa foi na casa do sapateiro, as janelas trancadas, a porta encostada, eles silenciando a cada rudo de passos que ouviam na rua.   Um dos outros dirigentes, comercirio, falava:
       Esto demitindo os guardas-civis em massa...   A situao se agravou ao mximo...    possvel que os guardas se revoltem...
       No creio...   disse Juvncio.
     O outro fz um sinal que le esperasse:
       Tem mais...   E  com vocs do 21.   Vo comear as transferncias de cabo e sargentos e as baixas de soldados...   Ns estamos seguramente informados de que quase todos os sargentos vo ser removidos.  E os cabos tambm.  Voc inclusive. Nossas notcias so concretas...   E se isso acontecer...
       Levantar?
       Acho que eles mesmos se levantaro...
     Quirino estava tambm presente, fz um relato da situao no quartel. Juvncio no teve nada que discutir, o msico falava a verdade, a situao chegara a um ponto morto. Os cabos e sargentos s esperavam a ordem. E, se comeassem as transferncias, no havia quem os pudesse conter...
     O companheiro continuava:
       Estamos informados  de  que  as transferncias comearo depois de amanh...
     Juvncio fazia clculos mentalmente.
       Mesmo que a gente queira no pode impedir que eles se levantem. E se a gente no apoiar, a Libertadora se desmoraliza...
     O outro concordou com um grunhido. Parecia j ter pensado naquilo tudo, pesado todas aquelas possibilidades. E, quando falou, foi para perguntar em meio ao silncio:
       Que  que vocs acham da noite de 23? 
     E acrescentou:
       Recife se levantar em seguida.   E depois todo o resto do pas.   Posso informar aos companheiros que o general Lus Carlos Prestes assumir o comando da revoluo...
     A atmosfera era tensa, Juvncio sentia os nervos em ponta. Estava com os lbios apertados, os olhos pequenos, mas conservava a calma e sentia como se tivesse o corao gelado. Um dia pensara em ser cangaceiro. J aprendera apesar do pouco que sabia ainda, que aquilo  seria uma  revolta sem soluo.   Os cangaceiros no iriam resolver os problemas tremendos do serto. S o governo popular revolucionrio que a Aliana pregava: "Terra para os camponeses." Juvncio gostava de rabiscar nos muros do quartel a consigna da Aliana: "Po, terra e liberdade." Mais que o po e a liberdade era a palavra terra que tocava seu corao sertanejo. Via a alegria no rosto dos colonos, dos meeiros e dos trabalhadores quando aquelas terras que eles lavraram lhes fossem entregues, com papel de cartrio e tudo, como pensava Juvncio.
     O companheiro desenrolava detalhes,  explicava como deviam agir, dava as consignas polticas.
       Lembrem-se de  que a  revoluo no   comunista.     da Aliana e a Aliana no  o Partido...
     As ltimas palavras rolavam na sala:
       Os companheiros Quirino e Juvncio ficam desde agora em ligao permanente com a direo do Partido...
     Juvncio lembrava-se de ferozes discusses entre cabos e sargentos, perguntava:
       O que  que a gente faz com os oficiais?
       Evitar mortes...   No somos assassinos...    claro que o momento  que vai indicar como se ter que agir.   Mas nada de violncias...   Aos que se renderem, garantir as vidas.   Vocs sero responsveis perante o Partido pelo que suceder...
     Na rua, Juvncio via Quirino andar com seu passo pesado. Era o msico quem ia comandar o levante. Em voz baixa, Quirino comeou a rememorar as ordens da direo. Juvncio ia esclarecendo, notava que nem tudo o outro compreendera. Mas naquele momento no podia conceber que a revoluo fosse dominada. Para le a causa era to justa e bela que a sua vitria teria que vir fatalmente. E com pacincia ajudava Quirino na anlise das palavras do dirigente.
     Chegaram na rua onde o cabo morava. Quirino estendeu-lhe a mo, estavam prximos  casa de Juvncio:
       T manh...
     Juvncio olhou quase com raiva:
       Quem lhe disse que vou pra casa?   Agora o lugar da gente  no quartel.
     O outro concordou:
       Vamos...
     A cidade dormia, as casas fechadas, mas no quartel havia uma onda de boatos, nos dormitrios os homens cochichavam. Quando Juvncio e Quirino chegaram, cabos e sargentos saltaram dos catres, vieram cerc-los:
       Que  que h? 
     Macedo anunciava:
       To dizendo por a que vo transferir a gente... 
     Outra voz confirmava:
      Um tenente garantiu...   Disse que  coisa resolvida...
      Ns se levanta...  falou um sargento.   Dirigiu-se a Juvncio:  O que  que tu acha?
       Se vocs se levantarem eu estou com vocs...   Mas no se faz um movimento s com querer...    preciso acertar tudo...
     As primeiras claridades da aurora rompiam sobre o quartel e a cidade de Natal.
     
6
     
     Era um pressentimento, nada mais alm disso. Mas, apenas soube da notcia das primeiras transferncias, alguma coisa comeou a comprimir seu peito, Lurdes sentia-se como se tivesse um peso sobre o corao. Naquela rua moravam vrias famlias de cabos e sargentos, amsias de soldados, e aquele era o nico comentrio de todas as casas. Mulheres que temiam ser abandonadas  soldado bota casa e mulher nova em cada cidade onde serve...  mulheres que arrumavam as bagagens para a viagem que se anunciava prxima. O prestgio de Juvncio refletia-se sobre Lurdes e as esposas e amsias dos primeiros transferidos corriam  sua casa, numa pequena romaria, querendo saber de mais notcias, que impresso ela tinha dos acontecimentos, que ia ser delas... Algumas pediam que ela interferisse junto aos amantes para que no as largassem, mostravam os filhos pequenos:
       No  por mim,  pelos menino, se no vai crescer sem pai, como filho de rapariga...
     Sabiam todas como Juvncio era ouvido e respeitado:
      Pea a seu Juvncio...   Diga pra le falar com Manuel..  
     Outras no o chamavam de Juvncio, davam-lhe o apelido familiar para assim ainda mais comover Lurdes:
      Seu Nenn  to bom...   Se le disser a Antnio pra no me largar, le no faz...   Pra le  Deus no cu e seu Nenn na terra...
     Sucediam-se na distante casa suburbana. Umas tinham vindo do outro extremo da cidade, arrastando suas chinelas, os vestidos pobres, os filhos pela mo.   Algumas j vinham se despedir:
      A gente no sabe quando vai.   Talvez no tenha mais ocasio...   Diga a seu Nenn que eu agradeo por tudo...
     A muitas delas le no havia feito nenhum favor mas todas e todos se sentiam obrigados a le, era o seu jeito, a sua palavra nunca em vo, o seu sorriso terno de criana.
     Lurdes consolava, prometia, ajudava, sentia-se cansada com a barriga de oito meses estufando o vestido, as pernas inchadas, o rosto plido. E aquele aperto no corao como se algum o comprimisse. Uma tristeza que vinha das despedidas e do temor das mulheres, mas que vinha tambm de algo indefinido, sem explicao. As mulheres sabiam perfeitamente que ela jamais havia sado de Natal. Mas ainda assim perguntavam-lhe sobre as cidades para onde os maridos e amsios tinham sido removidos. De algumas Lurdes tinha imprecisas informaes, por elas Juvncio passara em suas viagens e delas lhe falara nos tempos de namoro. Porm alguma coisa fazia Lurdes pensar que nenhuma chegaria a viajar, que pior do que imaginava as que temiam ser abandonadas, um tempo ruim ia se iniciar para todas elas. No tinha idia nenhuma formada, era apenas um pressentimento, uma tristeza sem motivo nascida no fundo dela mesma, como que adivinhava tudo que iria suceder.
     A criana movia-se na sua barriga. Ela sentia o minsculo p bater-lhe contra as paredes do seu ventre como se o menino j quisesse nascer, olhar a luz do mundo, viver a vida dos homens. As mulheres iam e vinham, a manh tardava a passar. Ela esperava Juvncio numa impacincia que aumentava  proporo que o sol caminhava para o meio-dia. Manh de lgrimas e projetos. A tristeza, era geral, de umas sem saber o que lhes ia suceder, de outras  cuja vida se normalizara em Natal, casa posta, mveis, meninos na Escola Pblica  tendo que recomear numa cidade desconhecida. Lurdes ouvia umas e outras pacientemente, sentando-se de quando em vez na cadeira espreguiadeira que Nenn comprara quando a sua barriga comeara a aumentar. Esperava que le chegasse, numa ansiedade. E ao mesmo tempo pensava que o mais certo era le no lhe dizer nada, se alguma coisa estivesse sendo preparada. No era segredo dele, Lurdes compreendia. E se ela soubesse, ser que choraria e se lamentaria, ser que se dependuraria no pescoo dele pedindo-lhe que no o fizesse?
     Em Lurdes nada  consciente nem resulta de uma anlise ou de uma profunda convico. Tudo nela  instintivo, nasce de uma intuio. Nenn estava metido nessas coisas, correndo todos aqueles riscos, porque desejava mudar a vida dos pobres. Ela achava que isso valia a pena mas principalmente tinha uma certeza de que le no se envolveria em nada que no fosse justo e correto. Sobre muita gente le tinha influncia, porm sobre ningum to grande como sobre a companheira.
     le chegou com sono. H trs noites que no dormia, aparecendo em casa rapidamente, saindo logo, numa atividade que Lurdes no procurava explicar. Alguma coisa extraordinria se preparava, isso ela sentia no ar e no corao. Juvncio estava silencioso e preocupado, seu riso to franco era forado, no chegava a desanuviar totalmente seus olhos nem a liquidar todas as rugas de sua testa.   Chegou, comeu, atirou-se na cama.   Lurdes veio e deitou-se a seu lado.
     Com a cabea fora do travesseiro, como era o seu jeito de dormir, le espiava de baixo a barriga enorme da mulher.  Chegaria a ver aquele filho?  Se no o visse nunca, se jamais voltasse a fitar a face plida de Lurdes, desejava que eles soubessem que o pai e marido havia morrido pelo bem deles, para que no futuro no fossem to desgraados quanto agora. Eles e todos os demais pelas cidades e pelos sertes, esses antes de tudo porque eram os mais pobres e sofredores, aqueles cuja dor Juvncio sabia pesar e medir. Suspendeu a cabea, lia nos olhos de Lurdes  Lurdes de lbios fechados para perguntas  uma interrogao ansiosa.   Mas no lhe podia dizer, nem na mulher devia confiar, no era sua vida nem sua sorte que arriscaria, era a vida de muitos, a sorte da revoluo.  Lurdes era boa, dedicada e firme, mas "o segredo no era dele".   Sorriu para ela, pinicou o olho num gesto carinhoso, sentiu o.esforo que ela fazia para rir.   E para no perguntar. "Mulherzinha valente", pensou.
     O sono pesava-lhe nas plpebras, sono de trs noites seguidas.  A ordem que le tinha era descansar naquela tarde, dormir, estar preparado para a noite. O embarque dos cabos e sargentos j estava marcado. Chegara o momento. Ainda a olhou uma vez, abriu a boca para falar, fechou os olhos. Foi um sono pesado, durou toda a tarde e quando le despertou as primeiras sombras entravam pelas grtas da janela, o quarto estava envolto numa penumbra morna e triste. E Lurdes continuava a seu lado, velando seu sono, a barriga sobrando para cima, a face angustiada.
     Saltou da cama, foi molhar o rosto na torneira dos fundos. Lurdes ouvia o rudo da gua nas mos de Juvncio, levantou-se com esforo, dirigiu-se para a cozinha. Esquentou o caf, enquanto le vestia o dlm onde se destacavam os gales de cabo. le entrou na cozinha, o cabelo, de onde escorria gua, ainda despenteado:
       Tenho que sair logo...   Vai demorar?
       T quase pronto...
     O po j estava na mesa, le comeou a passar manteiga num pedao. Via a toalha com manchas de caf, o guardanapo, o paliteiro que Valverde lhe dera de presente. Sentou-se na cadeira de palhinha furada pensando que talvez aquela fosse sua ltima refeio em casa e olhou todas as coisas com carinho e saudade, como numa despedida.  Lurdes servia o leite e o caf.
      Hoje teve aqui as mulheres de quase todos que foram transferidos...
      Juvncio a olhou de soslaio, iriam comear as perguntas? Era como um duelo onde os adversrios se estudassem. Mas ela apenas acrescentou:
      Maria, de Antnio, t com medo que le no leve ela...  Tem trs filhos, a pobrezinha...   E Elvira...
       Quem ?
       Aquela mulata gorda, amiga de Manuel...   Tambm...
       Que  que eu posso fazer?  achava aquele medo to absurdo e sem motivo diante do que le sabia, do que se preparava, que no encontrava o que dizer.
      Elas quer que tu pea a eles...    pra levar elas...
     Juvncio olhou a mulher, de p ao lado da mesa, cansada e abatida. Por que ela lhe dizia essas coisas se le tinha certeza de que Lurdes no acreditava na viagem dos homens, se ela sabia que alguma coisa ia se passar? Sabia, le no se enganava. Ela adivinhava, lia nos seus olhos. No queria perguntar, fazia bem, le tampouco podia responder.  Achou que devia dizer alguma coisa:
       Diga a elas...
     Mas as lgrimas desciam pela face de Lurdes, e ela apertava os lbios para no soluar. le no continuou. Que adiantariam aquelas palavras que ela adivinhava mentirosas, vagas de significado, simples palavras ditas por dizer, como quem beija uma mulher a quem no mais ama, por simples obrigao? Levantou-se, bebendo o caf aos goles.
       J tou atrasado...
     Deu uns passos, voltou, passou a mo na cintura de Lurdes, sentiu o tremor que a percorria.  Beijou-a:
       No tenha medo...
     E saiu rapidamente.   Na rua acendiam-se as primeiras lmpadas eltricas.
     
7
     
     De todos os feitos do cabo Juvncio, no movimento de Natal, um ficou, sobre todos, gravado na memria dos que de qualquer maneira se viram envolvidos nos sucessos daqueles dias. E menos que um feito era uma frase, mas passou de boca em boca, e quando, nas cadeias espalhadas pelo pas, nos navios e ilhas-presdios, na ilegalidade, algum falava no nome de Juvncio, logo relatavam a histria com a qual pretendiam fixar a medida da sua calma nos momentos mais terrveis.
     Sucedeu antes de que o movimento estourasse. Por volta das onze horas da noite. Quando j todos os preparativos estavam completos, o incio do levante marcado para as duas horas da manh, Juvncio resolveu aproveitar aquelas horas para dormir, imaginando que dali por diante no lhe seria fcil encontrar tempo para deitar-se. Pensava assim acalmar tambm um pouco os companheiros que movimentavam-se inquietos, podendo chamar a ateno dos oficiais mais ou menos de sobreaviso.
     Deitou-se, de to cansado, dormiu. Antes pedira a Macedo que o chamasse  uma e meia da madrugada, trinta minutos antes da hora marcada. E, quando sonhava com Lurdes e o filho que teria nascido e que j falava, andava e ria para le, sentiu-se sacudido. Abriu os olhos e saltou da cama certo que j era mais de uma e meia e que chegara o momento de agir. Olhou o relgio de pulso (comprado a prestaes a um srio) e viu que marcava doze e meia. Pensou que houvesse parado e o aproximou ao ouvido. Soava o tic-tac do relgio e Juvncio perguntou a Macedo que o acordara:
       Meia-noite e meia? 
      ...
      H alguma novidade?...
      Bem...   Haver, no h...
       E pra que diabo voc me acordou? Me deixa dormir, homem de Deus...
     E deitando-se novamente retornou o fio do sonho agradvel, s despertou quando Quirino lhe disse ao ouvido.
       Uma e trinta e cinco...
     Os outros tinham estado inquietos a noite toda, gastando energias naquele nervosismo da espera, espiando os ponteiros dos relgios baratos, indo urinar de minuto a minuto, um frio na bexiga. Apesar do calor que fazia, Valverde soprava dentro das mos em concha, como se sentisse frio. Enquanto isso Juvncio dormia, ouviam o seu roncar tranqilo, um sorriso nos lbios. Mais do que tudo que le fz no decorrer do levante, essa histria ganhou popularidade e servia para defini-lo. Na Ilha Grande, Valverde gostava de repeti-la com seu comentrio invarivel...
     Sujeito to calmo nunca vi...   Nem Tourinho...
     No entanto se esta histria dava a medida da calma do cabo nada dizia da rapidez de raciocnio, do senso de oportunidade, da bravura, da lealdade, do sentido de responsabilidade por le demonstrados no decorrer da luta. E especialmente depois, quando chegaram as horas amargas da derrota, quando o pnico dominou os homens antes entusiastas e seguros de si.
     Qualidades que novamente se revelaram na priso, quando dos depoimentos. Assumiu a responsabilidade do movimento e nada mais disse, em resposta s perguntas e s provocaes que lhe fizeram, apesar dos castigos e das torturas.   O seu depoimento ficou reduzido  seguinte frase: "Nada declarou." O jovem sertanejo que fugira de casa para entrar no grupo de cangaceiros de Lucas Arvoredo, aprendia na cidade e se fazia lder de homens revoltados. Por vezes, na cadeia, pensava no serto, nos camponeses, em Lucas Arvoredo e em Jos, seu irmo que acompanhara o jaguno. Fora o mesmo impulso de revolta, a mesma sede de justia que o arrancara da roa. Apenas le tivera mais sorte e em vez do grupo de cangaceiros, encontrou o Partido e a direo justa para sua rebeldia.
     
8
     
     Quando  os  primeiros  tiros  espoucaram,   muitos  oficiais  no acreditaram ainda que fosse a revolta.   Houve resistncia, mais sria do que eles pensavam, o sangue correu sobre os ptios e corredores do quartel.   Vrios oficiais j estavam presos na sala do cassino, mas alguns ainda resistiam, tendo em torno a si soldados armados de metralhadoras.   Juvncio havia ido prender o comandante do regimento que se entrincheirara numa saleta, armado com seu revlver e prometia mandar bala em quem atravessasse o corredor.  Macedo fora encarregado da priso mas como a ordem era procurar no matar os oficiais, enquanto isso fosse possvel, preferiu no atirar contra a sala.   Tomou as sadas do corredor e voltou. Juvncio resolveu ir le mesmo. Quirino assumiu o comando do regimento,  a resistncia diminua.   Todo o 21 B. C. estava revoltado, apenas uma companhia, sob o comando de um tenente, mantinha-se lutando, num fogo cerrado.  Os cadveres e os feridos atrapalhavam o passo dos soldados em manobras pelos ptios. Juvncio subiu as escadas acompanhado de Macedo. Soldados guardavam o corredor.  O  comandante botava discursos para eles, lembrando-lhes a obedincia que lhe deviam, o castigo que os esperava pela revolta.   Quando Nenn chegou os soldados j estavam comeando a ficar abalados.   A voz do comandante era forte, Juvncio fz-lhe justia em pensamento: 
      Bicho destemido...
     Foi se aproximando ao longo do corredor, encostado na parede, os passos leves. Mas a sombra, sob a lmpada eltrica, prolongou-se alm da porta, o comandante gritou:
       Quem vem l? 
     Juvncio parou, respondeu:
       o cabo Juvncio, comandante.   Tenha calma que eu j chego...
     O comandante gostava dele, sabia-o cumpridor dos seus deveres, correto, pouco dado a cachaadas e a brigas em casas de mulheres, com uma caderneta limpa. Ao demais ouvira falar tambm daquelas histrias na fronteira, quando Juvncio mantivera a disciplina em meio  selva, s molstias e aos ndios. Os tiros rareavam no quartel, apenas do ptio  esquerda vinha cerrado tiroteio. O comandante imaginou que a revolta estava abafada e que Juvncio chegava em seu socorro. J no ouvia no corredor o movimento dos soldados nem a voz de Macedo que lhe dava ordem de priso.
     Juvncio voltou a andar, mas agora ia pelo meio do corredor, escondeu o revlver nas costas. Atravessou a porta, o comandante estava de p, segurava a arma pronta para disparar. Mas no se encontrava mais em guarda. Juvncio foi entrando, suspendendo a mo direita para continncia mas de imediato a abaixou sobre a do comandante, tomou-lhe a arma, disse:
      No adianta reagir, coronel.   A revoluo est vitoriosa em todo o pas...
     O comandante empalidecia de raiva. Os soldados se aproximavam, comandados por Macedo.
      Levem para o cassino...    E, para o comandante:  V sossegado, coronel, que nada vai lhe suceder...   A no ser que o senhor tente fugir ou levantar os homens...
     Voltou-se para os soldados:
       Se algum tentar isso, bala nele sem pena...
     Desceu as escadas, correndo. Chegavam notcias de que a revolta na Polcia Militar fracassara e que ela marchava contra o batalho. Conferenciou com Quirino e Conceio. A Guarda Civil levantara-se tambm, a luta se travava pelas ruas da cidade. Corriam notcias de que o governador j havia fugido para bordo de um navio, mas de nada tinham certeza. O importante era silenciar as metralhadoras da companhia que ainda resistia. Juvncio chefiou o assalto.  Valverde ia ao seu lado, exposto s balas.
       S  unha, Nenn...
     Juvncio j o compreendera. Tinham que assaltar a posio, liquidar com aquilo quanto antes, se no, iriam ficar entre o fogo da Polcia Militar e o da companhia. Olhou para os homens que o acompanhavam. Pela porta viam o tenente no ptio, no ngulo final do muro, entrincheirado atrs de caixes, e as metralhadoras apontadas para a porta. Era um pulo, uma carreira, cairiam sobre os soldados e o tenente. Mas naquele pulo e naquela carreira muitos iam morrer. Examinou de novo a situao. No tinha outro jeito.   Virou-se para seus homens, disse:
       A gente tem que tomar aquelas metralhadoras...   Quem fr homem que me acompanhe...  e atravessou, num salto a porta, sem  olhar  para  trs.    Quando  caiu,  varado  de  balas,  Valverde estava a seu lado e se curvou sobre le.  Juvncio murmurou:
       Pra frente, filho da puta, se no, os outros recuam...
     E o viu avanar, os soldados correndo, o matraquear das metralhadoras, logo depois um silncio total que durava ainda quando le abriu os olhos e gemeu. Depois, semi-inconsciente, foi jogado na maa, levado pelos outros. Abriu os olhos com esforo e viu que a bandeira vermelha tremulava no mastro do quartel. Sorriu antes de desmaiar de novo.
     
9
     
     Por volta de uma hora da tarde o sapateiro veio visit-lo no Hospital onde as freiras silenciosas fitavam aterrorizadas aqueles homens barbados que traziam lenos vermelhos no pescoo. Estendido na cama, um brao e uma perna enfaixados um pedao do couro cabeludo arrancado, Juvncio ameaava a cada momento levantar-se e sair. A freira (era ainda moa e possua um sorriso bondoso com que suavizava as ordens que ditava) ralhava com le:
       Fique deitado e no se mova...   So as ordens do mdico. 
     Afinal pde mandar um recado:
       Se no vier ningum eu me levanto e vou para o quartel. 
     O sapateiro veio cheio de notcias e com muita pressa.   Tudo marchava bem, segundo le, a revolta explodira em Pernambuco, onde o 29 B. C. havia se levantado s nove da manh.   Tambm o Q. G. se revoltara, estava chefiado pelo sargento Gregrio. E em Natal tudo timo. Haviam constitudo uma junta governamental, da qual o sapateiro fazia parte, o governador fugira, tinham retirado dinheiro do Banco do Brasil para qualquer emergncia, a cidade estava calma.
       E o interior?
       J temos prefeitos em vrias cidades...
       No partiram colunas para o interior?
       Ainda no, mas estamos tratando disso...
       E o quartel?
       Tudo bem...    Quirino comandando...    Voc trate de descansar que o mdico disse que suas feridas so graves e necessitam tratamento rigoroso...   Depois eu volto e conversaremos mais...
     Sozinho no quarto do Hospital sentia a febre crescer. Mas seus pensamentos estavam no quartel. Apesar de todo o otimismo do sapateiro. Juvncio no estava satisfeito. Duas coisas, principalmente, o alarmavam. Primeiro era que a revoluo no houvesse explodido em todo o pas como le esperava e lhe haviam dito que aconteceria. Depois a demora da partida das colunas de soldados para o interior. Temia os homens no quartel sem ter o que fazer. Lutava contra a modorra da febre, tentando pensar, raciocinar. Pareceu-lhe em certo momento ouvir a voz de Lurdes no corredor. Prestou ateno, forando o ouvido, mas era apenas o silncio e le pensou que o delrio chegara. S depois soube que Lurdes fizera tudo para v-lo e as freiras, cumprindo as ordens do mdico, no permitiram.
     O sono, apesar de inquieto e leve, fz-lhe bem. Acordou ouvindo novamente vozes no corredor. Mas desta vez distinguia perfeitamente o vozeiro de Macedo e o acento incisivo de Valverde. A freira discutia, escutava Macedo:
       Entro de qualquer maneira, dona...    melhor a senhora sair da frente...
     E logo depois estavam no quarto e paravam diante dele. Juvncio sorriu, levantou o brao enfaixado.
       Me maltrataram...
       A gente pensou que tu tinha morrido...   disse Valverde. E acrescentou:  Morreram sete naquele ataque...
     Juvncio quis perguntar quais, mas ficou calado, que adiantava naquela hora saber os nomes dos que haviam morrido? Perguntou por Lurdes:
       E Lurdes?
       T cozinhando prs soldados.   Ela e as outras...   Quis vim te ver, as freiras no deixaram...   No queriam deixar a gente tambm...   Foi preciso...
       Ouvi a conversa no corredor...
     Notou que os dois estavam irresolutos como se tivessem resolvido, ante a contestao do seu estado, no dizer a que tinham vindo. Inquietou-se e semi-ergueu-se na cama, cuidando de no, gemer para no alarm-los mais:
       Que  que h?   Vamos, desembucha... 
     Valverde disse:
       No  nada...   Vai tudo bem...  olhava o brao enfaixado, a perna envolta em gaze na altura da coxa, a cabea de cabelos chamuscados.   Que adiantava contar a Juvncio?   Apenas iriam incomod-lo, le no poderia dar jeito.
     Mas o vozeiro de Macedo o interrompia:
        melhor contar de uma vez...   e, antes que o outro tentasse impedi-lo:  A coisa pelo quartel vai muito ruim...   Se continuar assim no sei como vai terminar...
     Juvncio havia sentado na cama. A freira, restabelecida do susto no corredor, aparecia na porta, soltava um pequeno grito de espanto ao v-lo naquela posio:
       Vamos deitar-se j, j...   No sabe que est muito ferido? Que ainda est com uma bala na coxa?
     Olhou-a com raiva:
       Saia daqui...  mas logo arrependeu-se,    Desculpe, madre...  Mas estou conversando coisa importante, peo que a senhora se retire...   Depois,  garanto que deito...   Conta...   ordenou, dirigindo-se a Valverde.
       Ningum se entende, essa  a verdade.  Cada um quer mandar mais do que o outro, no quartel.   No resto da cidade a coisa vai bem, a Junta tomou vrias providncias.   Mas, no quartel. . . T uma confuso. . .
       O que  que est acontecendo? 
     Valverde contou nos dedos:
       Primeiro: falta de comando...   Quirino tem pouca autoridade. A nossa gente obedece a le mas os outros...
       Que outros?
      Os que aderiram... Muita gente... E cada qual mandando mais, dando ordens a torto e a direito. . . A discutir uns com os outros... Cada qual querendo ser mais. E no  s eles, gente nossa tambm... Conceio a brigar com Quirino, at na frente dos soldados discutem...
     Para esticar o outro dedo:
       Segundo:  cachaa.   Foi proibido mas apareceu, agora  o que sobra por l...   Tem gente que j no se agenta...
       Gente nossa?
       Um que outro...   Quase tudo  adesista...
       Que mais?
       Roubo...   Assaltaram o contencioso...   E a despensa...
       Gente nossa?
       No...   Andaram vendendo coisas pra gente da cidade...
       Esto saindo?
       E quem pode empatar?...  Valverde desistira de contar nos dedos.
     Juvncio pensava:
       Isso pode ser at o inimigo instigando...   Para desmoralizar...
     Valverde concordou com a cabea, depois completou:
       O pior...  e silenciou.  Que adiantava dizer aquelas coisas ao outro que estava amarrado na cama, no podia dar jeito?   S ia trazer-lhe aborrecimentos.   Se le estivesse l, a coisa seria outra.
       Conte...
       Tem uma poro que quer matar os oficiais...
       Matar os oficiais?
      .  To bebendo e dizendo que oficial s morto...   Se j no mataram.   Deixei  Quirino  discutindo  com eles.    Mas  Conceio acha que o melhor mesmo  liquidar...
       Provocao  disse Juvncio.
       Tambm acho...
     Fz um esforo com o corpo.   O pior era a perna ferida:
       Me ajuda...
       Voc vai levantar?
       Vou no quartel  avisou:  E ningum vai me empatar... 
     Ajudaram-no a vestir a farda.  Ps o revlver, s podia mover a mo direita, o dlm atirado sobre os ombros, o peito descoberto. Felizmente a mo ferida era a esquerda.
       Vam'bora...
     A freira que se aproximava da porta, para fazer um apelo a Valverde e Macedo, recuou ao v-lo:
       Onde vai, meu filho?                                             N
       Tenha pacincia, irm.   Tenho que ir... 
     Ela moveu a cabea num gesto de censura:
       Assim voc vai morrer, meu filho...
       No faz mal, irm.  H coisas mais importantes... 
     Macedo e Valverde baixaram a cabea ante o olhar da freira, sentiam-se culpados.   Juvncio ia na frente, capengando.  No meio do corredor no pde mais, pediu:
      Macedo, me d o brao... 
     Valverde disse:
       No  melhor voc voltar?
       Vam'bora...
     Quando atravessou a porta do Hospital empunhou o revlver. Macedo sentia o peso do corpo de Juvncio no seu brao. Mas em Macedo e Valverde, Juvncio confiava.
     
10
     
     Ao atravessar o porto do quartel compreendeu que a coisa ia mal. A balbrdia reinava, nada ali restava que lembrasse a disciplina dos soldados, a ordem de uma corporao militar. Distinguiu o vulto de Quirino no ptio, discutindo, agitando os braos. Algum, que o vira entrando, tocou no ombro de Quirino, apontou para o porto. Juvncio no pde deixar de sorrir ante o grito de alegria do companheiro que veio correndo.  Chegou esbaforido, tinha um ar de alarme:
       Eles foram matar os oficiais...   Acuda depressa...
       No cassino?
      ...
       E voc no  comandante?  Cad sua autoridade?
     Quirino confessou:
       Isso aqui est uma esculhambao...
     Apoiou-se em Macedo mas apenas para se firmar, logo saiu andando num esforo que lhe contraa o rosto. Levava o revlver engatilhado. Macedo e Valverde seguraram tambm suas armas. Os homens acabavam de chegar ao cassino quando eles apareceram. Alguns estavam bbedos, outros eram arrastados apenas pelo sucesso da revolta. Homens sem partido, que haviam aderido e acreditavam que no deviam obedincia a ningum. Os oficiais, desarmados, juntavam-se num canto. Alguns estavam plidos, outros mantinham-se firmes. Um deles falava para os homens, mas os bbedos riam e os demais gritavam. Juvncio chegou por detrs.
       Sai da frente...
     Olharam para le como se fosse um espectro. Estava com o rosto branco como cal, como se no tivesse mais nem uma gota de sangue. Abriram alas para le passar. Os oficiais pensaram ento que havia chegado a sua ltima hora. Tinham tido notcias de que era o comunista Juvncio que estava  frente da revolta, prendera o comandante, atacara a companhia de metralhadoras e pensavam que le havia morrido. O tenente que comandava as metralhadoras sorriu tristemente.   O comandante adiantou-se:
       Cabo Juvncio, pense bem no que vai fazer... 
     Juvncio olhou sem dio e sem piedade:
       Coronel, cale a boca e no se meta...  os soldados aplaudiam, um bbedo gritou um palavro.    Cale-se, seu estpido!  Juvncio voltou-se, fitou o soldado.    Est preso.    Valverde, meta esse tipo no xilindr.   Depois veremos...
     Silenciaram todos. Os bbedos ainda tentavam rir mas j no encontravam solidariedade nos que estavam pouco tocados. Juvncio falou-lhe:
       Vocs vinham matar os oficiais...
       S pregar um susto...
       Seja homem e no minta, que  pior...   Vocs o que  que so?   Revolucionrios ou assassinos?  dirigiu-se aos oficiais.    Fiquem sabendo os senhores que desses nem um s  comunista nem aliancista. Um comunista no assassina...  novamente falava para os soldados.    Vocs no vem que  isso que os inimigos querem? Dizer que soldado, cabo e sargento s serve para matar? Para comandar um quartel, manter a ordem e governar, s oficiais ...   E vocs em vez de provar que isso  mentira...
       Que me importa a ordem...  disse um bbedo.  A gente ganhou, agora tem direito de descontar o que esses nos fz...   Tem direito...  ia arengar para os outros.
       Com que autoridade voc discute minhas ordens?  Sou o comandante do quartel e voc vai responder por crime de indisciplina. Est preso...
       Quem  que me prende?
       Eu...  disse Macedo andando para le.  O soldado bbedo tentou reagir, Macedo deu-lhe um soco, estendeu-o no cho.
     Os oficiais olhavam aquilo tudo achando que, afinal, o quartel voltava a ter comando. E no se enganavam porque a mais perfeita ordem voltou a reinar. Era Juvncio quem se enganava ao afirmar-lhes:
       A revoluo est vitoriosa em todo o pas...   A vida dos senhores est garantida.   Garantida pelo comando do quartel.   Os senhores sero julgados depois.   Agora, quero avisar uma coisa. Aquele que tentar fugir ou aliciar algum soldado ser fuzilado sem julgamento...
     Dirigiu-se a Valverde:
       Leve os presos e mande quatro homens de confiana. 
     Os outros soldados ainda estavam por ali:
       O que  que esto esperando a?   Vo para o ptio, deso neste instante...
     Os homens obedeceram. Os oficiais comearam a mudar de opinies sobre o destino da revolta, que antes pensavam perdida. O capito mdico aproximou-se, viu o sangue escorrendo da coxa do cabo:
       Assim o senhor morre... 
     Disse a Macedo:
       Arranje gaze e algodo... 
     Juvncio afastou o mdico com a mo:
       Dos senhores no quero nada...   Deixe estar que eu me arranjo...
     Valverde voltava com alguns soldados.   Juvncio disse-lhes:
      Cuidem das entradas. Metam fogo em quem quiser fugir e metam fogo em qualquer um  seja quem fr  que aparea por aqui sem ordem minha ou de Quirino...   No discutam, metam bala...
     Saiu.  Mas, no corredor, Macedo teve que ampar-lo novamente.
     
   11
     
     Ao chegar ao ptio, antes de falar com os soldados, le desejava poder conversar com Quirino, ficar bem a par da situao, combinar com le (que era politicamente a pessoa mais responsvel) a melhor maneira de agir. Mas, apenas deixou o brao de Macedo, para atravessar sozinho a porta que dava para o ptio, viu que no podia faz-lo. Quirino estava nos fundos, ao lado de soldados, carcado pelos cabos e sargentos comunistas. Do outro lado, separados como se fossem um grupo de adversrios, juntavam-se tambm soldados, cabos e sargentos, e com eles estava Chico Conceio. Os dois grupos mais ou menos se equivaliam em foras e Juvncio olhou para uns e outros, durante uns momentos. Ganhava energias para poder andar, a mo quase no podia sustentar o revlver. Temia cair a qualquer momento. Ainda assim recusou o auxlio que Macedo lhe oferecia num sussurro, marchou para diante, colocou-se entre os dois grupos. Olhou para Chico Conceio longamente e virando-se para Quirino, falou com voz pausada e grave:
       Estou s ordens, comandante  bateu continncia sem largar o revlver, voltava a olhar para os que estavam com Conceio.
     Quirino se adiantou, veio andando para le. No sabia o que le ia fazer mas, desde que o vira atravessar o grande porto do quartel, descansara. Com Juvncio ali, le tinha certeza de que tudo iria bem.   Macedo murmurou:
       Cuidado com Conceio, Nenn...   le...
     Mas a voz de Chico Conceio cobria as palavras murmuradas:
       Comandante, por qu?   Quem o elegeu?   A gente  menino ou mulher-dama pra aceitar o que qualquer um quiser dar  gente? Ns  apontava para os homens que o rodeavam  no aceitamos Quirino de comandante.
     Os soldados que se encontravam em torno e por detrs de Conceio olhavam para Juvncio mas sem hostilidade. Apesar de toda a conversa macia e aliciadora do outro, confiavam no cabo, conheciam-no e sabiam que era um deles. Juvncio tambm os olhou, estudando-os um a um. Conceio estava quase  sua frente, como dera uns passos se separara dos seus homens. Juvncio passou a seu lado, sem responder-lhe, colocou-se em frente dos soldados, srio e quase severo:
       Companheiros, estou chegando do Hospital e o que  que encontro?  Encontro soldados da revoluo guarnecendo seu quartel, cumprindo suas obrigaes?   No...  encontro tudo esculhambado, parecendo que os soldados s sabem se governar quando tm os oficiais para mandar neles, dar ordens, meter na cadeia...   Ns nos revoltamos porque o povo est passando fome e os soldados, cabos e sargentos so perseguidos.  E agora vamos provar que no valemos mesmo nada?   Por mim digo que estou envergonhado...  olhava-os e eles baixaram a cabea.
     Conceio quis replicar qualquer coisa mas Juvncio no consentiu:
       Depois voc fala...   Depois fala quem quiser.   Mas agora falo eu e tenho o direito de falar porque vim do Hospital para no deixar que vocs morram atacados pelas costas a qualquer momento...  dirigia-se aos soldados que formavam com Conceio.
       Posso ou no posso falar, companheiros? 
     Um negro destacou-se dos outros:
       Pode falar, oc  um homem direito...   Ns acredita em oc...
       Companheiros, a revoluo foi feita pela Aliana Nacional Libertadora com o auxlio do Partido Comunista.  O Estado tem um governo popular, formado por aliancistas e comunistas.    a esse governo que os soldados da revoluo tm de obedecer...   Foi esse governo que nomeou o camarada Quirino comandante do Regimento. Por que ento no obedecer?   Por que essa baguna aqui dentro? Ou ser que os soldados no so capazes?   Queriam matar os oficiais,  por  qu?   Onde arranjaram cachaa,  com que licena? Vocs so revolucionrios ou so integralistas?
     Estavam sem jeito.   Juvncio sorriu:
       Muita coisa eu compreendo.  O entusiasmo, a liberdade, mas tudo tem seu basta, companheiros.  E agora eu digo: chegou.  Isso vai entrar em ordem...   Estamos de acordo?
     Houve um sussurrar entre eles, logo o negro disse:
       De acordo...
     E os outros comearam a repetir, e um gritou:
       Viva o cabo Juvncio!
     Quando  as  aclamaes  iam  morrendo,   Conceio exaltou-se:
       Vocs esto bancando os trouxas...          
      Juvncio chamou:
       Ricardo!   Damio!  e vieram o negro e um mulato baixo.
       Prendam o cabo Conceio. le  inimigo da revoluo. Queria arrast-los  cachaa e  desordem para melhor vender ns todos ao inimigo.   Vai ser julgado e fuzilado...
     Conceio puxou o revlver. Mas o brao de Macedo se abateu no seu ombro:
      Solta essa arma, seu filho da puta...
     Juvncio tomava do brao de Quirino, saa com le. No corredor desmaiou. Os soldados ainda viram quando le caiu, correram de ambos os lados, viram o sangue sobre as gazes do brao, manchando tambm a cala na altura da coxa. E aqueles que promoviam a desordem foram os primeiros a obedecer s ordens que Quirino repartia.
     
12
     
     O mdico deu-lhe uma injeo para que le dormisse:
      Assim voc se mata...  era um simpatizante e sabia da importncia de Juvncio no movimento.
     Lurdes viera, aflita mas sem lgrimas, ajeitando os travesseiros da sala improvisada em enfermaria. Juvncio pediu que ela se retirasse:
       Isso aqui estava cheio de mulheres que at parecia cabar em dia de sbado...   Botei tudo pra fora...   Se tu ficar, eu no tenho mais moral para dar ordens...   No se preocupe, amanh j estou de p de novo...
     Ela compreendeu e partiu. Soldados se ofereceram para acompanh-la at em casa,  agora,  a ordem imperava no regimento.
     Juvncio  adormecera  preocupado  com  a  formao  das  colunas para o interior.   Durante o resto da tarde no tivera tempo de pensar naquilo, as horas tinham sido pequenas para arrumar as coisas dentro do prprio quartel, discutir com Quirino, formar um comando, distribuir postos pelos homens de confiana. Pensava em tratar  noite, com Quirino e algum da direo, Lus ou outro, daquele assunto. Era urgente que as colunas partissem. J tinham perdido quase vinte e quatro horas e no chegavam boas notcias do Sul...   Mas, como desmaiasse novamente, foram em busca do doutor que, ao v-lo em atividade (havia-o deixado aps o desmaio da tarde com ordens expressas para deitar-se e repousar), alarmou-se.   Obrigou-o a ir para a cama que improvisaram numa sala ao lado do comando, e, sem dizer de que se tratava, deu-lhe aquela injeo que o fizera dormir.
     Despertou com Lus e outro companheiro da direo ao lado de sua cama. Olhavam-no como se estivessem com medo que le acordasse.  Viu a claridade do sol alto:
       Que horas so?
      Nove e vinte...
       Como  que dormi tanto?  a cabea pesava, o estmago doa mas no tinha febre. Quirino explicava:
      Foi a injeo que o doutor lhe deu...
       E as colunas?   J partiram?
        tarde...  disse o sapateiro.
       Tarde?  Por qu?
       A coisa em Recife est preta...   No marcha bem...   E no houve mais nada no resto do pas...
      No  motivo para a gente ficar parado  levantava-se, andava para a pia, comeara a lavar o rosto.
        que o 22 da Paraba parece que est marchando para aqui...   O importante  defender a cidade...   Garantir Natal at que a coisa estoure pelo Sul...   Deve ser de um momento para outro...
     Juvncio voltava a sentar-se na cama.
       Tem caf?
     Quirino deu um grito, apareceu um soldado.
       Arranje caf pro camarada Juvncio...
       Bem quente...  pediu Juvncio.
       Como  mesmo com Pernambuco?   perguntava a Lus. 
      O pessoal parece que teve de abandonar a cidade...   J no usam o rdio...
       E aqui, como vai a coisa?
      Na cidade, bem.
       E no quartel?   Alguma novidade?
      No  disse Quirino.    S que de noite fugiram um cabo, o Bonifcio, e quatro soldados...   Andaram levando uma coisas...
        fuzilar o primeiro que fr pegado fugindo...   Na vista de todos...
     O soldado chegava com o caf. Mexeu o acar, tomou em pequenos sorvos. Refletia sobre a situao. Encontrava o sapateiro pessimista e o outro companheiro demasiado silencioso.  Riu:
       Vamos tocar para diante...
     Aquele dia transcorreu sem maiores novidades. Juvncio percorreu a cidade de automvel, examinando os melhores lugares para trincheiras, mandou soldados prepar-las. Quando voltou ao quartel, encontrou um ambiente de cochichos, as notcias ms se propalavam. Sabiam j que o movimento estava perdido em Pernambuco, contavam detalhes alarmantes. Do crcere onde estava, Conceio agia, conversando com os soldados que o guardavam, espalhando notcias tenebrosas. Juvncio reuniu os comandantes, estudou com eles a situao. Mais alguns homens haviam fugido. Um deles tinha sido preso.   Quirino perguntou:
       Vale a pena fuzilar?
       Vamos ver...
     Desceu para o ptio, o esforo da tarde fora demasiado, sentia-se tonto, a cabea pesada, os olhos turvos. Mandou buscar o soldado. Era Joo Incio, um campons de certa idade. Falou-lhe como se estivessem na roa:
       Seu Joo,  que foi que lhe deu que fugiu?   Vosmec teve medo?
       Homem, seu cabo, medo de morrer na hora da briga eu no tive. Mas o cabo Conceio me disse que nis tava perdido e ia ser tudo metido na cadeia e depois matavam a gente na borracha...   No sou homem pra apanhar, seu cabo...
       Joo, voc fz uma coisa feia e eu devia mandar-lhe fuzilar. Mas voc foi enganado por esse traidor.   Seu Joo, pode ser que ns morra tudo mas  de arma na mo se batendo pela revoluo. Voc t com medo?
      Assim no. Assim t direito. Agora, de borrachada... 
     Deixou o campons, falou para os soldados:
       Quem estiver com medo pode ir embora. No quero covardes aqui...   A luta vai ser dura, teremos que sustentar o quartel e a cidade at que a revoluo vena pelo Sul...   Quem estiver com medo, d logo o fora...   Vamos ver...
     Ningum se moveu.   Continuou a falar:
       Porque agora  no h desculpa para desertor...    No vai ningum embora?
     Esperou.   Os homens mantinham-se silenciosos.
       Muito bem.   Agora vamos tratar de Conceio.   Soldado Ricardinho, v buscar o preso...
     Fz o julgamento ali mesmo:
       Esse homem espalhou a desordem no regimento, aconselhou a que matassem os oficiais, est espalhando o pnico, inventando mentiras, fazendo os soldados trarem a revoluo, fugirem como desertores e covardes.   O que  que merece?
     Conceio tremia, os olhos esbugalhados, desmoralizado:
       Pelo amor de Deus, Nenn...   Pelo bem de sua mulher... 
     O  peloto formou junto ao muro.   Conceio foi arrastado. Juvncio se retirava quando os tiros soaram.
       Temos pouca munio...    Disse a Quirino mas estava pensando em Chico Conceio.   Da porta espiou, viu o cadver de bruos, o sangue em torno.
     
13
     
     Era inteiramente impossvel controlar os fugitivos. As esperadas notcias do Sul no chegavam, a descrena ia dominando a todos. Juvncio notava que mesmo os cabos que lhe obedeciam cegamente procuravam evit-lo, olhavam-no como se le os houvesse defraudado. Mas conseguira que a ordem se mantivesse, que os homens no bebessem, que no tentassem contra os oficiais presos, no desacatassem os companheiros que tinham sido nomeados para postos. Juvncio sentia que tudo aquilo podia estourar de um momento para outro. Na cidade tampouco as coisas marchavam bem. Agora os reacionrios j sabiam que o movimento de Recife tinha sido sufocado e que em nenhuma outra parte houvera levantes. Estavam a 25 de novembro e s dois dias depois o 3. R. I. e a Escola de Aviao se levantariam no Rio, quando j os soldados do 22 B. C. chegavam em Natal. A junta governamental encontrava dificuldades enormes. O primeiro entusiasmo dos simpatizantes e o oportunismo dos adesistas cediam e os revolucionrios, ainda no poder, comearam a ser hostilizados.
     Juvncio, na tarde daquele dia, concluiu que a defesa da cidade era inexeqvel com os soldados que restavam. O exemplo de Conceio fora esquecido no decorrer da noite e as fugas aumentavam. At mesmo oficiais tinham conseguido fugir, comprando a cumplicidade dos homens que os guardavam com dinheiro e promessas de perdo.
     A febre voltara e Juvncio temia no agentar at o fim. O corpo reclamava cama, as feridas continuavam abertas, a cabea doa-lhe constantemente. Ainda assim conferenciou com Quirino, depois foi a Palcio entender-se com o pessoal da Junta. Sua idia era organizar os homens mais leais e conscientes, aqueles que eram comunistas e aliancistas ou que, pelo menos, guardavam fidelidade  revoluo, em colunas de guerrilheiros que fossem pelo interior, se internassem pelo serto, na caatinga, e ali levantassem os camponeses,  espera do movimento no Sul que eles consideravam inevitvel. Voltariam depois sobre a capital. Os dirigentes concordaram e naquela mesma noite Juvncio fz partir colunas de guerrilheiros, dando-lhes o melhor da munio. Reservava-se para ir com a ltima, quando j no houvesse nada a fazer na cidade. No podia, no entanto, deixar que todos os homens partissem, porque ento os reacionrios tomariam conta de Natal.
     Viu Macedo pela madrugada seguir  frente de uma coluna. Aquele homem grande e conversador, de vozeiro escandaloso e vaidade fcil, era em verdade, um menino. Corajoso e leal, forte mo que no traa, corao apaixonado e punho rude. Abraou-o e recebeu comovido a recomendao do outro:
      Se cuide, Nenn...
     Valverde ficara a seu lado e Quirino crescia na sua admirao. Politicamente era fraco e fora responsvel por muita coisa acontecida. Mas mantinha-se ali, disposto a tudo, a morte no lhe importava. A madrugada do quarto dia raiava sobre Natal, os homens tomavam o caminho da caatinga onde dominavam Lucas Arvoredo e o beato Estvo. Iam como guerrilheiros, outros como fugitivos. Juvncio olhava-os at que se perdiam ao longe e, ao aspirar o ar da madrugada, recordava-se das manhs da fazenda quando partiam para lavrar a terra, aquela terra que era dos coronis e que le desejava que fosse dos camponeses. Por isso se levantara com seu regimento. Agora iam comear tempos duros, mas o serto continuava e algum dia os demais pensariam como o cabo Juvncio...
     
14
     
     O ltimo dia decorreu devagar, os homens saindo pela porta da frente do quartel, j no precisavam pular os muros para fugir. Juvncio via-os partir. No eram mais boatos, eram notcias verdadeiras. Os soldados do 22. B. C. da Paraba, aproximavam-se da cidade. Os fuzis revolucionrios haviam silenciado em Recife. Os soldados partiam, alguns vinham se despedir dele:
      At outra, cabo...   Conte comigo...
     No tinha febre, apenas cansao, um cansao terrvel, no havia parte de seu corpo que no doesse. A Junta governamental transferira-se para o Quartel. Os dirigentes mantiveram longa conferncia com Juvncio e Quirino e decidiram abandonar a cidade antes da chegada dos soldados.
     Valverde queria ficar com le, mas Juvncio obrigou-o a partir. Quirino tinha um ar de parente de defunto ao abra-lo.
     Tinham proposto lev-lo mas le recusara. No podia andar dois quilmetros, s iria servir de empecilho aos demais.  Mentira:
       Eu me arranjo...   Tenho onde me esconder... 
     No fim da tarde o preto Ricardo veio se despedir:
       Cabo, oc vai ficar? 
      Vou...
      Fico com oc...
      Praqu, Ricardo?   Eu vou ficar porque algum tem de ficar. Fico eu que tou baleado,  eles no vo fazer malvadez com um homem quase morto.   E sou responsvel, fui um dos chefes.   Se eles pegarem voc viram pelo avesso...   V embora enquanto  tempo...
     Ouviram o longnquo rudo da marcha dos soldados do 22. no rumo da cidade.   Ricardo ainda teimou:
        bom eu ficar com oc...
       Tu  soldado, eu sou cabo...   Alm disso ainda sou o sub-comandante.   E dou uma ordem: v embora.
     O soldado Ricardo, negro alto e feio, deu um passo para a frente, perfilou-se, fz a continncia. Saiu marchando como se fosse para um combate. Juvncio acompanhou-o com os olhos, viu-o desaparecer na esquina.
     Ficou sozinho no quartel. Na cidade padres e polticos se movimentavam para receber o 22. B. C. com festas e flores. Os passos estavam mais prximos, agora soavam sobre os paraleleppedos da rua. Restava-lhe ainda alguma coisa que fazer. Desceu a bandeira vermelha do mastro onde ela tremulara quatro dias sobre a cidade de Natal. Meteu-a sob o dlm, saiu do quartel. Juvncio ia num passo vagaroso, as feridas impediam-lhe de andar mais depressa, a cabea doendo, um cansao em cada msculo e em cada nervo, um cansao que no lhe permitia pensar. Para onde podia ir? No tinha uma casa que lhe servisse de esconderijo. Para o mato, s se quisesse morrer mais depressa. Tinha dinheiro no bolso, muito dinheiro, nunca vira tanto. No lhe servia de nada naquele momento. Fz um esforo para recordar um lugar onde guard-lo.   "Servir ao Partido algum dia".                   
     Andou para casa. Desde a vspera pela manh no via Lurdes. A tarde caa sobre os subrbios silenciosos. Os passos dos soldados estavam prximos, no tardariam a penetrar no quartel deserto. No encontrariam a bandeira para arrancar do mastro.   Sorriu.
     Entrou em casa, havia um sof na sala, umas cadeiras pequenas e incmodas. Lurdes estava sentada no sof, a barriga subia-lhe pelo peito... Quis se levantar, le fz um sinal para que ela ficasse ali mesmo. Arrancou as botinas, no teve foras para tirar as meias. Estendeu os ps sobre o brao do sof, colocou a cabea no colo da mulher.   Vinha dela um calor, uma paz, um descanso, e no seu ventre uma criana se preparava para nascer. Juvncio fechou os olhos. Agora no pensava em nada, sentia apenas aquele calor vindo da esposa, e parecia que tudo havia terminado, que aquela paz e aquele sossego eram para todo o sempre. Lurdes passou as mos no cabelo chamuscado, le sorriu levemente. As sombras do crepsculo desceram sobre a sala.                        
     

Eplogo

**

 A Colheita

Tonho

1
      Varda!   Que bl toso  Tnho...  disse a italianinha no seu dialeto dos camponeses de Veneza.
     E a velha vizinha concordou:
       Bl giovanoto, si...
     Tonho passava pela estrada, em caminho da cidade, e talvez houvesse exagero nas palavras elogiosas da moa italo-paulista que j acostumara os olhos na viso dos mulatos e caboclos nordestinos. O frio crestara os cabelos rebeldes do menino sertanejo e lhes dera um tom aloirado. O organismo que resistira  viagem atravs da caatinga,  fome e  sede,  disenteria no S. Francisco, que se formara em meio a todas as enfermidades dos imigrantes em Pirapora, imunizando-se ao contacto com elas, crescera forte, assentado nessas razes de uma primeira infncia de tanto sofrimento. Como uma planta ressecada pelo sol que floresce e se alteia com as chuvas do inverno, assim le cresceu no campo paulista. Sua infncia terminara com a viagem de trem, naquele vago de imigrantes vindo de Pirapora. Na estao, sua tia Marta ficara dando adeus e nunca mais voltaram a saber dela. Tonho pensava nela de quando em vez, ao olhar as moas mais bonitas da regio, as caboclas nascidas dos sertanejos, as italianas de face rosada. A recordao que lhe ficara da tia era a de uma beleza surpreendente e se bem jamais pronunciassem em casa seu nome amaldioado, Tonho a tivera na memria durante muitos anos. E essa lembrana renovou-se, floriu em recordaes que j iam se apagando, quando, trs anos aps a chegada na grande fazenda de caf, onde eram trabalhadores assalariados, seu av Jernimo morreu botando sangue pela boca.
     Jernimo, nos anos de So Paulo, era uma sombra do sertanejo que partira certa madrugada de suas terras tomadas pelo novo fazendeiro. A tsica ia-lhe comendo as foras e as carnes. No ltimo ano quase no podia mais trabalhar na colheita do caf e foi uma sorte que Agostinho chegasse naquele inverno em companhia de Gertrudes e de dois filhos, tocados pela fome que grassava no serto. Joo Pedro envelhecera tambm. Na noite da chegada de Agostinho ficaram em torno ao fogo, encolhidos de frio, aquele frio que tanto os fazia sofrer. O que chegara desfilava notcias, foi ento que souberam da priso de Nenn e da morte de Jo. Jernimo ouvia deitado, a tosse persistente interrompendo, a cada instante, as palavras do filho.  S teve um comentrio para aquilo tudo:
       Quem me dera poder voltar...
     Morreu poucos dias depois e, mais que a chegada de Agostinho, foi a agonia do velho  prolongou-se por toda uma terrvel noite de frio, quando a geada caa sobre as plantaes  que trouxe a lembrana da tia para junto de Tonho, pois Jernimo, cuja boca jamais se abrira para dizer o nome da filha, agora, na hora extrema da morte, parecia no conhecer outra palavra e chamava por ela, baixinho:
      Marta...   Marta...
     Jucundina, sentada ao lado do catre, chorava, e Tonho percebia que ela misturava na sua dor as duas saudades: do marido que se finava e da filha que estava em terras distantes nas ruas de mulheres perdidas. Relembrou ento, naquela noite de agonia, o rosto belo e terno de Marta, sua silenciosa bondade, seu devotamento  famlia. Via-a nos braos do mdico, comprando com seu corpo o atestado de sade para o pai tuberculoso. Era como um drama a que le assistira no teatro da cidade uma vez que fora com Joo Pedro. S que no teatro era de mentira e ainda assim as mulheres choravam. Com eles havia sido de verdade e nenhuma notcia Agostinho trouxera de Marta. Jucundina arrastara o filho para um canto, na noite da chegada, quando Jernimo adormecera e perguntara:
      Tu soube de Marta?                                                      
       Num sube nada...   Num t por Pirapora...   Dizque viajou faz tempo...
     E acrescentou:
       Vosmec sabe que mui dama num tem pouso certo...    que nem urubu voando pra onde tem carnia...
     Naquela outra noite, quando se reuniram no quarto onde estava o velho doente para v-lo partir, Tonho recolhia as palavras que o av murmurava no estertor da morte:
       Deus te abenoe,  minha filha...
     Deitava a bno em Marta, talvez le a estivesse vendo e ela naquele momento, quem sabe?, pensaria nele e lhe pediria a bno antes de deitar-se, o corpo cansado do seu comrcio, o corao cansado tambm.
     Botou uma golfada de sangue que misturou-se ao nome de Marta pronunciado com uma voz rouca por todos ouvida. O enterro foi concorrido, vieram os trabalhadores da fazenda, colonos vizinhos, italianos em sua maioria. Os caboclos falavam do serto, recordavam cenas da viagem que cada um fizera para So Paulo. Tonho pensava em Marta, sua tia.
     Era a lembrana mais profunda da sua infncia que terminara com a viagem de trem. Ali, em So Paulo, ia para o trabalho com o av e Joo Pedro. Freqentou uns meses a escola, o suficiente para aprender a ler e a escrever. Mas, depois j rapaz, voltou a queimar as pestanas sobre a cartilha, tinha desejos de saber mais.
     Poucos fatos importantes lhe haviam sucedido, alm da chegada da Agostinho e da morte de Jernimo, no decorrer daqueles anos. O mais significativo de todos foi a viagem que fz ao Rio de Janeiro, em companhia de Jucundina, pra visitar seu tio Nenn, preso na Ilha Grande. Juvncio viera, com outros condenados polticos, de Fernando de Noronha. Na Ilha Grande estudava. Para le a priso foi a universidade. Os nove anos que levou de cadeia em cadeia, em Natal, no Recife, na Correo e na Deteno no Rio de Janeiro, em Fernando de Noronha e, por fim, na Ilha Grande, foram de aprendizado. Os companheiros mais esclarecidos ajudavam-no. Leu, finalmente, aqueles livros que cobiava nos dias anteriores  revoluo de 35. Em Engels aprendeu que a "liberdade  o conhecimento da necessidade" e pensou que o serto estava aprendendo, com sangue e dor. Tanto falava no serto, nos camponeses explorados, que at faziam pilhrias com le. Mas, tanto eles como os de fora, os que lutavam na ilegalidade, sabiam que deviam cultivar no moo sertanejo o interesse pelo problema do campo. E lhe enviavam todos os materiais, livros e folhetos que tratavam da questo camponesa. le os devorava nos dias longos da priso.
     Jucundina, ao saber que o filho mais querido estava relativamente perto e que as visitas eram permitidas, no descansou enquanto no pde v-lo. Juntou dinheiro, moeda por moeda, para as passagens. Informou-se sobre o Rio, a polcia, como ir  Ilha Grande. E um dia embarcou, levando Tonho que j estava um rapazola.
     Quase no viram a cidade do Rio. Jucundina meteu-se num hotel barato nas proximidades da estao e passou o dia seguinte na polcia, enviada de um canto para outro pelos investigadores que se divertiam com ela. S no fim da tarde, quando se cansaram de engan-la, fazer-lhe perguntas tolas e rir dela, deram-lhe a ordem para visitar o filho. No hotel lhe ensinaram que trem devia tomar, o preo da passagem do naviozinho. Tinham que esperar dois dias mas quase no saram, o movimento da cidade amedrontava Jucundina e Tonho espiava da janela do quarto os automveis e os bondes, o carro da Assistncia com sua ruidosa campainha.
     O trem ia cheio de famlias de presos, Jucundina foi pedir uma informao, logo lhe perguntaram quem era e o que ia fazer na Ilha Grande.
       Vou visitar meu filho que t preso l...
     Como nunca a tinham visto naqueles dez meses em que faziam semanalmente a viagem, imaginaram que fosse a me de algum preso comum.   Perguntaram-lhe:
       le est preso por qu?
      Era cabo em Natal, brigou numa revoluo...   Condenaro le, dizque foi um crime muito feio...   Mas eu cunheo meu filho, num sei dele se meter em coisa ruim...   Num credito...
     Aquelas mesmas coisas dissera na vspera na polcia e tinham rido dela, tinham-lhe dito que Nenn jamais seria solto. "le  comunista, pior que assassino e ladro."   Mas ela no acreditava e agora aquela boa gente que ia no trem dizia-lhe que ela tinha razo, le nada fizera de mau.
      Como  o nome dele?
       Juvncio...   A gente chama le de Nenn... 
      Juvncio?
     E ento foi um entusiasmo. Havia pessoas que at o nome dela conheciam sem que ela o houvesse dito. Eram todos amigos de seu filho, o corao da velha encheu-se de orgulho. Tonho, com suas calas no meio das canelas, e espantoso chapu vermelho, espiava sorridente e tambm le, foi alvo de palavras amigas e de apertos de mo quando souberam que era sobrinho de Juvncio.
     O resto da viagem a velha passou narrando as peripcias da travessia pelo serto, quando lhes tomaram as terras que trabalhavam. Em redor ouviam espantados e at um gacho, guarda do Presdio, na Ilha, sentiu-se comover com aquela narrao sem adjetivos e sem lgrimas.
     
2
     
     A imagem do tio Nenn juntara-se  de Marta na sua memria. Via-o na ilha, um livro sob o brao, andando com Jucundina pela praia. Ficava com ela todo o dia, ouvindo as histrias que a velha contava, enxugando as lgrimas que ela deixava rolar, lgrimas de alegria de rever o filho e lgrimas de saudade dos que haviam morrido ou sumido, como Marta.
     Juvncio estava diferente e no a esperava. Tambm Jucundina parecia outra, o cabelo totalmente branco, os olhos baos, o rosto cheio de rugas. Maria Barata, quando a camioneta chegou, dissera  velha:
      Espere aqui que eu quero dar a notcia... 
     E explicara a Agildo:
        a me de Juvncio...
     O capito condenado ficara conversando com ela enquanto Maria ia em busca do cabo.   Encontrou-o lendo:
       Tenho um presente pra voc...
       Cigarro ou doce?
       Venha comigo...
     Ficou emocionada com o encontro. Via a velha apalpando os braos e as pernas do filho, o seu grito de alegria ao constatar que le no estava aleijado como lhe haviam dito. E o prprio capito que tinha fama de nunca ter sentido medo, de ser bravo at o exagero, afastou-se porque seus olhos ardiam e no gostava de chorar...
     Passaram quatro dias na ilha, quatro dias durante os quais Jucundina s deixava Juvncio quando chegava a hora dele transpor as grades do edifcio e recolher-se ao cubculo. Tonho conversava com um e com outro, falavam-lhe coisas estranhas e sedutoras. Foram dias cheios, para Tonho era a revelao de um mundo. Aqueles prisioneiros em nada se pareciam com os que cumpriam pena na cadeia da cidade paulista, prxima  fazenda onde eles trabalhavam. Eram homens alegres e confiantes, tinham a face voltada para o futuro. Tonho gostaria de ficar ali, entre eles, e aprender com o tio e com os demais aquelas coisas que eles sabiam. Uma, principalmente, gravava-se em sua cabea: "a terra pertence queles que a trabalham". Porque o diziam, eles estavam presos. Mas valia a pena. Tonho tambm no se importaria se fosse preso por aquele crime.
     Quando regressou, Jucundina desfeita em lgrimas, s falava no tio e nos seus amigos, companheiros de priso. No haviam deixado que a velha e le voltassem para o hotel,  espera do trem para So Paulo. Parentes de um dos presos os levaram consigo, para sua casa, no permitiram que embarcassem na manh seguinte, passearam com eles pelo Rio de Janeiro. E foram coloc-los de automvel, na estao, no trem noturno. A moa, ao apertar a mo de Tonho, disse-lhe:
       At outra vez comunista... 
     le riu:
       Um dia vou ser...
     Jucundina mandava abraos para o filho:
       D um abrao nele, bem apertado...
     Os amigos prometiam, ela chorava ante tanta bondade. E no sentia mais aquela pena do filho condenado, tirando sentena. Agora o seu sentimento era de orgulho. Seu filho no era um criminoso, seus amigos uma gente direita. Enquanto o trem corria, eles recordavam os dias na ilha.  Quando Tonho chegou na fazenda, de volta, tinha muito o que contar. E pelas noites, quando o frio descia, e le se deitava, ficava vendo, de olhos fechados ora a tia Marta acenando a estao, ora o tio Nenn falando na Ilha Grande aquelas coisas que le repetia para no esquecer jamais.
     
3
     
     Um dia, sob a presso dos acontecimentos nacionais e internacionais, veio a anistia. O Partido, numa semi-ilegalidade, realizou um Pleno Ampliado ao qual o ex-cabo Juvncio esteve presente. Depois foi visitar os parentes em So Paulo. O Partido alcanava a legalidade, os primeiros Comits Municipais iam sendo fundados.
     Ao voltar da fazenda onde estivera uma semana com os seus, Juvncio encontrou, na cidade prxima, um velho amigo. Tonho o acompanhara, e iam os dois pelas ruas quando o cabo gritou:
       Z Tavares!
     O cabelo do sertanejo comeava a pratear mas era o mesmo rosto enxuto e sorridente. Sentaram-se num caf a conversa se prolongou por toda a tarde. Z Tavares, andara fugido pelo interior de So Paulo, desde que fora solto a ltima vez. Agora estava ali levantando o Comit Municipal. Vivera pelo interior e seu desejo era trabalhar com os camponeses. Repetia as palavras de Prestes sobre a questo camponesa no primeiro grande comcio:
       Ns que somos do serto  que sentimos isso de verdade... 
     Juvncio disse a Tonho:
      Foi esse mulato quem me botou no Partido... 
     E para Z Tavares:
       Agora tome conta do sobrinho...   Esses  batia no ombro de Tonho   que vo levantar o campo.
     Pensavam ambos no serto distante.   Z Tavares falou:
       Agora vai se acabar os cangaceiros e os beatos...   Vai ser a nossa vez...
     Levantaram-se, Juvncio deixou umas moedas na mesa. O sol era leve, quase caricioso, diferente daquele sol de fogo do Nordeste. Z Tavares ia contando um caso para mostrar como os camponeses comeavam  a  compreender e  Juvncio  repetia  mentalmente  as palavras lidas em Engels.  A voz de Z Tavares ainda conservava aquela moleza cantante da caatinga:
      O campons era meu amigo, me conhecia de muito tempo. Quando soube que eu tava em Rio Preto, fundando a sede legal do Partido, veio me ver. "Seu Tavares, me diga vosmec que sabe, o que  esse tal de comunismo..." Expliquei, falei no problema do campo, da terra para os trabalhadores, expliquei, troquei em mido. le escutando. Quando acabei le disse: "Seu Tavares, esse tal de comunismo me arrecorda assombrao." Quis saber por qu. "Num v o senhor que aparece uma luz na estrada e vo dizer pra gente que no chegue perto, que aquilo  assombrao que mata a gente s de espiar. Mas tanto falam que a gente fica se roendo de vontade de ir espiar. Um dia no arrisiste, vai, chega l e v que  o pai da gente..."
     Juvncio riu, entraram na pequena sala.  Na rua uma tabuleta recm-pintada anunciava aos olhos curiosos dos passantes:

PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL
Comit Municipal
     
     Operrios e homens do povo trabalhavam e conversavam na sede. Tonho reencontrou aquele mesmo ambiente e aquelas mesmas conversas da Ilha Grande. Sorria o mais amplo sorriso dos seus dezenove anos.   Z Tavares aproximava-se com um ficha:
       Sabe ler e escrever?
       Sei...
       Ento encha sua ficha de inscrio...   E vamos depois conversar sobre como trabalhar em sua fazenda...   Sabe o que  uma clula?
       No, senhor...
     Saram para levar Juvncio  estao:
       Creio que o pessoal vai me mandar para o serto, Z.
       Tinha vontade de ir tambm.
       Voc j est ambientado aqui...   Mas eu, apesar de tudo,  como se no tivesse sado de l...   Vou ficar contente se me mandarem...
     Abraavam-se, o apito do trem cobria as vozes:
       O menino fica com voc...   Est em boas mos...
       Deixe le comigo... 
     Apertou Tonho contra o peito:
      At outra vez, companheiro...   Seja um bom comunista...
     Vontade de poder escrever uma carta contando  tia Marta tudo aquilo, toda aquela alegria em torno.   Mas onde estaria ela, em que lugar do mundo, chorando que lgrimas?   Tonho sai da estao, vai respondendo as perguntas de Z Tavares.
       Quanto ganha um trabalhador por dia na fazenda?
     O apito do trem na estao, onde andar Marta nesse mundo to grande? Quem dera que o tio Juvncio a encontrasse e lhe dissesse que Jernimo a perdoara na hora da morte e que ela podia vir, Jucundina e Joo Pedro estavam de boa sade, Agostinho e Gertrudes j tinham dois filhos, e le, Tonho, ingressara no Partido Comunista para lutar contra o sofrimento e a fome.
     
4
     
     Alguns meses depois, o camarada Vtor, secretrio nacional de organizao mandou chamar Juvncio. O ex-cabo ficara mesmo no Rio, trabalhando para o Partido. Vtor acabara de chegar de So Paulo, andara pelo interior. Vinha entusiasmado com um ativo de camponeses:
      Cada campons que faz gosto. Vieram de oitenta municpios ... Conscientes e capazes... Te digo que uns dez a quinze dirigentes sairo dos cem homens que reunimos no ativo...
     Bateu no ombro de Juvncio:
       E um deles  teu sobrinho...   O menino vai longe...   Tome cuidado, se no le lhe passa a perna...
     Depois entrou no assunto. Juvncio esperava com ansiedade aquela resoluo.
       O trabalho  difcil mas voc conhece bem o serto.   Tem o exemplo do que estamos fazendo em So Paulo.   Ligas camponesas,  clulas de fazendas, levantar as reivindicaes...
     Juvncio contou-lhe o caso acontecido com Z Tavares e os camponeses.   Vtor deixou de sorrir para dizer:
       le tem razo.  Os beatos e os cangaceiros acabaro no dia em que os sertanejos tiverem conscincia poltica.  trabalho teu...
     Voltou a ser o camarada brincalho:
       Toma vergonha se no seu sobrinho te passa, boa vida...
     
5
     
     Certa noite escura, Milito andava pelo caminho da fazenda, vinha do arraial. Pareceu-lhe ouvir passos na estrada e ps-se de sobreaviso. O homem andava apressado e passou a seu lado. Onde j havia visto aquela cara? O caminhante voltou-se, tambm le reconhecera Milito. Olharam-se por um segundo,  luz do fif que o trabalhador levava:
       Nenn!
       Milito...
     Milito estava casado e quatro filhos enchiam a pequena casa de barro batido. Juvncio aspirava o ar da noite sertaneja, profunda e densa. Filhinha no o reconheceu. Era menina quando o cabo partira em busca do bando de Lucas Arvoredo. Quiseram saber notcias de todos, mais uma vez lhe narraram aqueles acontecimentos de anos atrs quando o doutor Aureliano vendera a fazenda e o novo proprietrio exigira a entrega das terras dos colonos e meeiros. Ser que Juvncio sabia alguma coisa de Bastio,  o tocador de harmnica?
     Filhinha comentou:
       Deve ter morrido, j era bem velho... 
     A frase de Milito era um lamento:
       Tocador to bom nunca mais apareceu...
     E de Gregrio, tinha alguma notcia? Mas Juvncio queria saber era de Milito e dos demais que permaneciam na fazenda. Quanto ganhavam por dia, atualmente? Havia colonos? Meeiros? Continuavam obrigados a comprar no armazm?
     Depois pediu que le reunisse, naquela mesma noite, todos os trabalhadores que pudesse. Ali em sua casa, sem que o capataz soubesse. Partiria manhzinha e antes queria conversar com os homens. Tinha muito que lhes dizer, ia ensinar-lhes como mudar aquela vida que levavam, to desgraada.  Milito fitava-o, se no fossem aqueles olhos de criana travessa le no reconheceria no homem que falava explicado, sabendo tanta coisa, o moo que um dia fugira de casa e do qual apenas vagas notcias haviam chegado  fazenda. Milito perguntou, com respeito, antes de sair para chamar os outros:
       Tu aprendeu isso tudo na capital?   Tu no perdeu tempo e o que tu diz  cuma luz que alumia, abre um claro nos olhos da gente que tava no escuro...
     Os homens vieram, reuniram-se na sala, Juvncio falou. Eles ouviam num silncio apenas interrompido por. uma ou outra exclamao:
       isso mesmo...
      T dizendo a pura verdade...
     E pela madrugada, quando as sombras ainda envolviam os campos midos de orvalho, e no ar se elevava aquele cheiro poderoso de terra, Nenn partiu para a caatinga pelo mesmo caminho seguido um dia por Jernimo e sua famlia. Os brotos de dor e de revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita.
     
     
                                             Pegi de Oxssi (Estado do Rio), junho de 1946.

